Mais de 70% das empresas familiares desprezam o planejamento estratégico

Gestão > Grande parte das organizações que passam de geração em geração não faz planejamento

Jornal do comércio

18/07/2016

Telmo Schoeler


O fracasso das empresas familiares está relacionado à falta de definição do objetivo de longo prazo, planejamento estratégico, gestão profissionalizada e regulamentação no processo sucessório. Segundo pesquisa realizada pela Strategos Consultoria, em média, mais de 70% das empresas familiares desprezam estes fatores.

Pesam ainda a não separação entre os interesses da família e da empresa, 65% da amostra e a falta de apetite para mudanças (81%). “Estes são os fatores que justificam a taxa de mortalidade das empresas familiares, Cerca de 70% não sobrevivem à segunda geração. Apenas 10% passam para a terceira e 3% para a quarta”, afirma o sócio fundador da Strategos Consultoria, Telmo Schoeler. As piores avaliações vão para os quesitos de sucessão, abertura a mudanças e separação de foros.

O levantamento foi realizado com 90 empresas familiares, das mais de 200 em que a Strategos atuou. Os dados demonstram que 80% das organizações não estão preocupadas com o planejamento estratégico, 11% apresentam preocupação moderada e apenas 9% levam a sério. “A pouca atenção ao planejamento tem ligação íntima com a alta aversão a mudanças: planejar significa olhar para o futuro, coisa difícil nas empresas familiares que prezam muito mais o espelho retrovisor para referência do passado. Ao mesmo tempo, planejar é impossível se não há objetivos de longo prazo definidos, o que quase 60% não tem”, ressalta Schoeler.

A análise da categoria “não“ também mostra que 80% desprezam os aspectos da regulamentação da sucessão. “Esta é, por si só, a principal razão do desaparecimento precoce das empresas familiares, pois o problema a sucessão se manifesta pelo fato de que a maioria não suporta pensar na finitude da vida ou crê que tratar da sucessão chama a morte”, explica o consultor.

A análise realizada pela consultoria demonstra ainda que mais de 2/3 das empresas não possuem gestão baseada em critérios profissionais e misturam os foros de família, de propriedade e da empresa, trazendo assuntos técnicos de gestão para o almoço de domingo, ou interesses pessoais e particulares de herdeiros para a diretoria executiva.

Pela sobrevivência das corretoras de seguros

“Veja reportagem sobre sucessão empresarial, com entrevista do Dr Luciano Anghinoni, sócio e CEO de Vanzin & Penteado Advogados, escritório parceiro da Strategos – Consultoria Empresarial e HSD – Consultoria na operação da ALLIANCE – Governança e Família (www.alliancegf.com.br)”

Link: http://www.acervosincorsp.com.br/web/pub/jornaljcs/?true?&edicao=3328

Os motivos porque tantas empresas familiares fracassam

Luísa Melo, de EXAME.com

São Paulo - Sabemos que a taxa de mortalidade das empresas familiares é alta no mundo, com cerca de 70% não sobrevivendo a 2ª geração, apenas 10% a 3ª e 3% a 4ª. O caminho dos casos de sucesso é simples e óbvio: é aquele trilhado pelas empresas (famílias) que têm um objetivo de longo prazo claramente definido, incorporado dentro de um planejamento estratégico adequadamente elaborado, gerando ações táticas conduzidas por uma gestão com parâmetros profissionais, respaldada por cuidados com a sucessão dos gestores e do capital / patrimônio, inexorável pela finitude da vida, o que pressupõe uma separação – formalizada ou pelo menos praticada – dos foros e interesses do tripé “família x propriedade x empresa”.  Tudo isso requer a consciência e aceitação de que a vida e o mundo são dinâmicos e disruptivos, impondo abertura a mudanças nas dimensões de “capital” e “gestão” exigindo a preservação de princípios e valores. Isto não é teoria, retrata casos tão diversos quanto o da americana Cargil, do brasileiro Itaú, da alemã Wuppermann, da sueca Ikea, e por aí vai.

Para entender o cenário no Brasil, resolvemos fazer uma classificação do quadro encontrado nas organizações familiares que representam uma amostra de cerca de 90 empresas, ou seja, em torno de 50% das quase 200 organizações nas quais atuamos com nossa equipe nos 27 anos de operação. Catalogamos os fatores em três níveis: bom, médio e não existente / desprezível, o que nos levou ao seguinte retrato:

A primeira constatação é de total consistência, em todos os fatores e, portanto, na média entre sequência quantitativa de poucos “bons” até muitos “nãos”, os quais atingem o elevado percentual de médio de 73%! A análise da categoria “não“ nos mostra que 80% desprezam os aspectos da regulamentação da sucessão e o planejamento estratégico. O primeiro deles mostra, por sí só, a principal razão do desaparecimento precoce das empresas familiares, pois o vírus mortal da sucessão só não se manifesta caso seja mantido inerte através de objetivo, técnico e competente tratamento preventivo, sendo o percentual de alienação autoexplicativo. Parte da explicação reside no fato de que a maioria não suporta pensar na finitude da vida ou crê que tratar da sucessão chama a morte. Por outro lado, a pouca atenção ao planejamento tem ligação íntima com a alta aversão de 81% a mudanças: planejar significa olhar para o futuro, dinâmico, novo, disruptivo, coisa difícil nas empresas familiares que prezam muito mais o espelho retrovisor para referência do passado. Sem falar que, planejar é impossível se não tivermos objetivos de longo prazo definidos, o que quase 60% não tem.

Finalmente, se considerarmos que 2/3 não possuem gestão baseada em critérios profissionais e misturam os foros de família, de propriedade e da empresa, trazendo assuntos técnicos de gestão para o almoço de domingo, ou interesses pessoais e particulares de herdeiros para a diretoria executiva, temos o complemento que faltava para entender o desaparecimento das empresas familiares.  Interessante observar que, mesmo entre os “bons”, as piores avaliações vão para os quesitos de sucessão, abertura a mudanças e separação de foros.

O culpado não é o mundo, nem o capitalismo selvagem.

REFLEXÕES SOBRE SUCESSÃO (I)

Ao contrário de outros ativos, a empresa é um ser vivo, mas diferentemente do corpo humano que tem finitude, ela pode sobreviver indefinidamente, desde que submetida a permanente recriação e renascença. Por consequência, ela tem sucessão, um vírus mortal salvo se for tratado de forma adequada a mantê-lo inerte e inofensivo. Este tema, importante e presente em todas as empresas, mas vital nas familiares, é de tal profundidade extensão que merece várias reflexões, sendo esta a primeira que nos remete ao fato de que o “Sucesso antecede a sucessão”.

Vários são os motivos que levam à criação de uma empresa: do idealismo à necessidade, da conveniência à manifestação de talento, da demanda existente à carência latente. Salvo casos excepcionais de organizações criadas com propósito específico e por tempo determinado, sua existência traz embutida a presunção e desejo de perenidade, com decorrentes e automáticas dimensões de sucessão de capital e de gestão, que mudarão inexoravelmente de mãos já que nem os sócios nem os gestores são eternos.

Antes de cuidar disso que é complexo e será objeto de outra reflexão, é notório como poucos se dão conta de algo basilar, estratégico e factual: o sucesso antecede a sucessão! Se preferirem, é inócua e sem propósito a sucessão do insucesso! A perenidade é uma expectativa, um desejo generalizado, que entretanto não ocorre ao natural: requer e será fruto de estratégia correta, implementada de forma eficiente e eficaz, por pessoas adequadas, capacitadas e motivadas, capazes de disponibilizar produtos e serviços desejados por consumidores a preços que remunerem toda a cadeia envolvida, de matéria prima e insumos ao consumidor final.

De forma objetiva, esta é uma visão capitalista e privativista como a vida em realidade é. O demonstrativo de L&P ou DRE é um filme que mostra nossa atuação na guerra da competição mundial onde, ao longo do tempo, só resultados positivos nos salvam sendo estes, na essência, decorrentes da prática de receitas maiores do que os custos e despesas incorridas. A profundidade disso passa por tecnologia, estrutura de capital, localização, pesquisa, marketing, etc, e, “last but not least”, pessoas, sem as quais nada é possível. Se o filme for de final feliz, ótimo, estaremos em condições de deixar patrimônio e funções executivas para sucessores, não importa se de uma família, de uma fundação, de investidores ou até de uma doação à benemerência. Se não for, a perenidade terá sido um mero desejo e sonho que uma vez habitaram nossa alma.

Pior do que isto, serão irrelevantes as razões do insucesso, as quais servirão apenas para justificar o caso, lembrando, como diz o ditado, que “explicação só serve para porteiro de boate”. Perguntem a quem controlou e geriu a Varig, Mesbla, IRFMatarazzo, Gradiente, Sadia, Kodak, Enron e milhares de outras pelo mundo afora. Preparar a sucessão sem cuidar do sucesso (da gestão) é inócuo. Ao sucedido restará o fracasso e aos sucessores o passado e a história que, na vida real, só servem para rechear museu.

Telmo Schoeler

04/06/2013

SUCESSÃO E PROFISSIONALIZAÇÃO DE MÃOS DADAS

Quando se fala em sucessão no meio das empresas familiares é comum considerá-la de forma genérica e não como efetivamente composta de duas dimensões – a de capital e a de gestão. Ambas são inexoráveis, pois nestas empresas os detentores do capital majoritário são sempre, direta ou indiretamente, pessoas físicas que, num tempo finito, com certeza deixarão de estar atuantes e presentes. Portanto, é certo que o capital mudará de mãos e que a gestão passará a ser exercida por novos personagens. O problema é que, na maioria dos casos, os patriarcas imaginam que a sucessão do capital será tranquila e harmônica, na medida em que a lei a regulará entre herdeiros que na segunda geração são normalmente irmãos e na terceira primos, havendo o pressuposto que, pelos laços familiares, serão amigos, afinados e harmônicos. Esta relação de causa e efeito não é necessariamente verdadeira, como já o demonstrou Caim matando seu irmão Abel. E que a sucessão de gestão será feita para quem o “grande líder”, do alto do seu trono, imaginar ser mais conveniente ou automático, por sexo ou primogenia.

