Sempre de malas prontas para talvez nunca mais voltar

Nômade globalizado: Na Reckitt Benckiser, executivos mudam de país conforme a necessidade da empresa sem a perspectiva de atuar de novo em sua terra natal.

Sempre de malas prontas para talvez nunca mais voltar

Vívian Soares | De São Paulo

06/04/2011 – Jornal Valor Econômico.

Há três anos como diretora de marketing da Reckitt Benckiser no Brasil, a inglesa Alison Radford sabe que será transferida para outro país em, no máximo, um ano e meio. O destino, assim como a data exata da mudança, ainda é desconhecido – a única certeza é a de que é preciso atuar em diferentes subsidiárias para crescer na companhia. Alison é apenas mais um caso de executiva com carreira global dentro da Reckitt Benckiser, que no ano passado começou a implementar no Brasil o modelo de expatriação que já segue mundialmente: a carreira internacional nunca termina e o profissional não volta ao seu país de origem.

De acordo com Renata Lopes, gerente de RH da indústria anglo-holandesa de produtos de limpeza, o programa de gestão dos profissionais “globais” não é sequer considerado expatriação. Diferentemente do modelo tradicional, em que os executivos voltam para seus cargos de origem depois de alguns anos fora, no caso da Reckitt Benckiser o retorno não é garantido e a experiência no exterior é mandatória em setores como o de marketing. “Isso vale para todos os níveis, do analista ao presidente”, explica.

A empresa tem 25 mil funcionários, possui escritórios em 60 países e seus principais executivos têm histórico de carreira global. No Brasil, são 24 profissionais de 13 nacionalidades, enquanto 35 brasileiros estão no exterior ocupando desde cargos operacionais até alta diretoria. O próprio CEO da empresa por aqui, Frederic Morlie, é um franco-belga que já atuou em oito países.

A gerente de RH explica que esse tipo de carreira não é para todos. Afinal, identificar os futuros expatriados envolve um complexo cruzamento entre performance, alinhamentos aos valores corporativos e oportunidade em uma das filiais no mundo. Os dirigentes possuem um mapa com os profissionais e os “convidam” a ocupar vagas em diferentes países.

A empresa oferece remuneração compatível para que o profissional e sua família possam manter o mesmo padrão de vida de seu país de origem, além de um bônus e uma espécie de “auxílio-mudança”, que dura até dois anos. “Também pagamos escola bilíngue para os filhos e ajudamos cônjuges a se recolocar no mercado”, diz Renata.

Alison Radford conta que a adaptação pessoal é a parte mais difícil de se ter uma carreira global. Filha de um executivo de multinacional, ela passou a infância mudando de país mas, ainda assim, enfrenta desafios em cada novo destino. Solteira e sem filhos, ela sente dificuldades em ter de resolver tudo sozinha – desde fazer novos amigos até buscar uma casa para morar. A experiência, porém, é compensadora. “Vivenciar essa rotina na infância me tornou mais flexível e aberta a novas culturas.”

Para o diretor de sistemas de informação Saqib Mehmood, que desde 2006 passou pelo Paquistão, África do Sul e Brasil, o apoio familiar é muito importante para manter a carreira global. “Sem isso, a vida profissional não vai bem”, afirma o executivo paquistanês, que vive com a mulher em São Paulo. Ele diz que os principais desafios são se adaptar à lingua e à cultura do país. Ao mesmo tempo, o suporte da empresa em cursos de idiomas e a inscrição em clubes e atividades culturais, por exemplo, torna a rotina mais fácil.

Há quem não se adapte, mas o retorno não é fácil. Quando o profissional se muda, é demitido de onde estava e recontratado no destino. Sua vaga anterior é preenchida, muitas vezes por outro colaborador também com carreira global. Assim, a empresa trabalha fortemente a cultura de expatriação para evitar que isso aconteça e são poucos os casos de funcionários que não se adequaram e desistiram. A restrição em morar fora, inclusive, pode ser motivo de eliminação de candidatos na seleção dos programas de trainee.

“A cultura da empresa é a mesma em todo o mundo”, diz Renata. Por este motivo, o choque cultural é mais forte na família do que no executivo. “A recomendação é de que o expatriado vá sozinho e só depois leve outras pessoas.”

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