Supimpa, meu velho

O Estado de S. Paulo

13 Maio 2015 | 02h 04

The economist

Pequenas empresas podem recorrer ao financiamento coletivo caso não consigam acesso aos grandes bancos

Os banqueiros são um grupo conservador. É difícil imaginar algum deles se entusiasmando com a oportunidade oferecida por Ryan Grepper, um sujeito do Oregon que é “metade visionário, metade cientista louco e um grande fã da revolução ‘faça você mesmo’”, a ponto de emprestar US$ 50 mil para ele criar um cooler para piqueniques. Não um cooler qualquer, veja bem, mas o The Coolest ­ que, além de manter as bebidas geladas, também as mistura, toca música e recarrega dispositivos eletrônicos. Acontece que a ideia que os banqueiros certamente teriam menosprezado caiu no gosto do público: em agosto do ano passado, Grepper levantou US$ 13,3 milhões com a plataforma de crowdfunding Kickstarter, valor 250 vezes superior ao que pedira inicialmente. E ele não devolverá nenhum centavo do dinheiro que recebeu. Seu compromisso é entregar os primeiros 63.380 coolers que fabricar às pessoas que se dispuseram a financiá-­lo com contribuições individuais de aproximadamente de US$ 180. Com alguma sorte, isso acontecerá a tempo de que elas possam para fazer piqueniques no próximo verão. Alguns dos coolers serão entregues em mãos por Grepper, que se ofereceu para comprar as bebidas para o piquenique das pessoas que contribuíssem com US$ 2 mil para o seu empreendimento.

O financiamento de pequenos negócios raramente é essa alegria toda. Com exceção de alguns empreendimentos, como o The Coolest, que estabelecem forte proximidade com o consumidor, os nanicos vêm enfrentando dificuldades para levantar dinheiro nos últimos anos. Os mercados de títulos, que têm permitido às grandes empresas contrair empréstimos a juros baixíssimos, não ligam para seus primos menores. Os bancos cortaram o crédito para as pequenas empresas, depois que as novas regras do setor tornaram esse tipo de empréstimo menos lucrativo. E, como a análise de crédito para a concessão de um empréstimo corporativo de US$ 20 mil demanda quase tanto tempo quanto a liberação de um empréstimo de US$ 2 milhões, a tendência dos bancos foi se concentrar nos peixes grandes. Uma série de startups que usam softwares para prestar serviços financeiros foram criadas com o intuito de ocupar esse espaço, são as chamadas “fintech”.

Algumas delas se assemelham às plataformas peer-­to-­peer que fizeram enorme sucesso na área de crédito ao consumidor. A britânica Funding Circle, que também atua nos Estados Unidos, diz ser “o mercado de títulos para as pequenas empresas”. Na Grã­-Bretanha, já concedeu empréstimos, que somam quase 600 milhões de libras. No entanto, empregar com pequenas empresas o modelo “suga­-suga” de dados desenvolvido pelas fintechs para a concessão de empréstimos pessoais não é tão simples. Há muito menos informações disponíveis para a avaliação da capacidade de crédito de uma companhia, diz Samir Desai, presidente da Funding Circle. E o que se consegue descobrir, recorrendo-­se a dados que vão do histórico tributário a registros compilados por agências reguladoras, é com frequência informação de baixa qualidade e muito desatualizada. Os métodos da startup britânica incluem um passo que seria considerado retrógrado pelos puristas do fintech: um analista de carne e osso conversa com todo novo tomador antes de a empresa conceder um empréstimo. O marketing do Funding Circle enfatiza tanto a conveniência ­ o procedimento é menos oneroso do que o de um banco e o dinheiro sai mais rápido ­ quanto a possibilidade do cliente de conseguir de taxas de juros mais atraentes.

A concessão de crédito peer­-to-­peer para pessoas jurídicas, diferentemente do que ocorre quando se trata de emprestar para pessoas físicas, não tem um ponto de entrada tão óbvio quanto, por exemplo, a dívida acumulada por uma pessoa no cartão de crédito, que pode ser refinanciada a taxas menores. Isso torna mais difícil a tarefa de conquistar novos clientes. Muitos tomadores só recorrem a plataformas peer-­to-­peer depois de terem sido rejeitados pelos bancos. Nos Estados Unidos, a plataforma OnDeck, que abriu o capital no Supimpa, meu velho 14/05/2015 Supimpa, meu velho ­ Economia ­ Estadão http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,supimpa­meu­velho­imp­,1686491 2/3 ano passado, teve de contestar insinuações de que seus negócios dependeriam dos corretores de crédito, que cobram caro para atrair empresas à procura de dinheiro rápido. E a própria contratação dos empréstimos muitas vezes é um procedimento trabalhoso, em especial quando as garantias são ativos pessoais do tomador. Por outro lado, as leis que estabelecem um teto máximo para os juros a pessoas físicas não se aplicam ao crédito corporativo, de modo que as taxas podem ser mais elevadas. Acredita­-se que a taxa média praticada na OnDeck esteja acima de 50%.

Em expansão. O Lending Club, líder do setor de crédito pessoal peer-­to-­peer está entrando no mercado de empréstimos corporativos. Em fevereiro, começou a oferecer até US$ 300 mil a empresas americanas que queiram financiar compras feitas no site chinês de comércio eletrônico Alibaba. As mercadorias não entram como garantia na transação, mas o fato de que uma empresa comprovadamente acaba de adquirir dispositivos eletrônicos de uma fábrica chinesa é uma indicação bastante confiável de que em breve estará ganhando algum dinheiro com a venda dos aparelhos.

O Kabbage, uma plataforma rival sediada em Atlanta, especializou-­se na concessão de empréstimos a empresas que realizam a maior parte de suas vendas por meio de sites de comércio eletrônico. Os executivos da companhia acreditam ser possível determinar o risco de crédito delas consultando seus históricos de vendas no eBay (e os comentários deixados pelos clientes) de uma maneira que não está ao alcance, ou não é do interesse, de uma instituição bancária.

Novos modelos estão surgindo. No ano passado, a Square, por meio da qual pequenas empresas e indivíduos podem processar as vendas que realizam por cartão de crédito, começou a oferecer adiantamentos em dinheiro a alguns clientes. Como tem acesso imediato aos valores recebidos ao longo dos anos por esses estabelecimentos comerciais, ela está em condições de fazer uma boa estimativa de seu fluxo de caixa futuro. Mais que isso, uma vez que vai processar os recebíveis com os quais seu adiantamento será reembolsado, ela pode sequestrar esses recursos “na fonte”.