Ledos enganos. Ambos os processos de sucessão requerem um tratamento altamente técnico e qualificado. Isto porque a de capital envolve considerações de ordem legal, patrimonial, tributária, vontade do sucedido, regulação, regime de casamento, eventual testamento, acordos de sócios e herdeiros, preparação dos mesmos para a condição de sócios, construção de ambiente de harmonia societária, etc. Por outro lado, a de gestão envolve aspectos de vontade e qualificação dos sucessores, avaliação de perfil dos mesmos, preparação, desenvolvimento e amadurecimento profissional dos viáveis de serem aproveitados, orientação e desenvolvimento de projetos pessoais e de carreira externa para os demais, montagem e funcionamento de estruturas de governança e de convivência familiar, etc.

Na realidade, a perenidade das empresas familiares passa pelo equacionamento desses processos sucessórios, o que implica na profissionalização das três dimensões e núcleos de poder dessas organizações, ou seja, a família, a propriedade (sociedade) e a empresa (gestão). A profissionalização da empresa passa pela ocupação dos cargos executivos e gerenciais estritamente em função de critérios técnicos, de capacitação, qualificação e perfil, independente da condição societária ou familiar. A da sociedade envolve a implantação de todos os princípios e critérios de Governança Corporativa, com estabelecimento de objetivos e valores societários, planejamento, metas, registros e cobrança, praticados com transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa, dentro de padrões de ética e compliance, tudo suportado por um adequado acordo de acionistas e um código de conduta, instrumentos vitais para evitar dissabores e desentendimentos. Por outro lado, a profissionalização da família passa pela conscientização de seus membros de que sucessão sem sucesso do negócio será inócua, de que o mesmo depende dos corretos procedimentos societários e de gestão, de que cada membro é apenas uma parte menor de um todo, ou seja, de que ninguém mais é “dono”, mas sim “sócio”, de que cada membro herdeiro deve ser preparado para os direitos, obrigações e responsabilidades desta condição de sócio que um dia assumirá, de que as relações entre cada uma das três dimensões e núcleos devem ser formalizadas através dos forums específicos – o Conselho de Família, o Conselho de Sócios e o Conselho de Administração.

Em síntese, o processo de sucessão e profissionalização requer um conjunto afinado de avaliações, providências, orientações, regulagens e ações conduzidas por experientes e qualificados profissionais de direito, administração, governança, planejamento e pessoas. Só assim será possível harmonizar as relações de afeto e poder presentes na família, com as exigências de legalidade da propriedade e sociedade, com as imposições de racionalidade e viabilidade da empresa e sua gestão. Infelizmente, este não é o procedimento normalmente seguido nas empresas familiares em todo o mundo, sendo razão da estatística de que 70% delas morrem na segunda geração, outros 15% desaparecem nas terceira e apenas 4% ultrapassem a quarta. Cada um acha que “na sua família será diferente”. Não será.

Telmo Schoeler

20/03/2015

Ritmo lento derrubou Steve Ballmer

Um exemplo do exercício da responsabilidade do Conselho em escolher e nominar os executivos, inclusive o CEO, independente de sua condição de acionista.

Telmo Schoeler

 

Jornal Valor Econômico
18/11/2013
Por Monica Langley | The Wall Street Journal, Redmond, Washington

 

Numa manhã nublada de janeiro, Steve Ballmer andava de um lado para o outro em seu escritório ouvindo os membros do conselho de administração pelo viva-voz numa ligação que definiria o fim de seu reinado de 13 anos como diretor-presidente da Microsoft.

A Microsoft havia ficado para trás da Apple Inc. e do Google Inc. em mercados importantes, apesar de uma formidável receita em software. Ballmer tentou descrever seu plano para reerguer a Microsoft, mas um membro do conselho o interrompeu, dizendo que estava indo muito devagar.

“Ô, cara, vamos logo com isso”, John Thompson diz que falou na ocasião. Ballmer diz que respondeu que poderia ser mais rápido.

Mas a tensa ligação o colocou numa difícil jornada até sua decisão de se aposentar em agosto, criando mais tumulto na Microsoft, que precisa agora encontrar um sucessor para um homem que foi o ponto central da empresa por 33 anos.

“Talvez eu seja o símbolo de uma era antiga e tenha que seguir em frente”, diz Ballmer, de 57 anos, fazendo uma pausa com os olhos lacrimejados. “Apesar de amar o que faço, a melhor maneira de a Microsoft entrar numa nova era é ter um novo líder que acelere as mudanças.”

Em uma série de entrevistas exclusivas ao The Wall Street Journal, Ballmer conta como chegou à conclusão de que a Microsoft não poderia mais ser liderada por ele, por causa da cultura corporativa que ele próprio ajudou a criar.

Ballmer e seu conselho estavam de acordo: a Microsoft, apesar de se manter forte em software, precisa mudar sua estrutura de gestão e focar em dispositivos móveis e serviços on-line se quiser encontrar maneiras de aumentar seu lucro no futuro e reduzir sua dependência no decadente mercado de PCs.

A questão que preocupava o conselho era velocidade. Seus membros “não pediram para o Steve se aposentar”, diz Thompson, um executivo de tecnologia de longa data que lidera o comitê de busca por um novo diretor-presidente, “mas estávamos colocando muita pressão para ele andar mais rápido”.

A lista do conselho de possíveis sucessores para a Microsoft inclui, entre outros, o ex-diretor-presidente da Nokia Corp., Stephen Elop, o chefe de software para empresas da Microsoft, Satya Nadella, e o diretor-presidente da Ford Motor Co., Alan Mulally, dizem pessoas a par da busca. Na assembleia anual de acionistas da Microsoft, que ocorre amanhã, o conselho deve se reunir para discutir a sucessão, diz uma pessoa a par da programação.

Representantes de Elop e Nadella não quiseram comentar. Um porta-voz da Ford disse que “nada mudou” desde novembro de 2012, quando a Ford anunciou que Mulally permaneceria no cargo de diretor-presidente até pelo menos 2014.

O próximo líder da Microsoft será apenas o terceiro de sua história. Ballmer entrou na empresa em 1980, por sugestão de seu colega de faculdade em Harvard, Bill Gates, o outro fundador. Ele acabou se tornando o segundo maior acionista individual da empresa e um bilionário.

Filho de um gerente da Ford, Ballmer morou no mesmo dormitório de Gates em Harvard. Ele abandonou um curso de MBA para se tornar o primeiro gerente de negócios da Microsoft. Ele se tornou o braço direito de Gates, ajudando a transformar a Microsoft numa força que redefiniu a forma como o mundo usa computadores. Ele tomou as rédeas em 2000, consolidando ainda mais a posição da Microsoft no mercado de software e mantendo os motores do lucro funcionando. A receita triplicou durante seu mandato, para quase US$ 78 bilhões no ano fiscal terminado em junho, e o lucro cresceu 132%, para cerca de US$ 22 bilhões.

Mas, ao mesmo tempo em que o lucro crescia nos mercados tradicionais da Microsoft, a empresa perdeu mudanças épicas, incluindo o advento da publicidade em buscas on-line e a transição dos consumidores para dispositivos móveis e redes sociais.

No ano passado, Ballmer decidiu fazer uma reforma. Em outubro, numa carta a acionistas, ele anunciou que a Microsoft ia se tornar um provedor de “dispositivos e serviços” para as empresas e indivíduos. Ele disse ao conselho que gostaria de liderar o projeto e permanecer na empresa por mais quatro anos. Ele deu início a seu próprio planejamento de sucessão, fazendo reuniões secretas com potenciais candidatos.

Ballmer recorda ter dito a si mesmo: “Vou refazer toda a minha cartilha. Redesenhar toda a minha marca.”

O conselho gostou de seu novo projeto, que incluía uma mudança na cultura. Mas quando o executivo se preparava para implementá-lo, o conselho, na teleconferência de janeiro, exigiu que ele acelerasse o ritmo.

Mas Ballmer queria esperar até o lançamento do novo sistema operacional Windows, a galinha de ovos de ouro da Microsoft. Ele deu início a seus planos, organizando em março um retiro de executivos para debater a reorganização da empresa. Ele convidou Thompson e outro membro do conselho para ter a opinião deles sobre seus planos. Mas acabou ainda mais pressionado por eles. Além disso, os acionistas também começaram a pressionar a Microsoft para aumentar seu dividendo e se livrar de empresas não essenciais. Em setembro, a Microsoft aumentou os dividendos, mas não vendeu ativos propostos pelos acionistas, como o site de buscas Bing.

Ballmer diz que sua equipe sênior estava tendo dificuldade com o “novo Steve” e vinha resistindo a mudanças grandes – como a combinação de equipes de engenharia – e pequenas – como a redução do tamanho dos relatórios semanais.

Em maio, ele começou a se perguntar se seria capaz de alcançar o ritmo exigido pelo conselho e começou a questionar se a Microsoft não avançaria mais sem ele. “Afinal, é preciso quebrar um padrão. E convenhamos: eu sou o padrão”, diz ele.

Ballmer diz que secretamente começou a redigir cartas propondo sua aposentadoria.

No fim de maio, voltando da Europa, contou ao advogado da empresa Brad Smith que “talvez fosse a hora de sair”. No dia seguinte, Ballmer ligou para Thompson para dizer o mesmo.

Gates disse a Ballmer que entendia por experiência própria como era difícil sair da Microsoft porque a empresa era a sua “vida”, diz uma pessoa próxima ao fundador e presidente do conselho da empresa. Gates disse ao conselho que apoiava a saída de Ballmer e tinha certeza de que a Microsoft continuaria a “ser bem-sucedida”, diz a fonte.

Naquela noite, ele contou à esposa e seus três filhos. Todos choraram.

No dia 21 de agosto, numa teleconferência de uma hora, o conselho aceitou a proposta de aposentadoria de Ballmer.
Ele, porém, se manteve ativo, liderando a aquisição da divisão de dispositivos móveis da Nokia, por US$ 7,5 bilhões, e as estratégias de marketing para os tablets Surface e o novo console de videogame Xbox em preparação às vendas da temporada de fim de ano. Em outubro, a Microsoft divulgou um lucro trimestral melhor que o esperado.

Ballmer diz que não quer tomar nenhuma grande decisão em pelo menos seis meses. Ele diz que poderia permanecer no conselho da Microsoft.

Há pouco, ele participou de uma reunião executiva da Microsoft. O terceiro slide dizia “novo diretor-presidente”. “Não há uma alma aqui que não concorda que temos que passar por essa transição”, disse. Quando se levantou, disse, com a voz embargada: “por mais que gostaria de poder ficar no cargo de diretor-presidente, ainda tenho uma grande fatia da Microsoft e vou mantê-la.”

