Ducha de água fria

O ESTADO DE S.PAULO

20 Maio 2015 | 02h 05


Problemas das gigantes Sharp e Toshiba mostram o quanto as reformas corporativas ainda têm de avançar no Japão

Era grande a euforia nos últimos tempos, por conta da impressão de que a indústria japonesa estaria ingressando numa fase de melhores práticas de governança corporativa e lucros mais altos. Mas, na semana passada, notícias ruins em relação à Sharp, empresa que no passado foi símbolo do poderio econômico do país, e à Toshiba, outra gigante da engenharia, serviram para lembrar que ainda há muito o que melhorar.

Em 14 de maio, a Sharp anunciou o seu segundo plano de reestruturação e recuperação financeira em apenas três anos. Cronicamente endividada e sofrendo um prejuízo atrás do outro, a empresa revelou a intenção de realizar um ajuste contábil que praticamente liquidará, em sua totalidade, os cerca de 120 bilhões de ienes (US$ 1 bilhão) que compõem o capital de seus acionistas, excluindo do balanço uma profusão de perdas acumuladas. Presume­-se que a medida drástica tenha sido tomada por determinação de dois bancos japoneses, o Mizuho Financial Group e o Mitsubishi UFJ Financial Group, que vêm garantindo a sobrevivência da empresa. As duas instituições investirão na Sharp outros 200 bilhões de ienes por meio de uma conversão de dívidas em participações acionárias. A empresa reduzirá 10% dos 50 mil postos de trabalho de suas operações globais ­ incluindo 3,5 mil cortes no Japão ­ por meio de um plano de aposentadoria voluntária. Apesar disso, a Sharp não pretende se desfazer de nenhuma de suas unidades de negócio que se encontram em dificuldades.

Há não mais que cinco anos, a empresa desfrutava de sólida posição competitiva nos segmentos de TVs, monitores de LCD, painéis de energia solar e, no Japão, celulares. Agora, com exceção de uma modesta unidade de eletrodomésticos, faltam à companhia produtos que gerem lucros sustentáveis e sirvam de base para a reorganização, diz Atul Goyal, da corretora Jefferies. Ao contrário de algumas concorrentes, como Sony e Panasonic, a Sharp demonstra pouca disposição para abandonar segmentos inteiros de mercado.

Em todo o Japão, os bancos mantêm inúmeras empresas respirando por aparelhos. Para os credores, a dimensão da dívida da Sharp em si significa que eles não podem deixar a companhia ir à falência sem que isso mutile seus próprios lucros. No entanto, o mercado considera a insolvência da Sharp um desfecho tão provável que o custo de se precaver contra isso por meio de um credit­-default swap (forma de proteção contra inadimplência) é agora um dos mais elevados do mundo.

Nicholas Benes, presidente do Board Director Training Institute of Japan, diz que o caso da Sharp também põe em questão o motivo de o governo japonês nunca ter estimulado grandes empresas estrangeiras, como a sul­-coreana Samsung, a apresentar ofertas de compra pelas divisões da empresa que ainda valiam alguma coisa. Em 2012, a taiwanesa Hon Hai concordou em adquirir uma fatia da Sharp, mas o negócio foi por água abaixo quando os preços das ações da companhia japonesa entraram em queda livre.

Quanto à Toshiba, a notícia de que a empresa declarou sem efeito sua projeção de lucros e cancelou o pagamento de dividendos em virtude de problemas contábeis em sua divisão de infraestrutura (que produz material ferroviário e equipamentos para a transmissão de energia elétrica) fez suas ações desabarem 17%. A companhia agora informa que realizará a segunda sindicância interna em suas práticas contábeis nos últimos dois anos.

A Toshiba tem no conselho de administração nada menos que quatro membros externos para supervisionar os passos de seus executivos. Mas as irregularidades indicam que talvez ainda existam problemas na cultura corporativa e nas práticas de governança da empresa, admite uma fonte próxima dos conselheiros. Embora a companhia tenha vendido sua operação de telefonia celular em 2010, os tradicionalistas que ocupam seus postos de comando recusaram-­se a abandonar as pouco lucrativas divisões de TVs e computadores pessoais a fim de conter a ramificação excessiva do conglomerado. Enfim, a semana que passou foi uma ducha de água fria para o número crescente de otimistas com a governança corporativa no Japão.

THE ECONOMIST, TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O ARTIGO ORIGINAL, EM INGLÊS, PODE SER ENCONTRADO EM WWW.THEECONOMIST.COM

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