Por um empréstimo de US$ 10 mil, por exemplo, a Square recebe 13% das vendas realizadas por cartão de crédito, até ser reembolsada em US$ 11,3 mil. O interessante é que, embora todos os clientes acabem pagando os mesmos juros de US$ 1,3 mil, a taxa depende do tempo que cada tomador leva para liquidar sua dívida. Quanto mais rápido o estabelecimento vender e mais rapidamente quitar o empréstimo, mais alto será o juro. Tomadores que querem maximizar vendas não parecem se importar com isso. O período médio de quitação é de aproximadamente dez meses. O gigante de pagamentos PayPal, que está sendo desmembrado do eBay, agora oferece um sistema similar aos estabelecimentos que operam com seu sistema. Faturas que valem seu peso em ouro. As pequenas empresas vão ficar felicíssimas em poder monetizar aquele que com frequência é um de seus maiores ativos: o dinheiro que os fregueses lhes devem. Para receber, em geral, é preciso esperar de 30 a 90 dias depois do envio da mercadoria. Um pequeno grupo de estabelecimentos financeiros de menor porte (às vezes não muito respeitáveis) se oferecem para comprar faturas em aberto com desconto ­ pagando, talvez, US$ 0,60 por dólar.

Leilão. Ao transferir as faturas para plataformas eletrônicas, as startups de tecnologia financeira esperam acabar com o atrito do processo. Se uma pequena fábrica de autopeças vende um lote de rolamentos para a Ford, por exemplo, e a montadora de automóveis dá anuência eletrônica de que pagará a fatura dentro de seis semanas, isso torna esse documento quase tão valioso quanto um título de dívida emitido pela Ford. É possível que venha a valer US$ 0,98 por dólar, e não US$ 0,60. Uma vez autenticada, a fatura pode ser leiloada numa plataforma, ou transformada no tipo de instrumento financeiro que arranca suspiros dos bancos de investimento. Ao transformar a fatura num bem, a fábrica de autopeças pega carona na nota de crédito da Ford. Na prática, o processo ainda é complexo. Além disso, trata-­se um filão do qual os bancos não vão abrir mão tão facilmente. Em geral, suas taxas para empréstimos lastreados em faturas são bem menos salgadas ­ porque esse tipo de crédito é tratado com mais leniência pelos órgãos reguladores.

Nenhuma dessas opções de financiamento é viável a empresas que acabam de abrir as portas. Na Grã-­Bretanha, quem tem uma boa história para contar (e, de preferência, um fundador fotogênico) pode recorrer a uma dezena de plataformas de crowdfunding de capital de risco para levantar dinheiro. Esse crowdfunding em geral implica ceder participações no negócio para os novos investidores. A fundação filantrópica Nesta afirma que os britânicos investiram 84 milhões de libras nesse tipo de negócio em 2014, uma alta de 400% em um ano ­ ainda que a Financial Conduct Authority tenha alertado investidores sobre o “grande risco” de prejuízo nessas operações (a oferta de isenções fiscais talvez alivie esse golpe).

Nos Estados Unidos, a estratégia de usar e abusar do cartão de crédito, adotada por empreendedores intrépidos, ainda é um rito de passagem. É possível que isso esteja para mudar. As normas que atualmente restringem o investimento em startups a indivíduos com patrimônio líquido de US$ 1 milhão ou renda anual acima de US$ 200 mil deixarão de valer no fim deste mês. A partir de então, qualquer um poderá tentar a sorte em plataformas de crowdfunding. É uma boa nova para os que têm vontade de investir na nova invenção excêntrica de Grepper e lucrar alguma coisa a mais do que um cooler de piquenique “chique no último”.

© 2015 THE ECONOMIST, TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O ARTIGO ORIGINAL, EM INGLÊS, PODE SER ENCONTRADO EM www.theeconomist.com.

O Vírus mortal da descapitalização

Telmo Schoeler (*)

A gestão financeira corporativa deve seguir a seguinte ordem de decisões e ações:

0 – Definição de risco aceitável pelos acionistas;

1 – Estabelecimento da estrutura de capital;

2 – Busca de recursos;

3 – Aplicação/uso dos recursos;

4 – Avaliação dos resultados;

5 – Revisão crítica da estrutura de capital.

Chamo esta sequência de “PDCA em finanças”, inspirado no processo de melhoria contínua da Qualidade. Apesar de lógico, óbvio, cartesiano, inquestionável e com absoluta sustentação teórica, esse ordenamento estratégico e tático financeiro é pouco praticado.

Para início de conversa, poucos são os acionistas que dedicam tempo para analisar e definir considerações de risco, o que é uma bomba de nêutrons num mundo dinâmico e volátil como o atual. O pior é que grande parte não tem capacidade técnica para fazê-lo, geralmente, por não terem visão panorâmica. Isso ocorre mesmo entre os que são profundos conhecedores da operação do seu negócio.

Em paralelo, por desconheceram a dinâmica do fluxo de dinheiro dentro de uma empresa, não dão importância à adequação da estrutura de capital. Agem iludidos pela simplória noção acadêmica de que o custo do capital próprio excede o de terceiros. Por isso, acham melhor pedir emprestado do que aportar recursos, quer disponíveis, quer representados por ativos desimobilizáveis. Agem assim por esquecerem duas coisas: primeiro que o excesso de endividamento levará o custo do capital de terceiros a patamares superiores aos do próprio; segundo que, embora o capital social e os empréstimos sejam contas passivas, estes últimos são representados por uma nota promissória com data de pagamento em dinheiro de principal mais juros. Já o capital social é representado por uma cautela de ações resgatáveis apenas na eventual liquidação da companhia, caso dela sobre algo. Dessa forma, é passível de dividendos apenas se houver resultado. É uma diferença estratosférica, que é esquecida pela maioria, inclusive entre acadêmicos.

A descapitalização também advém de uma insensibilidade com relação aos efeitos operacionais do moderno mundo dos negócios. Custos financeiros eram pouco relevantes na época em que custos e despesas eram embutidos no preço de venda e, portanto, bancados pelos consumidores. A concorrência derreteu tudo isso. Focar e buscar eficiência tornou-se mandatório para sobrevivência e, no que se refere a dinheiro, trouxe de volta a milenar máxima de que “o retorno deve ser maior do que o custo”. Por isso, não cabe mais a antiga prática de “recursos próprios são para imobilizar e capital de giro quem dá é o banco”. O mercado está cheio de patrimonialistas que passam por recuperação judicial ou que estão falidos.

A vida dos endividados é ainda mais difícil na medida em que sua solução passa por dois caminhos alternativos que os empresários de olho no espelho retrovisor têm enorme dificuldade de trilhar. Por um lado, deveriam enxergar e eliminar o excesso de ativos (recebíveis, estoques, permanente etc) e de custos, mas não o fazem por incapacidade ou falta de vontade de rever seus processos e atos. Fazer isso é mexer num abelheiro real ou mental. Existe a alternativa de atrair capital de novos sócios, mas aí esbarram em barreiras culturais e comportamentais ligadas ao ego, à diluição de controle, ao partilhamento de poder e à divisão de lucros, mesmo que eles sejam maiores. Tudo ilógico e letal, diante da imprescindibilidade de um mundo que muda e que mata os infectados pelo vírus da descapitalização.

