Os emergentes se encontram em uma encruzilhada

Jornal Valor Econômico
06/11/2013
Por Tom Wright | The Wall Street Journal

 

Será que a desaceleração econômica nos países emergentes, da China à Turquia e ao Brasil, é temporária ou o prenúncio do pior que ainda está por vir?

Por boa parte da última década, essas economias se expandiram à medida que as pessoas trocavam o trabalho agrícola por empregos urbanos mais produtivos. Elas se recuperaram rápido depois da recessão mundial porque estímulos monetários e fiscais ajudaram a compensar a queda na demanda dos Estados Unidos. O Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, impulsionou ainda mais esse crescimento despejando crédito barato nesses mercados ao emitir moeda para estimular a economia do país.

Mas há dois anos, as coisas começaram a mudar. As taxas de crescimento caíram drasticamente nos mercados emergentes – um recuo de três pontos percentuais desde 2010, para 5%, em uma taxa trimestral anualizada, de acordo com o Fundo Monetário Internacional.

A questão agora é o que causou essa queda e se as taxas de expansão mais baixas são a nova realidade ou apenas uma pausa na marcha do mundo em desenvolvimento para alcançar os países industrializados.

“Essa é realmente uma questão quente nos círculos políticos no momento”, diz Stephen Schwartz, economista-chefe para a Ásia do banco espanhol Bilbao Vizcaya Argentaria SA. O que está sendo debatido é se essa queda é consequência de problemas estruturais, e por isso permanente, ou resultado de uma baixa temporária no ciclo econômico global.

Entre 2000 e 2012, as economias emergentes avançaram conjuntamente a uma média anual de quase 6%, enquanto os EUA cresceram em média 2%. Esse avanço rápido fez surgir a ideia da “convergência”, à medida que países pobres começaram a diminuir a desvantagem em relação aos ricos.

Os otimistas salientam os fatores temporários como a redução das iniciativas de estímulo nos países em desenvolvimento, que causou a queda na demanda por exportações globais e dos preços das commodities.

Os pessimistas argumentam que o mundo em desenvolvimento já colheu os ganhos fáceis da industrialização e que muitos países emergentes enfrentam agora limites de capacidade. Suas populações, em muitos casos, estão envelhecendo e os níveis de educação continuam baixos. E há também o eventual fim da política de dinheiro fácil dos EUA e o esfriamento do superciclo das commodities.

Coloque no time dos pessimistas Anders Aslund, acadêmico visitante do Instituto Peterson para Economia Internacional e professor da Universidade de Georgetown. Ele acredita que o processo de industrialização já acabou e que a maior parte das nações – ricas e pobres – retornará a níveis de crescimento de cerca de 3,5% ao ano.

A decisão do Fed em sua última reunião de política monetária de adiar o começo da desaceleração de seu programa de compra de títulos de dívida deu um tempo extra aos emergentes. Mas esses países, na opinião de muitos economistas, precisam usar esse tempo para fazer reformas que tornem suas economias mais resistentes.

Para Aslund, os salários altos reduzem a capacidade de países como Brasil e Rússia de competir nos mercados globais de muitos produtos. Ao mesmo tempo, esses emergentes não podem competir com os países industrializados nos segmentos de alta qualidade.

O modelo de crescimento China está perdendo força, com fábricas inativas e a produtividade em queda. Muitos países em desenvolvimento continuam atolados em corrupção e o protecionismo está em alta.

O FMI vê um horizonte nebuloso, mas ainda acredita num cenário de crescimento otimista. Para o fundo, a maior parte da queda no crescimento desde 2010 pode ser explicada por fatores cíclicos, como o fim dos pacotes de estímulos nos mercados emergentes. O fundo destaca a China e a Rússia como países que enfrentarão taxas persistentes de crescimento mais baixos nos próximos anos.

