Produzir bens manufaturados no Brasil custa 23% mais que nos EUA, revela estudo

Por Sergio Lamucci / De Washington
Jornal Valor Econômico
29/04/2014

A indústria brasileira sofreu uma perda substancial de competitividade na fabricação de manufaturados nos últimos dez anos. A alta dos salários e dos preços da energia e a valorização do câmbio aumentaram fortemente os custos de produzir no Brasil, tendência não compensada por ganhos expressivos de produtividade. Em 2014, fabricar manufaturados no país era 23% mais caro do que nos EUA, um salto drástico em relação a 2004, quando o custo da indústria brasileira era 3% menor.

Os dados são de estudo do Boston Consulting Group (BCG). Segundo o relatório, os salários no Brasil mais do que dobraram na última década, período em que o câmbio teve valorização de 20% em relação ao dólar. A produtividade do trabalho, contudo, cresceu apenas 3%. O custo industrial de eletricidade subiu 90% e o do gás natural, cerca de 60%.

“O Brasil perdeu terreno em todas as dimensões”, resume o estudo, que analisa o desempenho dos 25 maiores exportadores, responsáveis pelas vendas de cerca de 90% de manufaturados no mundo. O custo de produzir esses bens no Brasil se iguala ao da Bélgica e da Itália, e é apenas um pouco mais baixo que na França e na Suíça. Na Austrália, o custo é 30% superior ao dos EUA.

No relatório do BCG, o Brasil aparece como um dos países “sob pressão”, ao lado de China, Rússia, Polônia e República Tcheca. O grupo é formado por economias “tradicionalmente de baixo custo”, cuja deterioração da competitividade na última década se deve a um amplo conjunto de fatores, segundo o BCG. Os EUA e o México, por sua vez, são classificados como as “estrelas ascendentes”. O crescimento moderado de salários, ganhos sustentados de produtividade, câmbio estável e vantagens no setor de energia explicam a crescente capacidade desses dois países em competir com os demais.

Ainda é mais barato produzir manufaturados na China do que nos EUA, mas a diferença encolheu nos últimos dez anos, segundo o BCG. Em 2004, o custo de fabricação na China era 14% menor do que nos EUA. Hoje, a diferença é de apenas 4%. Os salários e o preço da energia subiram com força no país asiático nesse período. Ajustados pela produtividade, os custos trabalhistas aumentaram 187%, enquanto os preços do gás natural tiveram alta de 138%. A energia elétrica ficou 66% mais cara.

Os EUA e o México são os países que mostram evolução mais favorável no estudo do BCG. Os salários americanos, por exemplo, subiram 27% de 2004 a 2014, bem abaixo dos 71% registrados pela média dos 25 países analisados. Os preços do gás natural, por sua vez, caíram 25% para os produtores americanos, ao passo que subiram em média 98% para os 25 maiores exportadores. A eletricidade teve alta de 30% nos EUA, variação bem inferior aos 75% da média dos países.

Esses fatores explicam por que muitos analistas falam num renascimento da indústria americana. A chamada revolução do xisto, que tem contribuído para aumentar a produção de gás e petróleo, derrubou os preços do custo de energia, ao passo que os salários estão contidos. No México, a situação também é favorável. Produzir manufaturados no país é 9% mais barato do que nos EUA.

Oportunidade e risco

Jornal Valor Econômico
20,21 e 22/12/2013
Por Robinson Borges | De São Paulo

 

Depois de ter obtido a maioria dos votos populares nas eleições para a Presidência dos Estados Unidos em 2000 – mas ter perdido, já que George W. Bush obteve mais delegados no colégio eleitoral -, Al Gore tem sido econômico nos comentários sobre o futuro de sua vida na política: “Estou em convalescença da política, sendo que as chances de recaída diminuíram bastante, a ponto de aumentar a minha confiança na minha capacidade de resistir a eventuais tentações”. Seu entusiasmo, no entanto, parece inversamente proporcional quando a questão é deslocada para o futuro da vida política. No lugar das 28 palavras usadas para comentar sobre suas chances de concorrer a novas eleições, ele se estende confortavelmente na conversa. “Tanto a democracia quanto o capitalismo foram hackeados”, alerta Gore em entrevista ao Valor, por telefone.

Como já se tornou hábito, seu tom é contundente e polêmico. Gore toma emprestado um termo tecnológico para argumentar que o sistema político no século XXI foi violado pelo dinheiro das grandes corporações, um fenômeno que não é particularidade do Partido Republicano que o derrotou há 13 anos. Para ele, o condomínio ideológico formado pela aliança do capitalismo com a democracia representativa foi dilacerado por uma concentração da riqueza, extrapolando a esfera do mercado para invadir a esfera da democracia. Esse ambiente seria um dos principais responsáveis pelo enfraquecimento do interesse público e pela disfuncionalidade da governança em muitos países.

“Os resultados são óbvios no sufocante controle das elites sobre as decisões políticas, nas crescentes desigualdades sociais e concentrações de riqueza, na paralisia de qualquer esforço por reformas.”

Desta vez, a verdade inconveniente que o ex-vice-presidente pretende dizer a seus ex-colegas da política americana é que hoje, embora eles ainda sejam chamados de “representantes”, a maioria “representa apenas as pessoas e empresas que fazem doações de campanha, e não os eleitores”. Em média, calcula Gore, os congressistas americanos gastam cinco horas por dia fazendo ligações e indo a festas para pedir doações para campanhas políticas a pessoas ricas – e com interesses específicos. A justificativa para tamanho empenho é que em torno de 80% dos recursos gastos, tanto pelo seu Partido Democrata quanto pelo Republicano, são para pagar 30 segundos de comerciais na TV, diz.

