O Vírus mortal da descapitalização

Telmo Schoeler (*)

A gestão financeira corporativa deve seguir a seguinte ordem de decisões e ações:

0 – Definição de risco aceitável pelos acionistas;

1 – Estabelecimento da estrutura de capital;

2 – Busca de recursos;

3 – Aplicação/uso dos recursos;

4 – Avaliação dos resultados;

5 – Revisão crítica da estrutura de capital.

Chamo esta sequência de “PDCA em finanças”, inspirado no processo de melhoria contínua da Qualidade. Apesar de lógico, óbvio, cartesiano, inquestionável e com absoluta sustentação teórica, esse ordenamento estratégico e tático financeiro é pouco praticado.

Para início de conversa, poucos são os acionistas que dedicam tempo para analisar e definir considerações de risco, o que é uma bomba de nêutrons num mundo dinâmico e volátil como o atual. O pior é que grande parte não tem capacidade técnica para fazê-lo, geralmente, por não terem visão panorâmica. Isso ocorre mesmo entre os que são profundos conhecedores da operação do seu negócio.

Em paralelo, por desconheceram a dinâmica do fluxo de dinheiro dentro de uma empresa, não dão importância à adequação da estrutura de capital. Agem iludidos pela simplória noção acadêmica de que o custo do capital próprio excede o de terceiros. Por isso, acham melhor pedir emprestado do que aportar recursos, quer disponíveis, quer representados por ativos desimobilizáveis. Agem assim por esquecerem duas coisas: primeiro que o excesso de endividamento levará o custo do capital de terceiros a patamares superiores aos do próprio; segundo que, embora o capital social e os empréstimos sejam contas passivas, estes últimos são representados por uma nota promissória com data de pagamento em dinheiro de principal mais juros. Já o capital social é representado por uma cautela de ações resgatáveis apenas na eventual liquidação da companhia, caso dela sobre algo. Dessa forma, é passível de dividendos apenas se houver resultado. É uma diferença estratosférica, que é esquecida pela maioria, inclusive entre acadêmicos.

A descapitalização também advém de uma insensibilidade com relação aos efeitos operacionais do moderno mundo dos negócios. Custos financeiros eram pouco relevantes na época em que custos e despesas eram embutidos no preço de venda e, portanto, bancados pelos consumidores. A concorrência derreteu tudo isso. Focar e buscar eficiência tornou-se mandatório para sobrevivência e, no que se refere a dinheiro, trouxe de volta a milenar máxima de que “o retorno deve ser maior do que o custo”. Por isso, não cabe mais a antiga prática de “recursos próprios são para imobilizar e capital de giro quem dá é o banco”. O mercado está cheio de patrimonialistas que passam por recuperação judicial ou que estão falidos.

A vida dos endividados é ainda mais difícil na medida em que sua solução passa por dois caminhos alternativos que os empresários de olho no espelho retrovisor têm enorme dificuldade de trilhar. Por um lado, deveriam enxergar e eliminar o excesso de ativos (recebíveis, estoques, permanente etc) e de custos, mas não o fazem por incapacidade ou falta de vontade de rever seus processos e atos. Fazer isso é mexer num abelheiro real ou mental. Existe a alternativa de atrair capital de novos sócios, mas aí esbarram em barreiras culturais e comportamentais ligadas ao ego, à diluição de controle, ao partilhamento de poder e à divisão de lucros, mesmo que eles sejam maiores. Tudo ilógico e letal, diante da imprescindibilidade de um mundo que muda e que mata os infectados pelo vírus da descapitalização.

*Telmo Schoeler é fundador e presidente da Strategos – Consultoria Empresarial e da Orchestra – Soluções Empresariais. Possui 50 anos de prática profissional, metade em funções executivas de diretoria e presidência de empresas nacionais e estrangeiras.

Consultoria implanta método que dobra lucro de empresas

29/08/2014
Por: Giulia Romano

A metodologia ICG, desenvolvida pela Qualitin, tem eficácia comprovada. A consultoria implantou o sistema e treinou executivos de uma das maiores redes varejistas brasileiras no final do ano de 2013. Os resultados surpreenderam: o lucro reportado dobrou na comparação com o mesmo período do ano passado.
“A metodologia do ICG promove o alinhamento da organização com suas estratégias, a fim de assegurar resultados sustentáveis”, afirma o diretor comercial da Qualitin, Américo Predebon. Ele acrescenta que a metodologia auxilia os gestores a priorizarem as ações da empresa como forma de corrigir o rumo da organização.
O ICG funciona a partir de uma metodologia que traça planos e metas, mede resultados e corrige falhas em processos corporativos. A ferramenta, que pode ser acessada pela web, automatiza todos estes passos. O software facilita a gestão de KPIs (do inglês Key Performance Indicators), possibilita o uso de gráficos para análise de tendências, compara resultados atuais com anteriores, avalia faixas de normalidade, analisa e encontra a raiz de causas com o uso da técnica “cinco porquês”, entre outros recursos. O software pode ser acessado via Iphone, android, tablete. “O ICG não olha simplesmente o passado. Ele vê o presente, faz projeções futuras e corrige possíveis desvios”, diz Predebon.
Outra empresa que utiliza a metodologia, a Serasa Experian, também obteve ganhos significativos a partir da adoção da metodologia, em 2008. Daquele ano até 2012, a empresa cresceu quase 300% em vendas e mais de 400% em resultado e diminuiu os indicadores monitorados pelo ICG de 4 mil para 1.500.
Com atuação em 18 países, a intenção da Qualitin é aumentar a produtividade de empresas e pessoas. Seu foco é melhorar resultados e promover o crescimento dos clientes. Além de transmitir os conceitos da Gestão em Qualidade Total, a consultoria treina profissionais para colocá-lo em prática e acompanha de perto o desenvolvimento da metodologia. A QINN, como é conhecida, é especializada em fazer com que planos se transformem em ações, e, consequentemente, em objetivos alcançados.

Líder bom dá recado igual nos EUA ou na Mongólia

Jacilio Saraiva
Jornal Valor Econômico
06/05/2014

Nos anos 1990, o executivo americano David Novak recebeu uma missão. Ele trabalhava para a PepsiCo como presidente das redes de restaurante KFC e Pizza Hut e era conhecido por ser um “agregador” de equipes. O conselho da companhia pediu que montasse um programa de liderança para engordar resultados e envolver mais gestores do grupo. Um retrato dessa iniciativa está no livro “Levando As Pessoas Com Você “, agora lançado no Brasil. “Queria que mais líderes, em todo o mundo, tivessem acesso ao que fizemos dentro da empresa”, disse Novak, 60 anos, ao Valor.

Hoje, como CEO e presidente do conselho da Yum! Brands, que controla as marcas KFC, Pizza Hut e Taco Bell, pertencentes à PepsiCo até 1997, ainda dedica parte de seu tempo, todos os anos, para ensinar pessoalmente habilidades de liderança e gestão a funcionários e franqueados daquelas redes. O “jeito Novak” de liderar é considerado uma das chaves do sucesso da Yum! Brands, que tem sede em Louisville, no Kentucky. Com faturamento de US$ 13 bilhões e mais de 40 mil restaurantes em 125 países, o foco mais recente da companhia, que emprega 1,4 milhão de pessoas, é abrir lojas em mercados emergentes. Depois de fincar mais de 4 mil unidades na China, inaugurou, no ano passado, seus primeiros pontos na Tanzânia, Ucrânia, Argentina e Mongólia. A previsão é instalar mil novos restaurantes, em 2014, fora dos Estados Unidos.

Novak, listado como um dos cem melhores CEOs do mundo pela “Harvard Business Review”, fala da importância do “mentoring” no desempenho dos executivos de primeira linha e de como obter a cooperação de subordinados em projetos corporativos.

Valor: Seu livro é inspirado em 16 anos como líder empresarial. Quais os erros mais comuns que podem ser cometidos nessa posição?

David Novak: Muitas vezes, o líder vive em um casulo e se vê de uma forma que pode não ser a mais verdadeira. É crucial para todos os gestores saber quem são e de onde vieram. Os melhores chefes são aqueles que entendem que são como nenhum outro, donos de um conjunto único de pontos fortes e fracos, interesses e conhecimentos, e que estão sempre envolvidos em um trabalho em andamento. As pessoas à sua volta sentem isso. Seguem alguém que acreditam viver em seus próprios termos, que é fiel às suas crenças e, na maior parte das vezes, não recua.

Valor: Mesmo aposentado, Andy Pearson, ex-presidente da PepsiCo, foi seu mentor. Qual a importância do “mentoring” para um líder?

Novak: Um bom mentor é um “líder-professor” e Andy foi um grande exemplo. Um dos privilégios do líder é ser capaz de compartilhar com os outros o que aprendeu. É por isso que, nos últimos 16 anos, ensino num programa de liderança, que tem o mesmo nome do livro, que atingiu mais de 4 mil gerentes e franqueados das nossas marcas, em todo o mundo. Escrevi o livro para redimensionar o programa e alcançar ainda mais gente. Está ali tudo que aprendi sobre como construir e alinhar equipes para obter resultados, além de conselhos dos melhores “coaches”, CEOs e mentores que tive ao longo dos anos.

Valor: Para alcançar bons resultados em qualquer empresa, é necessário obter a cooperação dos funcionários. Que qualidades o líder deve ter para conseguir isso?

Novak: Bons gestores motivam e envolvem as pessoas. Devem saber cultivar o quadro em todos os níveis e criar uma cultura orientada para o desempenho, que celebra o sucesso para alcançar grandes resultados. Os chefes devem pensar em como “levar” as pessoas com eles para alcançar esses objetivos. Se você não conseguir envolvimento, não haverá compromisso. Se tentar fazer as coisas sem ajuda, sem engajar colaboradores, provavelmente não será bem-sucedido.

Valor: O senhor diz que a pior coisa que um líder pode fazer é querer resolver tudo sozinho…

Novak: Ganhar o alinhamento das pessoas é fundamental. Você pode ter a melhor ideia do mundo, mas não significará nada se não puder embarcar as equipes em seu projeto. É importante explicar o porquê por trás de seu plano e pedir opiniões para envolver mais gente. Sem isso, ninguém estará verdadeiramente comprometido com a meta proposta.

Valor: Segundo o livro, uma pesquisa com 300 líderes de ponta de sua empresa indicou que eles mostravam facilidade para desistir de projetos. Havia empolgação no início, com ideias, mas logo surgia desinteresse nas fases de execução.

Novak: Para obter resultados, é preciso persegui-los diariamente. É essencial, para qualquer líder, ter a consciência do que precisa ser feito e qual a energia necessária para que isso possa acontecer. Ao mesmo tempo, devemos contar com os colaboradores certos, responsáveis por sua parte. O orgulho no rosto das pessoas quando realizam algo que não tinham certeza que podiam executar é recompensa pouco valorizada.

Valor: O senhor diz que, quando um gestor anuncia, para todos, o que pretende fazer, ganha mais motivação para atingir resultados porque estará comprometido publicamente com a iniciativa. O que fazer depois, se tudo der errado?

Novak: Quando você está correndo riscos ao perseguir grandes objetivos e o resultado não é o esperado, o melhor a fazer é reconhecer o erro e explicar o que houve. Mas você tem de mostrar o que pretende fazer em seguida. Falhar faz parte do negócio, mas não tente varrer nada para debaixo do tapete. Fale sobre o que aconteceu com a equipe e analise os problemas enfrentados. É possível salvar sua credibilidade, indo a público novamente, mas com um outro plano, e explicar por que a última ideia não deu certo, e como, a partir de então, tudo será diferente.

Real pode estar diante de nova onda de valorização

Opinião
Jornal Valor Econômico
11/06/2014

Com as novas injeções de dinheiro a caminho na zona do euro, a liquidez é abundante nas moedas mais utilizadas do mundo – euro, dólar e iene. Os juros continuam perto do zero no mundo desenvolvido, um estímulo para que a procura por rendimentos nos mercados em que as taxas sejam mais compensadoras deixe de lado a prudência. Há distorções causadas pelos programas de estímulo monetário que terão de ser corrigidas mais à frente. Um título soberano espanhol de 10 anos, por exemplo, pagava menos na segunda-feira do que o papel mais seguro do mundo, o título do Tesouro americano de 10 anos. Com as principais bolsas do mundo batendo recordes, as ações dos países emergentes estão, na sequência, sendo empurradas para cima. A volatilidade é baixa e o índice CBOE Vix, um dos termômetros, atingiu o mais baixo nível em sete anos.

O clima que propicia que títulos corporativos mais arriscados tenham os menores spreads desde antes da crise financeira de 2008 pode se reverter a qualquer momento, diante de fatos imprevisíveis. O risco das operações parece subestimado em vários mercados e uma correção virá, de forma gradual ou turbulenta. Até lá pode predominar, por um período incerto, o atual ambiente. Revertê-lo exigirá que as principais economias do mundo voltem a crescer com vigor e que os bancos centrais voltem a subir juros, algo que não está prestes a acontecer nem mesmo nos Estados Unidos. O pacote lançado pelo Banco Central Europeu na semana passada mostra o contrário – as coisas vão mal na Europa e mesmo que o alçapão da deflação seja contornado, haverá crescimento baixo por muitos anos. O Japão tem colecionado índices de crescimento relevantes – 1,6% no último trimestre -, embora o resultado da batalha para produzir inflação de 2% seja incerto e a injeção de dinheiro continue aceleradamente.