Mas Kalpana Kochhar, vice- diretor do fundo, disse recentemente que a desaceleração é bem vinda se ela significar que os países emergentes podem crescer sem causar bolhas. Muitos países asiáticos, por exemplo, acumularam níveis altos de dívidas que ameaçam sua estabilidade econômica.

Os economistas concordam que os mercados emergentes precisam promover reformas em suas economias – como melhorias em infraestrutura e mais investimentos em pesquisa e desenvolvimento – para abrir as portas para a próxima onda de crescimento.

Alguns países, como o Peru e as Filipinas, tiveram sua classificação de crédito melhorada por mudanças que têm atraído investidores estrangeiros e uma taxa de crescimento mais forte do que seus pares. No caso da China, a questão-chave é promover o consumo interno em vez de contar com empresas estatais improdutivas para crescer.

China, aos olhos de quem a vê

Jornal Valor Econômico
03/09/2012.
Por Minxin Pei

Uma das mais flagrantes, ainda que despercebidas, coisas estranhas sobre a China, hoje, é como as percepções sobre seus líderes divergem conforme o observador. Aos olhos da opinião pública chinesa, os funcionários governamentais são venais, incompetentes e interessados apenas em obter nomeações lucrativas. Mas os executivos ocidentais invariavelmente descrevem as autoridades chinesas como inteligentes, decisivas, experientes e perspicazes – mais ou menos os mesmos adjetivos antes usados para descrever Bo Xilai, chefe do Partido Comunista Chongqing que caiu em desgraça, antes de ele ter sido expurgado).

É impossível conciliar esses pontos de vista. De duas, uma: ou é impossível agradar o público chinês ou os executivos ocidentais estão irremediavelmente errados. Mas, tendo em vista que a experiência diária situa os cidadãos chineses em posição infinitamente melhor do que os executivos ocidentais para avaliar as autoridades chinesas e sua conduta, teríamos de concluir que os primeiros estão, muito provavelmente, certos. E isso significa que os ocidentais que passaram um tempo considerável na China e consideram-se experientes “veteranos em China” precisam questionar-se sobre por que estão tão errados.

Uma explicação óbvia é que os funcionários governamentais chineses são extremamente bons em seduzir empresários ocidentais com gestos amistosos e promessas generosas. Os mesmos funcionários que ditam as regras para o cidadão chinês comum frequentemente projetam um charme irresistível para atrair investidores ocidentais.

Empresários ocidentais comparam a China com outros países em desenvolvimento, enquanto os cidadãos chineses não se vêem nesse grupo: eles consideram a China uma potência reemergente a caminho de fazer parte do grupo de países mais avançados

Outro ponto de atração, para os executivos ocidentais, é que muitos funcionários chineses têm formação em engenharia, em contraste com os seus homólogos ocidentais, em sua maioria advogados. Para os empresários, os engenheiros são solucionadores de problemas práticos, ao passo que advogados revelam-se obcecados por complexidade procedural e tendem a explorar brechas contratuais. Além disso, a maioria dos funcionários governamentais chineses aprenderam o jargão empresarial ocidental e são capazes de falar inteligentemente sobre os problemas que as empresas precisam resolver.

Uma razão mais sutil capaz de explicar a percepção dos executivos ocidentais é o referencial subconsciente que usam para a avaliar as autoridades chinesas. Altos executivos de empresas multinacionais tendem a ter noções preconcebidas sobre a China, assumida como apenas mais um país em desenvolvimento, e por isso avaliam as autoridades chinesas comparando-as com as de outros países em desenvolvimento.

Essa comparação inconsciente geralmente resulta favorável às autoridades chinesas, que são, em seu conjunto, melhor instruídas, mais cosmopolitas e mais focadas em negócios (porque o Partido Comunista usa o crescimento econômico e o investimento estrangeiro como critério para promover funcionários). E, como organização, o Estado chinês é muito mais forte e mais focado em objetivos do que os Estados em países em desenvolvimento mais típicos.