Outra verdade inconveniente: na década de 1970, apenas 3% dos congressistas que se aposentavam iniciavam uma nova carreira no mundo do lobby. Hoje, 50% dos senadores e 40% dos deputados que deixam seus mandatos nas casas legislativas dos EUA começam uma atividade como lobista, defendendo interesses de corporações ou de setores empresariais. Para salvar o futuro, advoga Gore, é necessário corrigir distorções como essas e apostar na união de um capitalismo sustentável com uma tomada democrática de decisões.

Presidente do Generation Investment Management e do Climate Reality Project, Albert Arnold Gore Junior, de 65 anos, tem dedicado boa parte de seu tempo a pensar o futuro. Durante dois anos, os móveis da sala de estar de sua casa em Nashville, no Tennessee, foram retirados e o espaço ficou ocupado com lousas brancas repletas de dados de toda sorte. Tentava alinhavar as hipermudanças que transformam assustadoramente a sociedade contemporânea. O resultado está no épico “O Futuro: Seis Desafios para Mudar o Mundo”, livro com quase 600 páginas recém-lançado no Brasil pela HSM Editora.

O universo de suas análises ultrapassa a fronteira do aquecimento global, tema caro a Gore e que lhe rendeu um Oscar por “Uma Verdade Inconveniente”, um Prêmio Nobel da Paz e muita controvérsia em círculos mais conservadores. Nunca antes na história do homem, garante o ex-vice-presidente, tantas revoluções ocorreram simultaneamente. “Já passamos por períodos revolucionários de transformações, mas nenhum tão poderoso e fértil de ‘fatores gêmeos’ (no caso, risco e oportunidade) como o momento que começamos a vivenciar.”

A rede digital planetária aliada a uma economia mundial integrada faz que essa geração testemunhe o nascimento da primeira civilização verdadeiramente global, escreve. “O futuro que começa a surgir será bem diferente de tudo o que vimos no passado.” A questão essencial é que a estrutura do cérebro do homem não está muito diferente da de seus ancestrais que viveram há 200 mil anos. A conformação atual do mundo, portanto, exigirá que sejam feitas adaptações no projeto de civilização com mais urgência do que parece razoável, defende o autor. Para isso, Gore estabelece os seis principais desafios para mudar o mundo e evitar que a humanidade cave sua destruição.

- A comunicação digital globalizada, que reúne os pensamentos e as emoções de bilhões de pessoas e conecta equipamentos, robôs, sensores onipresentes e bases de dados;

- A crescente globalização econômica, que gerou uma entidade integrada e holística que se relaciona de forma totalmente nova com o capital, o mercado de trabalho, os mercados consumidores e os governos;

- A alteração do equilíbrio do poder político, econômico e militar do mundo – transferido dos Estados Unidos para um conjunto de centros do poder emergentes;

- Um sistema de avaliação econômica impreciso, que nos conduz ao crescimento insustentável do consumo;

- A revolução nos estudos dos genomas e nas ciências da vida, que está transferindo o controle da evolução para as mãos humanas;

-A ruptura radical nas relações entre os seres humanos e os ecossistemas da Terra.

Todas essas revoluções se interconectam, de alguma forma, umas com as outras nessa era digital. Além de ativista ambiental, Gore também se notabilizou por ser um defensor do potencial político da internet. Até 2015, projeta, haverá um aparelho móvel para cada habitante do planeta. E o número de pessoas que acessam a rede mundial de computadores a partir de aparelhos móveis deverá aumentar 56 vezes nos próximos cinco anos. Para ele, a internet e a revolução na forma como nos comunicamos podem oferecer os meios para reacender a democracia – que se encontraria em recessão – e purgar a grande influência das corporações.

Por motivos variados, Gore avalia que a democracia não floresceu no período em que a sociedade viveu na era da televisão, um veículo de “mão única”. O cenário pode mudar agora com a internet, quando se consolida o que qualifica de uma mente global. Tudo é uma questão de risco e oportunidade. A rede seria um campo fértil para reverter “esse enfraquecimento da democracia e restabelecer a base para uma governança saudável”. Gore vê grandes oportunidades, por exemplo, para que os indivíduos readquiram o poder para fazer parte de um mundo de trocas, o que melhoraria a capacidade das pessoas de analisar a lógica dos fatos e facilitaria a abertura de espaço para novos centros emergentes de influência e construção de “praças públicas” – na internet – para discutir as melhores estratégias de aproveitamento das oportunidades.

Algumas manifestações políticas recentes foram predominantemente viabilizadas pela internet. Do Brasil à Turquia, dos Estados Unidos à Espanha, da Rússia ao Egito, foram vários os países que tiveram as ruas ocupadas por protestos. A Primavera Árabe é o caso mais emblemático dessa força. Não se sabe, porém, qual é o fôlego desses manifestos. “Os movimentos reformistas e revolucionários que nasceram pela internet em geral exibiram o mesmo roteiro: entusiasmo e mobilização seguidos de decepção e resultados tímidos”, observa.