O Brasil é atrativo no mapa da grande liquidez global. O aumento da taxa básica colocou-o de novo no topo do ranking e é quase certo que um fluxo reforçado de capitais de curto prazo aportem por aqui, depois que as condições monetárias na zona do euro se tornaram ainda mais relaxadas. Dinheiro abundante, baixa volatilidade e estabilidade das principais moedas são condições ideais para o carry trade. O Brasil beneficiou mais os investidores, ao manter o IOF de 6% apenas para empréstimos acima de 180 dias. A medida visa atrair capitais de curto prazo, hoje importantes para o fechamento das contas externas. O “timing” da ação, porém, foi estranho, um dia antes de o BCE decidir por abrandar sua política monetária e no momento em que o mercado especulava com medidas mais fortes, como compra ampla e massiva de títulos privados.

Os sinais dados pelo Banco Central indicam que ele pode estar perdendo liberdade na política cambial, pela persistente distância da inflação em relação ao centro da meta de 4,5%. Existe, por isso, um viés anti-desvalorização. O BC chegou a acumular US$ 98 bilhões em swaps – a posição atual é de US$ 87 bilhões. Eles foram usados para garantir hedge a investidores e empresas mais intensamente durante as turbulências que se sucederam, com intervalos, de maio de 2013 até o primeiro bimestre do ano. Pagos em reais, evitaram a queima de reservas.

A contrapartida do uso dos swaps foi garantir um retorno positivo praticamente sem riscos (Toni Volpon e Márcio Garcia, Valor, 30 de maio). Mas ao tentar desmontar a ração diária e reduzir sua rolagem, o real ameaçou se desvalorizar com alguma rapidez. O BC voltou parcialmente atrás diante da reação.

Com bons juros, as moedas emergentes da Turquia, Rússia e Índia estão se fortalecendo. As condições para carry trade são bem melhores no Brasil, aponta o “Financial Times”, já que oferece títulos com rendimento de 11,5% em dois anos. O real se apreciou bem desde fevereiro. Isso é bom para a inflação, péssimo para as exportações, para a indústria e para o próprio BC, que colecionará prejuízos se a tendência se firmar, como é provável, pois está na ponta vendedora.

Não é descabido imaginar que o BC tenha em breve que não só interromper as rolagens como voltar a comprar reservas para impedir a valorização brusca do real. O BC já poderia ter revertido a estratégia dos swaps, mas ao estar amarrado pela inflação, perto do teto da meta, o BC perde flexibilidade na política cambial – mesmo com US$ 378 bilhões em reservas internacionais.

Produzir bens manufaturados no Brasil custa 23% mais que nos EUA, revela estudo

Por Sergio Lamucci / De Washington
Jornal Valor Econômico
29/04/2014

A indústria brasileira sofreu uma perda substancial de competitividade na fabricação de manufaturados nos últimos dez anos. A alta dos salários e dos preços da energia e a valorização do câmbio aumentaram fortemente os custos de produzir no Brasil, tendência não compensada por ganhos expressivos de produtividade. Em 2014, fabricar manufaturados no país era 23% mais caro do que nos EUA, um salto drástico em relação a 2004, quando o custo da indústria brasileira era 3% menor.

Os dados são de estudo do Boston Consulting Group (BCG). Segundo o relatório, os salários no Brasil mais do que dobraram na última década, período em que o câmbio teve valorização de 20% em relação ao dólar. A produtividade do trabalho, contudo, cresceu apenas 3%. O custo industrial de eletricidade subiu 90% e o do gás natural, cerca de 60%.

“O Brasil perdeu terreno em todas as dimensões”, resume o estudo, que analisa o desempenho dos 25 maiores exportadores, responsáveis pelas vendas de cerca de 90% de manufaturados no mundo. O custo de produzir esses bens no Brasil se iguala ao da Bélgica e da Itália, e é apenas um pouco mais baixo que na França e na Suíça. Na Austrália, o custo é 30% superior ao dos EUA.

No relatório do BCG, o Brasil aparece como um dos países “sob pressão”, ao lado de China, Rússia, Polônia e República Tcheca. O grupo é formado por economias “tradicionalmente de baixo custo”, cuja deterioração da competitividade na última década se deve a um amplo conjunto de fatores, segundo o BCG. Os EUA e o México, por sua vez, são classificados como as “estrelas ascendentes”. O crescimento moderado de salários, ganhos sustentados de produtividade, câmbio estável e vantagens no setor de energia explicam a crescente capacidade desses dois países em competir com os demais.

Ainda é mais barato produzir manufaturados na China do que nos EUA, mas a diferença encolheu nos últimos dez anos, segundo o BCG. Em 2004, o custo de fabricação na China era 14% menor do que nos EUA. Hoje, a diferença é de apenas 4%. Os salários e o preço da energia subiram com força no país asiático nesse período. Ajustados pela produtividade, os custos trabalhistas aumentaram 187%, enquanto os preços do gás natural tiveram alta de 138%. A energia elétrica ficou 66% mais cara.

Os EUA e o México são os países que mostram evolução mais favorável no estudo do BCG. Os salários americanos, por exemplo, subiram 27% de 2004 a 2014, bem abaixo dos 71% registrados pela média dos 25 países analisados. Os preços do gás natural, por sua vez, caíram 25% para os produtores americanos, ao passo que subiram em média 98% para os 25 maiores exportadores. A eletricidade teve alta de 30% nos EUA, variação bem inferior aos 75% da média dos países.

Esses fatores explicam por que muitos analistas falam num renascimento da indústria americana. A chamada revolução do xisto, que tem contribuído para aumentar a produção de gás e petróleo, derrubou os preços do custo de energia, ao passo que os salários estão contidos. No México, a situação também é favorável. Produzir manufaturados no país é 9% mais barato do que nos EUA.

Dinheiro para uma revolução

Jornal Valor Econômico
12/07/2013
Por Alexandre Rodrigues | Para o Valor, de São Paulo

 

Em 1999, o americano Shawn Fanning, então um universitário de 18 anos, criou o Napster, serviço que permitia que pessoas trocassem arquivos de músicas entre si, pela internet, em vez de comprar CDs. Acuado por processos judiciais, o Napster durou apenas dois anos, mas seu legado, a tecnologia P2P (“peer to peer”, em inglês, equivalente, basicamente, a cooperação entre pessoas com os mesmos interesses), sobreviveu em outros serviços de “torrent”, como Kazaa, eMule e BitTorrent, que acabaram fazendo da troca de arquivos (músicas, filmes, livros, qualquer coisa) um hábito comum na internet.

Satoshi Nakamoto é candidato ao posto de Fanning. Com o mesmo princípio de troca de arquivos do Napster, sua criação, o bitcoin, é hoje a moeda digital de maior aceitação. Pizzarias nos Estados Unidos, bares na Alemanha e pequenos serviços no Brasil, além de uma infinidade de opções na internet, já recebem o dinheiro eletrônico como forma de pagamento. Um bitcoin chegou a valer US$ 256 (R$ 581) em abril, no auge de uma bolha especulativa.

Há resistências, especialmente por parte de órgãos reguladores americanos, à expansão das transações com moedas virtuais. Mas também há iniciativas com que se pretende validar essa espécie de dinheiro alternativo, como a dos irmãos Cameron e Tyler Winkle – conhecidos por terem processado Mark Zuckerberg, a quem acusam de lhes ter roubado a ideia do Facebook -, que na semana passada deram entrada a pedido de autorização, junto a órgãos reguladores americanos, para criarem um fundo de investimentos lastreado em bitcoins. Calcula-se que eles possuam US$ 11 milhões em bitcoins. E a maior corretora de bitcoins do mundo, a japonesa Mt.Gox, apresentou ao Departamento do Tesouro dos EUA pedido de registro como empresa de serviços financeiros, para submeter-se, assim, à legislação sobre lavagem de dinheiro.

“O bitcoin libera o dinheiro mais do que o Napster liberou a música”, diz o inglês Amir Taaki, de 25 anos, um dos programadores que trabalhou na melhoria do código do bitcoin a convite de Nakamoto. “É uma ferramenta de revolução. As pessoas fazem negócios diretamente umas com as outras, sem impostos ou taxas de bancos.”

Dinheiro digital não é uma novidade. Há dez anos, dólares linden circulam no mundo virtual Second Life. Na China, milhões de pessoas compram no comércio com os QQ coins, do gigante de internet Tencent. No entanto, assim como os créditos do Facebook e alguns programas de pontos, como o dotz, sempre há alguma empresa no controle. A diferença para o bitcon, que Nakamoto criou em 2009, é sua essência anárquica. Não há banco central ou governos envolvidos. O mercado é livre.

Trata-se de códigos, transmitidos diretamente de usuário para usuário. Uma forma de obter bitcoins é participar da sua “mineração”, baixando um software e cedendo processamento do computador para ajudar a decifrar um bloco de códigos. Quem decifra primeiro o enigma recebe um lote de 25 bitcoins (equivalentes a R$ 5 mil, pela cotação média dos últimos 30 dias). Também é possível comprar de outra pessoa ou em corretoras que negociam a moeda virtual.

O dinheiro fica guardado em uma carteira virtual, seja numa corretora ou no próprio computador do usuário. Como as notas em papel, cada bitcoin tem um código que o identifica como verdadeiro. Quando alguém quer vender, negocia direto com o comprador e o bitcoin sai da carteira de um para a do outro assim que o pagamento é confirmado. Cada operação é registrada em um livro-caixa virtual, que é aberto, para evitar fraudes, mas compradores e vendedores permanecem anônimos.

Criar algo assim era o que os “cyberpunks” (algo como punks fãs da criptografia) buscavam nos primeiros anos da internet: um dinheiro virtual confiável, impossível de rastrear, livre para circular em um mundo conectado e sem controle de governos ou taxas bancárias. Nos anos 1990, surgiu o ecash, que até hoje é usado. Houve ainda o bit gold, o b-money e o RPOW. Todas as iniciativas fracassavam, no entanto, em resolver o problema do “duplo gasto”. Se o dinheiro virtual é só um arquivo, como impedir que seja copiado e usado infinitas vezes sem alguém no controle?

Nakamoto surgiu com a solução: uma rede de computadores produzindo bitcoins sem interferência de ninguém e um livro-caixa que elimina a necessidade de uma autoridade: todos podem consultá-lo e saber a situação de cada arquivo negociado. Ninguém havia ouvido falar dele até que, em 2008, publicou numa lista de e-mails sobre criptografia um artigo com os fundamentos do bitcoin. O sobrenome é tão comum no Japão quanto Silva no Brasil. Por isso, ninguém acredita que seja verdadeiro. Nem mesmo seria só uma pessoa e sim a equipe que criou a moeda digital. Ou uma empresa – o Google é sempre citado – interessada numa forma de dinheiro que circule facilmente no mundo todo.

Jornalistas e fãs tentam resolver o mistério. Fóruns sobre o bitcoin interpretam o inglês dos e-mails de Nakamoto em busca de sua nacionalidade.

No caso de ser uma só pessoa, oculta sob pseudônimo, o principal suspeito é Jed McCaleb, criador do serviço de compartilhamento de arquivos eDonkey e ex-dono da corretora japonesa Mt. Gox, que concentra 60% das transações de bitcoins no mundo. McCaleb também é criador do ripple, moeda virtual que muitos consideram uma provável substituta do bitcoin. Outro suspeito, pelas expressões britânicas nos e-mails de Nakamoto, é o irlandês Michael Clear, estudante de ciência da computação do Trinity College, em Dublin. Dois anos atrás, a revista americana “New Yorker” apostou nele.

Um terceiro suspeito, segundo Ted Nelson, criador do termo “hyperlink”, é o professor Shinichi Mochizuki, do Instituto de Pesquisa em Ciências Matemáticas da Universidade de Kyoto, no Japão. Em 2009, Mochizuki, um acadêmico excêntrico que escreve apenas no próprio blog, publicou um artigo, “Curvas elípticas aritméticas na posição geral”, com os pressupostos teóricos que o bitcoin veio provar. Os dois primeiros negam ser Nakamoto. Mochizuki não respondeu aos pedidos de entrevista.

O primeiro lote de bitcoins foi produzido em 11 de janeiro de 2009. Eram necessários 10 mil bitcoins, que hoje valem R$ 2 milhões, para comprar uma pizza pela internet. Desde então, a moeda passou por duas bolhas especulativas, em 2011 e no primeiro trimestre deste ano. Na última, suspeita-se que tudo começou com o boato de que o governo do Chipre iria congelar contas bancárias para conseguir pagar a dívida do país. Houve uma corrida ao bitcoin por europeus, preocupados com a possibilidade de seus governos fazerem o mesmo. Um bitcoin, que valia US$ 10 em janeiro, chegou a US$ 256 em 4 de abril, quando houve o estouro da bolha. Nos últimos três meses, a cotação de um bitcoin se manteve na faixa entre US$ 100 e US$ 120.