Mas, embora possa ser natural, para os empresários ocidentais, comparar a China a outros países em desenvolvimento, os cidadãos chineses têm padrões bem mais elevados, por que não se consideram apenas mais um país em desenvolvimento. Eles vêem a China como especial, uma potência reemergentes a caminho de passar a fazer parte do grupo de países mais avançados do mundo, e as práticas de governança que seus jornais citam como modelos são, invariavelmente, os de sociedades ricas, e não de países em desenvolvimento. Na verdade, uma maneira de insultar os chineses é dizer-lhes que deveriam sentir-se afortunados por que têm um governo melhor do que os indianos ou os brasileiros.

A terceira razão pela qual os empresários ocidentais têm uma impressão errada sobre a China é que sua admiração pelo governo chinês é reflexo de suas frustrações com seus próprios governos. Eles mostram-se impacientes em face da desordem do processo democrático, de regulamentações sufocantes, de impostos elevados e da fiscalização da mídia. Em contraste, no Estado chinês de partido único, os empresários verificam ser mais fácil fazer negócios com funcionários que podem tomar decisões rápidas e implementá-las quase instantaneamente.

Claro, às vezes esses executivos ignoram concretamente o Estado de direito que prevalece no Ocidente. Mas, em comparação com empresários privados chineses, os representantes de grandes empresas ocidentais são um grupo privilegiado, e não são tão frequentemente vitimados pela corrupção oficial. Como resultado, eles têm escassa percepção do pior aspecto do regime de partido único: uma elite voraz sem freios legais.

O aspecto mais lamentável das concepções equivocadas dos executivos ocidentais sobre o governo chinês é que elas tenderão a persistir, ao menos entre aqueles que não têm experiência direta com o lado sombrio do Estado chinês. Os executivos ocidentais são bem sucedidos, inteligentes e têm elevado grau de confiança em seu discernimento político. Além disso, as companhias ocidentais são hierárquicas e autocráticas, semelhantes, nesse aspecto, ao Estado de partido único chinês, de modo que erros de executivos de avaliação de altos executivos são raramente contestados por seus subordinados.

Isso é uma pena. Poucos executivos ocidentais compreendem as consequências políticas de seus equívocos. Seu louvor à qualidade e eficácia de autoridades chinesas é frequentemente percebida pelo Partido Comunista como um endosso internacional a suas políticas e sua legitimidade – apesar de os cidadãos chineses comuns saberem que a realidade é outra. (Tradução de Sergio Blum)

China busca substituir imitação por inovação

09 de janeiro de 2011 | 0h 00
Steve Lohr – O Estado de S.Paulo

País adota a estratégia oficial de deixar de ser a oficina de baixo custo para o mundo

Como estratégia nacional, a China tenta construir uma economia que se baseie mais na inovação do que na imitação. Seus líderes claramente reconhecem que ser a oficina de baixo custo do mundo para montar os produtos inovadores projetados em outros locais – pense em iPads e numa série de artigos de alta tecnologia – tem seus limites.

Será que a China conseguirá se tornar uma inventora prodigiosa? A resposta, na verdade, se desenrolará durante décadas – e percorrerá um longo caminho para determinar não só o futuro da China, mas também o da economia global.

Pistas da abordagem da China emergem de um recente documento do governo contendo metas para aumentar drasticamente o registro de patentes. Ele oferece uma pista reveladora de como a China pretende construir uma sociedade mais inovadora.

O documento, publicado em novembro pelo Escritório Estatal de Propriedade Intelectual da China, com o título “Estratégia de Nacional de Desenvolvimento de Patentes (2011- 2020)”. Ele discute objetivos econômicos amplos bem como metas específicas a serem atingidas até 2015.

Em entrevista recente, David J. Kappos, diretor do Escritório de Marcas e Patentes dos Estados Unidos, apontou para as metas chinesas para 2015 e as chamou de “números atordoantes”.