Algumas nuvens negras, porém, pairam sobre a fartura de possibilidades da era digital: a falta de segurança e a de privacidade são as mais evidentes. Na semana passada, uma campanha encabeçada por gigantes da tecnologia como a Apple, que tem Gore em seu conselho de administração, pediu o fim do vigilância na internet. A ideia das companhias é pressionar o governo americano a diminuir o poder dado a entidades como a Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês), que espionou a Petrobras e a presidente Dilma Rousseff, os dois casos brasileiros mais expressivos. “Isso mostra como o meu livro, concluído há quase um ano, está mais atual do que nunca”, diz Gore. A edição americana de ” O Futuro” foi lançada no início do ano e já chamava a atenção sobre problemas que dominariam as manchetes do mundo todo ao longo de 2013.

Para o ex-vice-presidente, é preciso abordar com urgência a falta de privacidade e de segurança de dados na internet. “A recente ‘economia do perseguidor’, baseada na compilação de grandes arquivos digitais sobre as pessoas que utilizam o e-commerce, é absurda e inaceitável”, escreve. O uso potencial que os governos podem fazer dos arquivos digitais sobre a vida dos cidadãos, incluindo a escuta de conversas, “representa uma grave ameaça à liberdade e deve ser contido”. Na segunda-feira, um passo foi dado nessa direção. O programa do governo americano de coleta de dados dos registros telefônicos, feito pela NSA e denunciado por Edward Snowden, foi considerado inconstitucional por um tribunal federal nos Estados Unidos.

Menos caloroso, mas também importante, o debate do controle da internet também está longe de um consenso. No livro, Gore lamenta o fato de o Brasil, a Índia e a África do Sul apoiarem a China, a Rússia e o Irã no processo de criação de um organismo de governança mundial para a rede, navegando na contramão do status quo. Hoje são os EUA que governam “sem perder de vista regras e valores que refletem nossa tradição de liberdade de expressão de livre-comércio”. O ex-vice-presidente, no entanto, comenta que ainda não conversou com a presidente Dilma sobre o assunto.

A perda de confiança na liderança dos EUA, para além da rede mundial de computadores, acelerou a mudança no equilíbrio do poder mundial, acredita. Esse processo pode ter sido mais intenso depois da crise de 2008, mas é fruto também de “castastróficos erros políticos, militares e econômicos” cometidos no início do século XXI. “Ainda não se conhece totalmente a gravidade do perigo representado por essa humilhação da democracia norte-americana”, escreve Gore.

Mas o ex-vice-presidente sugere que não há um declínio americano, pode ser apenas uma perda relativa do poder de seu país. O aumento da presença chinesa no PIB mundial e de outras nações emergentes seria mais um efeito colateral dos problemas da Europa do que propriamente dos Estados Unidos. Para ele, a histórica diminuição da influência e das perspectivas dos membros da zona do euro é decorrência da falha na tomada de decisão desses países. Em nome da moeda única, adiaram uma maior integração de suas políticas fiscais. “A incapacidade dos líderes europeus em promover a integração fiscal e em movimentar-se com mais velocidade rumo a uma Europa unificada gerou uma grave crise política e econômica, que ameaça desfazer um dos mais importantes êxitos geopolíticos obtidos pelos Estados Unidos no rescaldo da Segunda Guerra Mundial.”

Gore defende a tese de que o Estado-nação, apesar de ainda ser a forma política dominante, está perdendo autoridade e poder para as corporações multinacionais. O Estado-nação emergiu na onda da imprensa, mas a mente global altera as bases que fundamentaram o Estado-nação, avalia. “Nenhuma nação pode escapar dessas poderosas ondas de mudanças e impor seu ponto de vista de forma unilateral. As decisões de maior importância para o nosso futuro, agora, são aquelas que envolvem o mundo como um todo.”

Diferentemente de Bill Clinton, que em visita ao Brasil declarou seu apoio para que o país tenha participação fixa no Conselho de Segurança das Nações Unidas, Gore prefere não tomar uma posição sobre o tema. Ele admite que décadas depois da criação de instituições multilaterais, elas enfrentam a desconfiança tanto de países em desenvolvimento como de ambientalistas e dos defensores de justiça social. A alegação geral é déficit democrático. “Na ausência de uma liderança forte exercida pelos Estados Unidos, a comunidade das nações aparentemente não consegue entender quanto à coordenação dos interesses internacionais e ao estabelecimento de mecanismos de governança cooperativa necessários para a solução dos grandes problemas de nosso tempo.”

Muitos nos EUA veem no discurso de Gore uma voz socialista, especialmente por seu ataque aos “fundamentalistas do mercado”. No entanto, ele tem destacado que sua agenda é que tanto a democracia representativa quanto o capitalismo de mercado devam ser questões essenciais para moldar o futuro da humanidade. Só que com reformas. E vê os Estados Unidos ainda como a única nação capaz de “fornecer o tipo de liderança necessária ao planeta”.

Eleito para a Câmara dos Deputados americana em 1976, Gore foi senador pelo Estado do Tennessee (1985-1993) e vice-presidente de Bill Clinton por oito anos (1993-2001). Muitos analistas políticos avaliam que Barack Obama não tem um desempenho na Casa Branca como teve seu colega Clinton. Para Gore, um dos principais entraves para o atual presidente é justamente a relevante mudança na democracia americana. Mas nem sempre ele é condescendente. Antes de Obama iniciar seu segundo mandato, o ex-vice-presidente chegou a criticar o democrata, especialmente no âmbito de sua política ambiental.

