Consumidor troca posse por colaboração

Jornal Valor Econômico

13/03/2015 ­ 05:00

Por Célia Rosemblum

O verbo ‘ter’ começa a abrir parte de seu domínio no mercado consumidor para o verbo ‘compartilhar’: 7% dos brasileiros praticam alguma forma de economia colaborativa. Este sistema possibilita o trocar, alugar, compartilhar, emprestar ou comprar bens e serviços usados em lugar de pagar por algo novo e exclusivo

O índice de 7% é ainda modesto, mas a disseminação do conceito, conhecido por 20% dos entrevistados pela consultoria Market Analysis, aponta uma tendência de crescimento. “Ele entra em uma discussão mais ampla sobre economia circular em um contexto de consumo sustentável. O foco está não na aquisição ou no uso, mas no pós­uso”, disse ao Valor Fabian Echegaray, diretor da Market Analysis.

A ideia na economia circular é “fechar o ciclo”, com resíduos que retornam à cadeia produtiva ou são reincorporados ao ambiente, como ocorre em sistemas biológicos. Trata­se de uma oposição ao modelo tradicional, chamado de “linear”. Este é baseado na extração de recursos que são convertidos em produtos com posterior descarte. A definição consta de relatório de 2014 do Fórum Econômico Mundial, com a colaboração da Fundação Ellen MacArthur e da consultoria McKinsey.

A partir de entrevistas face a face com 905 adultos residentes nas principais capitais brasileiras, entre 18 de janeiro e 12 de fevereiro, a pesquisa da Market Analysis revela que entre aqueles que adquirem bens e serviços de forma colaborativa, à troca ou venda de produtos usados é a prática mais comum (73%). Em um patamar bem mais baixo seguem-­se aluguel ou empréstimo de bens (15%), aluguel de carro ou carona (13%), contratação coletiva de serviços (12%) e engajamento em hospedagem solidária ou paga (8%).

No Sudeste, o maior mercado consumidor do país, o nível de familiaridade com o consumo compartilhado fica abaixo dos 20% da média nacional: 17% em Belo Horizonte, 15% em São Paulo e 14% no Rio. No Recife, cidade pioneira no compartilhamento de carros, nada menos que metade da população adulta (50%) conhece a prática.

Em termos globais, o mercado, estimado em US$ 3,5 bilhões ao ano pela revista “Forbes”, parece promissor. Pesquisa da Nielsen divulgada em maio de 2014, um dos poucos levantamentos sobre o tema segundo Echegaray, indicava que 68% dos entrevistados ­ 30 mil pessoas que responderam ao questionário pela internet em 60 países ­, estariam dispostos a compartilhar ou alugar seus bens para ter ganhos financeiros. No Brasil, foram 78%. Mas esses índices, diz Echegaray, devem ser olhados com filtro: é um comportamento declarado de um público restrito, com acesso a internet.

O consumo colaborativo, conta o diretor da consultoria, começou nos anos 1990, com programas de carona solidária nos Estados Unidos, onde em algumas regiões existem faixas exclusivas para carros com mais de um ocupante. O comportamento é impulsionado em épocas de crise, diz. “Em 2001, na Argentina, havia mais de mil clubes de escambo e economia solidária.”

E foi principalmente em função da crise ­ e graças à plataforma da internet ­, que a tendência ganhou força nos Estados Unidos e Europa a partir de 2008. “É um fator que evidencia a necessidade de usar recursos que estão parados, caso de um carro que roda duas horas por dia e fica 22 horas estacionado”, afirma Echegaray.

“É uma transação que permite o usufruto de um produto, que até então estava ocioso, ou de um serviço sem envolver obrigatoriamente a fabricação de mercadorias ou dinheiro para ter acesso a ele”, diz Gabriela Yamaguchi, gerente do Instituto Akatu, instituição que trabalha pelo consumo consciente. “É, com certeza, não só uma tendência, mas um caminho que deve ser incentivado para modelos de negócios mais sustentáveis.”

A associação da empresa ao conceito de compartilhamento pode significar, segundo Echegaray, “uma janela de oportunidade para capitalizar a imagem de organização sustentável, inovadora”. Curiosamente, a marca mais lembrada na pesquisa quando se fala de consumo colaborativo, com 16% de citações, é a de um banco, o Itaú, que desenvolve um programa de uso compartilhado de bicicletas. A OLX, empresa de classificados gratuitos na internet, é a segunda na lista de menções, com 10%, seguida pela Prefeitura de Porto Alegre, também envolvida com bikes, com 2,3%. Na sequência estão, com percentuais inferiores a 2%, a organização 24×7 Cultural, o Sesc e a Coelba. Mais da metade dos entrevistados (53%) não soube mencionar nenhuma organização e, supreendentemente, ninguém se referiu aos gigantes internacionais do setor como AirBnB, Zipcar ou Uber

Luciana Nicola, superintendente de relações governamentais / institucionais e responsável pelo programa de mobilidade urbana do Itaú, que hoje disponibiliza a usuários cadastrados mais de 6,7 mil bicicletas cor de laranja em 678 estações distribuídas por sete capitais, conta que quando a iniciativa foi lançada em 2011, no Rio, o objetivo era promover mudanças na política pública para incluir a bicicleta como modal de transporte, uma alternativa eficiente em diferentes cidades do mundo, para destravar o tráfego.

O modelo compartilhado, em que ninguém precisa comprar a bicicleta, no primeiro momento, se apresentou como o mais adequado para mostrar para o governo que existe demanda, o que estimula a criação de infraestrutura, explica a executiva. Esse programa, realizado em parceria com os municípios, foi o responsável pela grande associação, na pesquisa, da marca Itaú com consumo compartilhado. Luciana comemora: “É fantástico o reconhecimento do esforço que estamos fazendo em uma causa que nem é atividade fim do banco”

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