Ele caminhou em direção a sua cadeira, virou-se e, quase num sussurro, disse: “Por favor, cuidem bem da Microsoft.”

General Motors testa candidatos à liderança com duros desafios

Veja como a GM está enfrentando o (sempre complicado) processo de sucessão de executivos: competição e avaliação em aberto. Por que? Porque os desafios do mundo moderno são enormes, a mudança é uma constante e a fila anda.

Telmo Schoeler

 

Jornal Valor Econômico
03/10/2013
Por Jeff Bennett | The Wall street Journal

 

O diretor-presidente da General Motors, Dan Akerson, não disse exatamente quando deixará a empresa, mas já orquestrou uma competição entre quatro principais candidatos internos para sua cadeira.

A arena de disputa para comandar a maior fabricante de automóveis do mundo conta com dois executivos de longa data da GM e dois recém-chegados. O vice-presidente do conselho, Stephen Girsky, e o diretor financeiro, Daniel Ammann, são veteranos de Wall Street, mas têm relativamente poucos anos na empresa. O diretor de operações da América do Norte, Mark Reuss, e a diretora global de desenvolvimento de produtos, Mary Barra, abriram caminho por entre a burocracia da GM e sobreviveram à concordata da empresa em 2009.

Todos estão abaixo dos 55 anos e, portanto, poderiam potencialmente liderar a montadora por uma década ou mais se, como esperam muitos dentro da GM, Akerson saia no início de 2015. Isso marcaria o retorno a um tipo de estabilidade que a direção da GM não vê desde a crise financeira de 2008, que a levou para a concordata. Akerson é o quarto diretor-presidente da empresa desde a quebra do Lehman Bros.

A GM é uma das várias montadoras globais que se preparam para uma mudança de direção nos próximo dois a quatro anos. Tensões na sucessão da montadora francesa Renault AS levaram à saída abrupta em setembro do herdeiro aparente do diretor-presidente Carlos Ghosn, Carlos Tavares. Na Ford Motor Co., o diretor de operações Mark Fields parece estar alinhado para uma sucessão suave do diretor-presidente Alan Mulally.

Há muito em jogo na GM e não está claro qual dos quatro candidatos internos está à frente na disputa. Embora a montadora tenha recuperado lucratividade, suas margens ainda estão aquém das da Ford, que não foi resgatada pelo governo americano. Akerson deixou claro em público e privadamente que não estava satisfeito com o ritmo das iniciativas para simplificar a burocracia da GM. O destino da montadora ainda depende largamente das vendas de caminhonetes nos Estados Unidos e de suas rentáveis operações chinesas, onde vende mais veículos que nos EUA.

O conselho de administração da GM terá a palavra final e poderá procurar fora da companhia, especialmente se os acionistas pressionarem por uma busca mais ampla depois de avaliarem os pontos fortes e fracos dos candidatos internos.

Akerson não quis comentar, mas um porta-voz disse que a empresa tem “planos de sucessão em vigor para todos os nossos principais líderes”.

Aqui, uma breve apresentação dos principais candidatos para liderar a GM.

Daniel Ammann

O neozelandês Daniel Ammann, de 41 anos, obteve uma visão mais detalhada do emaranhado das finanças da GM ao trabalhar na recuperação judicial da montadora, liderada pelo governo dos EUA, quando ainda era diretor-gerente do banco Morgan Stanley. Agora, como diretor financeiro da GM desde abril de 2011, Ammann está atacando antigos problemas, como os sistemas internos de contabilização de resultados financeiros, que tornavam difícil para muitos gerentes da linha de frente saber se os carros que estavam vendendo geravam lucro.

Ammann ganhou pontos com Akerson e muitos outros na hierarquia da empresa quando acabou com um sistema antiquado em que diferentes unidades de negócio da GM vendiam veículos ou componentes para outras partes da própria companhia. Na maioria dos casos, as divisões aumentavam o preço para, em seguida, serem recompensadas ao mostrar lucros internos maiores – embora a empresa, como um todo, pudesse ter prejuízo quando o carro era finalmente vendido.

Ammann carece de experiência no gerenciamento direto da área de engenharia de veículos, fabricação ou operações internacionais, o que poderá ser um grande obstáculo.

Mary Barra

Mary Barra, de 51 anos, é a mais velha dos quatro executivos cotados para o cargo de diretor-presidente, com 33 anos na GM. Ela foi vice-presidente de recursos humanos até 2011, quando Akerson a nomeou diretora global de desenvolvimento de produtos.

Essa promoção, e a subsequente decisão de Akerson de expandir o papel dela, dando-lhe o controle do setor de compras, têm alimentado especulações de que Barra tem uma chance real de se tornar a primeira mulher a dirigir uma grande montadora.

Entretanto, Barra ainda deve cumprir o desafio que Akerson lhe deu, que é reduzir os custos em uma organização gigantesca, que tem tido dificuldades para gerar projetos de sucesso. Em 2010, a GM estava trabalhando em 30 modelos de carros e caminhonetes que formavam a base da sua produção mundial. O trabalho de Barra é aparar esse número para 25 no próximo ano e, em seguida, para 17 em 2018. Barra também tem uma longa história com a montadora. Seu pai trabalhou na linha Pontiac durante 39 anos.

Akerson disse que a GM deve lucrar o equivalente a 10% de suas receitas, em comparação aos 7% atuais. Questionada sobre qual parcela dessa meta ela deve atingir, Barra diz: “Sinto-me responsável por ela toda.”

Stephen Girsky

Stephen Girsky, de 51 anos, trabalha oficialmente na GM por menos de quatro anos. Mas ele lidou com a montadora e seus sindicatos por mais de 25 anos, primeiro como analista do Morgan Stanley e, mais tarde, como executivo de fundos de private equity e dando consultoria ao grande sindicato United Auto Workers durante a concordata.

Um nova-iorquino de estilo direto, ele faz críticas contundentes aos morosos processos da montadora, como quando os gerentes disseram que levaria anos para instalar redes 3G em todo o portfólio de veículos. Girsky desafiou essa visão, ganhou o apoio de Akerson e a montadora agora planeja oferecer 4G em todos os veículos no próximo ano – pulando a tecnologia 3G inteiramente.

Em 2011, Akerson fez de Girsky o responsável por uma dolorosa revisão das deficitárias operações europeias. Girsky cortou mais de uma dezena de gestores da principal unidade da GM na região, a Opel, e negociou um acordo sem precedentes com líderes sindicais alemães, o que permitiu que a montadora fechasse uma fábrica desnecessária.

Mark Reuss

Mark Reuss, de 49 anos, um executivo da GM que entrou na empresa em 1983, como estagiário, é, dos quatro candidatos, quem mais encarna a imagem tradicional do “executivo de automóvel”. Se as bases da GM pudessem votar para diretor-presidente, Reuss seria o favorito.

Engenheiro de formação, Reuss dirigiu as operações de engenharia de desempenho automotivo da GM e a área geral de engenharia antes de assumir o cargo atual, que corresponde ao posto ocupado por seu pai, Lloyd Reuss, até 1992, quando uma revolta no conselho da GM eliminou vários executivos.

As chances de Reuss de assumir a liderança da montadora serão definidas pela sua capacidade de aumentar a fatia de mercado da GM na América do Norte e elevar as margens de lucro a fim de alcançar as da rival Ford. No segundo trimestre, a GM divulgou lucro antes de impostos de US$ 1,98 bilhão na América do Norte. A Ford, porém, gerou US$ 2,33 bilhões, ou cerca de 16% mais do que a GM, dado que sua margem de lucro operacional na região foi de 10,4%, dois pontos percentuais mais alta que a da GM.

A redução dessa diferença dependerá do sucesso que a unidade de Reuss terá ao gerenciar a transição de 89% dos modelos produzidos na América do Norte durante os próximos dois anos.

Evento reúne famílias para debater os caminhos da sucessão familiar

Alliance Governança e Família
Strategos Strategy & Management
04/11/2013 – Workshop em Curitiba
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Além de todos os desafios próprios do dia a dia dos negócios (mercados, concorrentes, metas, retorno aos sócios) as empresas familiares detém um desafio adicional: o de enfrentar cedo ou tarde o processo de sucessão do negócio pelas gerações seguintes da família. E diante das estatísticas de que menos de 30% das empresas conseguem sobreviver à 2ª geração e tão somente 10% ou menos sobrevivem à 3ª geração, a Alliance Governança e Família, em parceria com a Strategos Strategy & Management, promoveu em 4/11/2013 em Curitiba o workshop “Desafios na sucessão das empresas familiares”.

Para despertar a atenção de muitos fundadores, herdeiros e sócios sobre a importância do tema, o evento fechado para empresas familiares convidadas da Região Sul do País contou com as palestras de Luciano Anghinoni e Telmo Schoeler. O primeiro abriu o debate sobre o tema destacando aspectos jurídicos relevantes da estruturação do patrimônio e do processo de planejamento da sucessão patrimonial. Na sequência, o segundo palestrante chamou a atenção dos participantes para o processo de transição dos negócios e para a importância de como as normas e estruturas de governança corporativa podem auxiliar as famílias empresárias a transformarem herdeiros em sucessores dos negócios da família.

O planejamento da sucessão do patrimônio

Especialista em Estratégias Societárias, Planejamento Tributário e Sucessório e diretor da Alliance Governança e Família, Luciano Anghinoni iniciou a noite relembrando aos convidados que o processo de sucessão do patrimônio ocorrerá independentemente da vontade dos fundadores e dos herdeiros, pois é assim que determina a legislação brasileira sobre a temática da sucessão patrimonial. E seguiu destacando que embora tal legislação preveja a forma pela qual a sucessão ocorrerá, é possível que as famílias discutam o tema, ouçam todas as partes interessadas envolvidas no processo – sucedidos e sucessores – e estabeleçam mecanismos e criem regras para melhor controlar e gerenciar o processo de transmissão do patrimônio. Nesse sentido o palestrante procurou demonstrar que estruturas societárias tais como as holdings e os acordos de sócios, combinadas com outros instrumentos jurídicos que modulem a sucessão, como escrituras de doação ou mesmo testamentos e cláusulas de usufruto, etc., podem resultar em um modelo mais equilibrado do processo e que atenda de modo mais adequado os interesses e expectativas de toda a família.