“No início do governo do presidente Obama, eram grandes as esperanças de uma virada na política norte-americana em respeito ao aquecimento global – o que de fato aconteceu por um tempo”, escreve. O problema é que os impactos positivos das propostas sobre energia e clima foram anulados, na visão de Gore, quando Obama, em campanha pela reeleição, liberou mais áreas públicas para extração de carvão. Essa atitude contribuiu para uma maior dependência de combustíveis fósseis geradores de carbono. Ao Valor Gore diz que está mais confiante depois do discurso de posse de Obama, em janeiro, e da nomeação de Dan Utech, no mês passado, como principal conselheira para mudança climática e energia na Casa Branca, substituindo Heather Zichal.

O aquecimento global, é claro, merece atenção especial de Gore, que considera a tributação de CO2 como o melhor ponto de partida para mitigar o problema: “A poluição causadora do aquecimento global, em particular, deve ter um preço”, diz. Propõe como contrapartida a redução do imposto sobre o trabalho, como os que incidem sobre a folha do pagamento. “É urgente reformar os mercados e tornar o capitalismo sustentável, alinhando incentivos com nossos interesses em longo prazo.”

Autor de “A Terra em Balanço”, “Uma Verdade Inconveniente” e “O Ataque à Razão”, Gore tem dois carros elétricos e uma casa com numerosas placas de energia solar, que, na verdade, podem esconder um telhado de vidro aos olhos da mídia americana. O ex-vice-presidente deixou uma mancha em sua biografia, ao vender por estimados US$ 500 milhões sua participação na Current TV para a rede Al Jazeera, que pertence ao Estado do Qatar. No início do ano, foi bombardeado por questionamentos sobre a hipocrisia de seu discurso, já que a principal fonte de recursos do país são justamente as reservas de petróleo.

No programa “Andrew Marr Show”, da rede BBC, alegou que, diferentemente da maior parte das redes de notícias dos Estados Unidos, a Al Jazeera não exibia longos comerciais de companhias de petróleo. Jornalista antes de entrar na carreira política, Gore comentou também que a cobertura sobre a questão do clima da rede do Qatar é de alta qualidade, sugerindo que a emissora deveria estar em mais pacotes de televisão a cabo.

Mas Gore chega a fazer seu mea-culpa em outros tópicos ambientais. Diz, por exemplo, que, embora tenha apoiado no passado o sequestro de carbono, considera hoje uma falsa solução. Para ele, o custo financeiro e energético dessas tecnologias de sequestro de carbono são muito elevados, o que compromete o interesse das pessoas por tais soluções. Também avalia que, depois da tripla tragédia em Fukushima, no Japão, as chances para a energia nuclear se tornam menos animadoras. O terremoto, o tsunami e o acidente nuclear de março de 2011 causaram na província japonesa mais de 1,6 mil mortes indiretas até o mês passado, segundo o governo japonês.

Como todo ativista ambiental, a Amazônia está no topo de suas preocupações. Acompanha de perto tudo o que ocorre na maior floresta tropical do mundo, que sofre ataques de madeireiros e agricultores de subsistência há décadas. “Apesar das medidas tomadas pelo governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para diminuir a destruição, sua sucessora promoveu mudanças políticas que reverteram alguns avanços”, escreve. Mas, no ano passado, salienta Gore, a taxa de desmatamento diminuiu. Como empreendedor, o ex-vice-presidente diz que não tem previsão de investir na Amazônia.

No horizonte de Gore, o crescimento populacional também é um problema e a educação das meninas um fator para impactar o crescimento demográfico. “Estatísticas sobre população mostram claramente que alfabetização feminina e o acesso de boas escolas são essenciais.” O poder feminino na sociedade também deve ser maior, para que elas possam, de fato, decidir quantos filhos querem.

Ao investigar as possibilidades do futuro, Gore identificou que a convergência da era digital não altera apenas como nos comunicamos e o que sabemos. Muda também o que fazemos, como fazemos e transforma quem somos. Além da possibilidade de curas hoje improváveis de doenças, as ferramentas digitais podem ser aproveitadas para a chamada medicina de precisão ou personalizada, com base nos padrões digitais e moleculares dos genes, proteínas, comunidades de micróbios e uma série de outras fontes de informações clínicas importantes. Outro ponto bem-vindo para muitos estudiosos é o automonitoramento, que permite atualizar as funções vitais das pessoas, permitindo aumentar os cuidados preventivos, melhorando a eficiência e reduzindo custos. É possível comemorar.

Mas, ao ser questionado se é otimista, Al Gore afirma que sim, mas lembra que todos nós vivemos num cenário de risco e oportunidade que depende das ações dos homens e mulheres do século XXI. O ex-vice-presidente diz acreditar em um velho provérbio africano que aconselha: “Quando rezar, mova seus pés. Oração sem ação, assim como otimismo sem compromisso, é uma agressão passiva ao futuro”.

De presente de Natal, uma noite de sono

Jornal Valor Econômico
19/12/2013
Por Sue Zeidler | Reuters, de Los Angeles

 

Você está com aquela sensação de que tudo o que gostaria ganhar neste Natal é uma boa noite de sono? Se sua casa não é o melhor lugar para receber tal presente, hotéis nos Estados Unidos tentam lucrar nestes feriados de fim de ano com “pacotes para dormir”, aproveitando o déficit de horas de sono de um grupo cada vez maior de hóspedes “conectados” e cansados. “Nós nos tornamos uma nação de zumbis ambulantes. Não damos valor ao sono; o tratamos como um luxo”, disse o doutor James Maas, psicólogo e especialista em sono, que cunhou a frase “power nap”, algo como “soneca energizante”, em inglês.