*Telmo Schoeler é fundador e presidente da Strategos – Consultoria Empresarial e da Orchestra – Soluções Empresariais. Possui 50 anos de prática profissional, metade em funções executivas de diretoria e presidência de empresas nacionais e estrangeiras.

Capitalismo de consciência, opção para além do lucro

Por Marinete Veloso
Jornal Valor Econômico
29/04/2014

John Mackey frequentou duas universidades, mas só assistiu às aulas de matérias que lhe interessavam, todas na área de humanidades. Não se formou em nenhuma das escolas. Na adolescência e início da idade adulta, mergulhou nos movimentos da contracultura americana.

Com cabelo e barba compridos, aprendeu filosofia oriental, ioga e meditação; estudou ecologia, virou vegetariano, depois vegano e morou em uma comunidade em Austin, no Texas. Tinha uma visão crítica do grande capitalismo. Pensando em criar algo diferente, na contramão do sistema, fundou, em parceria com um amigo, em 1980, aos 25 anos de idade e com dinheiro emprestado da família e de amigos, uma loja de produtos naturais, a Safer Way, que lhe possibilitava uma retirada de US$ 200 por mês. Dois anos depois, a loja passaria a chamar-se Whole Foods Market.

Foi com esse nome que prosperou e se transformou em uma rede de supermercados especializada em produtos naturais e orgânicos, com presença no Canadá, Estados Unidos e Reino Unido e faturamento de US$ 11,7 bilhões em 2012.

“Nunca na vida assisti a uma aula de administração”, diz Mackey, hoje co-CEO da empresa, no livro “Capitalismo Consciente”, agora publicado em português. Mas todo o conhecimento que adquiriu na juventude foi fundamental no momento em que decidiu tornar-se empreendedor. “A primeira lição que aprendi foi que empresas conscientes não se baseiam na exploração de seus “stakeholders”, mas sim em cooperação e trocas voluntárias.” Os consumidores têm outras opções no mercado, os colaboradores contam com alternativas de emprego, investidores têm inúmeras possibilidades para investir seu capital e os fornecedores dispõem de vários clientes para seus produtos e serviços. “As pessoas fazem negócios voluntariamente, a fim de obter ganho mútuo.”

O livro não é uma biografia. Passagens da vida do autor servem como pano de fundo para suas ideias como homem de negócios. Mackey acredita que as empresas podem ser uma fonte para o aprendizado e o crescimento pessoal e organizacional. “O mundo precisa urgentemente de uma filosofia mais rica, mais holística e mais humanista do que a que encontramos nos livros de economia, nos ensinamentos das escolas de administração e até nas palavras e decisões de vários líderes empresariais respeitados”, diz.

Foi com essas ideias na cabeça que MacKey e Raj Sisodia, coautor do livro, fundaram em 2009 a Concious Capitalism, organização sem fins lucrativos, cujo objetivo é inspirar a criação de um número maior de empresas conscientes. Segundo eles, as organizações devem ter propósitos elevados, que sirvam aos interesses de todos os “stakeholders”.

“Queremos empresas com líderes conscientes e comprometidos com os objetivos do negócio, com as pessoas com as quais lidam e com o planeta. Ansiamos por companhias com cultura e resiliência, capazes de transformar o trabalho em fonte de alegria e de satisfação. Enfim, um mundo no qual todos vivam com propósito, criatividade, liberdade e prosperidade”, escrevem.

Essa abordagem de capitalismo consciente é explicada e detalhada no livro, que se divide em quatro partes, intituladas “princípios”: Propósito, Integração de “stakeholders”, Liderança consciente e Cultura e gestão conscientes.

Segundo MacKey, a prática do capitalismo consciente não se resume a ser virtuoso ou trabalhar para fazer o bem. “Trata-se de uma maneira de pensar o negócio com muito mais consciência de seu propósito, de seus impactos sobre o mundo e de suas relações com os diversos públicos. Reflete uma noção mais profunda sobre a razão da existência das empresas e como elas podem criar mais valor.”

Mackey revela, porém, que seu aprendizado administrativo foi doloroso, porque, no início, a empresa apresentou péssimo desempenho e por muito pouco não foi à falência. “Não saber operar um negócio custou caro para nós. Em nosso primeiro ano, perdemos 50% do capital investido.” A partir daí, ele se debruçou sobre dezenas de livros de negócios, reverteu os resultados da empresa, consolidou-a e transformou-a em um caso de sucesso – mas preservando a consciência de que a fórmula do êxito não se restringe a equações frias e busca do lucro num círculo fechado de interesses imediatos.

Produzir bens manufaturados no Brasil custa 23% mais que nos EUA, revela estudo

Por Sergio Lamucci / De Washington
Jornal Valor Econômico
29/04/2014

A indústria brasileira sofreu uma perda substancial de competitividade na fabricação de manufaturados nos últimos dez anos. A alta dos salários e dos preços da energia e a valorização do câmbio aumentaram fortemente os custos de produzir no Brasil, tendência não compensada por ganhos expressivos de produtividade. Em 2014, fabricar manufaturados no país era 23% mais caro do que nos EUA, um salto drástico em relação a 2004, quando o custo da indústria brasileira era 3% menor.

Os dados são de estudo do Boston Consulting Group (BCG). Segundo o relatório, os salários no Brasil mais do que dobraram na última década, período em que o câmbio teve valorização de 20% em relação ao dólar. A produtividade do trabalho, contudo, cresceu apenas 3%. O custo industrial de eletricidade subiu 90% e o do gás natural, cerca de 60%.

“O Brasil perdeu terreno em todas as dimensões”, resume o estudo, que analisa o desempenho dos 25 maiores exportadores, responsáveis pelas vendas de cerca de 90% de manufaturados no mundo. O custo de produzir esses bens no Brasil se iguala ao da Bélgica e da Itália, e é apenas um pouco mais baixo que na França e na Suíça. Na Austrália, o custo é 30% superior ao dos EUA.

No relatório do BCG, o Brasil aparece como um dos países “sob pressão”, ao lado de China, Rússia, Polônia e República Tcheca. O grupo é formado por economias “tradicionalmente de baixo custo”, cuja deterioração da competitividade na última década se deve a um amplo conjunto de fatores, segundo o BCG. Os EUA e o México, por sua vez, são classificados como as “estrelas ascendentes”. O crescimento moderado de salários, ganhos sustentados de produtividade, câmbio estável e vantagens no setor de energia explicam a crescente capacidade desses dois países em competir com os demais.

Ainda é mais barato produzir manufaturados na China do que nos EUA, mas a diferença encolheu nos últimos dez anos, segundo o BCG. Em 2004, o custo de fabricação na China era 14% menor do que nos EUA. Hoje, a diferença é de apenas 4%. Os salários e o preço da energia subiram com força no país asiático nesse período. Ajustados pela produtividade, os custos trabalhistas aumentaram 187%, enquanto os preços do gás natural tiveram alta de 138%. A energia elétrica ficou 66% mais cara.