“A relevância do tema está em que o direito sucessório brasileiro pode resolver o problema de como será a divisão do patrimônio entre os herdeiros, mas não resolverá temas do cotidiano da família e das empresas por elas controladas caso as famílias não conversem e não deliberem sobre isso antecipadamente”. Para ilustrar sua afirmação, mencionou que os antes irmãos e agora sócios podem simplesmente divergir sobre aspectos relevantes e paralisar os negócios da família por ausência de quórum mínimo para aprovação de determinadas matérias de competência de decisão pela assembleia ou reunião de sócios, dentre outros exemplos.

E continuou demonstrando que além dos potenciais prejuízos econômicos para o patrimônio e os negócios, a falta de planejamento e alinhamento prévio de expectativas entre os herdeiros inevitavelmente redundará em desalinhamento familiar. “Na medida em que a família cresce mais rápido que o patrimônio, as exigências de padrão de vida aumentam a cada geração e as famílias se tornam naturalmente mais fragmentadas e menos unidas com o tempo, à coesão e unidade familiar antes mantidas pelos patriarcas e fundadores dos negócios tendem a perenizar quanto maior for o nível de alinhamento e mais completo for o planejamento das estruturas e do processo pelo qual ocorrerá a sucessão patrimonial. E a coesão familiar é fundamental, pois o patrimônio e os negócios precisam continuar crescendo caso realmente a família tenha o objetivo de perenizar as riquezas construídas pelas gerações anteriores e entrega-las para que as gerações seguintes as multipliquem”.

Por fim, Anghinoni ponderou ainda que embora a sucessão patrimonial seja reflexo de disposição legal, o planejamento patrimonial e sucessório permitirá ainda a execução de algo que é fundamental para a perpetuação das riquezas e negócios familiares: o treinamento dos herdeiros. “Mesmo que os herdeiros não queiram ou não sejam vocacionados a suceder os patriarcas na condução dos negócios, eles têm de saber que no futuro serão coproprietários de todo o patrimônio e sócios de todos os negócios da família. E como tal, passarão a deter responsabilidades que antes não lhes cabiam. Se não irão atuar na gestão e no dia a dia das empresas e da administração do patrimônio, vão ter que decidir aspectos relevantes dos negócios na condição de sócios. Logo, o planejamento do patrimônio viabiliza ainda que os herdeiros compreendam a sua futura condição e tenham condições de ser preparados para futuramente exercer o seu papel”, afirma Anghinoni.

O passo seguinte é a preparação da sucessão da liderança dos negócios

Superados os aspectos jurídicos do planejamento patrimonial e sucessório, na etapa seguinte do evento sugeriu-se aos presentes como deve ser pensada a questão da preparação dos herdeiros que estão vocacionados e detém as condições para se tornar os sucessores e novos líderes do negócio, e como as normas e estruturas de governança corporativa e familiar podem contribuir para esse processo. Para Telmo Schoeler, diretor da Strategos Strategy & Management, uma união de fatores deve ocorrer para garantir a continuidade do negócio. “Sem uma organização sucessória aliada à gestão eficiente e à aplicação de boas práticas de governança corporativa não é possível manter uma empresa lucrativa e em crescimento por várias gerações”, explica.

Segundo Schoeler, em primeiro lugar as famílias devem compreender que existe uma necessária e clara separação entre propriedade e gestão e, portanto, dos poderes acionário e gerencial. “Uma coisa é o herdeiro tornar-se sócio, algo natural e que depende apenas da condição filial. Outra, absolutamente distinta, é o herdeiro tornar-se sucessor e novo líder dos negócios, algo que deve estar estritamente vinculado à conjugação de três fatores: a vontade do herdeiro, seu perfil pessoal de gestor e, finalmente, sua competência para isso. Na falta dos dois primeiros fatores, cabe à família treiná-lo para a condição de acionista e, em paralelo, auxiliá-lo na construção e realização de seu projeto de vida. Existindo vontade e perfil, caberá atenção formal para com a adequada preparação e competência do sucessor, recomendando-se procedimento similar ao de qualquer outro executivo da organização.”

Para o especialista, a perenidade dos negócios de uma empresa de controle familiar é uma equação mais complexa do que a de outras organizações, diante do fato de aquelas se constituem de três dimensões e núcleos de poder distintos – a família, a propriedade e a empresa – cada um representando fóruns com demandas e requisitos distintos requerendo, portanto, ações e atenções também diferenciadas. A complexidade dessa relação pode ser melhor entendida pelo fato de que a família é movida pelo afeto, a propriedade se materializa nos desafios de uma sociedade e a empresa impõe a racionalidade e tecnicidade da gestão.
Por isso, a perenidade das empresas de controle familiar impõe adequadas práticas paralelas e complementares de governança familiar e de governança corporativa. No âmbito da governança familiar, cabe a criação e funcionamento de um Conselho de Família para cuidar dos interesses e relações dessa dimensão, bem como de um Conselho de Sócios, para servir de fórum aos temas societários. No que se refere à governança corporativa, requer-se um adequado funcionamento da assembleia de acionistas e a estruturação e eleição de um Conselho de Administração capaz de liderar a atuação da gestão executiva, operando à luz de apropriada definição e planejamento estratégico.

A inexistência do reconhecimento e da individualização desses fóruns ou de sua ocupação por personagens – acionistas ou herdeiros – despreparados para a sua condução acabará gerando inexoráveis problemas, se não a própria morte da empresa.

A complexidade dos desafios da empresa familiar também precisa ser entendida pela mudança de objetivos, requisitos e relações embutidas no processo de crescimento e desenvolvimento dessas organizações. Enquanto nos seus primórdios o objetivo é a posta em marcha, os requisitos sejam essencialmente o esforço, o trabalho e o saber fazer e as relações sejam eminentemente familiares, o sucesso e crescimento levarão, inexoravelmente, ao ponto em que o objetivo passa a ser a sustentabilidade do patrimônio, os requisitos sejam a alta qualificação e capacitação gerencial e as relações baseadas num estrito ambiente de profissionalismo.

Tudo isso gera tensões que, se não apropriadamente respaldadas por conscientização, treinamento, preparação e regulação preventiva representada por acordos de acionistas, códigos de ética e outros, trará certeiros problemas sucessórios e de sobrevivência empresarial pela animosidade entre os personagens. Na segunda geração, filhos são sócios que não se escolheram e, na terceira, primos já serão consorciados tão distantes que a própria lei não impede o casamento civil entre eles. “É utopia imaginar que a união e a afinidade entre herdeiros serão naturais e automáticas”, ressaltou Schoeler, concluindo que “a perenidade das empresas familiares depende formalmente do profissional, técnico e proativo cuidado que os fundadores ou controladores tiverem com o processo sucessório e a estruturação da governança familiar e corporativa. A vida ensina que não existem prêmios nem castigos, apenas consequências”.

Negócios de família

Revista Administrador Profissional
Maio/2013 Ano 36 – nº 323
por Loraine Calza

 

Problemas de sucessão, principalmente a resistência do líder atual em abrir mão do poder, e fracasso nas negociações entre os membros da família impedem que as empresas durem mais do que uma ou duas gerações.

 

Nem sempre uma administração eficiente é capaz de fazer com que uma empresa familiar sobreviva às diferentes gerações. Os índices exatos podem variar de país para país, mas estima-se que, de 100 empresas familiares, menos de 30 sobrevivam à primeira geração. A mortalidade é causada por diversos motivos: venda do negócio, perda de interesse da família, desafios imprevisíveis, mudanças no setor de atuação da empresa, oportunidades perdidas, conflito familiar, má gestão e problemas de sucessão.

“A sucessão não é o principal desafio das empresas familiares, mas, sem dúvida, é um dos mais importantes. As organizações não lidam bem com isso”, reflete o professor John Davis, responsável pelo programa de educação executiva Families in Business: from Generation to Generation, na Harvard Business School. Segundo ele, que é considerado atualmente uma das maiores autoridades mundiais em gestão de empresas familiares, uma sucessão tranquila geralmente significa que a família pode produzir o próximo CEO ou presidente do Conselho, ou, às vezes, assumir o papel de liderança a partir da governança ou da propriedade.

O desinteresse da família ou a falta de alguém qualificado para liderar ou conduzir a organização é apenas um dos fatores que impedem uma sucessão tranquila na empresa. Davis cita mais quatro: má escolha dos novos líderes ou do modelo de liderança; má seleção e preparação dos novos proprietários; apego do líder atual ou dos líderes ao poder; e despreparo da empresa para o futuro, a fim de ter sucesso na geração seguinte.

Um dos processos mais complexos da sucessão é fazer com que o líder abra mão do poder. “Em geral, eles acreditam que são indispensáveis, acham que ninguém está preparado para substituí-los ou fará melhor que eles e não têm uma visão de longo prazo do sucesso da família”, explica Davis. “Por isso, não acredito que é o líder que deve decidir quando passar o bastão. Ele deve fazê-lo assim que a próxima geração estiver pronta para liderar.”

O processo de retirada pode ser facilitado quando o líder reconhece que abrir mão do poder será carregado de emoções e desafios, encara a sucessão como uma mudança do seu papel, não como a eliminação do seu cargo, e cria confiança no seu sucessor, endossando formalmente o processo de transição. O líder também precisa ter garantida sua segurança financeira, adquirir novos ativos em novos negócios e participar de atividades externas, fora da empresa.

“Sucessores interessados e preparados são essenciais. Planos, boa governança e recursos são importantes. Assessores são úteis. Entretanto, uma sucessão tranquila começa com um líder que enfrenta todas as questões, inclusive sua resistência em abrir mão do poder”, argumenta Davis.

Gestão de conflitos

A falta de planejamento da sucessão também pode exacerbar os conflitos familiares. Reclamações de injustiças, discordâncias sobre o processo, percepções de privilégios, falta de diálogo franco e sincero, facções, nepotismo, fofocas e maledicências são sinais de advertência que podem levar a um acirramento cujo resultado é o fim do negócio familiar.

Nessas horas, o principal antídoto é negociar, uma habilidade que não é nada fácil, mas que pode ser adquirida e aprimorada. “Em uma negociação, a competência mais importante é a comunicação de ida e volta para chegar a um acordo. Também é fundamental saber dar um passo atrás para mudar sua suposição e suas abordagens”, orienta William Ury, um dos maiores especialistas em negociação e gestão de conflitos do mundo, cofundador do Program on Negociation, na Harvard University, e fundador e chairman da iniciativa Caminho de Abraão, que tem como objetivo contribuir para a paz e o entendimento no Oriente Médio.