Quase 70% dos americanos dizem não ter horas de sono suficientes durante a semana, com a maioria dizendo que precisa de 7,5 horas para se sentir em sua melhor forma, segundo a Fundação Nacional do Sono dos EUA, que vê o problema sendo exacerbado pelo uso de aparelhos eletrônicos com suas luzes intermitentes.

Hotéis, tanto em grandes cidades quanto em silenciosos desertos, perceberam a tendência e passaram a atenuar a luminosidade, retirar relógios digitais dos quartos, contratar “concierges do sono”, oferecer meditação, “menus” de travesseiros e massagens de relaxamento. Em um mercado de grande oferta de hotéis como Manhattan, o The Benjamin quer ser conhecido por garantir uma boa noite de sono. Recentemente, contratou a especialista em sono Rebecca Robbins, coautora com Maas do livro “Sleep for Success!” (algo como “durma para ter sucesso”, em inglês), para coordenar o programa de sono do hotel, treinar funcionários em como ajudar no sono e assessorar os hóspedes.

O hotel tirou os relógios digitais dos quartos e oferece diferentes tipos de travesseiros e ajuda hóspedes com problemas de mudança de fuso horário a tirar sonecas energizantes. Esse grau de dedicação faz com que Armando Zumaya, da Califórnia, sempre volte ao The Benjamin, mesmo com a localização, no centro, sendo um pouco barulhenta. “Quando vou a outros hotéis de Nova York, não durmo tão bem”, disse Zumaya.

No Montelucia Resort & Spa, em Scottsdale, no Arizona, o Joya Spa oferece aos hóspedes o “Ritual de Sono Recuperador”, com aromaterapia e massagens, e a meditação “Sono Sagrado/ Sonhos que Curam”. “Muitos de nossos hóspedes estão estressados e não conseguem dormir o suficiente. Nós os ajudamos a relaxar em um nível mais profundo”, disse Erin Stewart, diretor do Joya Spa.

O processo pode ir um passo além, com uma terapia intravenosa de vitaminas e antioxidantes, incluindo vitamina B, que o hotel sustenta ser particularmente benéfica para melhorar o sono. “As intravenosas são maravilhosas para o sono por um monte de razões”, disse Lauren Beardsley, especialista em naturopatia, que administra o tratamento. “Ao fornecer ao corpo nutrientes adequados para suportar as funções fisiológicas normais do corpo, podemos restaurar o equilíbrio e restaurar a qualidade do sono”, acrescentou.

Médicos profissionais mostram certa cautela sobre remédios alternativos para o sono oferecidos por hotéis e outros locais. “O sono se tornou uma questão comercial e isso nem sempre é para o benefício do consumidor”, disse Said Mostafavi, médico especializado em sono de Los Angeles. A medicina do sono como especialidade é algo bastante novo, tendo se expandido graças a avanços nas pesquisas desde a descoberta do Movimento Rápido dos Olhos (REM, na sigla em inglês), em 1953.

Stuart Menn, outro médico do sono que trabalha na Califórnia, acredita que alguns podem estar explorando o sono como negócio, mas disse que a maior consciência resultante disso é benéfica. “Fico contente que se comente por aí que o sono é importante. Mas vamos ter aqueles que abusam do sistema ou que acreditam intensamente no que fazem, mas que não conseguem testar seus métodos com rigor”, disse.

“Francamente, muito disso se trata do estado de espírito. Acho que se você foi a um spa e se convenceu de que a aromaterapia é eficiente, você pode dormir melhor naquela noite”, acrescentou.

Muitos hotéis melhoraram suas camas durante a chamada “guerra das camas” no fim dos anos 90, quando a marca Westin Hotels, da Starwood, lançou sua “Heavenly Bed”, as camas “celestiais”. Agora, os empreendimentos direcionam o foco para fatores como a iluminação e qualidade do ar, para criar um melhor ambiente para dormir. “Nosso objetivo é continuar a proporcionar serviços inovadores para assegurar uma boa noite de sono”, disse Rob Palleschi, chefe internacional do Hilton Hotels & Resorts, que é parte do Hilton Worldwide Holdings.

Em um mundo que não dá sinais de resistência às tentações digitais, pode haver muito espaço para crescer na oferta de “confortos” para a hora de dormir. “Há muito trabalho a ser feito para ajudar os hóspedes a sair da era superconectada’”, disse Maas.

Montadoras dos EUA passam a ser uma potência exportadora

Jornal Valor Econômico
03/07/2013
Por Christina Rogers e Neal E. Boudette | The Wall Street Journal, de Marysville, Ohio

 

A indústria automobilística dos Estados Unidos, que há apenas quatro anos estava em frangalhos, emerge agora como uma potência de exportação, impulsionada pelo câmbio e por custos trabalhistas favoráveis, tendência que, segundo especialistas, pode permanecer por muitos anos.

Em um sinal da recuperação, a Honda Motor Co., que já importou para os EUA muitos carros fabricados no Japão, espera até o fim de 2014 exportar um número maior de veículos produzidos na América do Norte – quase todos em linhas de montagem americanas – do que os que traz do Japão.