Os EUA e o México são os países que mostram evolução mais favorável no estudo do BCG. Os salários americanos, por exemplo, subiram 27% de 2004 a 2014, bem abaixo dos 71% registrados pela média dos 25 países analisados. Os preços do gás natural, por sua vez, caíram 25% para os produtores americanos, ao passo que subiram em média 98% para os 25 maiores exportadores. A eletricidade teve alta de 30% nos EUA, variação bem inferior aos 75% da média dos países.

Esses fatores explicam por que muitos analistas falam num renascimento da indústria americana. A chamada revolução do xisto, que tem contribuído para aumentar a produção de gás e petróleo, derrubou os preços do custo de energia, ao passo que os salários estão contidos. No México, a situação também é favorável. Produzir manufaturados no país é 9% mais barato do que nos EUA.

A nova era ‘comportamental tec’ do mundo das finanças

Jornal Valor Econômico
21/08/2013
Por Catherine Vieira | Do Rio

 

A crise de 2008 será um divisor de águas, que deve deixar o mundo financeiro tal como era desenhado menos importante. Isso não significa, porém, que as finanças terão um papel menor nesta nova era que vem ganhando corpo. Ao unir elementos sociais e comportamentais com a tecnologia que permitirá analisar o “big data” – a montanha de dados disponível hoje no mundo virtual, que inclui e-mails, mensagens de celular, fotos, vídeos, cliques na internet, gravações de telefonemas, interações nas redes sociais e várias outras informações -, a ciência financeira poderá promover inovações e verdadeiras revoluções com a criação de ferramentas, modelos e algoritmos.

“Acho que a crise deverá marcar um ponto final para uma espécie de era de ouro das finanças e o início de uma nova era, que vai forçar as finanças a mudar”. Essa é a visão de Harrison Hong, um dos mais jovens e precoces estudiosos do assunto, ganhador do Fischer Black Prize em 2009 – prêmio concedido pela American Finance Association, da qual também é diretor, para a pessoa com menos de 40 anos que mais contribui para a teoria e prática das finanças. Aos 42, é PhD pelo Massachussets Institute of Technology (M.I.T), professor da Universidade de Princeton, e sócio-fundador de uma gestora brasileira, a Behavior Capital Management. No mês passado, esteve no Brasil para discutir com outros reconhecidos acadêmicos do mundo das finanças, como Luigi Zingales, o futuro da pesquisa nesse campo.

“Combinar dados, modelos, economia, matemática e criar uma nova ferramenta, isso é fascinante. A ciência vai ter um grande papel para nos ajudar a tornar os mercados mais inteligentes, o planeta mais limpo, as corporações mais responsáveis e as finanças pessoais melhores”, afirma Hong. Um pequeno exemplo são as pesquisas nas quais ele vem trabalhando e que juntam dados com finanças comportamentais. Uma delas é sobre como eliminar os vieses presentes nos consensos de mercado. Outro projeto busca ver como as operações que um gestor faz podem revelar sobre a rede de conhecimentos de cada um. “Eu posso saber se um gestor de Boston tem amigos em Chicago ou não”, exemplifica ele, revelando outro tema que acredita ser um grande tópico do futuro no mundo financeiro: as redes sociais. “Estamos só começando a ver como funcionam as coisas, é fascinante”.

Outro tema relevante, avalia ele, será quantificar, por exemplo, o ganho que atitudes socialmente responsáveis trazem para as corporações. “Depois da crise, há muito questionamento, como se as pessoas dissessem: nós amamos o capitalismo, mas será que esse é o melhor que podemos ter? Como deveriam se organizar as corporações, qual a função delas? Há muito debate sobre a ética e a moralidade”, diz ele, lembrando que isso já se tornou uma questão para o mundo da gestão empresarial e agora será também uma questão para o mundo financeiro.

Hong acredita que as novas ferramentas e modelos permitirão análises totalmente novas e que não podiam ser feitas usando os modelos antigos. Tudo isso, diz, será muito mais determinante que a regulação, por exemplo, para melhorar a economia, os mercados, a sociedade e, por que não, a maneira de investir. “Quem sabe qual será a nova invenção? Você pode ter algum cara que inventará uma ferramenta que pode ler suas emoções com uma câmera, então você pode acordar de manhã e ter seus sentimentos analisados e isso ajudará a prever e impedir uma eventual operação estranha que você poderia fazer naquele dia por causa disso. Quem sabe? Seria um grande produto e, um dia, alguns garotos vão inventar isso, vai acontecer”, diz Hong.

O especialista lembra que ficou mais difícil para os “hedge funds”, por exemplo, levantar dinheiro depois da crise, mas mesmo em meio ao turbilhão continuou havendo muito espaço para o empreendedorismo, a inovação e “startups”. “Há muita confiança de que a inovação vai ajudar na reação [da economia e dos mercados nos EUA], não somente regulação. Essa é uma moeda muito poderosa para puxar a economia”, diz ele, que acredita – e nisso está em companhia de grandes investidores, como Jim Rogers – que o setor financeiro (como era, pelo menos) vai ficar em baixa por um tempo.

Nesta nova era “behavioral tech” ou “behavioral social tech”, Nova York não seria mais uma meca financeira, mas de tecnologia financeira. Para ele, aqueles que souberem analisar dados e lidar com ferramentas quantitativas terão sempre demanda, embora outras funções devam acabar sendo substituídas por robôs. Há quem pense que algoritmos e ferramentas quantitativas são ‘armas de destruição’. Hong é mais esperançoso. “Eu acho que essas ferramentas vão começar a estudar as mensagens que os mercados estão falando e vão mudar as finanças”, afirma Hong.

Na Behavior, gestora que fundou com o amigo Marco Bonomo, professor da FGV e PhD pela Universidade de Princeton, eles já põem em prática algumas das ideias de Hong. As estratégias de compra e venda de ativos combinam modelos quantitativos que detectam sinais a partir da literatura de finanças comportamentais. Mas por que o Brasil? “Havia muito interesse no país, é interessante aprender mais sobre a cultura e o mercado brasileiro.”

“Nosso freio de mão está puxado”

Manicômio tributário
Por Paulo Rabello de Castro
Publicado no Jornal O Globo em 13/06/2013

A tributação brasileira se tornou explosiva. A carga tributária dá saltos, ano após ano: de 26% do PIB por volta de 1994 a quase 38% hoje. Impostos sobre impostos criam improdutividade e burocracia, freios terríveis ao crescimento. Poucos segmentos, como a agricultura – menos onerada diretamente – se safam. A indústria murchou. O Brasil não vai melhorar enquanto não pusermos o dedo na causa da estagnação produtiva. Nosso freio de mão está puxado.