A cada dez minutos, um novo lote de bitcoins é distribuído. São 150 (R$ 30 mil) por hora ou 3,6 mil (R$ 720 mil) por dia. No início, qualquer pessoa com um computador comum podia resolver o enigma e ganhar seu lote da moeda. Hoje, o grosso dos novos bitcoins vai para garimpeiros profissionais e sua grandes máquinas – torres de processadores vendidas por até R$ 50 mil – criadas só para a “mineração”. E ainda há a concorrência dos botnets, vírus que fazem computadores trabalharem em rede para ganhar bitcoins.

O planejado é que em 2140 haverá 21 milhões de bitcoins e então a produção cessará. Esse é um aspecto do projeto que empolga economistas. O bitcoin foi criado para ser escasso e imune à inflação. “Não é uma moeda no sentido convencional. É mais como um ativo, como se fosse ouro, uma TV ou qualquer mercadoria”, diz Rodrigo Batista, sócio da Mercado Bitcoin, uma das poucas corretoras no Brasil a negociar o dinheiro digital. “Não há uma garantia no mundo real, como no caso do ouro ou qualquer outro metal. Mas o lastro de todo o dinheiro, não só o virtual, é cada vez mais etéreo”.

“O mais incrível é que funciona”, explica Taaki. “O bitcoin é mais do que dinheiro. É um sistema de contratos.” A ideia é mais ou menos o que sustenta qualquer moeda desde que os Estados Unidos renunciaram ao padrão-ouro, que atrelava o dólar às reservas do metal, em 1971. Dinheiro é um contrato em que todos concordam que vale alguma coisa, sem nenhum lastro senão a garantia – e uma série de regras que combatem a volatilidade e a fraude – dos governos e da sociedade de que o portador de determinada quantia tem direito ao equivalente em mercadorias e serviços. O bitcoin retira os governos da equação. A confiança é entre indivíduos, sem intermediários.

Para Taaki, isso significa “revolução”. Fora atacar o Estado, ele vê na moeda a chance de democratizar o acesso ao dinheiro a países em guerras e conflitos. “O PayPal bloqueia o acesso ao seu sistema em mais de 80 países, porque estão em guerra ou são ditaduras. Nossa meta é incluir as pessoas, não bloqueá-las”, diz Taaki, enfant terrible da causa bitcoin que vem se tornando conhecido pelas declarações incendiárias. Já sugeriu que o bitcoin deixa a lavagem de dinheiro ao alcance dos cidadãos comuns, não só os mais importantes.

Em Kreuzberg, bairro de Berlim, essa utopia chegou ao mundo real. Fãs de tecnologia e ativistas podem pagar a conta com bitcoins em bares como Room 77. Os pagamentos costumam ser feitos via aplicativos de smartphones. Com 0,2 bitcoin, é possível, por exemplo, comprar um hambúrguer chamado Fidel Castro. “Quase todo dia alguém vem ao bar e paga com bitcoins”, diz Joerg Platzer, dono da casa noturna.

Bitcoins também são o que o canadense Taylor More pede em troca de sua casa com vista para as montanhas na província de Alberta. “Minha casa está à venda por bitcoins”, comunicou em um anúncio na internet. Ele pede 5.362 bitcoins (algo como R$ 10,6 milhões, pela cotação média do bitcoin nos últimos 30 dias). “Espero que seja o primeiro imóvel vendido com bitcoins. Isso talvez ajude a moeda a ser mais aceita”, diz More.

Em abril, um americano, morador do Texas, vendeu seu Porsche por 300 bitcoins (R$ 60 mil). No início do mês, foi a vez de um casal de americanos pagar com a moeda a clínica que congelou seus embriões.

Além de Satoshi Nakamoto, que, especula-se, possui US$ 300 milhões em bitcoins, outros nomes têm-se se destacado no mercado da moeda virtual, nos últimos tempos, com apostas de vulto em suas perspectivas. É o caso dos irmãos Cameron e Tyler Winklevoss, com seus presumidos US$ 11 milhões em bitcoins, adquiridos quando cada unidade valia US$ 7. Pretendem agora criar um fundo de investimentos lastreado em bitcoins, para venda de cotas de participação. Peter Thiel, co-fundador do PayPal, lidera um grupo de investidores que pôs dinheiro no BitPay, serviço de pagamentos em bitcoins.

Essa investida de grandes interesses no mercado de bitcoins, que já vale US$ 1,3 bilhão, segundo estimativas, desafia sua essência anarquista. “Se poucas pessoas controlarem a maior parte dos bitcoins, isso tiraria da moeda [provavelmente supervalorizada e submetida a circulação restrita] a liberdade de oscilar”, diz Batista, da Mercado Bitcoin. Seria o contrário do que se espera do dinheiro.”

Se a maioria das pessoas pode ver tudo isso como um experimento econômico interessante ou ficção científica, para os governos é perturbador. Quando os Estados Unidos tentaram fechar o site Wikileaks, após o vazamento de informações sobre a guerra no Iraque, em 2010, e os bancos e empresas de cartões de crédito aceitaram não repassar dinheiro para Julian Assange, doações em bitcoins permitiram a sobrevivência do site. Grupos de hackers como o LulzSec, que vaza informações de governos, bancos e corporações, também se financiam com bitcoins.

Numa situação-limite, o bitcoin põe em xeque a capacidade de Estados se financiarem. Sem o controle do dinheiro, não há como cobrar impostos. Ou fazer guerras. E também não há como oferecer serviços. A reação, nos Estados Unidos, é ver o bitcoin como uma ameaça. O FBI cita o risco de a moeda ser usada na lavagem de dinheiro. No Silk Road, um mercado on-line situado na “deep web” – endereços na internet que não aparecem nas buscas de serviços como o Google -, drogas são negociadas livremente. Os preços estão em bitcoin e as transações são anônimas. Bitcoins também são a forma de pagamento mais aceita nos sites que oferecem todo tipo de crimes: de senhas roubadas do PayPal a assassinatos por encomenda.

“As redes internacionais estão infestadas de hackers e crackers e, assim como no mercado futuro de derivativos ou na área de saúde hospitalar, há ‘lixo tóxico’ no sistema”, explica o professor Gilson Schwartz, da Escola de Comunicação e Artes da USP. Em sua opinião, governos deveriam combater os crimes sem combater o bitcoin, cujo caráter libertário elogia.

É o sinal dado pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC), dos EUA, que estuda aplicar regras ao bitcoin. Mesmo que um integrante da comissão tenha chamado a moeda de “dinheiro das sombras”, a regulação seria uma forma de reconhecimento da importância do dinheiro digital e afastaria parte dos criminosos.

Ainda não se falou nos ladrões. Ataques a serviços de armazenamento de carteiras virtuais aumentam no ritmo da valorização dos bitcoins. Vírus, se instalados no computador, roubam as carteiras virtuais, transferindo-as para outras pessoas, que permanecem anônimas. É possível acompanhar essas transações, mas a identidade dos ladrões permanece desconhecida.

“Quando você tem uma moeda altamente valiosa, completamente virtual e impossível de rastrear, naturalmente haverá roubos”, admite Mikko Hypponen, pesquisador-chefe da empresa F-Secure e especialista em segurança na internet. “Se eu roubo uma carteira de bitcoins, não há maneira de o dono recuperar seu dinheiro. É como roubar dinheiro vivo.” As falhas de segurança, ele acredita, acabarão resolvidas. O importante é que o código bitcoin em si até hoje não foi quebrado. “Minha aposta é de que as criptomoedas serão um sucesso”.

No fim de março, o Mercado Bitcoin, principal serviço brasileiro de armazenamento de bitcoins, registrou o primeiro roubo no país. A empresa, que conta com cerca de 2 mil clientes, só voltou a operar em 7 de junho. Garantiu a devolução dos bitcoins a seus donos e anunciou a entrada de novos sócios no negócio. Em geral, as corretoras devolvem apenas uma parte do dinheiro roubado.

Mesmo o anonimato das transações não é totalmente garantido. Em 2011, investigando um roubo de 25 mil bitcoins, Fergal Reid e Martin Harrigan, pesquisadores da Universidade College Dublin, cruzaram dados e descobriram o ladrão. Reid e Harrigan mapearam redes de usuários e de transações e, usando outras informações, como doações feitas em bitcoins a um grupo anarquista e ao site Wikileaks, descobriram que tanto o ladrão como a vítima faziam parte do mesmo fórum. “O bitcoin não é inerentemente anônimo. É possível fazer transações de modo a esconder identidades, mas em muitos casos usuários e suas transações podem ser identificados”, garante Reid.

Recentemente, o investidor Warren Buffet disse que não poria um centavo de sua fortuna na moeda. Paul Krugman, ganhador do Nobel de Economia, assegura que o furor em torno do bitcoin serviu de lição sobre como as pessoas têm concepções equivocadas em relação ao dinheiro. “Em especial, sobre como se deixam enganar devido a seu desejo de divorciar o valor do dinheiro da sociedade à qual o dinheiro serve”, escreveu em sua coluna no “New York Times”.

Mesmo que venha a durar, o bitcoin pode simplesmente ser substituído por uma versão mais avançada. Ideias não faltam. Moedas como a litecoin e o ripple, criadas a partir do código bitcoin, resolvem alguns problemas, como a quantidade limitada da moeda. Mas até os críticos reconhecem: o bitcoin valer algo já é um sucesso.

A jornada do valor

A maioria dos empresários, conselheiros e mesmo executivos tem uma ideia distorcida ou pelo menos parcial do conceito de criação de valor. Para todos é fácil entender a importância e vantagem de uma companhia valorizada: tem maior poder de barganha negocial em todos os níveis e para qualquer efeito, maior acesso a crédito em condições mais vantajosas, maior capacidade de atrair investidores e colaboradores, e assim por diante.

por TELMO SCHOELER
Revista RI – Nº 174 Jun |Jul 3013.

Poucos, entretanto, percebem a verdadeira extensão do tema e as suas bases de sustentação. Nas empresas de capital aberto o valor está retratado pelo preço das ações no mercado. Nas de capital fechado, isto só é realmente quantificável no momento de vender a companhia ou parte dela. Vantagem levam as de capital aberto, pois a qualquer instante sabem o que o mercado está pensando. A questão é muito mais intrigante e desafiante nas empresas fechadas quando a descoberta do seu valor (ou a falta dele) poderá ocorrer muito tarde, quando ninguém se interessar em ser seu investidor e ao atual proprietário só restar uma história e uma saudade.

Valor é uma variável mercadológica e, como tal, função de percepção. Decorre de aspectos etéreos como imagem, atração, prestígio, simpatia, satisfação, etc, ou seja, muito mais mentais e emocionais do que econômicos. Claro que existe um ingrediente financeiro e que fatores econômicos concretos e facilmente mesuráveis como lucro, EBITDA, produtividade, market share e outros contribuem e influenciam a percepção, mas eles não são “o” valor.

Na realidade, o verdadeiro valor é e deve ser o resultado de um foco tripartite: acionistas + consumidores + pessoas. Acionistas insatisfeitos deixarão a empresa à deriva, por ausência ou desleixo decisório e falta de suporte de capital. Consumidores desinteressados esquecerão o produto ou estarão dispostos a pagar por ele menos do que o preço que sustenta a viabilidade do negócio. A dimensão “pessoas” é a mais complexa, por ter dois componentes, um interno e outro externo. No interno estão colaboradores percebidos pela retenção, carreira, satisfação, motivação, dedicação, força de equipe. No externo está, em lato sensu, toda a sociedade e, por extensão, todo o meio ambiente.

Este conceito holístico de valor, que extrapola em muito a estreita visão econômico-financeira dos apaixonados pelo EBITDA, requer que a empresa seja gerida com olho nos seus ativos, atividades e processos, sob inspiração de macro estratégia balizadora cuja operacionalização deveria seguir a sequência:

1) Crie a imperatividade de “valor”.
2) Identifique os fatores-chave para sua criação.
3) Desenvolva estratégias que criem valor.
4) Integre medidas de performance que retratem isso.
5) Alinhe sistemas de incentivo ao conceito de valor.

As verdadeiras empresas de sucesso, objeto de desejo de toda a cadeia econômica (acionistas – fornecedores – colaboradores – clientes – sociedade) seguem esta jornada de valor. Por isso, não por mágica ou sorte, são empresas de valor.

Marte e Vênus, a divisão de gêneros nos investimentos

Jornal Valor Econômico
14/03/2013
Por Norma Cohen e Jonathan Eley | Do Financial Times

Desde a quebra do Lehman Brothers em setembro de 2008, houve diversos comentários – mais notadamente da vice-líder do Partido Trabalhista [britânico], Harriet Harman – de que o colapso catastrófico poderia ter sido evitado se o banco tivesse o nome de Lehman Sisters (irmãs, em vez de irmãos, Lehman, em inglês). Os acadêmicos há muito tentam avaliar se as mulheres são melhores gestoras e investidoras, na esteira dos pedidos por maior diversidade nos conselhos de administração das empresas. O veredicto ainda não saiu.

De qualquer forma, no que se refere a investir, ainda é interessante observar se os investidores fazem escolhas diferentes das investidoras; em particular, se as mulheres carecem de confiança em sua própria capacidade e, portanto, se são mais inclinadas a ter aversão a aplicações arriscadas do que os homens em circunstâncias financeiras similares.

