Mudanças na China exigem reformas na AL, diz OCDE

Por Murillo Camarotto | De Brasília

Jornal Valor Econômico

04/05/2016

Apesar da gradativa desaceleração de sua economia, a China pode continuar sendo um grande destino para as exportações dos países latino-americanos. A expansão do mercado interno chinês abre diversas oportunidades nos setores de alimentos, serviços e turismo. Para viabilizar esses negócios, no entanto, os governos latinos terão que aprofundar uma agenda de reformas estruturantes.

A conclusão está no relatório “Perspectivas Econômicas da América Latina 2016″, elaborado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em parceria com a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal). O documento foi apresentado e debatido ontem por especialistas reunidos no Departamento de Economia da Universidade
de Brasília (UnB).

O diagnóstico principal é que a competitividade da região – cuja economia deve encolher entre 0,5% e 1% em 2016 – vai depender da capacidade de cada país de implantar suas próprias reformas e estimular um crescimento inclusivo e abrangente. As reformas, segundo o relatório, devem buscar melhoria da produtividade, inovação e diversificação da produção, bem como investimentos em infraestrutura e capital humano.

A tarefa, obviamente, não é simples. Após a explosão da venda de commodities para os chineses, na primeira década deste século, os países da América Latina não souberam lidar com a desaceleração do país asiático, que neste ano deve crescer pelo menos 6%. De acordo com a OCDE, as dificuldades enfrentadas pelos latino-americanos revelaram as fraquezas estruturais de um sistema baseado na venda de matérias-primas.

A “nova normalidade” da China – como é chamado o período de crescimento mais moderado – deve ser enfrentada com maior capacitação, integração regional mais consistente e melhoria da infraestrutura. “A manutenção do modelo atual não é mais apropriada”, disse o economista italiano Mario Pezzini, diretor do Centro de Desenvolvimento da OCDE.

De acordo com ele, a expansão do mercado consumidor chinês vai aumentar brutalmente a demanda por alimentos de maior valor agregado, área em que os países da região, sobretudo o Brasil, têm grande potencial. Outra necessidade é o reforço das plataformas comerciais, como Mercosul e Aliança do Pacífico, para a ampliação dos negócios com os asiáticos.

Lembrou que a participação da América Latina na economia global era bem próxima à da China na década de 90, mas hoje os chineses contribuem com cerca de 30% e os latino-americanos com cerca de 6%.

O secretário-geral de Assuntos Econômicos do Itamaraty, Carlos Márcio Cozendey, deu ênfase às dificuldades que serão enfrentadas para a maior inserção da América Latina nas cadeias globais de valor. Segundo ele, a divisão da produção mundial já está relativamente assentada, o que torna as mudanças mais complicadas.

O diplomata citou como exemplo a participação brasileira nos mercados mundiais de alimentos, minério e aviões, que só foi possibilitada pelo investimento em inovação feito por empresas como Embrapa, Vale e Embraer. Nesse sentido, Cozendey sugere que os países da região “aceitem” o papel de exportadores de produtos baseados em recursos naturais e se aproveitem desse perfil para agregar valor a essas mercadorias.

Na avaliação de Roberto Elleny, professor da UnB, os países que se encontram hoje em dificuldades mais profundas fizeram escolhas políticas semelhantes – casos de Brasil, Argentina, Equador e Venezuela. De acordo com a projeção mais recente do Fundo Monetário internacional, as economias desses quatro países irão encolher em 2016.

Segundo Elleny, isso acontece, em boa medida, pela falta de prudência dos governos no período em que a região se beneficiou dos preços altos das commodities e da imensa liquidez de dinheiro barato no mercado internacional. Para o professor, esses países gastaram mal os recursos nos tempos de bonança, diferente do que fizeram, por exemplo, Chile, Colômbia e México, cujas economias estão crescendo.

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