Expansão. De acordo com uma tradução do documento fornecida pelo escritório de patentes, a meta da China para pedidos anuais de patentes até 2015 é de 2 milhões. Esse número inclui “patentes de modelo-utilidade”, que tipicamente cobrem itens como características de engenharia em um produto e são menos ambiciosas que as “patentes de invenção”.
No sistema americano, não há patentes de utilidade.

Em 2009, cerca de 300 mil pedidos de patentes de utilidade foram depositados na China, aproximadamente a mesma quantidade de patentes de invenções, que vêm crescendo um pouco mais depressa do que os pedidos de utilidade nos últimos anos. Mas mesmo que apenas a metade dos pedidos totais da China seja para patentes de invenção, o plano nacional preconiza um salto enorme, para 1 milhão, em 2015. Por contraste, os pedidos de patente nos Estados Unidos totalizaram pouco mais de 480 mil nos 12 meses até setembro.

O aumento do número de patentes da China ficou evidente há anos. Em outubro, a Thomson Reuters produziu um relatório de pesquisa prevendo que a China ultrapassaria os Estados Unidos em pedidos de patentes em 2011. “Está ocorrendo ainda mais depressa do que nós esperávamos”, disse Bob Stembridge, um analista de propriedade intelectual da agência.

Esforço. Mas se a tendência não é surpreendente, a ambição do plano chinês é chocante. O documento indica, por exemplo, que a China pretende aproximadamente dobrar seu número de examinadores de patentes, para 9 mil, até 2015.
(Os Estados Unidos possuem 6,3 mil examinadores).

A China também quer dobrar o número de patentes registradas em outros países. Os pedidos chineses nos EUA, diz Kappos, são principalmente em campos que a China declarou prioridades para a estratégia industrial, incluindo energia solar e eólica, tecnologia da informação e telecomunicações.

Para aumentar seu volume de patentes, a China introduziu um conjunto de incentivos. Estes incluem bonificações em dinheiro e habitacionais para os inventores e benefícios fiscais para empresas que sejam produtoras prolíficas de patentes. “Os líderes da China sabem que a inovação é o seu futuro, além de chave para padrões de vida mais altos e crescimento econômico no longo prazo”, diz Kappos.

A estratégia da China é guiada e patrocinada pelo Estado. Isso deveria ser motivo de preocupação para os Estados Unidos, e talvez, uma questão comercial? Ou o plano provavelmente vai se juntar a esforços passados de outros governos para dar uma vantagem a suas companhias na competição global? Nos anos 1980, o governo japonês era amplamente visto como o praticante mestre da política industrial, e o Japão S/A parecia fadado a superar um setor americano após outro, incluindo o de computadores.

Como se sabe, as coisas não saíram assim, em parte pelos passos dados pelo governo e a indústria americanos. Tentou-se um acordo no comércio de semicondutores para abrir o mercado japonês, e a IBM investiu numa fornecedora crucial mas em dificuldades na época, a Intel.

O mais importante, porém, é que o Japão nunca se tornou uma força numa parte particularmente imaginativa, incontrolável, da computação: a escrita de software. Generalizações são arriscadas, mas parece que o Japão, como sociedade, não produziu o suficiente daquele tipo de habilidade inovadora, apesar de ser um formidável gerador de patentes. Nessa área, o Japão está um pouco à frente dos Estados Unidos por algumas medidas, embora o ritmo de pedidos de patentes japonesas esteja diminuindo.

Chamar a política industrial do Japão de completo fracasso seria simplista. Em alguns setores – carros, máquinas-ferramentas e eletrônicos de consumo, por exemplo – ela foi muito bem. “Eles ainda estão no jogo nesses setores e fazendo muito sucesso – e nós não”, disse Clyde V. Prestowitz Jr., presidente do Instituto de Estratégia Econômica e um ex-negociador comercial dos Estados Unidos. Não está claro, porém, até que ponto a política do governo pesou nesses sucessos.