Certamente, há pesquisas sugerindo que os homens são mais confiantes e inclinados a assumir riscos maiores. Por exemplo, a pesquisa “Comportamentos e Experiência Financeira entre as Mulheres”, da americana Prudencial, feita em 2012 e 2013, segundo a qual mesmo entre as mulheres que sustentam a casa, apenas 20% se descreveram como “muito bem preparadas” para tomar decisões financeiras, sendo que no caso dos homens a fatia foi de 38%.

Também constatou que, embora 40% dos homens tenham dito que “gostam de praticar o esporte dos investimentos”, apenas 22% das mulheres pensam do mesmo modo. E 70% das mulheres se descreveram como “poupadoras”, em vez de “investidoras”, em comparação a 60% dos homens.

Há evidências, mesmo fora do mundo dos investimentos, de que os homens assumem riscos evitados pelas mulheres.

No que diz respeito ao comportamento de investimentos indiscutivelmente mais arriscados – as apostas em spreads – os homens superam em muito as mulheres, segundo o IG Index, a maior firma do setor no Reino Unido. Dos aproximadamente 92.000 clientes ativos registrados na companhia, menos de 10% são mulheres, segundo David Jones do IG Index. Ele disse que, ao se olhar para aqueles clientes que também negociam com outros instrumentos de risco elevado – aqueles que envolvem derivativos ou opções, por exemplo – vê-se que quase todos são homens. “Nesses investimentos, a proporção de homens sobre as mulheres é sempre de 9 por 1.”

Até fora do mundo dos investimentos há sinais claros de que os homens assumem riscos evitados pelas mulheres. Uma evidência é a taxa de mortalidade de jovens no fim a adolescência e início da faixa dos 20 anos, em que os riscos assumidos pelos homens deram origem ao termo conhecido entre os estatísticos como “mortes de teor hormonal”. Isto é, a testosterona encoraja os homens a se arriscarem mais. Em 2011, por exemplo, foram registradas na Inglaterra e no País de Gales 192 mortes de homens com 20 anos de idade, em comparação a 67 de mulheres.

“Há três coisas associadas à testosterona”, diz Emily Haisley da equipe de finanças comportamentais da Barclays Wealth. “A massa muscular, a perda de cabelo e a confiança.” Destas, a confiança é a que responde pela vontade de se assumir mais riscos.

Lesley Mackintosh, que administra uma firma de consultoria financeira em Edimburgo, a Independent Women, e que é consultora financeira há 20 anos, diz que baseado em indícios esporádicos as mulheres são investidoras mais cautelosas. “Sem dúvida, os homens arriscam mais.”

No entanto, quanto perguntada o por que, ela diz: “Mais da metade de nossos clientes é formada por mulheres separadas ou divorciadas. Eles chegam até nós e perguntam ‘como faço para proteger minha família, meus ativos?’”. A soma total que elas têm para investir é sempre resultado de um acordo de separação.

Tais circunstâncias podem ser a razão da aversão ao risco por parte de muitas mulheres investidoras. Jones, da IG Index, concorda. A melhor idade para diversificar as apostas, diz ele, é entre os 35 e os 45 anos, um período em que os salários tendem a atingir o pico para os que trabalham no setor privado. É também o ponto em que muitas mulheres estão fora do mercado de trabalho, cuidando dos filhos em casa. Dados oficiais mostram que cerca de um quinto de todas as mulheres com idades entre 35 e 49 anos são economicamente inativas, em comparação a apenas 7,5% dos homens. E as mulheres geralmente trabalham mais em meio período.

As decisões de investimento das mulheres também podem ser afetadas pelo tipo de orientação que recebem. Um estudo publicado em 2012, pelo Birô Nacional de Pesquisas Econômicas dos EUA, descobriu que muitos dos consultores pesquisados oferecem assessoria adequada à sua própria renda e não à da clientela. Também descobriu que as mulheres têm menor probabilidade de serem incentivadas a investir em contas de gestão ativa e 40% maior probabilidade do que os homens de serem informadas de que os consultores não fariam nenhuma recomendação sobre estratégias de investimento até que a carteira do cliente fosse colocada sob sua gestão. “É concebível que esse comportamento pode ser baseado na percepção de que as mulheres são mais dóceis ou crédulas”, observou o relatório.

Pode não ser surpreendente que as pesquisas envolvendo mulheres ricas repetidamente as detectem como insatisfeitas com sua assessoria financeira, segundo o Haisley Barclays. “O único setor com maior nível de insatisfação é o automobilístico.”

Haisley acrescentou que “os próprios estudos envolvendo as contas de seus clientes no Barclays detectam diferenças entre as maneiras como homens e mulheres investem. Mas quando esses estudos segmentam os perfis analisados levando em conta variáveis como idade, dimensão da carteira e estado civil, as diferenças são muito menos pronunciadas.

E elas nem sempre resultam em desvantagem para as mulheres. Por exemplo, homens solteiros renovam anualmente o conteúdo de suas carteiras de investimentos a uma taxa 50% maior do que as mulheres solteiras. Isso, diz Haisley, resulta em retornos em média 1,5 ponto percentual inferiores.

O Barclays tem um sistema que lhe permite atribuir uma “personalidade financeira” a seus investidores, e quando examinou o tipo de atividade profissional dos clientes encontrou diferenças ainda menores entre homens e mulheres. “Quanto maior a experiência financeira de uma pessoa, mais riscos está disposta a assumir. Quando examinamos [comportamentos] em nível [de conhecimento] elevado, a diferença [entre os sexos] diminui”, disse Haisley.

Para profissionais financeiros, diz ela, o diferencial de investimentos entre homens e mulheres diminui drasticamente e se dissipa até um nível “pequeno, mas ainda estatisticamente significativo”. E quando se trata de pessoas que atuam em “trading” financeiro, a mais arriscada de todas as atividades financeiras, a diferença é muitíssimo pequena.

Cautela – Sarah Brummitt certamente concorda que as mulheres são menos impulsivas em relação aos investimentos do que os homens. “Somos, sem dúvida, cautelosas, e eu acho que isso é uma coisa boa”, diz a treinadora de executivos que dirige a Blue Chip Stockings, um clube de investimento só para mulheres, que se reúne cerca de seis vezes por ano em Londres. “Temos diferentes demandas na vida que precisamos administrar fazendo verdadeiros malabarismos. Nós não queríamos que isso se tornasse mais uma demanda.”

O clube foi fundado em 2003 – ano em que o mercado de ações bateu no fundo do poço – e tem 11 membros com idades entre vinte e poucos anos e sessenta. “Nós nunca tivemos nenhum membro do sexo masculino”, acrescenta Brummitt. “Acho que o valor de um grupo só de mulheres está em que queremos um ambiente sociável e amistoso para nos encontrarmos, aprendermos e nos divertirmos. Não é (um ambiente) competitivo.” O grupo inclui um número de contadoras e empreendedoras, as reuniões acontecem segundo uma agenda e a contabilidade é mantida atualizada. O clube não está no vermelho. A seleção de ações é uma atividade colaborativa; todas as ideias são consideradas, mesmo que não sejam postas em prática.

No portfólio corrente está o grupo Burberry, do setor de artigos de luxo, a varejista online Asos – um grande sucesso -; a Dialight, empresa de iluminação com tecnologia de LEDs; e a Experian, empresa de serviços de apoio.

Brummitt passou a interessar-se em investir quando tinha perto de trinta anos. “Eu me dei conta de que tinha uma pensão e uma poupança, mas não estava maximizando totalmente a oportunidade de ganhar dinheiro.” (Tradução de Sergio Blum, Sabino Ahumada e Mario Zamarian)

O valor do comportamento

09/07/2012 às 00h00
Jornal Valor Econômico
Por Alessandra Bellotto | De São Paulo

Depois de uma longa viagem, você finalmente chega ao destino que tanto sonhou conhecer. Mas antes de sair desfrutando as maravilhas do local, sai em busca de um lugar para comer e se depara com dois restaurantes na praça central da cidade, um cheio e outro vazio. Sem falar a língua do país, opta pelo restaurante que tem mais gente, pois supõe que as pessoas que estão lá têm informações sobre a qualidade da comida ou limpeza do lugar, certo?

Com alguma adaptação, o exemplo é usado pelo gestor de recursos Marcelo Sá Earp, sócio da First Value Capital, para ilustrar como tendemos a usar análises simples na hora de tomar decisões. Afinal, é mais seguro e confortável seguir o grupo. No mundo dos investimentos, no entanto, essa é uma das regras de bolso que devem ser evitadas, diz ele – e explica: o fato de todos recomendarem uma ação pode ser um sinal de que o ativo está superavaliado.

Para os estudiosos das finanças comportamentais (que incorporam conceitos da psicologia e sociologia para explicar as decisões econômicas dos indivíduos), se muitos investidores migram para ações da empresa “perfeita”, ainda que o retorno esperado pareça alto, o fato de haver maior probabilidade de os bons fundamentos estarem incorporados nos preços faz com que o risco de queda dos papéis tenda a ser maior que o ganho potencial. “Empresas boas não necessariamente são bons investimentos, tudo depende do preço”, alerta Earp.

Earp integra um grupo de gestoras brasileiras que começam a adotar algo já comum nos Estados Unidos: o uso de conceitos e modelos de finanças comportamentais na hora de escolher ativos. Além da First Value, outra que faz parte desse time é a gestora carioca Behavior Capital Management (veja mais abaixo).

Fugir de padrões de comportamento, como os “movimentos de manada”, contudo, não é nada trivial, como diria o precursor da estratégia conhecida como “value investing” ou “investimento em valor”, Benjamin Graham. Segundo ele, “até o investidor inteligente provavelmente precisa de uma força de vontade considerável para não seguir a multidão”.

Mas são essas ineficiências que fazem o investimento em valor funcionar, acredita Earp. Como a estratégia vai na contramão e caracteriza-se pela compra de empresas com bons fundamentos que estejam fora de moda, esquecidas e, portanto, baratas, a chance de sucesso ao longo do tempo é maior. “Há uma relação direta entre finanças comportamentais e investimento em valor”, diz. Se o investidor conseguir identificar padrões de comportamento humano que permeiam a tomada de decisões, como o excesso de emoção, poderá usá-los a seu favor.

É o que busca fazer a First Value, fundada em 2011 por Earp e outros dois sócios, Marcelo Gerbassi e Philipe Biolchini. Earp conta que um dos filtros mais usados pelos gestores que incorporam as finanças comportamentais nas suas análises é o do “value”. A asset vive buscando empresas sólidas que estejam em liquidação. É como comprar um carro quando ele está saindo de linha. “A utilidade é a mesma, mas o preço é menor”, diz.

No processo de investimento da First Value, o primeiro passo é identificar ações que caíram muito e, depois, entender os motivos que levaram à depreciação. Se as razões não estão ligadas a mudanças nos fundamentos, a empresa passa no filtro inicial. Earp reitera que a gestora só investe em companhias consolidadas, lucrativas, que pagam bons dividendos, mas que, por fatores emocionais, estejam enfrentando o mau humor do mercado. “O grande desafio é não cair nas armadilhas do ‘value’. Às vezes, a empresa está consolidada, tem lucro, mas pode trabalhar com um produto que está ficando obsoleto”, pondera.

A etapa seguinte inclui uma análise qualitativa das companhias selecionadas. E aqui, para estimar o valor da empresa, nada de planilha, a fim de evitar outro viés: o do excesso de autoconfiança. “Não fazemos projeções”, diz. Isso porque, para isso, seria preciso projetar de 30 a 40 variáveis por dez anos. A First Value opta por usar como referência dados atuais. Pode até conversar com executivos das empresas analisadas, mas sempre com um pé atrás, já que as companhias tendem a desenhar um futuro sempre promissor. Earp diz que gosta de falar com o contador das companhias, com concorrentes, a fim de comparar as opiniões.

Dessa fase, saem as cerca de 20 ações que farão parte do portfólio. Mas qual deve ser o peso de cada papel na carteira? Para fugir de outro viés de comportamento – concentrar as apostas em certas empresas ou setores que os gestores julgam melhores -, a First Value conta com um modelo de diversificação. “Concentrar pode ser resultado de excesso de autoconfiança”, afirma.

Respeitar o prazo de investimento é outro elemento importante da filosofia da First Value. Segundo Earp, não faz sentido comprar uma ação acreditando que o preço descolou dos fundamentos e sair da aplicação antes de a tese se materializar. “A percepção do mercado muitas vezes demora a mudar”, argumenta. Hoje, por exemplo, os fundos de ações da First Value têm exposição em setores que estão passando por momentos desafiadores, como o financeiro, elétrico, de construção e siderurgia. Em todos eles, argumenta, há companhias que sofreram exageradamente com um fluxo de informações negativo.

Como escolher um sócio

Por Francine Brustolin
Revista Liderança – Julho/ 2012.
www.lideraonline.com.br

Apesar de a sabedoria islâmica ensinar que escolher um sócio nunca é um bom negócio, é possível fazer uma sociedade duradoura a partir de alguns cuidados na hora de decidir com quem dividir os investimentos, os lucros e as responsabilidades da empresa. Para os que já estão envolvidos e comprometidos com uma sociedade, pode ser útil avaliar o momento que a parceria está vivendo. Para quem ainda pretende iniciar um processo societário, é fundamental aprofundar a discussão de forma realista. Ou seja, é melhor antecipar alguns problemas, a fim de evitá-los, ou estar em condições de administrá-los quando surgirem. Conheça o caminho nas próximas páginas.