O ministro da Fazenda promete uma reação em breve. Não virá. Nem pode vir, senão por uma completa simplificação do atual manicômio tributário. O mercado erra mais do que o ministro quando o culpa por frustrar o crescimento esperado. Não há qualquer chance de se crescer mais rápido. A produtividade geral está zerada pela carga tributária descomunal. Foi só muita sorte que tivemos nos anos de Lula, pelos altos preços de commodities. Vários países, Austrália, Canadá, Chile e Peru, por exemplo, todos exportadores de produtos primários, se deram bem também. Entre eles, o Brasil foi dos que tiveram crescimento mais fraco. Aqui, só o consumo avançou com força. Junto com o endividamento geral da massa consumidora.

A capa da revista “Economist” colocou o Cristo Redentor decolando do Corcovado. Imagem equivocada. Nada havia mudado no modelo de alto desperdício e baixo investimento brasileiro que justificasse melhor expectativa sobre a economia no Brasil. Nossa capacidade de colocar investimentos para rodar está e esteve prejudicada. O Estado, obeso e perdulário, gasta na frente e sai cobrando o que pode em impostos. As empresas não investem e as famílias não poupam porque já são tosadas na recepção da sua renda por impostos malucos. Se você é da classe média, provavelmente deixa mais de 50% da sua renda familiar para o governo, entre o que é tributado no recebimento do salário e os impostos escondidos nos preços das mercadorias. O governo fica com o dinheiro, mas não o investe; vira gasto de consumo. Portanto, é impossível a taxa de investimento andar além dos 20% do PIB.

Na raiz de tudo, está a maldita carga tributária, agravada pelos impostos em cascata, que oneram até o ato de estar em dia com o Fisco. Viramos um país sonhador e lamentável. Sonhamos com um desempenho na economia descolado inteiramente da nossa estupidez tributária e do desperdício estatal que a acompanha. E somos lamentáveis por não distinguirmos entre entraves seculares, como educação, saúde, e mesmo infraestrutura, que sempre foram problemas, e a grande razão operacional e direta da estagnação brasileira: a tributação burra e o gasto público descontrolado.

Felizmente, isso tudo tem conserto. Como teve a inflação. Quando paramos de insistir no diagnóstico equivocado, fizemos um gol, o Plano Real. Agora podemos fazer outro, maior ainda, o Plano Real dos impostos. O ministro da Fazenda tem o esboço desse plano em suas mãos. Mas precisa de apoio da opinião pública. E de mais suporte de quem ainda pensa.

DELL LIÇÕES DE ESTRATÉGIA E FINANÇAS

No último mês o mundo empresarial e financeiro foi sacudido pela notícia da operação de fechamento de capital da Dell. Os que olharam para o fato apenas pela ótica da Bolsa de Valores não se aperceberam da profundeza e amplitude do evento e de seus extraordinários ensinamentos, muito mais por fatores positivos do que negativos.

por TELMO SCHOELER
Revista RI – Março 2013

Do lado das fraquezas pode se apontar a demora que Michael Dell teve em perceber ou pelo menos reagir às mudanças que seus concorrentes HP e Lenovo imprimiram às suas operações reduzindo ou eliminando as vantagens do outrora inovador e efi ciente “Delta Way” de atender o mercado.

Adicionalmente, tendo reinado na era dos PC’s, não reagiu adequadamente à mudança no comportamento dos consumidores em direção aos notebooks, tablets e smart phones, um território no qual Apple e Samsung avançaram com tudo.

Esta lentidão tende a ser natural nas empresas de sucesso, pois mexer num modelo que está dando certo requer, acima de tudo, um grau de ousadia que será visto quase como loucura. É aquela errada percepção de que em time que está ganhando não se mexe. Mexe sim, pergunte à Dana, IBM,
Nestlé, Bernardinho e não pergunte à Matarazzo, Varig ou Kodak, porque já não é possível.

Ainda nas deficiências, é hoje visível que quando Michael Dell voltou ao comando executivo da empresa em 2007, faltou determinismo estratégico e clareza, coesão e alinhamento da estrutura organizacional e da equipe executiva para implantar o que era necessário, resultando numa enorme perda de valor de mercado.

Mas, os ensinamentos positivos deste fechamento de capital são muito mais significativos. O primeiro é a constatação de que abrir o capital deve ser uma opção estratégica e não o seguimento de uma moda ou o “surfar de uma onda” do momento. Assim sendo, fechar o capital também é. E, no presente caso, não têm a ver com a corriqueira alegação de desconforto com os custos envolvidos, as amarras da legislação regulatória, etc. Tem a ver sim com a imperiosa necessidade de implantar profundas mudanças de direção que certamente trarão benefícios no médio e longo prazos, embora envolverão custos no curto, afetando resultados imediatos e prejudicando a míope avaliação por um mercado acostumado à prática do olhar trimestral.

Reestruturadores de empresas sabem que o sucesso de uma reversão depende de estratégia correta, execução eficiente, recursos e tempo necessário. Se a pressão por performance nas empresas fechadas é um fato e um desafio, nas empresas abertas é quase uma missão impossível, pela síndrome da trimestralidade. Assim, penso que exista a probabilidade de que outros casos similares entrem em cena, sempre que se imponha ousar mais sem ter as amarras de acionistas com uma visão de curto prazo.

“Se a pressão por performance nas empresas fechadas é um fato e um desafio, nas empresas abertas é quase uma missão impossível, pela síndrome da trimestralidade. Assim, penso que exista a probabilidade de que outros casos similares entrem em cena, sempre que se imponha ousar mais sem ter as amarras de acionistas com uma visão de curto prazo.”

Importante notar que outros investidores estão na mão contrária, acreditam no plano da Dell, percebem seu potencial de sucesso e resultado e, portanto, acham que suas ações estão baratas. Nesse grupo, além do óbvio Michael Dell, estão a Microsoft, alguns fundos de Private Equity e um punhado de bancos de investimento, um grupo disposto a investir nada menos do que US$ 24,4 bilhões no projeto de mover a companhia de uma simples produtora de computadores para uma provedora de soluções de TI.

Todos esses financiadores não são movidos por razões altruístas ou lúdicas, mas sim econômicas de retorno sobre investimento. As motivações do fundador e dos fundos são óbvias e os bancos estão no seu papel. A da Microsoft é uma ótima visão macro de beneficiar-se estrategicamente do fortalecimento de seus clientes diretos e da decorrente ampliação da cadeia de usuários de seus produtos e serviços. É o correto reconhecimento de que o mundo de hoje é uma cadeia de operações e valor: ninguém terá sucesso isolado. É obvio que ela terá que cuidar para não azedar sua relação com outros clientes, mas já demonstrou habilidade e teve sucesso financeiro em apoios anteriores a Yahoo, Nokia e Apple.

Finalmente, a operação é uma lição de criatividade de estruturação financeira. Ao longo do tempo, já ouvi manifestações de desejo ou conveniência de fechamento de capital não implantado por falta de recursos. Além da engenharia da operação parece claro que faltava um coerente plano respaldado por estratégia e viabilidade: o furo é mais embaixo. RI

TELMO SCHOELER
é administrador (UFRGS), Master of Business
Administration (MBA) pela Michigan State
University – USA. Possui 47 anos de prática
profissional, metade exercendo funções
executivas de diretoria e presidência de
empresas nacionais e estrangeiras na
indústria, comércio e serviços, nas áreas de
crédito, investimentos, mercado de capitais
e fusões & aquisições. É sócio-fundador
e Leading Partner da Strategos – Strategy
& Management, bem como fundador e
coordenador da Orchestra – Soluções
Empresariais, a primeira e maior rede
de organizações multidisciplinares de
assessoria em gestão empresarial.
strategos.telmo@orchestra.com.br.