Metas. O documento chinês sobre a estratégia de patentes está cheio de medidas. O estudo fala de uma mentalidade de avaliação por números, como a um estudante que mede conhecimento por notas em testes padronizados. “É uma abordagem de força bruta nesse estágio, enfatizando mais a quantidade de ativos de inovação que a qualidade”, diz John Kao, um consultor sobre inovação de governos e corporações.

“Mas seria um erro supor que a China necessariamente seguirá um caminho parecido com o do Japão”, continua Kao. “A China não é apenas muito maior que o Japão, mas também tem uma sociedade empresarial mais individualista, apesar de seu governo comunista.” Algum dia, ele prevê, a China terá seus equivalentes empresariais de Steven P. Jobs e Mark Zuckerberg.

Apesar da ascensão inevitável da China, diz Kao, os Estados Unidos têm uma vantagem comparativa porque são o país mais aberto à inovação. “A cultura americana, mais do que qualquer outra, perdoa a falha, tolera o risco e abraça a incerteza”, afirma ele.

Para Kao, muitos produtos e tecnologias inovadores serão feitos alhures. “Mas o futuro dos Estados Unidos reside em serem o orquestrador – o integrador de sistemas – do processo de inovação”, ele acrescentou. “Vejam o Vale do Silício. É um lugar onde pessoas inteligentes de todos os países, todas as línguas e todos os grupos étnicos se unem. Ele é a capital da montagem da inovação.” / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

Dez razões para ter cuidado com a China

26 de junho de 2011
José Roberto Mendonça de Barros
O Estado de S.Paulo

Há duas semanas, o Estado publicou um artigo do excelente economista Stephen Roach intitulado “Dez razões para apostar na China”. Elas, resumidamente, são: o país tem estratégia, compromisso com a estabilidade das regras e meios para realizá-las. São pontos certamente verdadeiros, embora tenha faltado dizer que, entre “os meios para realizar”, destaca-se a severa ditadura no país.
Ademais, a China tem uma alta taxa de poupança e uma crescente urbanização (que passou de 20% a 46% nos últimos 30 anos), o que eleva persistentemente a demanda por investimentos na infraestrutura. O consumo, como proporção do PIB, é reconhecidamente baixo (37% citado no artigo ou 34% segundo os dados mais recentes), mas deve crescer até mais cinco pontos porcentuais nos próximos anos, se o novo Plano Quinquenal for bem sucedido; da mesma forma, os serviços representam apenas 43% do PIB, e poderão crescer até mais quatro pontos porcentuais nos próximos cinco anos.
Ressalto que essas duas últimas observações representam uma projeção e não uma constatação, como as anteriores. Os três últimos fatores apresentados pelo autor são: a importância do investimento direto estrangeiro (que aporta tecnologia e gestão), o bom sistema educacional e as melhoras na área de inovação.
Com base nesses pontos, Roach conclui que não é hora de apostar contra a China, com o que concordamos completamente. Na MB, continuamos com a visão de que a China deve continuar a crescer vigorosamente, ao menos nos próximos dois ou três anos. Mas o que ocorre a partir daí?
A resposta é muito importante para nós, uma vez que estamos muito ligados a ela via mercado de commodities. Nunca achamos isso ruim, pelas oportunidades que traz ao país e desde que continuem os avanços na criação de tecnologia, na inovação, na geração de novos produtos e na integração das cadeias produtivas, para frente e para trás, como parece estar acontecendo. Junto com o crescimento do mercado interno e a elevação dos investimentos, as cadeias de recursos naturais formam as alavancas do crescimento do país.
Daí porque é preciso muita atenção ao que acontece naquele país. Para muitos analistas, o cenário traçado por Roach deve perdurar por longo período. Para nós, entretanto, é preciso tomar algum cuidado quando se olha além dos próximos poucos anos.
Antes de tudo, pelo que ocorreu no Japão a partir da década de 80. Apenas para relembrar: em meados dos anos 80, o PIB japonês representava algo como 37% do americano (na metodologia PPP, ou um pouco menos em dólares correntes) e era muito popular estimar quando a economia oriental passaria a americana, dado o sucesso do milagre japonês. Entretanto – e como se sabe o milagre se esgotou -, hoje o Japão tem um PIB da ordem de 29% do americano.
É claro que a história não vai necessariamente se repetir, mas muita gente está mais uma vez tentando estimar se a ultrapassagem chinesa se dará nos próximos oito, dez ou doze anos.
Para acalmar espíritos mais afoitos, aqui vão as primeiras cinco razões para ter cautela com a China. O espaço me obriga a dividir esta análise um duas partes. As outras cinco razões serão publicadas no próximo artigo.