No ano passado, mais de um milhão de carros e caminhonetes foram exportados pelas fábricas das montadoras nos EUA, número recorde e mais de o triplo registrado em 2003, segundo a Administração de Comércio Internacional dos EUA.

Custos trabalhistas menores e reestruturações que fecharam fábricas improdutivas fortaleceram a competitividade global das unidades das montadoras nos EUA. Algumas estão considerando a produção no país uma alternativa para atender os mercados emergentes em expansão.

Até o fim de 2014, a Chrysler espera exportar até 500.000 veículos por ano para mercados fora da América do Norte, mais que o dobro dos 210.000 do ano passado. A vasta maioria dessas exportações sai de fábricas nos EUA.

“O que mudou é o nosso foco nos mercados internacionais”, disse Mike Manley, diretor-presidente da marca Jeep, da Chrysler. A Chrysler, que tem a Fiat como controladora, está usando as conexões da montadora italiana para ampliar suas vendas na Rússia, China e outros lugares. “Adotamos uma postura muito diferente, mais agressiva, sobre como podemos crescer com os recursos que temos hoje”, disse.

O valor financeiro dos automóveis que entram nos EUA ainda é maior que o dos que são exportados. O déficit comercial do setor automobilístico do país foi de US$ 105,5 bilhões no ano passado, quase o dobro dos US$ 51 bilhões obtidos com as exportações de veículos. Ainda assim, o setor representou apenas 14,5% do déficit comercial geral dos EUA em 2012, ante 22% em 1987.

Poucas montadoras estão planejando uma mudança tão drástica quanto a Honda. No ano passado, ela exportou 90.000 veículos da América do Norte. Ela tem como meta elevar esse número para 200.000 por ano, beneficiando-se de expansões de fábricas no país e da desvalorização da moeda americana. O dólar se fortaleceu este ano e ontem US$ 1 valia US$ 100,44 ienes. Mas ainda assim a cotação da moeda americana está bem abaixo do nível de 2007, quando eram necessários 120 ienes para comprar um dólar.

Os carros fabricados nos EUA estão sendo enviados para a China, o maior mercado automobilístico do mundo, a Arábia Saudita, o segundo maior mercado para os carros dos EUA. Também entram na lista dos principais mercados a Alemanha e a Coreia do Sul, que agora tem um acordo de livre comércio com os EUA.

Na unidade da Ford Motor Co. em Chicago, 25% da produção do utilitário esportivo Explorer é despachada para fora da América do Norte. Em sua fábrica em Illinois, a Chrysler monta Jeeps com motores a diesel para clientes europeus.

De certa forma, a GM e a Ford nunca sentiram a necessidade de vender ao exterior os veículos que produzem nos EUA porque foram líderes na globalização, abrindo fábricas na Europa e outros lugares no início do século passado. O forte crescimento das exportações de automóveis produzidos nos EUA é, em parte, fruto dos processos de recuperação judicial da Chrysler e da GM liderados pelo governo americano há quatro anos, que fechou fábricas improdutivas, e do dólar mais fraco, que tornou os produtos americanos mais competitivos no exterior.

Acordos trabalhistas pavimentaram o caminho para que as duas montadoras contratassem funcionários com salários mais baixos do que os pagos antes. A Ford, que promoveu uma reestruturação sem a intervenção do governo, também fechou acordos sindicais semelhantes.

A enxuta indústria americana contrasta com as da Europa e Japão, que sofrem com o excesso de capacidade, aumento dos custos trabalhistas e diminuição da demanda doméstica. Dados preliminares de junho indicam que as vendas de automóveis nos EUA apresentaram o maior crescimento em cinco anos.

Em 2012, a BMW exportou cerca de 70% da sua produção na Carolina do Sul. A Mercedes-Benz, da Daimler AG, também exportou cerca de 70% do que produziu no Alabama. A Toyota exportou 124.000 carros feitos nos EUA, acima dos 86.000 de 2011.

O aumento das exportações de veículos nos EUA também está gerando empregos bem longe do coração da indústria automobilística. Os modelos da Jeep enviados para a China e outros mercados da Ásia, por exemplo, saem agora por Grays Harbor, em Washington. Nos anos 90, o porto enfrentou dificuldades com a queda das exportações. Hoje, o que se vê é uma intensa movimentação de carros sendo embarcados.

A conexão como saída para a crise

Jornal Valor Econômico
30/04/02013

Por Vanessa Jurgenfeld | De São Paulo.
Empresário francês faz reflexão sobre a governança ideal para o século XXI.

O que você “pregaria” ao mundo se fosse um bilionário, solteiro, de 51 anos, e decidisse escrever o seu primeiro livro? Se você fosse Nicolas Berggruen, escolheria o tema governança – “decisões que tornam nossas vidas melhores ou piores”, como ele define o termo.

Em um momento de crise mundial, o argumento de Berggruen é o de que as nações estariam também (ou essencialmente) numa crise de governança, necessitando alterar determinados padrões de conduta, de forma a torná-los mais eficientes para o século XXI.

As sugestões deste bem-nascido empresário francês, cuja fortuna é estimada em US$ 2 bilhões, sendo o 736º homem mais rico do mundo pela lista da “Forbes”, foram reunidas em “Governança Inteligente para o século XXI”, livro recém-lançado no Brasil e escrito em parceria com Nathan Gardels, editor do Global Viewpoint, serviço do Los Angeles Times Syndicate.