Segundo Ury, algumas atitudes impedem o sucesso das negociações entre os membros da família. Como há muita emoção envolvida, nossa tendência de agir sem pensar e reagir só piora a situação. Quando a pessoa está zangada, ela faz o melhor discurso para se arrepender depois. A alternativa é o autodomínio, a capacidade de buscar um lugar de calma e perspectiva e conseguir manter os ‘olhos no prêmio’.

Outro desafio é saber ser duro com o problema e brando com as pessoas. Em outras palavras, ter a habilidade de traçar uma linha entre o problema que deve ser atacado e as questões emocionais. Em muitos casos, um conselho externo tem papel importante para ajudar a família. “É preciso ter em mente que o maior poder que temos é o poder de mudar o jogo”, sentencia Ury.

Se as negociações fracassarem, talvez não seja o caso de manter o negócio. “Nem todas as empresas familiares foram feitas para passar para a geração seguinte. Algumas devem ser vendidas ou fundidas; algumas devem ser geridas por pessoas de fora da família; e algumas precisam ser conduzidas por outras pessoas. Nesse caso, a família continua proprietária, mas deixa a governança”, pondera Davis.

Escolha de novo líder pode ser um recomeço para a Microsoft

Por Shira Ovide | The Wall Street Journal
26/08/2013
Jornal Valor Econômico

 

Ao anunciar repentinamente sua aposentadoria, após mais de 30 anos na Microsoft Corp., o diretor-presidente Steve Ballmer deixará ao seu sucessor a gigantesca missão de reviver uma das maiores empresas de tecnologia do mundo, hoje fustigada por concorrentes em todas as frentes.

Ballmer, de 57 anos, junto com seu colega de faculdade e fundador da Microsoft, Bill Gates, tornou a empresa uma máquina de lucros cujo sistema operacional Windows está presente em quase todos os 305 milhões de compu-tadores que devem ser vendidos este ano globalmente, segundo a firma de pesquisa Gartner Inc.

Mas devido ao crescimento de rivais como a Apple Inc. e o Google Inc., ele será usado em apenas 15% de todos os eletrônicos de computação se somarmos os PCs aos smartphones, tablets e outros aparelhos conectados à web.
A notícia da saída de Ballmer foi bem recebida pelos investidores, o que fez com que as ações da Microsoft subissem 7% na sexta-feira, fechando a US$ 34,75 na bolsa Nasdaq.

Financeiramente, a Microsoft continua gigante. Ela gerou quase US$ 78 bilhões em receita no ano fiscal encerrado em 30 de junho e um gordo lucro de US$ 21,86 bilhões. Sob o comando de Ballmer, a companhia foi bem-sucedida em manter sob controle várias ameaças, incluindo o software de código aberto Linux, que Ballmer chegou a descrever como um “câncer”. Ele também ajudou a Microsoft a se recuperar do impacto da campanha do governo americano para dividir a empresa.

Mas a Microsoft praticamente obtém todo o seu lucro de um trio de produtos: o Windows, o Microsoft Office e o software relacionado ao funcionamento de seus sistemas computacionais. Todos são profundamente dependentes das vendas de PCs que usam o Windows. Outros produtos, como o videogame Xbox e o sistema de buscas Bing, ou não dão lucro ou geram uma margem minúscula.

Executivos de dentro e fora da Microsoft dizem que uma mudança de liderança já devia ter sido feita há muito tempo. Pessoas a par das deliberações do conselho disseram que há anos os diretores buscam potenciais sucessores para Ballmer, mas que tem sido difícil encontrar o substituto certo para comandar uma empresa complexa que ao longo da sua história teve apenas dois diretores-presidentes. Gates vendeu grande parte da sua participação acionária na Microsoft, mas ainda exerce mais influência no formato da empresa do que qualquer outra pessoa.

A Microsoft anunciou que procuraria o sucessor de Ballmer, que continuará no cargo por até 12 meses, tanto dentro como fora da empresa. O anúncio surpreendente de sexta-feira sugere que não havia uma sucessão planejada. Ele foi feito apenas seis semanas depois que Ballmer anunciou uma reestruturação na cúpula executiva, sem deixar claro quem seria o número dois na companhia.

Nos últimos anos, a empresa perdeu possíveis candidatos ao cargo à medida que vários tropeços permitiram que a Apple, o Google e o Facebook se tornassem os novos titãs do setor de tecnologia. Acredita-se que entre os executivos que serão avaliados de perto para o cargo estão Paul Maritz, um ex-executivo da Microsoft que hoje comanda a empresa de tecnologia GoPivotal Inc., e Stephen Elop, atual diretor-presidente da Nokia que antes liderou os negócios do Microsoft Office. Entre os altos executivos da Microsoft considerados candidatos potenciais estão Tony Bates, ex-diretor-presidente do Skype, que oferece serviços de comunicação pela internet, e Satya Nadella, que ganhou reconhecimento por tornar o software da Microsoft dedicado às áreas administrativas de empresas mais compatível com a internet.

Uma porta-voz de Elop não quis comentar, assim como Maritz e Bates. Nadella não respondeu a um email solicitando que falasse a respeito.

“Com essa mudança na liderança, há uma oportunidade que é um divisor de águas na empresa para encontrar alguém que traga uma abordagem nova para liderar a companhia no futuro”, disse Paul Allen, que fundou a Microsoft junto com Gates, por meio de um comunicado.

Os críticos dizem que o próximo líder precisa jogar fora a cartilha de manter isoladas as principais marcas da Microsoft. Para proteger o império do Windows, por exemplo, a empresa tem se recusado a disponibilizar gratuitamente a licença do Office para pessoas que usam aparelhos que não rodam seus softwares, como o iPhone. A decisão tem criado conflito interno e já custou à Microsoft toda uma geração de novos usuários.

“A Microsoft precisa de um líder jovem, com grande intuição de produto e vontade de quebrar paradigmas para reo-rientar a companhia”, diz Ali Partovi, que vendeu uma empresa para a Microsoft.

A aposentadoria de Ballmer marca uma linha divisória entre a primeira geração da computação e a era seguinte, que ainda está tomando forma. Pioneiros da tecnologia como a Apple, a fabricante de processadores Intel Corp. e a International Business Machines Corp. já elegeram novos líderes nos últimos anos.

“Os ciclos pelos quais adotamos tecnologia e criamos novas tecnologias estão mudando drasticamente”, diz Aaron Levie, diretor-presidente da Box Inc., que está entre a nova geração de empresas nascidas na era da internet e que desafia a Microsoft ao oferecer alternativas de software mais baratas e simples.

Há muitos que duvidam que uma nova liderança seja suficiente para salvar a empresa. “O único que pode tirar a Microsoft da sua situação desastrosa é Bill Gates – ele é um verdadeiro visionário e líder da nossa indústria”, diz Marc Benioff, diretor-executivo da Salesforce.com, firma de software concorrente da Microsoft.

(Colaboraram Don Clark, Joann S. Lublin e Lora Kolodny.)

CEO da LVMH organiza seu patrimônio e a sucessão

Jornal Valor Econômico
13/05/2013

Por Daniela Fernandes | Para o Valor, de Paris

É difícil ser o décimo homem mais rico do mundo – com uma fortuna de US$ 29 bilhões – em um país como a França, onde, por razões culturais, ter dinheiro é algo mal visto pela sociedade. Que o diga Bernard Arnault, proprietário e presidente do grupo LVMH, líder mundial do luxo. A revelação na imprensa de que ele havia pedido a nacionalidade belga, supostamente para pagar menos impostos, provocou um enorme escândalo na França.

Ele foi acusado de “traição” e “falta de patriotismo”, inclusive pelo governo francês. Um ministro chegou a dizer que a fortuna do bilionário serviria para “equilibrar as contas do Seguro Social, recapitalizar a Peugeot, salvar a ArcelorMittal no país, construir estradas grátis e realizar tantos outros sonhos”.

O jornal “Libération” estampou na capa uma fotomontagem de Arnault carregando uma mala, com o título “Cai fora, rico imbecil”, uma alusão à célebre frase do ex-presidente Nicolas Sarkozy (amigo íntimo de Arnault), “cai fora, pobre imbecil”, dita a um homem que havia se recusado a apertar sua mão.

Diante de tanta polêmica, o principal-executivo de LVMH foi obrigado a sair do silêncio e declarou, em uma entrevista ao jornal “Le Monde”, que renunciava ao pedido de nacionalidade belga.

Arnault afirmou que seu objetivo não era o de deixar de pagar impostos na França e se tornar um “exilado fiscal”, mas sim “assegurar a perenidade e a integralidade do grupo LVMH no caso de sua morte e de desacordo entre seus herdeiros”.

As acusações de exílio fiscal acabaram trazendo à tona que Arnault, 64 anos, vem preparando nos últimos anos sua sucessão patrimonial.

Por trás disso, está também, claro, sua própria sucessão no comando da líder mundial do luxo, que reúne cerca de 60 marcas, com faturamento de € 28,1 bilhão. A lista é tão vasta quanto o prestígio de suas grifes: Louis Vuitton, Dior, Givenchy, Moët Chandon, Veuve Clicquot, Bulgari, além de outras atividades, como a rede de perfumarias Sephora e o jornal econômico “Les Echos”.

Na prática, o objetivo de Arnault é garantir que o império de luxo construído por ele em mais de duas décadas – e uma das maiores capitalizações da bolsa de Paris – não seja dispersado por seus filhos após seu falecimento, pelo menos durante um certo período.

A holding familiar Arnault possui 46,4% do capital da LVMH. O empresário possui cinco filhos: dois de um primeiro casamento, que já trabalham no grupo, e três, com idades entre 14 e 21 anos, com a pianista canadense Hélène Mercier.

Para evitar o desmembramento do grupo, o dono da LVMH criou em 2008 na Bélgica, por meio de uma montagem jurídica complexa, uma fundação privada, a Protectinvest, ligada à holding belga Pilinvest, que pertence à família Arnault.