As ideias estão acima dos interesses

30/04/2012 às 00h00
Por Dani Rodrik
Jornal Valor Econômico

A teoria política mais disseminada é também a mais simples: os mais poderosos conseguem o que querem. A regulamentação financeira é guiada pelos interesses dos bancos; a política de saúde, pelos interesses das seguradoras de saúde; e a política tributária, pelos interesses dos ricos. Os que podem influenciar mais o governo – graças a seu controle sobre os recursos, informações e meios ou à simples ameaça de violência – acabam conseguindo o que querem.

O mesmo vale internacionalmente. A política externa é determinada, comenta-se, em primeiro lugar pelos interesses nacionais – não por afinidades com outros países ou preocupações com a comunidade mundial. Acordos internacionais são impossíveis de obter, a não ser que estejam alinhados com os interesses dos Estados Unidos e, cada vez mais, com o de outras grandes potências ascendentes. Em regimes autoritários, as políticas são a expressão direta dos interesses do governante e de seu círculo de amigos.

É um discurso convincente, com o qual podemos explicar como a política gera resultados perversos tão frequentemente. Seja em democracias, ditaduras ou na arena internacional, esses resultados refletem a capacidade de interesses especiais restritos obterem resultados prejudiciais à maioria.

A explicação, no entanto, está longe de ser completa e muitas vezes induz ao erro. Os interesses não são fixos ou predeterminados. São moldados por ideias – crenças sobre quem somos, o que tentamos alcançar e como o mundo funciona. Nossas percepções de autointeresse são sempre filtradas pela lente das ideias.

Pense em uma firma em dificuldades que tenta melhorar sua posição competitiva. Uma estratégia é demitir funcionários e terceirizar a produção em países mais baratos na Ásia. Uma alternativa é a empresa investir em treinamento e desenvolver uma força de trabalho mais produtiva, com maior lealdade e, portanto, menos custos de rotatividade. Pode concorrer com preço ou com qualidade.

O simples fato de que os donos da firma agem em interesse próprio nos diz pouco sobre qual dessas estratégias será adotada. O que, no fim das contas, determina a escolha da empresa é toda uma série de avaliações subjetivas sobre a probabilidade de diferentes cenários, em conjunto com cálculos sobre seus custos e benefícios.

Da mesma forma, imagine que você é um governante despótico em algum país pobre. Qual a melhor forma de manter seu poder e evitar ameaças domésticas e externas? Desenvolver uma economia forte e orientada às exportações? Ou voltar-se para dentro e recompensar seus amigos militares e outras amizades, à custa de quase todos os demais? Governantes autoritários no leste da Ásia adotaram a primeira estratégia; seus pares no Oriente Médio optaram pela segunda. Eles tinham concepções diferentes sobre quais eram seus interesses.

Ou imagine o papel da China na economia mundial. À medida que o país se torne uma potência mais importante, seus líderes terão de decidir que tipo de sistema internacional desejam. Talvez, optem por desenvolver e fortalecer o atual regime multilateral, que os satisfez adequadamente no passado. Mas, talvez, prefiram relações bilaterais, ad hoc, que lhes permitam extrair mais vantagens em suas transações com cada país, isoladamente. Não podemos prever o formato que a economia mundial assumirá apenas a partir da observação de que a China e seus interesses ficarão maiores.

Poderíamos multiplicar esses exemplos de maneira interminável. Será que a sorte da política doméstica da primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, estará mais bem atendida se forçar a Grécia a engolir as medidas de austeridade, ao custo de outra reestruturação das dívidas mais à frente, ou se der à Grécia a chance de crescer a partir de seu endividamento? Será que os interesses dos Estados Unidos no Banco Mundial estarão mais bem atendidos se o país nomear diretamente um americano ou se cooperar com outros países para selecionar um candidato mais apropriado, seja americano ou não?

O fato de debatermos tais questões emotivamente indica que todos temos concepções variadas sobre quais são os autointeresses. Nossos interesses são de fato reféns de nossas ideias.

De onde, então, vêm as ideias? Políticos, assim como todos nós, são escravos da moda. Suas perspectivas sobre o que é viável e desejável são moldadas pelo “zeitgeist”, pelo espírito da época, as “ideias no ar”. Isso significa que economistas e outros formadores de opinião podem exercer muita influência – para bem ou para mal.

Certa, vez, John Maynard Keynes disse de forma célebre que “mesmo o mais prático dos homens de negócios normalmente é escravo das ideias de algum economista há muito morto”. Provavelmente, ele não foi suficientemente enfático. As ideias que produziram, por exemplo, a liberalização desenfreada e os excessos financeiros das últimas décadas emanaram de economistas que estão (em sua maior parte) muitíssimo vivos.

Depois da crise financeira, ficou na moda entre os economistas condenar o poder dos grandes bancos. Sustentam que o cenário de regulamentação permitiu que esses interesses recolhessem grandes recompensas com enorme custo social, porque os políticos sucumbiram ao bolso dos interesses financeiros. Esse argumento, no entanto, convenientemente negligencia o papel legitimador desempenhado pelos próprios economistas. Foram os economistas e suas ideias que possibilitaram que fosse considerado respeitável, para economistas e autoridades reguladoras, acreditar que o que era bom para Wall Street era bom para a Main Street (a economia da população em geral).

Economistas adoram teorias que colocam interesses especiais organizados como origem de todos os males políticos. No mundo real, eles não podem esquivar-se tão facilmente da responsabilidade pelas más ideias que tão frequentemente disseminaram. A influência traz responsabilidade. (Tradução de Sabino Ahumada).

O ‘jeitinho feminino’ e a estratégia de Warren Buffett

23/08/2011
Por Paulo Henrique Corrêa
Valor Econômico

Recentemente lançado, o título do livro “Warren Buffett Investe Como Uma Garota – E Por Que Você Também Deveria Fazer Isso” parece curiosíssimo. Um dos maiores investidores do universo comparado a uma mulher?

Ao contrário do que o nome sugere, a publicação não questiona a masculinidade de Buffett. LouAnn Lofton, editora do site americano de finanças “The Motley Fool” e autora do livro, defende que o estilo dele de investir na bolsa se aproxima muito do modo acautelado feminino de aplicar seu capital.

O megainvestidor não gosta de se arriscar muito na compra de ações e prefere mantê-las por muito tempo em sua carteira, ao contrário do que muitos fazem, livrando-se com brevidade dos papéis que adquirem, não raramente levados pelo temor de perder dinheiro.