De alguma forma, o livro representa boa parte das ideias discutidas no Nicolas Berggruen Institute, organização sem fins lucrativos criada em 2010 e sediada na Califórnia, onde intelectuais como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente da Espanha Felipe González e o ex-presidente da França Nicolas Sarkozy se envolvem em debates sobre governança global.

Em entrevista ao Valor, Berggruen destacou as principais transformações no jogo de poder mundial – basicamente, a perda de força dos EUA e de vários países da Europa e o aumento de poder de países emergentes, em especial, a China – que funcionam como pano de fundo para as mudanças que sugere.

Segundo ele, ainda estaríamos sentados a “uma mesa com poucas cadeiras, e uma das cadeiras ainda pertence aos Estados Unidos, mas não estamos mais falando de um mundo unipolar”. Outras nações, observa, têm economias, ideologias, culturas e outras formas de governança que agora também competem com a dos americanos.

“Os Estados Unidos perderam poder econômico, poder moral e também, eu acho, honestamente, que perderam o desejo de ser dominantes. Acho que estão muito ocupados em casa e menos engajados no resto do mundo, em um momento do mundo em que talvez seja necessário se dedicar mais.”

Um modelo “mais equilibrado” para guiar as nações estaria em uma mistura entre pontos fortes da governança do Ocidente – naquilo que melhor tem funcionado nas democracias liberais – com a do Oriente.

“A China não tem eleições, o que é ruim, porque não dá voz às pessoas. Mas isso também é uma vantagem, porque o governo não precisa promover felicidade agora, mas pode promovê-la para a geração futura. Por isso, pode investir em infraestrutura intelectual e física [que leva tempo], melhorando a educação, as rodovias, os portos etc.”, afirma.

Nos EUA, embora as eleições tenham o lado positivo de um sistema democrático, há o período de curto prazo do mandato para realização de projetos de longa duração e o risco de o governante preferir medidas mais fáceis, de alta popularidade (e de curto prazo), em vez das de longo prazo, a fim de manter seu prestígio ao término do mandato.

Na via de mão dupla, os chineses teriam a aprender com o Ocidente questões de transparência, democracia e liberdade de imprensa, por exemplo.

Esses são alguns dos argumentos do empresário, que há alguns anos ganhou o rótulo de “homeless billionaire” (bilionário sem-teto). Berggruen não gosta da expressão, que qualifica de “tola” e que foi, segundo ele, cunhada por jornalistas.

Mas o fato é que a sua excentricidade chama atenção. Há 15 anos, não tem uma “residência fixa”. Decidiu viver viajando pelo mundo a bordo de um avião próprio – um Gulfstream IV – e, quando em terra firme, passa os dias em hotéis. O assunto parece delicado, Berggruen é reticente ao falar de sua vida pessoal.

“Isso ocorreu, naturalmente, no meu caso. Não foi um grande projeto. Se você não tem família, não precisa de coisas. Isso dá liberdade e energia para tocar outros projetos. Você foca naquilo de que gosta. É muito prático”, diz ele, cujo currículo envolve ser o principal acionista do grupo Priza (dono do jornal “El País”), proprietário da Berggruen Holding (que investe no mercado imobiliário, hotéis, em locação de veículos etc.) e ser filho de Heinz Berggruen (1914-2007), famoso colecionador de arte alemão, amigo de Picasso.

Apesar de abraçar com afinco o tema da governança (o livro já foi lançado em vários países, como Portugal, Estados Unidos e, em breve, terá também uma edição francesa), Berggruen, assim como seu pai fazia, também dedica parte do seu tempo ao mundo das artes.

Não compra e vende a fim de ser um negociante do ramo, apenas adquire obras para colocá-las diretamente em museus. E embora seja importante colecionador de clássicos como Pablo Picasso, Henri Matisse, Paul Klee e Alberto Giacometti (obras que estão no Museum Berggruen, em Berlim), também se envolve com arte contemporânea – “medianamente contemporânea”, corrige.

“Nada muito fresco/recente, porque são obras que vão para um museu em Los Angeles [Los Angeles County Museum of Art], onde se requer que sejam obras já estabelecidas, ainda que de artistas contemporâneos”. Cita, por exemplo, Gerhard Richter, Joseph Beuys e Ed Ruscha.

De andar rápido e objetivo na fala, Berggruen graduou-se na New York University – em administração de empresas e em relações internacionais. Mas diz que aprendeu sobre o mundo mais pelo simples fato de viver em Nova York no início da vida adulta (a partir dos 17 anos) do que necessariamente nas cadeiras da universidade, onde, garante, era um “aluno terrível”.

Outros projetos inusitados? Berggruen também tem chamado a atenção da mídia internacional por prometer doar sua fortuna. “E eu estou falando sério. Tudo tem que partir”, ressaltou.

Em 2010, Berggruen associou-se ao Givingpledge.org, projeto de Warren Buffet e Bill Gates, em que os membros doam ao menos 50% de seu dinheiro para a filantropia quando morrem. “A questão real é: se você tem mais do que precisa para viver, se você trabalhou duro para conseguir dinheiro, talvez seja bom trabalhar duro para dar o seu dinheiro. Isso é muito interessante”, afirma.

A economia mais criativa do mundo

Jornal Valor Econômico
18/01/2013
Por Martin C. Wittig

Há pouco tempo, em Detroit, uma caminhonete caiu num pequeno declive da estrada e foi engolida por um grande buraco cheio de água. O piso da estrada cedeu depois do colapso de uma antiga tubulação de água e esgoto, e os passageiros do carro, uma mulher, sua filha e sua neta, foram salvos por transeuntes. O carro, coberto de lama, era um símbolo do estado vulnerável da nação.