A fundação tem triplo objetivo: ela proíbe a venda, durante dez anos, das ações herdadas pelos filhos; determina que eles devem votar de forma conjunta no conselho e também escolherá, entre os filhos (e também, possivelmente, dois sobrinhos), quem assumirá o comando da LVMH. A tarefa caberá a um comitê de “sábios”, liderado pelo ex-ministro francês das Finanças, Thierry Breton, que preside a Protectinvest.

Esse esquema foi criado para evitar mudanças no capital da LVMH caso Arnault faleça nos próximos dez anos. A montagem deverá se extinguir em dezembro de 2023, quando Jean, seu filho mais novo, terá 25 anos (e, teoricamente, maior maturidade para tomar decisões).

A criação dessa fundação na Bélgica teria sido motivada pelo fato de que na França não existe esta estrutura particular que “congela” o patrimônio dos herdeiros. Após a abertura do testamento, não é possível impedir que eles disponham dos bens como quiserem.

Arnault já transferiu grande parte das ações da holding familiar para a fundação. Quase 50% desses títulos já teriam sido doados aos seus filhos, segundo a imprensa francesa. Eles têm no momento apenas a propriedade, sem o direito de usufruto, que continua sendo exercido pelo CEO (ou seja, dividendos e direitos de votos). Após o falecimento de Arnault, seus herdeiros terão propriedade plena.

O bilionário renunciou à nacionalidade belga, mas nem por isso as críticas na França terminaram.

Uma nova polêmica surgiu após revelações de que ele teria pago ao Fisco francês um imposto de apenas 6,5% em vez de 45% ao ceder as ações aos filhos, segundo o jornal “Le Canard Enchainé”, reputado por furos jornalísticos que já derrubaram ministros e abalaram presidentes no país.

O “desconto” teria sido possível graças a abatimentos diversos, resultantes da doação em usufruto, que faz as ações perderem seu valor, e também devido ao engajamento dos herdeiros de não venderem os títulos por pelo menos dois anos.

A redução fiscal teria sido aprovada pelo ministro das Finanças da época, o mesmo Thierry Breton que preside atualmente a fundação de Arnault na Bélgica.

Um porta-voz da LVMH afirmou que “os números mencionados pelo ‘Canard Enchainé’ são falsos e a montagem descrita não corresponde à realidade”.

Arnault também justificou que a obtenção da nacionalidade belga teria permitido que a fundação se tornasse “inatacável”, sugerindo a ideia de que as decisões tomadas na Bélgica não poderiam ser contestadas judicialmente pelos herdeiros.

Se a transferência de seu patrimônio parece estar em fase avançada, sua sucessão no comando da LVMH ainda está totalmente aberta. Os dois mais cotados para sucedê-lo são os filhos de seu primeiro casamento com a rica herdeira Anne Dewavrin.

Delphine, de 38 anos (praticamente a idade de Arnault quando assumiu o comando de LVMH), é diretora-geral-adjunta da Dior e formou-se na London School of Economics. O irmão Antoine, de 35 anos, é diretor-geral da grife de sapatos masculinos Berluti e diretor de comunicação da Louis Vuitton. Ele estudou na Insead, renomada faculdade francesa de administração.

Ambos integram o conselho de administração, mas não o comitê executivo do grupo. Delphine é considerada mais discreta, enquanto Antoine, casado com a top model russa Natalia Vodianova e famoso por suas façanhas como jogador de pôquer, aparece em revistas de celebridades.

Os três filhos de seu segundo casamento ainda são muito jovens: Alexandre, 21anos, DJ conhecido como “double A”, Frédéric, 18, e Jean, 14. Sua mãe diz que eles pretendem voltar-se ao mundo dos negócios.

Na lista de potenciais sucessores de Arnault há ainda seus dois sobrinhos, Ludovic e Stéphanie, filhos de sua irmã que faleceu de câncer.

“Entre meus cinco filhos e meus dois sobrinhos, haverá um que se mostrará capaz de assumir o comando”, disse Arnault em um documentário da TV francesa. Resta saber se eles manterão seu império intacto e terão seu estilo implacável e de “conquistador” de empresas.

COMENTÁRIO:

Telmo Schoeler
10/06/2013

“Como sempre insistimos e recomendamos aos nossos clientes, a empresa familiar já nasce com o vírus da sucessão que, se adequadamente tratado, ficará inerte e sem sequelas. Caso sem tratamento e medicação, provavelmente significará a morte da empresa na virada para a segunda ou no máximo terceira geração, quer por problemas da sucessão de capital quanto da de gestão.

O caminho seguido pelo bilionário Bernard Arnault serve como bom exemplo do que fazer à luz da legislação local e internacional, da proteção patrimonial, dos critérios decisórios, da preparação e educação dos herdeiros e da própria solidez da governança corporativa. Tem toda a probabilidade de dar certo, ao contrário dos que nada fazem de forma proativa, técnica, profissional, cujo insucesso de longevidade empresarial é inexorável.”

Os erros que levaram à venda da Leão Jr

Como sempre dizemos: a empresa nasce com um virus mortal chamado “SUCESSÃO”. Caso seja tratado preventivamente, se tornará inofensivo. Quando não tratado será MORTAL, com 100% de probabilidade.
Está aí mais um exemplo.

Telmo Schoeler – 11.01.2013

Jornal Valor Econômico
28 / 12 / 2012
Por Marli Lima

Falhas na preparação de sucessores e mortes prematuras na família foram alguns dos motivos que resultaram na venda da Leão Júnior, fabricante do Matte Leão, para a Coca-Cola, em 2007. “O ‘day after’ foi triste”, conta Luiz Otávio Leão, que hoje dirige a Serra da Graciosa Participações. Nos próximos dois anos, Leão deve concluir a negociação de ativos, principalmente imóveis, que ainda pertencem aos herdeiros do grupo. “Ficamos com a sensação de missão cumprida, mas tristes por não ter encontrado outro caminho”, diz ele.

A família Leão sempre foi discreta e nunca falou dos bastidores da venda da empresa, que tinha 106 anos quando foi para as mãos da multinacional de bebidas. Recentemente, Luiz Otávio foi um dos palestrantes do CEO Summit em Curitiba, promovido pela Ernst & Young Terco e pela Endeavor, e tratou de “sucessão em empresas familiares”. “Alguma coisa não deu certo e vou contar onde falhamos”, desabafou, cinco anos após a transação.

O empresário voltou a falar sobre o tema ao Valor, em um escritório repleto da história da Leão Junior, com chás a granel, fotos dos diretores, móveis usados pela empresa e embalagens que ficaram bem conhecidas pelos consumidores.
As mortes prematuras fizeram com que a empresa trocasse a gestão sem planejamento. O fundador, Agostinho Leão Júnior, morreu em 1908, sete anos depois de criar a empresa. Sua viúva ficou até 1922 no cargo e o avô de Luiz Otávio foi até 1953. Dez anos depois, outra morte, e havia três viúvas que não eram parentes na empresa, então uma das maiores do Paraná, com atuação na área financeira e negócios na Argentina.

Quando entrou a terceira geração, não havia espaço para todos os sócios e foram tirados alguns profissionais para acomodá-los. O tio de Luiz Otávio morreu em 1978 e, seu pai, em 1988. Em 2004, morreu o sexto a ocupar o cargo de presidente, Ivo Leão Neto. Em comum, o fato de os sócios terem morrido perto de 60 anos e com problemas no coração.

“Nunca pensei em trabalhar na Leão”, diz Luiz, que é administrador e foi empregado em outras duas empresas que também fecharam, Bamerindus e Mesbla. Ele passou a trabalhar na empresa da família em 1989. Na ocasião, cinco sócios ficaram no comando e foram criadas dificuldades para que outros membros da família fossem contratados – precisavam competir com profissionais. “Mexemos em muita coisa, mas o tema sucessão nunca foi enfrentado”, lembra.

“O ônus de deixar isso para o futuro é grande”. No momento da venda, a empresa tinha 31 sócios e nem sempre havia concordância nas negociações. Para crescer, seria preciso fazer investimentos e reduzir as retiradas da empresa.
“Os dividendos eram importantes para grande parte da família, muitos dependiam deles”, conta Luiz. “Não existia um bloco de situação ou de oposição. Existia a família e não queríamos conflitos”. Em 2005, a Leão passou a ser preparada para a venda.

A Leão Júnior faturava R$ 160 milhões em 2006 e, como interessados, apareceram o grupo indiano Tata, e as americanas Pepsico e Coca-Cola. Esta fechou o negócio em março de 2007. Levou a marca e três fábricas, mas ficaram os imóveis não operacionais, administrados na Serra da Graciosa. “A meta é dissolver essa empresa. Já que a família se desfez do principal ativo, não há motivo para continuarmos juntos”.

Luiz investiu na área florestal com um irmão. Outro irmão, o economista Antonio Carlos Leão, que também participou do processo de venda, criou uma empresa de alimentos feitos com cereais. A sede da Leão foi vendida para a Igreja Universal do Reino de Deus, que está construindo um templo no local.

Foram vendidas fazendas e imóveis no interior do Paraná e ainda restam propriedades no Rio de Janeiro, em Curitiba e em São Mateus do Sul (PR).

Luiz diz que a Leão e outras as empresas familiares enfrentam uma questão comum em companhias com único sobrenome: “A gente não se escolheu como sócio”. O número de sócios que estavam vindo na quinta geração na empresa chegava a 74 pessoas.

“Muitos deles nem se conheciam”. Em sua visão grupos empresariais familiares movem-se, basicamente, por duas razões: ambição ou medo. “Para crescer, havia riscos. Para continuar do mesmo tamanho, havia riscos”.

Psicólogos ajudam herdeiros milionários nos EUA

12/03/2012 às 00h00
Jornal Valor Econômico
Por Mitch Lipka | Reuters

Quando o assunto é disputa de família por causa de dinheiro – especialmente as litigiosas, envolvendo heranças -, além de advogados, corretores de valores e contadores, é possível recorrer a outro profissional na mesa de mediação: um psicólogo.

O envolvimento de um profissional da saúde mental não diz respeito a fornecimento de uma terapia tradicional. É mais para ajudar os envolvidos a se comunicarem. Isso porque a riqueza, especialmente a riqueza súbita, pode criar ansiedade e confusão.

Consultores financeiros afirmam que essa tendência está ganhando força por causa da importante transferência de riqueza que está ocorrendo com a aposentadoria da geração do “baby boom”. Os “baby boomers” deverão transferir estimados US$ 41 trilhões para herdeiros até 2052.