Parece que a escritora americana tem razão. Pelo menos a julgar por pesquisas realizadas em diversas partes do mundo. É o que a natureza feminina tem demonstrado ao longo da história: as mulheres são mais avessas ao risco. As investidoras passam mais tempo que os homens estudando uma empresa antes de comprar uma ação, não tendem a concentrar demais o portfólio e tomam todas as precauções para não cair em nenhuma armadilha, movidas pelo impulso.

Há evidências de que mulheres lucram mais em investimentos em ações porque os homens tendem a confiar mais em seus tacos (“overconfidence”) e, com isso, movimentam mais intensamente suas operações, obtendo piores resultados.

As mulheres e Buffett teriam então algo em comum: são melhores investidores que os homens médios. Tanto isso seria verdade que o mundo dos investimentos possuiria hoje um perfil bem menos masculino que no passado.

Buffett corrobora essa dedução. Lou Ann o indagou, durante um evento, sobre o título provocativo. A resposta? “Eu diria que provavelmente sou culpado”, brincou.

Outro motivo para o perfil feminino pode ser a ponderação que a grande maioria delas faz sobre as dificuldades de repor as perdas e o medo de acabar a vida sem recursos, uma síndrome conhecida especialmente nos Estados Unidos como “O pesadelo da Bag Lady”. Como dizem os psicólogos, o medo pode nos afastar – e proteger – dos perigos.

Talvez seja justamente o temor das mulheres de fazer escolhas erradas na hora de investir seu dinheiro o que as têm levado a aplicar em ações – desde que a iniciativa seja muito bem estudada. No mercado americano, onde há 95 milhões de investidores individuais, metade é de mulheres.

No Brasil, embora a parcela de investidoras na Bovespa seja menor do que a dos homens, os dados confirmam o “boom” feminino no mercado acionário. Segundo dados da BM&FBovespa, de 2002 para maio de 2011, a adesão feminina aumentou de 15 mil para 150.792.

Dos R$ 109,61 bilhões aplicados por pessoas físicas, R$ 22,54 bilhões vêm das aplicações das mulheres, representando 24,83%, contra 75,17% da participação masculina. Em 2002, a participação feminina era de 17,63% e a dos homens, de 82,37%. Embora a parcela de mulheres seja modesta, no mesmo período o aumento delas investindo em bolsa foi de 903%, contra 550% no caso dos homens.

Porém, é entre as mulheres mais maduras que o ingresso na bolsa mais cresce. Na faixa etária entre 56 e 65 anos de idade, 23.287 mulheres investem em ações, já significando uma parcela de 23,45% dos volumes investidos. As mulheres com mais de 66 anos representaram 12,68% do total de contas femininas, mas são as responsáveis pelo maior volume aplicado – R$ 8,76 bilhões, ou 38,86% do total proveniente das mulheres em geral.

Já as mulheres com idade entre 26 e 35 anos são as mais numerosas na bolsa de valores, somando 35.648 contas, mas do total de recursos negociados, somente representam 5,92% do total de mulheres. Na sequência, aparecem aquelas com idade entre 36 e 45 anos, chegando a 32.191, que movimentam 13,7% do total do volume feminino; e aquelas entre 46 e 55 anos – 31.700 -, que representam 18,85% dos negócios operados por mulheres.

Como o perfil do Warren Buffett – comparado ao das mulheres – deu certíssimo, tornando-o milionário, provavelmente veremos nas próximas décadas um fenômeno no mercado financeiro: o do crescimento das mulheres de todas as idades entre os investidores, com seu jeito cuidadoso, sua preferência pelo planejamento e o rigor mais severo na hora de correr riscos.

Paulo Henrique Corrêa é economista e sócio-diretor da Valor Investimentos, do Espírito Santo
E-mail paulo@valorinvestimentos. com.br

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

O câmbio valorizado veio para ficar

O câmbio valorizado veio para ficar

Pedro C. Ferreira e Renato F. Cardoso

29/03/2011 – Jornal Valor Econômico

As dificuldades enfrentadas pela indústria brasileira diante da valorização do real observada nos últimos anos têm suscitado um acalorado debate sobre as alternativas de política econômica disponíveis para se deter – ou, pelo menos, retardar – a suposta desindustrialização do país. Identificar as causas da valorização da moeda brasileira, bem como avaliar se elas tendem a se dissipar no futuro, constituem o primeiro passo para uma discussão objetiva do problema.

A valorização do real, ao longo dos últimos anos, decorre de três fatores principais. O primeiro consiste no aumento da confiança dos investidores em relação ao país, iniciada em 1994 com o Plano Real e as privatizações, aprofundada em 2000 com a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas consolidada somente após a constatação, em 2003/4, de que a esquerda, uma vez no poder, havia se convertido – ou resignado – ao pragmatismo do século XXI. A menor percepção de risco atraiu capitais até então temerosos diante das incertezas que grassavam na antiga economia brasileira, apreciando o real.

O segundo fator foi a valorização das commodities exportadas pelo país, sobretudo a partir de 2005/6, decorrente das gigantescas importações asiáticas, sobretudo da China.

O terceiro consiste na política monetária expansionista dos países desenvolvidos, implantada a partir da crise de 2008, que aumentou o diferencial entre a taxa de juros brasileira e a internacional, atraindo capitais que valorizam o real. Note-se que a historicamente baixa poupança doméstica brasileira, fator que leva o país ter uma elevada taxa real de juros e consequente moeda valorizada, não pode ser incluída entre as causas da valorização recente, pois a poupança já era baixa antes da valorização observada nos últimos anos.

A maior confiança dos investidores no Brasil veio para ficar. Não sem razão: o eleitor brasileiro já deu todas as demonstrações de que rejeita aventuras. Por exemplo, ignorou a promessa populista de elevação do salário mínimo para R$ 600 do candidato derrotado à presidência. Também o fator China se mostra uma realidade de longo prazo. O espantoso crescimento da China resulta de um aumento acelerado da produtividade média do trabalhador chinês decorrente de dois fenômenos. O primeiro é a contínua migração de trabalhadores da agricultura tradicional de baixa produtividade para a indústria de alta produtividade. A agricultura chinesa ainda ocupa 55% de sua população, número semelhante ao observado no Brasil e Coreia em 1950. No mundo desenvolvido, a agricultura ocupa apenas 5% da população (no Brasil 10%), o que sugere haver ainda muito espaço para esse movimento continuar.

O segundo fenômeno que eleva a produtividade média do trabalhador chinês, tanto na indústria como no setor de serviços, são os ganhos de eficiência decorrente da gradual substituição de empresas estatais pelo setor privado. No Brasil, esses dois fenômenos já ocorreram no passado, mas na China podem ainda ter sobrevida por pelo menos duas décadas.