Feita para durar

Quando escolhida com cautela, a sociedade pode durar décadas e ser motivo de orgulho para os empresários e seus familiares. Um exemplo de história de sucesso é o Centro Auditivo Microsom. Fundado em 1991, em São Paulo, nasceu da união de três profissionais com experiência no mercado de aparelhos auditivos e já dura mais de 20 anos.

Dilson Vinicius Pavezi, Reginaldo Chicon e Gilberto Silva trabalhavam como vendedores de uma empresa de aparelhos auditivos. Observando as oportunidades e as fraquezas do mercado, concluíram que faltava um atendimento mais humano e personalizado nos centros auditivos da época. “Com esse objetivo em mente, nos juntamos e iniciamos um projeto com capital, na época bem modesto, para construirmos o nosso sonho”, conta Pavezi.

O segredo da parceria de longa data, de acordo com os sócios, é trabalhar de forma clara e resolver as adversidades de forma conjunta. “Encaramos nossa sociedade como um casamento, e a receita para o sucesso está baseada em palavras-chave como sinceridade, tolerância, respeito e confiança. Só assim conseguimos sobreviver e lutar juntos para fortalecer essa parceria que já dura 20 anos”, diz Gilberto Silva.

Atualmente a diretoria do Grupo Microsom é formada por Dilson Vinicius Pavezi, responsável pela diretoria comercial e de marketing; Reginaldo
Chicon, responsável pela diretoria administrativa e financeira; e Gilberto
Silva, responsável pela diretoria de produção e de desenvolvimento de produtos. Com a empresa bastante desenvolvida, a rotina do dia a dia é estressante, e liderar cerca de 200 pessoas não é uma tarefa fácil, segundo Reginaldo: “É preciso ter jogo de cintura, por parte de todos os sócios, para que as coisas não saiam do planejado”.

A escolha

É consenso entre os especialistas a importância de buscar a diversidade de competências na escolha de um sócio, como foi feito na Microsom. “Associar-se a alguém com uma aptidão que falta a você complementa suas habilidades e fortalece a empresa no mercado”, afirma Amir El-Kouba, consultor em comportamento empresarial na El-Kouba Consultores Associados e docente de MBA nas áreas de gestão, comportamento humano e empresarial pela FGV.

Porém, a diversidade deve ser apenas nas habilidades profissionais, pois se forem comportamentais podem ser fontes potenciais de conflito, explica o professor: “O conflito só será evitado, nesses casos, quando ambos tiverem maturidade emocional para superá-lo. Se há uma característica que precisa ser comum a ambos, essa característica é a maturidade”.

Para o consultor Telmo Schoeler, sócio-fundador e leading partner da Strategos – Strategy & Management –, buscar pessoas com capacidades diferentes das suas gera sinergia. Ele cita o exemplo da Natura, empresa com três sócios-fundadores e controladores, diferentes entre si em termos de capacidades, mas absolutamente focados em uma forma comum de gerir o negócio.

“Embora possa dar certo uma sociedade na qual duas pessoas com habilidade para o comércio abram uma loja, certamente teremos uma sociedade menos problemática se uma tiver habilidade com comércio e a outra um perfil de planejamento ou administração financeira, pois essas duas facetas vão estar presentes no negócio. Mas, impreterivelmente, ambas precisam ter a mesma visão de negócio”, afirma.

A tão falada visão de negócio abrange diversos aspectos, sendo um deles o tamanho que os sócios desejam que a empresa atinja após a maturidade. “Por mais que ambos tenham os mesmos valores, se um deles quer que a empresa fique pequena e o outro quer que ela seja a maior do Brasil há uma divergência grave, e isso, para uma sociedade, é a morte”, diz Schoeler.

O consultor também aproveita para dar um recado às sociedades que já estão concretizadas: “Se porventura você está em uma sociedade que chegou ao ponto em que os sócios passaram a ter visões diferentes sobre o que querem para o futuro, é muito melhor a separação do que a manutenção de uma sociedade que com certeza não prosperará. Um divórcio societário muitas vezes é melhor do que a imposição de uma sociedade infeliz”.

Outras divergências podem aparecer se um dos sócios estiver em um momento profissional diferente. “Se tivermos um sócio que já está se aposentando e não precisa de dinheiro, e outro que tem o lucro da empresa como seu rendimento principal, haverá conflito no momento de decidir o que fazer com os dividendos da empresa, se irão retirar ou reinvestir”, exemplifica.

Mais um aspecto importante, segundo Telmo Schoeler, é ter a mesma visão da chamada “governança corporativa”, aplicável a empresas de todos os tamanhos, que significa preocupação com planejamento, transparência das operações, controle da companhia e responsabilidade com fornecedores e funcionários. Juntar duas pessoas com visões diferentes nesse aspecto não dá certo, de acordo com o consultor.

Amigos, amigos, sócios à parte.

Nos aspectos comportamentais, o professor Amir El-Kouba observa que muitas sociedades fracassam porque as pessoas acabam buscando um sócio por afinidade emocional, e não porque acreditam que ele será um bom empresário: “Existem pessoas com as quais você tem uma relação ótima para conversar, mas nem sempre esse relacionamento gera a afinidade necessária para gerir um negócio em conjunto. O contrário também é verdadeiro. Muitas pessoas buscam parceiros no negócio e não levam em conta as condições interpessoais”.

Na hora da escolha, a intuição pode funcionar, segundo El-Kouba.
Ele explica que a intuição é uma ótima habilidade para qualquer gestão. Por outro lado, ela deve ser sempre um complemento, nunca a base principal: “A sensibilidade e a intuição são condições importantes para qualquer relação humana. Também estamos falando sobre gostar ou não de alguém. Imagina como vai ser chato ter de conviver com uma pessoa que você não gosta? Não podemos deixar de lado a qualidade de vida”.

Mas a intuição deve ser complementada pela racionalidade. Ele recomenda que o sócio reflita racionalmente: como será essa convivência? Como vou extrair resultados empresariais e financeiros da sociedade na convivência com essa pessoa? Como vou, também, extrair qualidade de vida dessa relação? “Essas duas variáveis devem ser bem mensuradas: o dinheiro e a qualidade de vida”, explica.

Relações Familiares

A estabilidade emocional requerida por uma sociedade dificilmente será alcançada em uma relação amorosa ou familiar, na opinião do professor. Especialmente porque as relações que envolvem sentimentos são instáveis por natureza e isso fragiliza a condução do negócio. No caso de término de um namoro ou casamento, por exemplo, a sociedade também precisará ser desfeita, pois dificilmente os sócios conseguirão conviver.

No caso da sociedade entre irmãos, o professor acredita que a relação tende a reproduzir as próprias relações familiares. “Essa condição acaba trazendo para o contexto empresarial aquela relação de disputa de poder, seja por bens materiais, seja por cargo, seja por salário, o que não é saudável para a manutenção do negócio”.

Telmo Schoeler também vê nas sociedades entre familiares um risco de potencialidade extremamente alta, principalmente porque a escolha do sócio, também nesses casos, passa pela afinidade emocional, e não porque aquele cunhado será o sócio mais adequado. “Muitas vezes a sociedade vai de mal a pior, mas não é rompida pelo medo do que a família poderá dizer”, lembra. Por outro lado, ele ressalta que se a escolha for feita deixando de lado o aspecto emocional, há muita chance de dar certo.

Capital

Avaliar a capacidade financeira do sócio é fundamental? Os especialistas divergem. Para Amir El-Kouba, o dinheiro tem muita importância se a procura for por um sócio investidor, sem autonomia na gestão. Porém, se o relacionamento for diário, certamente será um mau negócio.

Ele ressalta que uma sociedade é um casamento focado no negócio, mas que necessariamente passa pela qualidade da relação. “Os resultados empresariais vão depender fortemente, entre outras variáveis importantes, de como são essas relações. Maduras, saudáveis, se fazem bem para as pessoas que estão envolvidas e se elas compactuam das mesmas percepções em termos de crescimento, inovação, negócios e estratégia. Isso é mais importante do que dinheiro”, diz.

Já para Telmo Schoeler, é fundamental a avaliação do capital para investimento do sócio, proporcionalmente ao tamanho do negócio que está sendo montado e o número de outros sócios. “Antigamente conseguia-se montar um negócio com pouco dinheiro e uma boa amizade com o gerente do banco. Bastava transferir o valor do empréstimo para o preço do produto. Com a concorrência do mundo atual isso não é possível. Não basta ter uma boa ideia ou boa vontade, é necessário ter e investir dinheiro”, alerta.

E se o seu potencial sócio já passou por outras sociedades que não deram certo, pode ser um sinal de alerta? Ambos concordam que sim. “Apesar de não ser um fator que elimina um potencial sócio, é um fator de alerta, sim. É claro que deve ser avaliada a participação desse sócio no processo decisório e estratégico da empresa”, recomenda Schoeler. “Da mesma forma, cada um deve avaliar suas próprias relações anteriores que não deram certo. Tentar descobrir se há dificuldades em aspectos específicos da minha condição interpessoal que poderão refletir no aspecto relacional da minha sociedade também é fundamental”, complementa Amir El-Kouba.

Acertando os ponteiros

Os conflitos, inevitavelmente, aparecerão. Colocar no papel as cláusulas que irão reger a resolução deles, antes que aconteçam, é fundamental. Além do contrato social, Schoeler recomenda que seja feito também um acordo de acionistas, que irá estabelecer como a empresa será dirigida, se os sócios participarão ativamente ou se elegerão um conselho de administração, entre outros pontos, como a retirada mensal de cada sócio, a entrada da família no negócio e a sucessão e a saída da sociedade.

“O acordo de acionistas é um instrumento juridicamente válido que, em paralelo ao contrato social, faz as demais regulagens e acordos que os acionistas estabeleceram. Porém, é importante certificar que o contrato social da empresa mencione a existência de um acordo de acionistas”, adverte.

Estudo questiona relação tradicional entre alto risco e retorno mais elevado

31/05/2012 às 00h00
Por Ruth Sullivan | Financial Times
Valor Econômico

São pouquíssimos os desafios ao pensamento estabelecido no mundo das finanças para os investidores, acadêmicos e profissionais. Um desses casos é um estudo recente mostrando que as ações de baixo risco e baixa volatilidade têm desempenho melhor que o dos papéis de alto risco, desafiando a teoria convencional de que risco elevado deveria significar recompensa elevada.

O estudo “Low Risk Stocks Outperform within all Observable Markets of the World”, de Robert Haugen, presidente da Haugen Custom Financial Systems, um centro de estudos da Califórnia (EUA); e Nardin Baker, principal estrategista do fundo Global Alpha, da Guggenheim Partners Asset Management, revela que as ações de baixa volatilidade apresentaram, de maneira consistente, retornos acima da média do mercado em todos os 21 países desenvolvidos estudados entre 1990 e 2011. As mesmas constatações foram feitas em 12 países emergentes em um período mais curto desde 2001.

“O fato de as ações de baixo risco apresentarem retornos esperados maiores é uma anomalia notável. O estudo é contínuo e amplo, contradizendo a essência das finanças”, afirma Haugen.

Entre 1990 e 2011, a décima parte menos volátil das ações de nações desenvolvidas gerou um retorno total anualizado de 8,7%, enquanto as mais voláteis perderam 8,8% ao ano. Ao estreitarmos o foco para as ações americanas, a pesquisa mostra que a décima parte menos volátil apresentou um retorno médio de 12% no mesmo período e as mais voláteis perderam 7%. “Em todos os países do mundo o risco e o retorno estão de cabeça para baixo”, afirma Haugen, um defensor da teoria de que os mercados de ações são ineficientes.

Mas nem todos foram convencidos pelas constatações. Antti Ilmanen, diretor administrativo da AQR Capital Management e autor do livro “Expected Returns”, sugere que um período de testes de 21 anos é relativamente pequeno, apontando para uma série de estudos existentes sobre o assunto que se estendem por períodos de tempo maiores, ponto de vista que é compartilhado por Elroy Dimson, professor de finanças da London Business School.

Dimson observa que “os 21 anos foram um período de desapontamento nos mercados mundiais de ações”, com estas apresentando um desempenho inferior ao dos bônus em 2,4 pontos porcentuais ao ano. Ele cita um estudo mais amplo – “Betting Against Beta” – de Andrea Frazzini e Lasse Hele Pedersen, feito em 2011, que olhou para os mercados de ações, bônus corporativos e soberanos e futuros.

Há também um debate saudável sobre o desempenho das ações de baixo risco. “Acho que não dá para dizer que as ações de baixo risco sempre têm um desempenho superior ao das ações de alto risco. Trata-se de um ponto de vista muito limitado”, diz Fiona Frick, presidente-executiva da Unigestion.

Entretanto, ela diz que “isso acontece em alguns tipos de cenários, como o de mercados voláteis, em que correções ocorrem, mas em fases de alta do mercado as ações de alto risco tendem a ter um desempenho superior [ao das ações de baixo risco]“.