À medida que os administradores de fortunas tradicionais lidam com heranças, eles percebem que terão de impedir a implosão de famílias com a divisão de posições de investimentos após a morte de um pai, mãe ou parente rico. E eles afirmam que, para fazer isso, precisam de algo mais que planilhas e gráficos de ações.

“Trata-se, definitivamente, de um campo em desenvolvimento. Um campo que já deveria estar por aí há muito tempo. Mas não havia ninguém trabalhando nisso”, diz a psicóloga Jamie Traeger-Muney, fundadora do The Wealth Legacy Group. “Falar sobre o impacto emocional da riqueza sobre a vida das pessoas é algo realmente novo.”

Traeger-Muney trabalha junto com consultores financeiros, advogados especializados em espólios e contadores, que a convocam para tentar assegurar às pessoas que estão para receber grandes somas de dinheiro (ou que receberam recentemente) que elas conseguirão desenvolver um plano que as ajudará a lidar com a mudança.

“Não se trata de algo do tipo ‘o que está errado com você’ ou ‘por que você é irresponsável’. Trata-se de quais são seus objetivos e como você vai atingi-los”, afirma ela.

Se há uma alteração emocional quando um pai ou avô morre, as disputas entre os membros da família podem assumir proporções épicas – levando irmãos a nunca mais falar com irmãos, entre outras dificuldades.

Na Aequus Wealth Management, de Chicago, os planejadores financeiros abraçaram a ideia de que o bem-estar psicológico dos clientes está interligado com seu (deles) sucesso financeiro. Portanto, a fundadora Cicily Carson Maton associou-se a um psicólogo que está integrado aos negócios da Aequus. “Quem vai ficar com o bule de chá da vovó? Emocionalmente damos muito valor a coisas que não podemos ter. É uma coisa totalmente desproporcional”, diz Maton. “Apenas ter dinheiro não vai fazer uma pessoa feliz. Às vezes torna essa pessoa muito infeliz.”

Entre 65% e 75% das famílias têm problemas na transição de dinheiro de uma geração para outra – seja com a perda de grande parte da herança pela falta de planejamento, seja pela perda da harmonia na família. É o que mostra um estudo, frequentemente citado, do The Williams Group, baseado em entrevistas com membros de 3.250 famílias.

O envolvimento de um psicólogo no planejamento financeiro pode ajudar a evitar os conflitos que geralmente ocorrem em muitas famílias, mesmo quando o tamanho da riqueza envolvida não é muito grande, afirma William “Marty” Martin, um psicólogo que trabalha com a Aequus. Mas quando uma fortuna significativa está envolvida, a intensidade pode aumentar quando os problemas não são resolvidos antecipadamente. Como conflitos e ressentimentos podem datar até da infância, é bom ter alguém para cuidar da família nesse processo.

Martin diz que recentemente uma cliente enviou para seu irmão um e-mail que ela definiu como amigável, mas ele respondeu dizendo a ela que as intenções amigáveis da mensagem não conseguiram esconder intenções capciosas. Martin aconselhou a cliente a discutir pessoalmente essas diferenças antes que a situação chegasse ao ponto de e-mails ou cartas terríveis.

Ele também relata uma intervenção bem-sucedida envolvendo uma mulher que havia se distanciado do pai rico, que havia se casado com uma mulher com a qual ela não se dava bem. A filha havia trabalhado na cúpula da empresa da família, fora demitida depois do segundo casamento do pai e seria cortada do testamento. Em vez de ficar parado esperando para ver o que iria acontecer, Martin diz que aconselhou sua cliente a dialogar com o pai, que acabou dando a ela sua parcela da fortuna. “Ao antecipar as coisas, eles conseguiram se entender”, diz Martin.

A chave do uso da psicologia para ajudar a amenizar a transferência de riqueza, diz ele, é torná-la parte do processo, em vez de último recurso quando as coisas desandam. “Sou parte do processo. Ele está normalizado. Não é como quando eles dizem uma coisa e isso desencadeia uma intervenção.” (Tradução de Mario Zamarian)

O desafio de perder um CEO como Steve Jobs

A PERENIDADE DE UMA EMPRESA PASSA INEXORAVELMENTE, POR UMA SUCESSÃO BEM CONDUZIDA.
POR ISSO, A PREOCUPAÇÃO PERMANENTE COM O DESENVOLVIMENTO DE “BACK UPs” É FATOR DECISIVO, EM TODOS OS NÍVEIS, POIS NUNCA SABEMOS QUANDO UM SUCESSOR SERÁ NECESSÁRIO.
MAS, QUANDO A TAREFA NÃO SE RESTRINGE A SUBSTITUIR APENAS UM EXECUTIVO, MAS SIM UM PERSONAGEM QUE É MIXTO DE FUNDADOR + CRIADOR + INSPIRADOR + LÍDER + EXECUTIVO, O FURO É MAIS EMBAIXO.
HAJA DESAFIO!

TELMO SCHOELER
08/09/2011

Grupos como Disney, Starbucks e Microsoft enfrentaram turbulências na troca de presidentes que eram seus símbolos

27 de agosto de 2011
Walter Hamilton, do Los Angeles Times
O Estado de S. Paulo

Nos anos que se seguiram à morte de Walt Disney, em 1966, seus sucessores se esforçaram ao máximo para dirigir sua companhia como julgavam que o fundador teria desejado.

Até as decisões menos importantes eram sujeitas a um amplo debate sobre as preferências de Disney. O esforço era sincero e bem-intencionado – e acabou prejudicando a companhia.

“Eles sempre faziam duas verificações perguntando-se o que Walt teria feito”, contou Harold Vogel, um analista veterano da Disney. “Isso impediu que eles reagissem às transformações do mercado tão rapidamente quanto deviam.” Enquanto a Apple se prepara para enfrentar o futuro sem Steve Jobs como presidente executivo, a gigante do setor de tecnologia só pode esperar não seguir o caminho de tantas companhias que enfrentaram grandes dificuldades depois que seus líderes emblemáticos deixaram o seu posto.

Várias delas, incluindo a Starbucks e a Microsoft, sofreram diversos tropeços quando seus CEOs passaram as rédeas, afirmam os analistas. A própria Apple tropeçou depois que Jobs saiu numa luta pelo poder, em 1985, mas regressou para resgatá-la 11 anos mais tarde.

Até as transições longamente planejadas para sucessores escolhidos com todo o cuidado muitas vezes não dão certo, na opinião dos especialistas.

“Há exemplos de fundadores carismáticos e empreendedores que passaram as rédeas com sucesso, mas são muito menos numerosos e mais esporádicos do que os casos que costumamos ver, em que o fundador sai e a companhia entra em colapso”, disse Nancy Koehn, uma historiadora da Harvard Business School.

A Apple preparou a transição para o novo CEO, Tim Cook, da melhor maneira possível, e tem a grande vantagem de Jobs continuar como “chairman”. E quando ele sair definitivamente, afirmam os analistas, sua ausência provavelmente não será sentida por muitos anos, porque a companhia segue a estratégia que ele deixou.

Mas, segundo eles, os resultados em outras companhias não são encorajadores a longo prazo. É o que acontece particularmente nas empresas de tecnologia, que são vulneráveis à perda do instinto criador do fundador em um setor em constante evolução.

“Os problemas sucessórios são mais comuns na área de alta tecnologia porque a natureza dinâmica do mercado e a intensa concorrência exigem uma inovação constante”, disse Arvind Malhotra, professor adjunto da Kenan-Flager Business School, da Universidade da Carolina do Norte.

As transições de CEOs são comumente prejudicadas por alguns obstáculos – um dos quais decorre da óbvia dificuldade de encontrar um substituto na versão corporativa de Babe Ruth (considerado o maior jogador de beisebol da história). Os sucessores em geral hesitam em mudar uma estratégia já arraigada, em parte por se sentirem inseguros e em parte por causa das inevitáveis críticas dos conselhos de direção, dos investidores e dos funcionários, dizem os especialistas.
“De certo modo, a pior missão para um CEO é suceder a um Walt Disney ou a Steve Jobs porque é quase impossível”, observou Ed Lawler, diretor do Centro para as Organizações Eficazes da Marshall School of Business da USC. “Muitas vezes, essas pessoas se tornam ícones por serem insubstituíveis.” Por exemplo, o preço das ações da Microsoft estagnou durante dez anos depois que a gigante do software lutou com sucesso limitado para entrar em novos mercados.
Segundo os especialistas, não foi inteiramente uma falha de Steve Ballmer, que sucedeu o amigo e colega Bill Gates à frente da companhia em 2000. Alguns analistas afirmam que os problemas da Microsoft em encontrar empresas que continuassem na trilha do seus softwares Windows e Office já estavam ficando evidentes durante a direção do próprio Gates. Mas, para os críticos, Ballmer não tem a visão e o instinto matador do seu predecessor.

Quando Howard Schultz, o lendário diretor executivo da Starbucks, deixou a companhia em 2000, ele julgou que a deixava em mãos competentes. Mas o desempenho apático fez com que ele voltasse, oito anos mais tarde.

A Walt Disney se beneficiou com a abertura, em 1971, do Disney World, na Flórida, que foi planejado antes da morte do fundador, disse Vogel.

Mas, depois, a companhia foi definhando, até que Michael Eisner assumiu o cargo de presidente, em 1984, e conseguiu recuperá-la.

Até o momento, a reação em Wall Street à troca de comando na Apple parece de certo modo favorável. A cotação de suas ações, consideradas uma aposta quente em Wall Street, caiu 0,7% para US$ 373,72, na quinta-feira. Ontem, porém, os papéis já tiveram alta de 2,64%.

Os investidores se sentiram tranquilizados pelo pronunciamento de Tim Cook, em uma carta aos funcionários da Apple, em que afirmava que pretende “continuar fiel” à estratégia seguida há tanto tempo pela companhia. Suas palavras tranquilizadoras foram particularmente adequadas em um período tumultuado, embora investidores e clientes com certeza esperem para ver se a Apple continuará inovadora a longo prazo sem Jobs na direção.