1 -Dinâmica populacional. Três décadas da política de um filho por casal produziram uma tremenda redução no crescimento populacional; o número de jovens entrando no mercado de trabalho está caindo drasticamente, pressionando o salário real (cujas implicações discutiremos adiante). Mais importante, o acelerado envelhecimento da população deverá implicar em forte elevação na proporção de idosos em relação às pessoas que estão trabalhando (a chamada relação de dependência), pressionando a renda familiar, pois a previdência social praticamente inexiste. Ao contrário do ocorrido com Japão, Coreia ou Taiwan, o povo chinês está ficando velho antes de ficar rico, como vários analistas já apontaram.

2 – Redução na oferta de terras. Na contramão da forte elevação da demanda por alimento, resultado das elevações do salário real, a oferta de terras agricultáveis vem caindo quase 1% ao ano, resultado do avanço da desertificação, erosão e, especialmente, da expansão urbana sobre as (melhores) áreas rurais. Além disso, o excesso de uso de produtos químicos, resíduos minerais e água poluída prejudicam severamente parte da área cultivada. O custo de alimentação tem, em consequência, sido fortemente pressionado (crescendo hoje a uma taxa superior a 11% anual), puxando a inflação para cima, mesmo elevando-se a quantidade de alimentos importados.

3 – Redução na oferta de água. A China é pobre em água, relativamente ao tamanho de sua população. Com a urbanização, a disputa entre o uso agrícola e o uso das cidades vai se tornando aguda, levando a racionamento e conflitos cada vez mais recorrentes. A água subterrânea está sendo superexplorada (como na Índia) antecipando uma restrição crescente e custosa. A poluição torna de má qualidade boa parte da oferta.

4 – Poluição, aquecimento global e meio ambiente. Os custos econômicos e humanos desses fenômenos são muito grandes e crescentes. Embora possa se argumentar que existem aqui boas oportunidades de investimento para minorar as dificuldades, os exemplos (especialmente na Europa) de ações bem sucedidas na redução desses problemas ainda são relativamente limitados, caros e exigem muito tempo para atingir seus objetivos.
Em particular, gostaria de chamar a atenção para a questão dos problemas climáticos, resultantes do aquecimento global: excesso de chuvas em certos momentos, grandes secas e elevadas temperaturas em outros, frio excessivo, etc, estão afetando recorrentemente a produção agrícola na China, como de resto no mundo todo, reforçando as observações já feitas anteriormente quanto à redução na oferta de terras e limitações na disponibilidade de água de boa qualidade.