Ela acredita ser importante acrescentar outros fatores à estratégia do baixo risco e baixa volatilidade, como “informações fundamentais sobre a companhia”. Ao construir seus portfólios de ações de variação mínima, a Unigestion prefere olhar para uma mistura maior de companhias diversificadas do que apenas para as ações de baixo risco e baixa volatilidade. “É como escolher tipos diferentes de jogadores em um time de futebol”, afirma Frick.

Ilmanen tem um ponto de vista um pouco diferente sobre o estudo. Ele acredita que as ações de baixo risco têm um desempenho melhor que as ações de alto risco em uma base ajustada ao risco. “Mas se você olhar para os retornos absolutos verá que eles estão nivelados”, afirma. Mesmo assim, ele reconhece o apelo dessa estratégia. “Se você consegue pelo menos os mesmos retornos que os investimentos em ações mas arriscadas, então elas são interessantes.”

“As pessoas são bem recompensadas por assumirem riscos pequenos, como comprar ações defensivas ou prazos de vencimento ampliados no mercado financeiro, mas assumir mais riscos resulta em recompensas menores no longo prazo.”

Então, por que as pessoas se expõem às ações de alto risco e alta volatilidade diante de tal evidência?

Segundo Haugen, “os investidores profissionais foram convencidos a transferir trilhões de dólares em investimentos em ações para índices de ações ponderados pela capitalização de mercado, como o Standard & Poor’s 500″, em grande parte porque foram influenciados por conceitos anteriores de eficiência do mercado, como a hipótese do mercado eficiente.

Ilmanen, da AQR Capital Management, diz que muitos gestores de fundos que tradicionalmente operam apenas com posições compradas, preocupam-se mais com o monitoramento de erros versus o referencial, do que com a volatilidade do portfólio total. “Os investimentos defensivos reduzem a volatilidade do portfólio, mas aumentam o risco do erro de acompanhamento, de modo que muitos gestores dizem ‘não, obrigado’”, afirma.

Isso pode ajudar a explicar por que os investidores não estão acumulando ações de baixo risco embora haja sinais de uma mudança. “Pela primeira vez em minha carreira, estou vendo um interesse significativo nas ações de baixo risco e baixa volatilidade, incluindo dos fundos de pensão”, diz Baker.

Consultores também começam a participar na condução de uma mudança para estratégias de baixo risco, especialmente no Reino Unido, Europa e Ásia, segundo Haugen. Os investidores ainda não estão entrando com tudo, mas o momento é bom para se beneficiar antes que os preços sejam puxados para cima, afirma Baker.

“Para os retornos caírem, terá de haver um ajuste muito grande nos preços, e aí as ações de baixo risco ficarão no mesmo nível das ações de alto risco, mas isso vai levar 10,20 anos”, diz ele.

Ilmanen também identifica uma mudança de estratégia, mas apenas entre uma minoria de investidores. “Alguns investidores estão mudando para a estratégia da baixa volatilidade, mas a maioria ainda gosta de investimentos mais ativos, arriscados e especulativos”, afirma.

Ele acredita que as mesmas ações voltarão a se sair bem, uma vez que os investidores provavelmente “vão se comportar da mesma maneira no futuro. Isso funcionou nos últimos 20 anos e acredito que vai funcionar nas próximas duas décadas.”

Entretanto ela rapidamente aponta que as ações de baixo risco não se saíram bem no rali “junk” de 2009. “Nada funciona o tempo inteiro”, acrescenta.

O fim da era Lula na economia

03/05/2012 às 00h00
Por Tony Volpon
Jornal Valor Econômico

Acabou a mais recente “época de ouro” da economia brasileira? Depois de dez anos de desempenho surpreendente, há hoje muitas dúvidas sobre as perspectivas para os próximos anos. O governo certamente não concordaria com qualquer avaliação mais pessimista, mas o recente frenesi de medidas mostra que os ocupantes de Brasília estão preocupados.

A preocupação com o crescimento não é novidade. Desde agosto do ano passado o Banco Central (BC) tem proporcionado estímulo monetário; e a, na época, muita criticada decisão de iniciar um ciclo de cortes de juros agora parece acertada.

A estratégia adotada naquele momento foi bastante ortodoxa, enfatizando o afrouxamento monetário com política fiscal austera. Mas, recentemente, temos assistido a uma quase avalanche de medidas pontuais, direcionadas aos dois setores que mais preocupam: indústria e o mercado de crédito. O governo parece finalmente entender que o Brasil enfrenta fatores estruturais e domésticos que impedem um crescimento mais vigoroso. Que esses se manifestarão e foram potencializadas durante uma severa crise internacional não deveria ser nenhuma surpresa: deficiências estruturais sempre ficam mais evidentes em momentos de piora conjuntural.

Os problemas da indústria têm sido explicados basicamente pela valorização contínua do real nesses últimos anos, mas essa é uma explicação parcial. Comparando os períodos pré e pós-crise, vemos que antes da crise, e apesar da forte valorização cambial, a indústria estava em franca expansão e investindo pesadamente. Depois da crise a história é outra, com fraco desempenho, baixos investimentos e queda de produtividade. A razão para esse desempenho distinto se encontra não nos movimentos do dólar, mas sim em dois fatores do período pós-crise.

Primeiro, enfrentando um mundo com baixo crescimento, as grandes potências industriais hoje varrem o globo procurando onde vender e acharam um mercado convidativo no Brasil. Isso na verdade não tem nada a ver com o mercado cambial, sendo um ajuste esperado nos competitivos mercados de bens internacionalmente transacionáveis.

O segundo fator que tem debilitado a nossa indústria tem sido o aumento contínuo no custo da mão de obra. De fato percebemos que o aumento do custo unitário de trabalho acelerou no período pós-crise. Forçado a contratar em um mercado de trabalho apertado pela demanda do setor de serviços e políticas salariais expansionistas, a indústria perdeu a corrida entre aumento de custos e produtividade. Mais do que uma “guerra cambial”, o Brasil enfrenta e perde uma “guerra laboral”.

Encarando a fortíssima concorrência de um lado e o aumento da folha de pagamento do outro, a indústria vê suas perspectivas piorarem e, por instinto de sobrevivência, corta custos, incluindo investimentos. Isso coloca a indústria em um círculo vicioso e autodestrutivo dado o impacto que isso tem sobre sua produtividade.

Igualmente preocupante é a dinâmica no mercado de crédito. Aqui o problema é claro: o ainda altíssimo custo na ponta do tomador. Depois de cair por muito tempo, o custo do crédito ao consumidor tem ficado relativamente estável desde 2009. É verdade que o sistema enfrenta o aumento da inadimplência nesse momento. Apesar das condições favoráveis do mercado de trabalho, o consumidor chegou ao limite prudente de endividamento. Empurrar mais crédito goela abaixo da pessoa física não vai resolver nada.

A questão da indústria e do mercado de crédito mostra que o que podemos chamar de “modelo Lula” de crescimento chegou a sua exaustão. Esse modelo procurou acelerar e multiplicar os ganhos de riqueza que começaram dez anos atrás com a forte alta de preço das nossas exportações devido ao crescimento espetacular da China. Os mecanismos foram privilegiar ganhos salariais e o aumento do crédito, assim expandindo a renda e o consumo. Por muitos anos o modelo teve sucesso exemplar, mas fica evidente que nos próximos anos os resultados não serão os mesmos.

Das medidas anunciadas até agora pelo governo algumas, como desoneração da folha, vão na direção certa, e outras, de cunho protecionista, na direção errada. Mas o seu conjunto, e nisso incluímos a queda na taxa de juros e a alta do dólar pela atuação do BC, nos parece insuficiente para mudar a dinâmica estrutural negativa que enfrentamos. Elas podem somente se justificar como uma ponte para mudanças mais profundas, porque o que precisamos é efetivamente um novo modelo.

O que poderia ser um novo modelo? Acreditamos que qualquer novo paradigma de crescimento tem que mudar de forma significativa a relação investimento-consumo-poupança. Basicamente continuamos a investir e poupar pouco e consumir muito, e há sim uma escolha a ser feita nessa relação: nem todo o consumo “puxa” investimento e poupança.

Para tal nossa política econômica tem que caminhar em duas direções novas. Primeiro temos que parar de querer sempre redobrar a aposta que mais consumo resolve tudo. Também temos que parar de confundir crédito com poupança. A falência do modelo atual reside essencialmente na triste verdade que uma ênfase exagerada em aumentar a demanda pode destruir a oferta. Menos consumo e mais produtividade deve ser o novo mantra.

Segundo, temos que identificar novas fontes de poupança doméstica. Está mais do que claro que a estrutura do nosso Estado de bem-estar social milita contra a formação de poupança doméstica. Devemos, politicamente, debater até que ponto vale a pena a troca entre crescimento e segurança social. Mas devemos também perceber que ainda existe dentro da economia um agente que poderia contribuir com mais poupança: o próprio Estado. Diminuído seu consumo e assim liberando recursos para investimentos públicos e privados, o Estado poderia dar forte contribuição para levar a economia a um novo equilíbrio. Tal mudança pode, a nosso ver, ser feita sem comprometer os avanços sociais desses últimos anos. Basta nossos governantes terem vontade e visão política para tal.

Tony Volpon é diretor do Nomura Securities International, Inc.

As ideias estão acima dos interesses

30/04/2012 às 00h00
Por Dani Rodrik
Jornal Valor Econômico

A teoria política mais disseminada é também a mais simples: os mais poderosos conseguem o que querem. A regulamentação financeira é guiada pelos interesses dos bancos; a política de saúde, pelos interesses das seguradoras de saúde; e a política tributária, pelos interesses dos ricos. Os que podem influenciar mais o governo – graças a seu controle sobre os recursos, informações e meios ou à simples ameaça de violência – acabam conseguindo o que querem.

O mesmo vale internacionalmente. A política externa é determinada, comenta-se, em primeiro lugar pelos interesses nacionais – não por afinidades com outros países ou preocupações com a comunidade mundial. Acordos internacionais são impossíveis de obter, a não ser que estejam alinhados com os interesses dos Estados Unidos e, cada vez mais, com o de outras grandes potências ascendentes. Em regimes autoritários, as políticas são a expressão direta dos interesses do governante e de seu círculo de amigos.

É um discurso convincente, com o qual podemos explicar como a política gera resultados perversos tão frequentemente. Seja em democracias, ditaduras ou na arena internacional, esses resultados refletem a capacidade de interesses especiais restritos obterem resultados prejudiciais à maioria.

A explicação, no entanto, está longe de ser completa e muitas vezes induz ao erro. Os interesses não são fixos ou predeterminados. São moldados por ideias – crenças sobre quem somos, o que tentamos alcançar e como o mundo funciona. Nossas percepções de autointeresse são sempre filtradas pela lente das ideias.

Pense em uma firma em dificuldades que tenta melhorar sua posição competitiva. Uma estratégia é demitir funcionários e terceirizar a produção em países mais baratos na Ásia. Uma alternativa é a empresa investir em treinamento e desenvolver uma força de trabalho mais produtiva, com maior lealdade e, portanto, menos custos de rotatividade. Pode concorrer com preço ou com qualidade.

O simples fato de que os donos da firma agem em interesse próprio nos diz pouco sobre qual dessas estratégias será adotada. O que, no fim das contas, determina a escolha da empresa é toda uma série de avaliações subjetivas sobre a probabilidade de diferentes cenários, em conjunto com cálculos sobre seus custos e benefícios.

Da mesma forma, imagine que você é um governante despótico em algum país pobre. Qual a melhor forma de manter seu poder e evitar ameaças domésticas e externas? Desenvolver uma economia forte e orientada às exportações? Ou voltar-se para dentro e recompensar seus amigos militares e outras amizades, à custa de quase todos os demais? Governantes autoritários no leste da Ásia adotaram a primeira estratégia; seus pares no Oriente Médio optaram pela segunda. Eles tinham concepções diferentes sobre quais eram seus interesses.

Ou imagine o papel da China na economia mundial. À medida que o país se torne uma potência mais importante, seus líderes terão de decidir que tipo de sistema internacional desejam. Talvez, optem por desenvolver e fortalecer o atual regime multilateral, que os satisfez adequadamente no passado. Mas, talvez, prefiram relações bilaterais, ad hoc, que lhes permitam extrair mais vantagens em suas transações com cada país, isoladamente. Não podemos prever o formato que a economia mundial assumirá apenas a partir da observação de que a China e seus interesses ficarão maiores.

Poderíamos multiplicar esses exemplos de maneira interminável. Será que a sorte da política doméstica da primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, estará mais bem atendida se forçar a Grécia a engolir as medidas de austeridade, ao custo de outra reestruturação das dívidas mais à frente, ou se der à Grécia a chance de crescer a partir de seu endividamento? Será que os interesses dos Estados Unidos no Banco Mundial estarão mais bem atendidos se o país nomear diretamente um americano ou se cooperar com outros países para selecionar um candidato mais apropriado, seja americano ou não?

O fato de debatermos tais questões emotivamente indica que todos temos concepções variadas sobre quais são os autointeresses. Nossos interesses são de fato reféns de nossas ideias.