Quem nasceu nos Estados Unidos no período pós-guerra passou a infância rodeado por produtos e em uma cultura que o mundo inteiro desejava. Mais tarde, viu os computadores de grande porte serem feitos por uma empresa chamada IBM, que começava a dominar o mercado mundial. A pessoa que nasceu em 1955 cresceu convencida de que era o século da América – e aquele século terminou com o triunfo do capitalismo sobre o comunismo soviético. Por outro lado, aqueles que nasceram depois da Guerra Fria, por volta de 1995, tinham seis anos quando as torres gêmeas desabaram. Além disso, viram milhares de soldados no Iraque e no Afeganistão, leram sobre o colapso do setor imobiliário e, depois, do sistema bancário.

A General Motors, que já foi a maior montadora de automóveis do mundo, entrou em colapso e foi nacionalizada. O orçamento, que já apresentava um grande déficit, explodiu, e o desemprego aumentou a níveis europeus. Na América, os computadores, individuais, onde as famílias fazem a lição de casa, foram feitos na China, e o smartphone foi projetado na Califórnia, mas montado na China, embora pelo menos o sistema operacional tenha sido feito pelo Google ou pela Apple. No entanto, ainda não é possível usar o celular no carro, porque as chamadas caem o tempo todo: mais uma evidência da decadência da infraestrutura naquele país.

Claramente, a América não é um bom lugar no momento, mas vai se recuperar, como fez tantas vezes no passado, por três razões. Em primeiro lugar, há a prevalência intelectual e digital. Os Estados Unidos ainda são a nação mais inteligente e inovadora da terra. Ganham mais prêmios Nobel e registram mais patentes do que qualquer outro país. Os rankings internacionais de universidades são dominados por instituições americanas de elite, que lideram o mundo em pesquisas e ensino, e atraem focos tecnológicos em escala inigualável com qualquer outro lugar do planeta. A megatendência mais importante dos próximos anos será a digitalização, e a internet é dominada pela América e por empresas americanas, como Google, Facebook, Amazon, eBay e Zynga. Os próximos marcos digitais serão o data matching, business analytics e cloud computing (cruzamento e correlação de dados, analíticas de negócios e computação em nuvem), todos dominados por empresas americanas que vão gerar muito valor agregado.

Outro ponto é que os Estados Unidos voltarão a fazer as coisas. Obviamente, a China continuará a se aproveitar de suas forças como bancada de trabalho da economia globalizada, mas a virada da produção para a Ásia está perto de atingir seu pico. A indústria automobilística americana está se recuperando, e as fábricas de empresas estrangeiras nos EUA apresentam taxas de crescimento impressionantes. Além disso, a indústria aeronáutica está cheia de pedidos, e as tecnologias do futuro – com aplicações em diversos setores como turbinas eólicas, centrais elétricas de energia solar e baterias para veículos elétricos – podem muito bem evitar a rota de terceirização para o exterior. Fica cada vez mais claro que, agora, o mundo é uniforme, e isto significa que as diferenças salariais estão desaparecendo. As tradicionais vantagens geográficas, tais como a proximidade das instalações de desenvolvimento, produção e marketing, passam a ter uma nova importância.

Por último, destacam-se as forças demográficas. A população da Europa está envelhecendo, e a bomba-relógio demográfica da política de filho único da China vai explodir nas duas próximas décadas. Até 2050, de acordo com estimativas da ONU, os Estados Unidos terão uma população superior a 400 milhões, dos quais 25% terão mais de 60 anos. Na China, mais de 30% da população terá idade acima desta faixa. Os americanos têm mais filhos do que o restante do mundo industrializado, e o país ainda atrai pessoas jovens e ambiciosas, vindas de todas as partes do mundo. A América tem o espaço e a mente aberta para oferecer um futuro a essas pessoas.

Nos dois lados do Atlântico, a crise está afetando três áreas principais: a dívida, as classes médias e as lideranças. As crises unem as pessoas, criam caráter e forçam indivíduos e grupos para uma autoanálise radical. A Europa não vai falir, mas os Estados Unidos estão em posição melhor para conseguir uma recuperação política e econômica. Nas últimas quatro décadas, o país contribuiu consistentemente com cerca de 27% da produção global, enquanto a parcela da Europa caiu 9%.
No futuro não muito distante, provavelmente em 2015, a China vai se tornar a maior economia do mundo. Mas, e daí? A economia global é um modelo de crescimento, não um jogo de soma zero. Uma China próspera é boa para a economia mundial e, cedo ou tarde, a China terá que resolver a contradição entre uma economia aberta e um sistema político fechado.

Depois da batalha da eleição presidencial americana há sinais de que o congresso finalmente poderá chegar a um consenso apartidário sobre assuntos fundamentais, como o investimento pesado na restauração da infraestrutura nos próximos anos, para que nenhuma outra caminhonete caia em buracos de estradas e o “hardware” do país volte a ser tão bom quanto seu “software”. E não estou falando de programas de computadores: falo de pessoas de todas as partes do planeta, que fizeram da América a economia mais criativa do mundo. Criatividade é a capacidade de fazer coisas novas. Os americanos estão prontos para se reinventar, como fizeram muitas vezes no passado, e vão emergir fortalecidos pela crise atual.