“Steve criou uma companhia e uma filosofia diferentes de todas as outras no mundo e nós continuaremos fiéis a isto – está no nosso DNA”, escreveu Cook. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

UM E.T. NA PRESIDÊNCIA DA GM

UM E.T. NA PRESIDÊNCIA DA GM

 

Escrevi, recentemente, elogiando os ensinamentos do processo de recuperação judicial da GM nos USA. Na estrita condição de observador de fatos relativos à gestão, preciso voltar ao mesmo caso para comentar sobre o perfil e escolha do novo presidente executivo (CEO), o que tem surpreendido Wall Street e o paquidérmico e conservador mundo automotivo americano.

O “frisson” vem do fato de que, tradicionalmente, o “establishment” esperaria que se escolhesse alguém com longa experiência no ramo, quem sabe até um ex-presidente da própria GM que tenha tido sucesso (?!) na companhia. Na melhor das hipóteses, alguém ícone da concorrência. Em vez disso, o Conselho de Administração optou por Daniel Akerson, que de automóvel só entendia de dirigir o seu.

Aos 62 anos e vindo de uma bem sucedida carreira na área de telefonia e de investimentos, Akerson traz para a GM um foco em disciplina financeira, transparência, cobrança e velocidade na diretoria, uma desconfiança e contestação dos processos tradicionais e uma forte ênfase em marketing. Dito de outra forma, um perfil de mudança e quebra de paradigmas, suficientemente forte e hábil para superar e mudar a burocracia da companhia e capaz de enxergar o carro como um produto de consumo final que só terá sucesso se cair no gosto do consumidor, ou seja, de vê-lo muito mais como uma questão mercadológica do que de engenharia. Um administrador metódico, obstinado, focado na reconstrução e resgate da companhia e preocupado exclusivamente com o futuro, sem olhar no espelho retrovisor.

Para quem está dedicado há muito tempo à recuperação e reestruturação de empresas, nenhuma surpresa. Sabemos que apenas alguém experiente, capacitado e de fora, tem a isenção de não ser parte do problema, além de poder olhar para as dificuldades e buscar soluções de forma não bitolada e pré-estabelecida pelos maus hábitos do modelo tradicional de negócio. Situações dramáticas exigem ações criativas, inusitadas, talvez inéditas e “fora da caixinha”, como popularmente referidas.

Dois outros fatos merecem destaque: por um lado, a idade de Dan deveria servir de reflexão para a maioria dos “head hunters” que numa visão totalmente ultrapassada consideram os profissionais de50 anos muito “velhos” para contratação executiva de topo. Esquecem que, no caso, se exige alguém para uma missão e não para uma carreira. Por outro, Akerson foi pinçado de dentro do próprio Conselho de Administração, do qual fazia parte há pouco tempo, mas o suficiente para ter avaliadas suas opiniões e posicionamentos diante de questões cruciais. Dessa forma, evitou-se um alegadamente longo processo de recrutamento e seleção.

O grau de sucesso de Dan Akerson apenas poderá ser avaliado no futuro, pois tomar decisões no mundo empresarial significa assumir a posição do treinador esportivo que mexe na equipe e não a do comentarista esportivo que analisa o que já passou. Mas, com certeza, os resultados serão melhores do que com outras alternativas internas e conservadoras. Como diz o ditado, “o velho diabo é esperto porque é velho, não porque é diabo”, especialmente se vier de fora.

Telmo Schoeler

PARADIGMA DA EMPRESA VERSUS PARADIGMA DA FAMÍLIA E A SUCESSÃO EM EMPRESAS FAMILIARES: FATORES QUE OBSTACULIZAM O PROCESSO SUCESSÓRIO E COLOCAM EM RISCO A PERENIZAÇÃO DA EMPRESA FAMILIAR

PARADIGMA DA EMPRESA VERSUS PARADIGMA DA FAMÍLIA E A SUCESSÃO EM EMPRESAS FAMILIARES: FATORES QUE OBSTACULIZAM O PROCESSO SUCESSÓRIO E COLOCAM EM RISCO A PERENIZAÇÃO DA EMPRESA FAMILIAR

  

                                                                          *Ricardo Maltz, Me. Gestão Empresarial.

 

 Estudos mostram que, em nível mundial, empresas familiares e administradas pelas famílias são responsáveis por mais da metade dos empregos gerados. Entretanto, registre-se que no Brasil a expectativa média de vida de empresas não-familiares é de 12 anos, enquanto nas de controle familiar é de apenas nove anos, sendo que apenas 30% delas chegam à segunda geração e 5% à terceira geração (OLIVEIRA, 2006).

A literatura especializada e inúmeros trabalhos científicos publicados evidenciam a curiosidade e importância que o tema da alta taxa de mortalidade suscita. No bojo do contexto de um mundo de decisões cada vez mais complexas, a perpetuidade das empresas familiares passa pela boa convivência de sua estrutura formal, a relação com o mercado e as relações com a família. Administrar com foco na missão e visão da empresa, sem, no entanto, deixar de contemplar os valores que sustentam as relações da família, constitui o cerne da questão para a continuidade da empresa.

O processo de sucessão tem na transferência de liderança entre gerações um dos fenômenos mais complexos no ambiente empresarial e podem ser fator crítico para a continuidade da organização. O choque entre os paradigmas da empresa e da família e a aderência por parte do grupo que forma o interior e o dia a dia das organizações são pontos relevantes de observação.

É neste mundo de lógica econômica que as empresas familiares em processo de sucessão buscam sobreviver ao choque causado pelo encontro destes dois paradigmas: o da empresa, em que a racionalidade instrumental e as normas institucionalizadas pelo capital e seus agentes imprimem e moldam a forma de condução dos negócios, e o da família centrado no modelo subjetivo e afetivo.

Não obstante desse cuidado, com enorme freqüência, os processos sucessórios nas empresas esbarram em fatores subjetivos ligados à família ou à transferência de liderança e poder do fundador a quem irá sucedê-lo.

As tensões que este momento causa no grupo de liderados podem se tornar críticas para a organização, levando a uma desarmonia e originando graves problemas que interferem no dia a dia da empresa, podendo até mesmo levar a sua descontinuidade.

A compreensão e a leitura apropriada desses fatores podem contribuir para diminuir as estatísticas negativas.

    O trabalho está publicado na íntegra e poderá ser acessado no site:  http://virtualbib.fgv.br/dspace/handle/10438/6885

  

*Ricardo Maltz é Mestre em Gestão Empresarial pela Ebape-RJ e especialista em Finanças Empresariais pela FGV. Exerce a atividade de consultor de empresas associado da Strategos – Strategy & Management . É membro de Conselho de Administração e leciona a disciplina de Jogos de Empresas no Pós Adm da FGV.

Email: gmaltz@terra.com.br

A INTEGRAÇÃO PÓS FUSÃO & AQUISIÇÃO TEM QUE SER GERENCIADA COMO UM PROCESSO DE MUDANÇA ORGANIZACIONAL

A INTEGRAÇÃO PÓS FUSÃO & AQUISIÇÃO TEM QUE SER GERENCIADA COMO UM PROCESSO DE MUDANÇA ORGANIZACIONAL

Patricia de Sá Freire, Me.Eng.*
 

O crescente mercado de fusões e aquisições (F&A) impõe uma forte pressão sobre o posicionamento estratégico das empresas, ou elas se posicionam como empresas em crescimento, e por isso se tornam compradoras de empresas, ou elas se fecham em seu mercado e tenderão a desaparecer sendo compradas por outra empresa em decisão de compra.

As operações de F&A são as alavancas de crescimento corporativo, ajudando as organizações brasileiras a vencer o desafio de se manterem como participantes ativos do mercado global. Pois, hoje se precisa não somente promover a inovação e a competência tecnológica, mas sim, a construção da capacidade interna para produzir o máximo com a mais alta qualidade real percebida, inovando a cada passo, e ainda sendo capaz de entregar seus produtos e serviços pontualmente ao consumidor, do outro lado do mundo, com o melhor preço e mantendo uma real rentabilidade exigida por seus sócios e acionistas.

Mas, vamos esclarecer que não existe um modelo único para garantir a eficácia das F&A, ou melhor das mudanças provocadas por essas operações, assim como a teoria da contingência diz que não existe um modo, mais eficaz, eficiente e efetivo para administrar com sucesso a organização.  Se não existe um modelo, como então gerenciar, como menos riscos, as mudanças internas impostas pela aceleração do crescimento por F&A?

Temos visto em demasia os erros de percepção da fase pós-operatória prejudicando o alcance dos objetivos planejados pelos “Golden Boys” – a turma responsável pela due dilligence – que, pelo insucesso “culpam” fatores culturais e de gestão da integração. E não estão errados.

O maior desafio em um processo de mudança organizacional, não é a reestruturação da linha de produção, a reengenharia da gestão e nem a modelagem de novos processos, mas a gestão de pessoas e cultura.

Gerenciar pessoas em processos de mudanças testa a capacidade da empresa em sensibilizar, conscientizar e mobilizar os participantes e grupos para a colaboração, fazendo-os pensar além de sua zona de conforto para o bem da organização que os sustentam.

Gerenciar cultura em fase de mudança envolve a renovação de valores paradigmáticos que sustentam a identidade organizacional e a própria identificação dos funcionários.  É imaturo pensar que, ao se impor novos valores e práticas gerenciais, serão provocadas mudanças automáticas na cultura.  Para o bem ou para o mal, a cultura se constitui das rotinas, das práticas, das técnicas, das relações interpessoais, de como se lida com os riscos, com a liderança, com as regras, processos e stakeholders. Impor uma nova cultura, é desmoronar a zona de conforto de cada um e de todos ao mesmo tempo, o que propicia o surgimento de resistências à mudança.

Então, será que as operações de F&A não devem começar a ser olhadas como processo complexo de mudança organizacional e, percebidas por diferentes dimensões além das financeiras e estratégicas, como as dimensões políticas, culturais e humanas?  Até que ponto perceber as operações de F&A como um processo, ao invés de formatá-lo como mais um projeto, evitará os constantes erros e perdas nas fases de integração?

Está na hora então, de se modelar um processo competente de integração de empresas pós F&A.

  • Patricia de Sá Freire é consultora sênior da Strategos Strategy & Management. Diretora Acadêmica do Instituto de Gestão de Mudanças Estratégicas e Pessoas IGMEP. Membro do Núcleo de Estudos e Observação em Gestão, Aprendizagem e Pessoas NEOGAP. Doutoranda em Engenharia e Gestão do Conhecimento EGC/UFSC Contatos: patriciasafreire@terra.com.br