De onde, então, vêm as ideias? Políticos, assim como todos nós, são escravos da moda. Suas perspectivas sobre o que é viável e desejável são moldadas pelo “zeitgeist”, pelo espírito da época, as “ideias no ar”. Isso significa que economistas e outros formadores de opinião podem exercer muita influência – para bem ou para mal.

Certa, vez, John Maynard Keynes disse de forma célebre que “mesmo o mais prático dos homens de negócios normalmente é escravo das ideias de algum economista há muito morto”. Provavelmente, ele não foi suficientemente enfático. As ideias que produziram, por exemplo, a liberalização desenfreada e os excessos financeiros das últimas décadas emanaram de economistas que estão (em sua maior parte) muitíssimo vivos.

Depois da crise financeira, ficou na moda entre os economistas condenar o poder dos grandes bancos. Sustentam que o cenário de regulamentação permitiu que esses interesses recolhessem grandes recompensas com enorme custo social, porque os políticos sucumbiram ao bolso dos interesses financeiros. Esse argumento, no entanto, convenientemente negligencia o papel legitimador desempenhado pelos próprios economistas. Foram os economistas e suas ideias que possibilitaram que fosse considerado respeitável, para economistas e autoridades reguladoras, acreditar que o que era bom para Wall Street era bom para a Main Street (a economia da população em geral).

Economistas adoram teorias que colocam interesses especiais organizados como origem de todos os males políticos. No mundo real, eles não podem esquivar-se tão facilmente da responsabilidade pelas más ideias que tão frequentemente disseminaram. A influência traz responsabilidade. (Tradução de Sabino Ahumada).

O ‘jeitinho feminino’ e a estratégia de Warren Buffett

23/08/2011
Por Paulo Henrique Corrêa
Valor Econômico

Recentemente lançado, o título do livro “Warren Buffett Investe Como Uma Garota – E Por Que Você Também Deveria Fazer Isso” parece curiosíssimo. Um dos maiores investidores do universo comparado a uma mulher?

Ao contrário do que o nome sugere, a publicação não questiona a masculinidade de Buffett. LouAnn Lofton, editora do site americano de finanças “The Motley Fool” e autora do livro, defende que o estilo dele de investir na bolsa se aproxima muito do modo acautelado feminino de aplicar seu capital.

O megainvestidor não gosta de se arriscar muito na compra de ações e prefere mantê-las por muito tempo em sua carteira, ao contrário do que muitos fazem, livrando-se com brevidade dos papéis que adquirem, não raramente levados pelo temor de perder dinheiro.

Parece que a escritora americana tem razão. Pelo menos a julgar por pesquisas realizadas em diversas partes do mundo. É o que a natureza feminina tem demonstrado ao longo da história: as mulheres são mais avessas ao risco. As investidoras passam mais tempo que os homens estudando uma empresa antes de comprar uma ação, não tendem a concentrar demais o portfólio e tomam todas as precauções para não cair em nenhuma armadilha, movidas pelo impulso.

Há evidências de que mulheres lucram mais em investimentos em ações porque os homens tendem a confiar mais em seus tacos (“overconfidence”) e, com isso, movimentam mais intensamente suas operações, obtendo piores resultados.

As mulheres e Buffett teriam então algo em comum: são melhores investidores que os homens médios. Tanto isso seria verdade que o mundo dos investimentos possuiria hoje um perfil bem menos masculino que no passado.

Buffett corrobora essa dedução. Lou Ann o indagou, durante um evento, sobre o título provocativo. A resposta? “Eu diria que provavelmente sou culpado”, brincou.

Outro motivo para o perfil feminino pode ser a ponderação que a grande maioria delas faz sobre as dificuldades de repor as perdas e o medo de acabar a vida sem recursos, uma síndrome conhecida especialmente nos Estados Unidos como “O pesadelo da Bag Lady”. Como dizem os psicólogos, o medo pode nos afastar – e proteger – dos perigos.

Talvez seja justamente o temor das mulheres de fazer escolhas erradas na hora de investir seu dinheiro o que as têm levado a aplicar em ações – desde que a iniciativa seja muito bem estudada. No mercado americano, onde há 95 milhões de investidores individuais, metade é de mulheres.

No Brasil, embora a parcela de investidoras na Bovespa seja menor do que a dos homens, os dados confirmam o “boom” feminino no mercado acionário. Segundo dados da BM&FBovespa, de 2002 para maio de 2011, a adesão feminina aumentou de 15 mil para 150.792.

Dos R$ 109,61 bilhões aplicados por pessoas físicas, R$ 22,54 bilhões vêm das aplicações das mulheres, representando 24,83%, contra 75,17% da participação masculina. Em 2002, a participação feminina era de 17,63% e a dos homens, de 82,37%. Embora a parcela de mulheres seja modesta, no mesmo período o aumento delas investindo em bolsa foi de 903%, contra 550% no caso dos homens.

Porém, é entre as mulheres mais maduras que o ingresso na bolsa mais cresce. Na faixa etária entre 56 e 65 anos de idade, 23.287 mulheres investem em ações, já significando uma parcela de 23,45% dos volumes investidos. As mulheres com mais de 66 anos representaram 12,68% do total de contas femininas, mas são as responsáveis pelo maior volume aplicado – R$ 8,76 bilhões, ou 38,86% do total proveniente das mulheres em geral.

Já as mulheres com idade entre 26 e 35 anos são as mais numerosas na bolsa de valores, somando 35.648 contas, mas do total de recursos negociados, somente representam 5,92% do total de mulheres. Na sequência, aparecem aquelas com idade entre 36 e 45 anos, chegando a 32.191, que movimentam 13,7% do total do volume feminino; e aquelas entre 46 e 55 anos – 31.700 -, que representam 18,85% dos negócios operados por mulheres.

Como o perfil do Warren Buffett – comparado ao das mulheres – deu certíssimo, tornando-o milionário, provavelmente veremos nas próximas décadas um fenômeno no mercado financeiro: o do crescimento das mulheres de todas as idades entre os investidores, com seu jeito cuidadoso, sua preferência pelo planejamento e o rigor mais severo na hora de correr riscos.

Paulo Henrique Corrêa é economista e sócio-diretor da Valor Investimentos, do Espírito Santo
E-mail paulo@valorinvestimentos. com.br

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

Por que a taxa de juros é tão alta?

Yoshiaki Nakano
14/06/2011 – Jornal valor Econômico

Segundo matéria do jornal “O Estado de S. Paulo” de sexta-feira passada, entre os 40 países mais importantes do mundo, somente dez praticam hoje taxas reais de juros positiva, entre elas o Brasil, o recordista em juros altos. A taxa real de juros no Brasil de 6,8%, seguida do Chile com 1,5%, Austrália com 1,4%, África do Sul e Hungria com 1,2%, México com 1,1%, China e Colômbia com 1% e assim por adiante. Esses países também elevaram a taxa de juros para enfrentar pressões inflacionárias da mesma forma que o Brasil. Por que praticamos, cronicamente, um diferencial tão elevado de taxa de juros?

Os tradicionais culpados são o déficit público e a elevada dívida pública. Mas, neste particular, fizemos importantes avanços: o nosso déficit público, de cerca de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB), é baixo comparativamente à maioria dos países na lista acima e, mesmo em relação à dívida pública bruta, também melhoramos: o prazo médio é ainda hoje de 3,5 anos, mas melhor do que no passado; o risco de financiamento é elevado, mas diminuiu significativamente, sendo de cerca de um quarto a parcela vencendo em 12 meses; o risco de taxa de juros também caiu, a parcela da dívida pública indexada à taxa de juros e à taxa de câmbio, de cerca de 90% da dívida total, em 2002, caiu para 36,7%, em 2010.

Estes e outros avanços, em termos de estabilidade macroeconômica, permitiram uma queda significativa na taxa real de juros nos últimos anos. Entretanto é preciso lembrar que avanços na área fiscal e na estabilidade macroeconômica explicam a queda na curva de juros na sua ponta mais longa, que é comparativamente muito curta no Brasil. Com certeza, novos avanços na área fiscal e o aperfeiçoamento das suas instituições são fundamentais para derrubar a curva de juros na sua ponta mais longa.

Entretanto, a configuração da curva de taxa de juros no Brasil ainda nos coloca duas questões. Primeira, por que com os avanços fiscais e melhoria no perfil da dívida pública não houve avanço correspondente com o desenvolvimento do mercado de títulos de longo prazo no Brasil? O prazo médio do estoque da dívida pública é ainda de apenas 3,5 anos. Se a causa de juros elevado tem origem no setor público, por que o mercado privado de títulos de longo prazo não se desenvolve no Brasil? Segunda, por que o Banco Central, que atua na outra extremidade mais curta da curva de juros, pratica taxas de juros tão elevadas? Afinal, o Banco Central tem o monopólio da emissão de moeda de curso forçado, portanto, é única entidade absolutamente líquida, consequentemente, sem risco. Por que tal entidade tem que pagar taxas de juros tão elevadas no Brasil?

Essas questões nos remetem às regras operacionais do Banco Central, que foram implantadas no período de alta inflação e permanecem intactas, mesmo depois de mais de 15 anos de estabilização da inflação. No período de inflação alta, o risco da variação da taxa de juros é muito elevada, pois a inflação acelerava muito rapidamente, colocando em risco todo o sistema financeiro. Para reduzir esse risco, os ativos financeiros foram indexados à taxa diária de juros, de modo que sua variação mantinha os seus preços constantes.

Além disso, com alta inflação, toda a dívida pública (LFTs) era refinanciada diariamente no overnight, pagando a taxa de juros Selic. Com isso, o Banco Central passou a fixar diariamente a Selic, que permitia ao Tesouro Nacional refinanciar a sua dívida pública. Inacreditavelmente, o Banco Central mantém esse sistema monetário, que era funcional no periodo de hiperinflação, até hoje.

Mas a consequência prática desse sistema é que o Banco Central, pagando ainda hoje a taxa de juros Selic, que corrige os títulos públicos de longo prazo e incorpora prêmios de liquidez e de riscos, nas operações de overnight e compromissadas, aprisionou toda poupança nacional no mercado de moeda de curtíssimo prazo. As consequências dessas regras operacionais são devastadoras.

O sistema bancário, para competir com o Banco Central, tem que pagar aos seus depositantes, taxas de juros mais elevadas que a Selic e, ainda garantir também liquidez, portanto quase tudo está indexado ao CDI. Da mesma forma, no mercado de capitais, as operações tem, obrigatoriamente, um piso de retorno elevado estabelecido pela Selic, o que dificulta o seu desenvolvimento.

O Tesouro Nacional, por sua vez tem um concorrente que paga a mesma taxa de juros Selic nas operações overnight, que ele paga por seus títulos, mas que ainda garante liquidez imediata aos bancos. Diante desse concorrente não conseguirá alongar o prazo da sua dívida pública, mesmo que venha a ter superávits sistematicamente.

Diante desse quadro monetário, o Banco Central aprisiona, na ponta curta da curva de taxa juros, praticamente toda a poupança financeira do país e, portanto, inviabiliza a criação de um mercado de poupança. Nesse mercado é que deveriam ser negociados os títulos de dívida pública de longo prazo. O mercado de títulos privados de longo prazo também não tem como prosperar. Portanto, para reduzir a taxa de juros no Brasil é preciso desmontar esse sistema anacrônico, um verdadeiro entulho herdado do período de hiperinflação, que trava o desenvolvimento do país.

Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas – FGV/EESP, escreve mensalmente às terças-feiras.

O câmbio valorizado veio para ficar

O câmbio valorizado veio para ficar

Pedro C. Ferreira e Renato F. Cardoso

29/03/2011 – Jornal Valor Econômico

As dificuldades enfrentadas pela indústria brasileira diante da valorização do real observada nos últimos anos têm suscitado um acalorado debate sobre as alternativas de política econômica disponíveis para se deter – ou, pelo menos, retardar – a suposta desindustrialização do país. Identificar as causas da valorização da moeda brasileira, bem como avaliar se elas tendem a se dissipar no futuro, constituem o primeiro passo para uma discussão objetiva do problema.

A valorização do real, ao longo dos últimos anos, decorre de três fatores principais. O primeiro consiste no aumento da confiança dos investidores em relação ao país, iniciada em 1994 com o Plano Real e as privatizações, aprofundada em 2000 com a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas consolidada somente após a constatação, em 2003/4, de que a esquerda, uma vez no poder, havia se convertido – ou resignado – ao pragmatismo do século XXI. A menor percepção de risco atraiu capitais até então temerosos diante das incertezas que grassavam na antiga economia brasileira, apreciando o real.

O segundo fator foi a valorização das commodities exportadas pelo país, sobretudo a partir de 2005/6, decorrente das gigantescas importações asiáticas, sobretudo da China.

O terceiro consiste na política monetária expansionista dos países desenvolvidos, implantada a partir da crise de 2008, que aumentou o diferencial entre a taxa de juros brasileira e a internacional, atraindo capitais que valorizam o real. Note-se que a historicamente baixa poupança doméstica brasileira, fator que leva o país ter uma elevada taxa real de juros e consequente moeda valorizada, não pode ser incluída entre as causas da valorização recente, pois a poupança já era baixa antes da valorização observada nos últimos anos.