A alta produtividade da indústria chinesa não apresenta indícios de reversão. Sinal disso é o fato de o retorno do capital permanecer elevado, diante da incorporação de mais mão de obra oriunda da agricultura, bem como da melhoria da mão de obra já incorporada à indústria e aos serviços em decorrência do aumento da escolaridade. Mantidas as regras do jogo em vigor, a China continuará a crescer aceleradamente, sua renda per capita aproximando-se da de países como a Coreia e Taiwan. Seu apetite por commodities aumentará ainda mais, de modo que as exportações brasileiras de bens primários continuarão crescendo, contribuindo para a valorização do real.

Dos três fatores elencados acima, somente o terceiro tende a se dissipar com o passar do tempo, pois as economias centrais – que estão começando a sair da recessão – serão forçadas, futuramente, a retomar o controle monetário a fim de conter pressões inflacionárias. Isso significa que, de agora em diante, o Brasil precisará conviver com uma taxa de câmbio mais valorizada do que no passado, por absoluta falta de alternativa.

Nesse novo ambiente de câmbio valorizado, a proteção à indústria brasileira terá que vir de reformas microeconômicas que abrandem a pesada tributação, simplifiquem a complexidade fiscal, reduzam a burocracia, estimulem a poupança doméstica e a inovação, e dinamizem o mercado de trabalho. O que se precisa são de reformas que aumentem a produtividade do setor sem prejudicar o restante da economia, o que ocorreria com aumento das barreiras comerciais ou (mais) subsídios à indústria.

Buscar corrigir uma situação de longo prazo, permanente, com medidas recomendadas para choques temporários – acumulação de reservas e controle de capitais, por exemplo – é ineficaz e caro. Já tentamos isto no passado e pagamos um preço altíssimo: a tentativa de crescer a qualquer preço após os choques de petróleo dos anos setenta, ignorando uma mudança estrutural, nos levou a vinte anos de estagnação.

Pedro C. Ferreira e Renato F. Cardoso são professores do pós graduação da Escola de Economia (EPGE-FGV)

O caso do banco PanAmericano e a má gestão premiada

O caso do banco PanAmericano e a má gestão premiada

Fernando Meibak

17/11/2010

Jornal Valor Econômico

Sou ferrenho crítico de ajuda a bancos em dificuldades sob o argumento de se evitar “risco sistêmico” – que é sempre a justificativa utilizada pelas autoridades para encobrir outros interesses, na realidade.

Uma pergunta simples revela esses outros interesses: quem seriam os grandes perdedores com a quebra do banco? Certamente seriam instituições grandes (os dados dos maiores depositantes têm sido divulgados, e são grandes bancos, assets, fundos de pensão etc), que são investidores ou instituições com forte capacidade de avaliação de risco de crédito.

Em 2002, 2003, um amigo de mercado foi trabalhar no PanAmericano , na área de tesouraria. Ficou pouco tempo e saiu com má impressão da qualidade das pessoas. Ao final de 2004, quando eu trabalhava numa instituição financeira, na área de gestão, abrimos um processo de abertura de limite de credito para compra de CDB do banco. Definimos uma linha e tínhamos uma regra combinada de liquidez diária que eles não cumpriram na primeira oportunidade que solicitamos.

Fui à diretoria do banco pessoalmente comentar que tínhamos cortado o limite de crédito pela má conduta. Enquanto estive nessa instituição os limites não voltaram, pois a diretoria é a mesma desde aquela época. Fiquei com a forte impressão que o banco tinha um “management” ruim.

Há cerca de 18 meses, dois anos, ouvi de muitos participantes do mercado que o banco estava com problemas na carteira de FIDC (inadimplência, talvez manipulação de performance) e que não estava pagando os pedidos de resgates nos fundos abertos rapidamente (ouvi que o “atraso” do pagamento de resgates chegava a meses).

Foi nesse período que apareceu a Caixa Econômica Federal para ajudar o banco via a compra de participação. Logo no início do processo de captação de recursos do novo instrumento DPGE, em abril/maio de 2009, o banco foi um forte tomador, a taxas muito elevadas.

Acho que a CEF dever ser alvo de fortes críticas pela não adequada avaliação da qualidade da instituição. Nesse rol também devem ser incluídas as agências de rating, as empresas de auditoria e os bancos que compraram carteiras e títulos. E o Banco Central? Como não conseguiu detectar esses problemas com mais antecedência? Os institutos de previdência, outras pessoas jurídicas e pessoas físicas têm menor capacidade de avaliação de risco de crédito.

O empréstimo do FGC é um desvirtuamento da função precípua do fundo: garantir depositantes. O tamanho do subsídio é impressionante. Empréstimo sem juros? Três anos de carência? Vamos calcular em 6% ao ano o subsídio implícito: significa um “presente” de R$ 150 milhões ao ano.

As garantias oferecidas são realmente discutíveis e devem estar infladas: a BF Utilidades é um negócio em decadência há muito tempo; o “business” da Liderança também; a TV SBT tem baixa lucratividade e vem perdendo espaço nos últimos anos. O banco não dever ter valor algum etc. Até agora não vi notícias de que o acionista colocou dinheiro da pessoa física no banco. É capitalizar o banco com dinheiro de terceiros…e subsidiado.

Um Banco Central forte, independente e zeloso do melhor para a sociedade faz diferença. Cá entre nós, com todo o respeito, o banco PanAmericano não fará qualquer falta ao mercado. Sou forte defensor das soluções de mercado. Se o banco for bom…terá interessados.

O “socorro” ao banco é, portanto, em minha visão muito discutível. O socorro, na realidade, é aos grandes investidores (bancos, assets, fundos de pensão) e bancos que adquiriram carteiras.

À semelhança do gigantesco apoio do Banco Central quando da crise cambial de 99, que vitimou o banco Marka (que também não fez falta alguma ao mercado), quem seriam os grandes perdedores com a quebra do banco Marka (e agora do PanAmericano)? Seriam grandes instituições financeiras, com alta capacidade de avaliação de risco e de absorção de prejuízos dessa natureza.

Estamos vendo mais do mesmo, muito típico de Brasil: a má gestão é premiada com uma forte articulação para encobrir e proteger os recursos de gente muito grande…

Fernando Meibak foi executivo dos bancos UBS, Citibank, ABN Amro Real e HSBC e é hoje sócio-diretor da Sunrise Investments

E-mail meibak@suninv.com.br

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

IPO’s DECEPCIONAM NA BOLSA

IPO’s DECEPCIONAM NA BOLSA

 

Nas 4 ofertas iniciais de ações (IPO’s) realizadas este ano houve desconto em relação ao preço mínimo sugerido e também queda do preço da ação no dia de estréia. Levantamento feito pelo Valor mostra que este fenômeno vem subindo ano a ano: 0% em 2004, 11% em 2005 e 2006, 33% em 2007, 50% em 2008 e 2009 e 100% neste início de ano!

No nosso modo de entender, nenhuma surpresa: apenas o mundo dos investidores está se tornando mais realista. O fundamentalismo econômico (“preços como retrato da companhia e de sua geração efetiva de resultados”) está voltando. Quem bom!

Inspiração: Valor Econômico