5 – A oferta de energia. Apesar de todos os investimentos realizados, persistem problemas na oferta de energia em muitas regiões, gerando inclusive frequentes interrupções do serviço, especialmente no verão. Ademais, existe uma grande dependência do uso de carvão mineral na geração de energia elétrica, produto sujo e em geral da baixa qualidade. A despeito disso, os preços do carvão terão de ser elevados para garantir a expansão da produção. A limitada disponibilidade local de petróleo exige crescentes importações, o que vem levando as companhias chinesas a investir no exterior, buscando garantir o suprimento.
A demanda chinesa (e de outros países da região) vem mantendo o mercado internacional muito pressionado e os preços elevados. Exceto no caso de uma nova recessão nos países ricos, o que nos parece pouco provável, os preços do petróleo devem se manter na faixa dos US$ 100 por barril nos próximos anos.
A energia vai se tornar cada vez mais cara, pressionando os custos, juntamente com a alimentação e os salários. Finalmente, a matriz energética chinesa é particularmente suja; aumentar a produção de outras fontes, como a eólica, é desejável. Mas, por ser mais cara, vai elevar ainda mais o custo para os produtores e consumidores.
Essas pressões inflacionárias e de custo vieram para ficar, o que não é trivial em um país com renda média por habitante ainda muito baixa.
Completo hoje minhas razões para sugerir cuidado com a China. Há duas semanas escrevi que não se pode jogar fora a possibilidade daquele país seguir, de alguma forma, a trajetória recente do Japão, que após um longo período de crescimento rápido passou a enfrentar dificuldades para sustentar seu desenvolvimento. Naquela ocasião, apresentei minhas cinco observações iniciais, chamando a atenção para: o envelhecimento rápido da população; a redução na oferta de terras; a redução na oferta de água; os problemas decorrentes da poluição do meio ambiente e, finalmente, as limitações da oferta de energia, cara e suja.
Essas primeiras observações sugerem crescentes pressões sobre a renda familiar (dificultando a expansão do mercado interno) e crescentes pressões inflacionárias decorrentes de altas nos preços de alimentos e energia. Além disso, qualquer esforço para alterar a matriz energética (como por exemplo, a expansão da energia eólica) vai tornar o custo mais elevado ou demandar grandes subsídios uma vez que as energias alternativas e sustentáveis ainda são mais caras que as fontes de carbono tradicionais, carvão e petróleo. Ademais devemos considerar os seguintes pontos:

6 – Maiores dificuldades nas exportações.
Os custos chineses estão subindo, embora ainda sejam muito competitivos. Entretanto, a alta dos salários, o custo da energia e de materiais e a esperada valorização da moeda continuarão a tornar os produtos chineses mais caros; na verdade já se observam mudanças de muitas plantas de produtos mais simples para países vizinhos como Vietnã, Camboja, Filipinas e Bangladesh. Ao mesmo tempo, acredito que os produtos chineses serão crescentemente objeto de contestações na OMC e de restrições comerciais e não comerciais em muitos países importadores, incluindo o Brasil. As acusações de diversas práticas desleais de comércio são cada vez mais recorrentes. Essa imagem negativa está sendo reforçada pela natureza de boa parte dos investimentos chineses nos países emergentes, onde a característica de enclave, a pouca atenção aos direitos trabalhistas e a destruição do meio ambiente são recorrentes. Isto é verdadeiro mesmo em países africanos mais pobres (sugiro olhar a edição de 11 de fevereiro deste ano do El Pais e no site www.foreignpolicy.com, China”s rise no longer just about China). Em resumo, embora as exportações chinesas devam continuar a crescer ao longo dos próximos anos, elas deverão contribuir algo menos para o crescimento, inclusive porque a internacionalização de várias empresas chinesas deve levar à produção em terceiros mercados, como é certo, por exemplo, no caso das indústrias automotivas que estão entrando no mercado brasileiro.