A maior confiança dos investidores no Brasil veio para ficar. Não sem razão: o eleitor brasileiro já deu todas as demonstrações de que rejeita aventuras. Por exemplo, ignorou a promessa populista de elevação do salário mínimo para R$ 600 do candidato derrotado à presidência. Também o fator China se mostra uma realidade de longo prazo. O espantoso crescimento da China resulta de um aumento acelerado da produtividade média do trabalhador chinês decorrente de dois fenômenos. O primeiro é a contínua migração de trabalhadores da agricultura tradicional de baixa produtividade para a indústria de alta produtividade. A agricultura chinesa ainda ocupa 55% de sua população, número semelhante ao observado no Brasil e Coreia em 1950. No mundo desenvolvido, a agricultura ocupa apenas 5% da população (no Brasil 10%), o que sugere haver ainda muito espaço para esse movimento continuar.

O segundo fenômeno que eleva a produtividade média do trabalhador chinês, tanto na indústria como no setor de serviços, são os ganhos de eficiência decorrente da gradual substituição de empresas estatais pelo setor privado. No Brasil, esses dois fenômenos já ocorreram no passado, mas na China podem ainda ter sobrevida por pelo menos duas décadas.

A alta produtividade da indústria chinesa não apresenta indícios de reversão. Sinal disso é o fato de o retorno do capital permanecer elevado, diante da incorporação de mais mão de obra oriunda da agricultura, bem como da melhoria da mão de obra já incorporada à indústria e aos serviços em decorrência do aumento da escolaridade. Mantidas as regras do jogo em vigor, a China continuará a crescer aceleradamente, sua renda per capita aproximando-se da de países como a Coreia e Taiwan. Seu apetite por commodities aumentará ainda mais, de modo que as exportações brasileiras de bens primários continuarão crescendo, contribuindo para a valorização do real.

Dos três fatores elencados acima, somente o terceiro tende a se dissipar com o passar do tempo, pois as economias centrais – que estão começando a sair da recessão – serão forçadas, futuramente, a retomar o controle monetário a fim de conter pressões inflacionárias. Isso significa que, de agora em diante, o Brasil precisará conviver com uma taxa de câmbio mais valorizada do que no passado, por absoluta falta de alternativa.

Nesse novo ambiente de câmbio valorizado, a proteção à indústria brasileira terá que vir de reformas microeconômicas que abrandem a pesada tributação, simplifiquem a complexidade fiscal, reduzam a burocracia, estimulem a poupança doméstica e a inovação, e dinamizem o mercado de trabalho. O que se precisa são de reformas que aumentem a produtividade do setor sem prejudicar o restante da economia, o que ocorreria com aumento das barreiras comerciais ou (mais) subsídios à indústria.

Buscar corrigir uma situação de longo prazo, permanente, com medidas recomendadas para choques temporários – acumulação de reservas e controle de capitais, por exemplo – é ineficaz e caro. Já tentamos isto no passado e pagamos um preço altíssimo: a tentativa de crescer a qualquer preço após os choques de petróleo dos anos setenta, ignorando uma mudança estrutural, nos levou a vinte anos de estagnação.

Pedro C. Ferreira e Renato F. Cardoso são professores do pós graduação da Escola de Economia (EPGE-FGV)

Escolhas duras ou nenhuma escolha?

Escolhas duras ou nenhuma escolha?

 

Renato Fragelli  

03/12/2010

Jornal Valor Econômico

Todo mundo quer ir ao paraíso, mas ninguém quer morrer. Os brasileiros mais que todos. Após se acostumarem a viver sem inflação, gostariam de financiar o consumo a uma taxa de juros baixa e de proteger a indústria nacional da concorrência internacional por meio de uma taxa de câmbio desvalorizada. Mas não aceitam as reformas estruturais requeridas para se aumentar a poupança doméstica, condição para que a menor taxa de juros e o câmbio desvalorizado não tragam a inflação de volta.

O caminho para se reverter a combinação de juros altos e câmbio valorizado é enfrentar a raiz do problema, o que significa elevar a poupança doméstica. Nesse sentido, algumas medidas impopulares teriam que ser adotadas, a principal delas uma racionalização dos gastos previdenciários. Dada a pirâmide etária do país, a comparação com outros países sugere que cerca de 4% a 5% do Produto Interno Bruto (PIB) poderiam ser transformados em mais poupança doméstica, após a maturação de uma corajosa reforma previdenciária e de pensões. Tecnicamente é possível implantá-las sem afetar a população mais desfavorecida, pois os grandes beneficiários das distorções atuais são trabalhadores de classe média que se aposentam por tempo de contribuição. Já os pobres, por trabalharem longos períodos na economia informal, se aposentam por idade.

Adicionalmente, um criterioso controle de gastos de custeio que fixasse seu aumento abaixo do crescimento do PIB, aliado a correções do salário mínimo restritas à elevação da produtividade média do trabalho, e a racionalização dos subsídios concedidos pelo BNDES, complementariam o conjunto de medidas destinadas a elevar a poupança doméstica. Essas reformas poderiam ser negociadas politicamente, em contrapartida de uma redução programada da carga tributária – sobretudo a incidente sobre a folha salarial. Em conjunto, essas medidas viabilizariam a gradual redução da taxa de juros e a desvalorização cambial, sem pressões inflacionárias.

A relutância brasileira em adotar medidas destinadas a aumentar a poupança doméstica, entretanto, parece indicar a preferência da sociedade por um segundo caminho, menos doloroso a curto prazo: para se assegurar crescimento com juros baixos e sem inflação, o Brasil assumiria a opção pela poupança externa. O país partiria, portanto, para o “modelo australiano”, país que convive há muitos anos com altos déficits em conta corrente.

Mas a opção pelo caminho mais fácil exigiria que não se repetissem erros do passado. Em primeiro lugar, o governo não poderia se endividar em moeda estrangeira, nem dar seguro cambial ao setor privado, diminuindo a vulnerabilidade da economia a choques externos e evitando situações onde empresas assumem riscos cambiais excessivos na suposição de que serão resgatadas pelo contribuinte. A resistência da economia brasileira à crise financeira de 2008, decorrente de elevadas reservas internacionais, indica que o país está em bom caminho em relação ao primeiro ponto. Em contraste, o socorro a empresas que sofreram perdas com a desvalorização daquele ano sugere problemas em relação ao segundo.

A implantação do “modelo australiano” sem criação de fragilidades exigiria a calibração do superávit primário a fim de se manter a (verdadeira) razão dívida líquida/PIB em um nível confortável – por exemplo, 30% do PIB. Neste quesito os sinais recentes são equívocos, pois a obtenção do superávit primário tem dependido crescentemente de manobras contábeis. Nos últimos dois anos, a razão dívida líquida/PIB – em torno de 41% – vem perdendo relevância como indicador de solvência, enquanto a relação dívida bruta/PIB tem crescido devido aos empréstimos do Tesouro ao BNDES.

A opção pelo modelo australiano exigiria, adicionalmente, o desaparelhamento das agências reguladoras. Um país que não poupa, e não aceita a volta da inflação, só poderá financiar seu crescimento se conseguir atrair o capital externo. Para isso, é preciso que o investidor estrangeiro confie na manutenção de regras do jogo estáveis sob supervisão de agências reguladoras, instituições de Estado autônomas em relação ao governo.

Mas o modelo australiano não pode ser apresentado assim, como uma panacéia. Em particular, a absorção de poupança externa requer câmbio valorizado, de modo que esse modelo não soluciona o problema da perda de competitividade da indústria brasileira, apesar de preservar o crescimento agregado. Longos anos de câmbio valorizado tenderiam a provocar gradual desindustrialização nos setores em que a vantagem comparativa do país é baixa, com especialização relativa naqueles onde há grandes vantagens comparativas, como a agroindústria e manufaturados leves.

Resta saber se os brasileiros estão conscientes das consequências da opção por não fazer as reformas necessárias (e duras) para atingir as causas fundamentais dos juros altos e câmbio valorizado. A opção intermediária que atualmente se persegue – nenhuma reforma juros baixos e câmbio desvalorizado – é o paraíso na terra, que infelizmente jamais será alcançado.

Pedro C. Ferreira e Renato Fragelli são professores da escola de pós-graduação em Economia da FGV.

O caso do banco PanAmericano e a má gestão premiada

O caso do banco PanAmericano e a má gestão premiada

Fernando Meibak

17/11/2010

Jornal Valor Econômico

Sou ferrenho crítico de ajuda a bancos em dificuldades sob o argumento de se evitar “risco sistêmico” – que é sempre a justificativa utilizada pelas autoridades para encobrir outros interesses, na realidade.

Uma pergunta simples revela esses outros interesses: quem seriam os grandes perdedores com a quebra do banco? Certamente seriam instituições grandes (os dados dos maiores depositantes têm sido divulgados, e são grandes bancos, assets, fundos de pensão etc), que são investidores ou instituições com forte capacidade de avaliação de risco de crédito.

Em 2002, 2003, um amigo de mercado foi trabalhar no PanAmericano , na área de tesouraria. Ficou pouco tempo e saiu com má impressão da qualidade das pessoas. Ao final de 2004, quando eu trabalhava numa instituição financeira, na área de gestão, abrimos um processo de abertura de limite de credito para compra de CDB do banco. Definimos uma linha e tínhamos uma regra combinada de liquidez diária que eles não cumpriram na primeira oportunidade que solicitamos.

Fui à diretoria do banco pessoalmente comentar que tínhamos cortado o limite de crédito pela má conduta. Enquanto estive nessa instituição os limites não voltaram, pois a diretoria é a mesma desde aquela época. Fiquei com a forte impressão que o banco tinha um “management” ruim.

Há cerca de 18 meses, dois anos, ouvi de muitos participantes do mercado que o banco estava com problemas na carteira de FIDC (inadimplência, talvez manipulação de performance) e que não estava pagando os pedidos de resgates nos fundos abertos rapidamente (ouvi que o “atraso” do pagamento de resgates chegava a meses).

Foi nesse período que apareceu a Caixa Econômica Federal para ajudar o banco via a compra de participação. Logo no início do processo de captação de recursos do novo instrumento DPGE, em abril/maio de 2009, o banco foi um forte tomador, a taxas muito elevadas.

Acho que a CEF dever ser alvo de fortes críticas pela não adequada avaliação da qualidade da instituição. Nesse rol também devem ser incluídas as agências de rating, as empresas de auditoria e os bancos que compraram carteiras e títulos. E o Banco Central? Como não conseguiu detectar esses problemas com mais antecedência? Os institutos de previdência, outras pessoas jurídicas e pessoas físicas têm menor capacidade de avaliação de risco de crédito.

O empréstimo do FGC é um desvirtuamento da função precípua do fundo: garantir depositantes. O tamanho do subsídio é impressionante. Empréstimo sem juros? Três anos de carência? Vamos calcular em 6% ao ano o subsídio implícito: significa um “presente” de R$ 150 milhões ao ano.

As garantias oferecidas são realmente discutíveis e devem estar infladas: a BF Utilidades é um negócio em decadência há muito tempo; o “business” da Liderança também; a TV SBT tem baixa lucratividade e vem perdendo espaço nos últimos anos. O banco não dever ter valor algum etc. Até agora não vi notícias de que o acionista colocou dinheiro da pessoa física no banco. É capitalizar o banco com dinheiro de terceiros…e subsidiado.

Um Banco Central forte, independente e zeloso do melhor para a sociedade faz diferença. Cá entre nós, com todo o respeito, o banco PanAmericano não fará qualquer falta ao mercado. Sou forte defensor das soluções de mercado. Se o banco for bom…terá interessados.

O “socorro” ao banco é, portanto, em minha visão muito discutível. O socorro, na realidade, é aos grandes investidores (bancos, assets, fundos de pensão) e bancos que adquiriram carteiras.

À semelhança do gigantesco apoio do Banco Central quando da crise cambial de 99, que vitimou o banco Marka (que também não fez falta alguma ao mercado), quem seriam os grandes perdedores com a quebra do banco Marka (e agora do PanAmericano)? Seriam grandes instituições financeiras, com alta capacidade de avaliação de risco e de absorção de prejuízos dessa natureza.

Estamos vendo mais do mesmo, muito típico de Brasil: a má gestão é premiada com uma forte articulação para encobrir e proteger os recursos de gente muito grande…

Fernando Meibak foi executivo dos bancos UBS, Citibank, ABN Amro Real e HSBC e é hoje sócio-diretor da Sunrise Investments

E-mail meibak@suninv.com.br

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IPO’s DECEPCIONAM NA BOLSA

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Nas 4 ofertas iniciais de ações (IPO’s) realizadas este ano houve desconto em relação ao preço mínimo sugerido e também queda do preço da ação no dia de estréia. Levantamento feito pelo Valor mostra que este fenômeno vem subindo ano a ano: 0% em 2004, 11% em 2005 e 2006, 33% em 2007, 50% em 2008 e 2009 e 100% neste início de ano!

No nosso modo de entender, nenhuma surpresa: apenas o mundo dos investidores está se tornando mais realista. O fundamentalismo econômico (“preços como retrato da companhia e de sua geração efetiva de resultados”) está voltando. Quem bom!

Inspiração: Valor Econômico