7 – A valorização do câmbio é inevitável.
O crescimento do comércio exterior chinês, a desvalorização do dólar e as incertezas quanto ao futuro do euro estão levando as autoridades chinesas a uma liberalização controlada do mercado cambial, buscando a internacionalização da moeda. Nos últimos meses os regulamentos foram sendo flexibilizados para permitir maior participação dos bancos nas operações cambiais e no relacionamento comercial com regiões mais próximas como Cingapura. Essa é uma consequência direta da ascensão da China como a segunda maior economia do mundo. Embora a cautela continue sendo a norma é inevitável que o câmbio se aprecie nos próximos anos, reforçando a elevação dos preços de exportação em dólares dos produtos chineses. Mais importante, se admitirmos que a recuperação da economia americana se dê no próximo ano, o dólar deve voltar a se valorizar, quebrando a confortável situação de hoje, onde a moeda americana se desvaloriza e o yuan vai junto, em virtude do “peg” com o dólar, e terceiros países, como o Brasil, pagam a conta (a Alemanha, dada a elevação da produtividade, mantem-se com uma taxa de câmbio efetiva estável, alavancando suas exportações). Ao invés de uma guerra cambial entre China e Estados Unidos existe um casamento de conveniência que empurra o custo do ajuste para terceiros países. Ao mesmo tempo, as tendências inflacionárias mencionadas antes colocam um dilema para as autoridades monetárias: se os juros subirem o suficiente para bater a inflação de forma decisiva, a atividade pode se contrair bastante reduzindo a expansão do emprego e elevando os riscos de conflitos sociais, o que assusta muito o governo. A valorização da moeda passa a ser instrumento útil também no combate à inflação.

8 – A limitação do mercado interno.
O consumo das famílias na China é próximo a 35% do PIB, um número modestíssimo quando comparado com o que ocorre nas principais economias do mundo. Como consequência, a economia depende de elevadas taxas de expansão das exportações e dos investimentos para sustentar seu crescimento. Para vários analistas, a demanda por infraestrutura deverá crescer mais moderadamente no futuro, ainda que a taxa de urbanização deva continuar a crescer, tal o salto na construção que vem ocorrendo (vejam-se os casos do trem bala e dos aeroportos). Ao mesmo tempo, e como argumentado acima, é possível que as exportações venham a crescer mais moderadamente. Neste caso pergunta-se: irá o mercado interno expandir-se a uma velocidade tal que compense a redução relativa de gastos de capital, das exportações e das pressões decorrentes do envelhecimento rápido da população tal que mantenha o crescimento forte como até agora? Mais uma vez vem à mente o caso do Japão, onde a limitação do mercado interno refreou o crescimento quando as exportações deixaram de crescer a taxas muito elevadas.

9 – A produção de conhecimento.
É absolutamente certo que a China tem desenvolvido intensamente seu sistema educacional; é também certo que o número de patentes registradas tem subido muito, dando suporte para melhorias tecnológicas. Entretanto, duas observações poderiam ser feitas: vários analistas apontam que o sistema educacional muito rígido não estimula a criatividade, tal como ocorre em outros países desenvolvidos, o que é uma dificuldade a longo prazo. Ao mesmo tempo, os inúmeros casos de roubo de tecnologia têm levado várias multinacionais a utilizar em investimentos na China apenas tecnologias mais maduras, o que também reduz o progresso tecnológico.

10 – Riscos sociais e políticos.
A elevação da renda das famílias vem produzindo, ao lado de maior padrão de vida, várias manifestações de insatisfação. Em boa medida isso decorre da natural demanda por maior liberdade que acompanha o crescimento da renda. Não se trata necessariamente de demanda por democracia, mas demanda por liberdade de ler, de se movimentar, de protestar contra arbitrariedades do poder local, de defender minorias de diversas naturezas etc. Há também alguma repulsa a corrupção generalizada (que sempre cresce quando partidos hegemônicos assumem o poder). Estas demandas chocam-se com a ditadura do PC chinês e ao longo do tempo elevam as chances de fragmentação e a perda de eficiência do sistema.
Em resumo, acredito que a China continuará a crescer bem no futuro próximo. Entretanto, a prazo mais longo não tenho a mesma certeza e o Japão está aí mesmo para nos mostrar como é arriscado projetar a manutenção de tendências atuais. O futuro continua surpreendente.