Gestor por excelência

Raul Calfat

Revista Administrador Profissional

Outubro/ 2014 – nº 340

Homenageado pelo CRA-SP com o título de Administrador Emérito 2014, Raul Calfat, presidente do Conselho de Administração da Votorantim Participações, fala nesta entrevista sobre os rumos do país, de sua organização e da relação com Antônio Ermírio de Moraes.

Atualmente presidente do Conselho de Administração da Votorantim Participações, o administrador Raul Calfat tem trabalhado para o aprimoramento e para a difusão da profissão. Em decorrência de seu destaque tanto na gestão de negócios quanto no cenário econômico do país, foi agraciado com a distinção de Administrador Emérito 2014 pelo CRA-SP, entregue no último dia 30 de setembro.

Calfat é formado pela Fundação Getulio Vargas, com especialização pelo IMD (Suíça). De 2004 a janeiro deste ano foi diretor-presidente da Votorantim Industrial, onde liderou as áreas de cimentos, metais, celulose, siderurgia, suco de laranja e energia da empresa.

Antes disso, foi presidente da Votorantim Celulose e Papel (atual Fibria), entre 1995 e 2003, e presidente da Papel Simão, a qual iniciou a carreira como trainee em 1973 e chegou à presidência aos 36 anos.

Mesmo com as dificuldades econômicas que o país atravessa, Calfat afirma que o grupo não parou de investir. “Temos um projeto pronto para uma nova fábrica em Mato Grosso do Sul, uma fábrica gigante. Já somos o maior produtor de celulose do mundo e aguardamos um melhor cenário para poder crescer mais. Temos ações bastante diversificadas esperando, mas não deixamos de investir nesse período. Inclusive na área de cimento, temos projetos em execução agora e teremos ano que vem. Tanto no Brasil quanto no exterior”, conta.

Nesta entrevista exclusiva, ele fala sobre os rumos da Votorantim, a importância do papel do administrador nos destinos do país, suas projeções para o futuro, além de sua proximidade com Antônio Ermírio de Moraes, falecido em agosto deste ano, e que também foi agraciado pelo CRA-SP com o Administrador Emérito em 1999. Calfat chama a atenção para a relevância do legado deixado pelo seu mentor na vida pública do país, embora admita que não pretende atuar tão fortemente nesse quesito, a ponto de entrar para a política. “Não tenho essa ambição de atuar em cargos na vida pública, mas tenho procurado contribuir com ideias e com algumas iniciativas nesse sentido”, revela.

RAP: Em uma trajetória tão rica como a sua, o que representa ser agraciado com a distinção de Administrador Emérito do CRA-SP? Administrador Emérito do CRA-SP?

Raul Calfat: Um grande reconhecimento, porque o CRA-SP é um órgão de muita expressão, dentro da área de administração de empresas. Dentro desse segmento, em termos de entidade de classes, o CRA é a mais representativa do país. Principalmente pela transparência com que a escolha é feita, fazendo questão de mostrar todos os detalhes, com consulta aos registrados, depois com uma comissão de notáveis, com nomes de grande expressão. Então, isso aliado ao processo de escolha, é um grande reconhecimento. E olhando o passado, desde quando o prêmio foi instituído, em 1982, as pessoas que foram agraciadas são de enorme renome. Estar junto com esse elenco me deixa muito feliz e honrado.

RAP: Qual é a perspectiva da Votorantim para os próximos anos?

Raul Calfat: Nós estamos em setores de insumos básicos e capital intensivo. Setores que foram sendo construídos ao longo do tempo. A empresa tem 96 anos, fundada em 1918. Temos uma atuação diversificada nas áreas de cimento, metais e mineração, aços longos, celulose, suco de laranja e energia. Ao longo desses últimos anos, o setor industrial teve uma perda de competitividade expressiva, decorrente de vários fatores. Mas fundamentalmente do processo tributário do país, que é profundamente oneroso às empresas, com muitos impostos que acabam não sendo ressarcidos. Temos uma desvantagem grande em infraestrutura, em taxa de juros e a utilização da taxa de câmbio também, com o objetivo de conter a inflação. A conjunção desses fatores acabou levando a uma redução de competitividade. Acho que o estudo mais recente sobre isso, comparando o Brasil com outros setores, foi do IMD (International Institute for Management Development) e mostra que o Brasil está em 57º no ranking de competitividade. Em relação aos mais competitivos, o Brasil tem um custo cerca de 33% superior. E os itens ressaltados pelo IMD são justamente esses que citei.

RAP: Isso implica em quê?

Raul Calfat: Isso trouxe uma perda de dinamismo. Hoje pouco se ouve falar em empresas no Brasil que fazem projetos para exportação. O que aconteceu foi

que nesses últimos anos mais recentes, as empresas continuam fazendo alguns investimentos, mas são menores, de desengargalamento. Não são investimentos de grande vulto. Enquanto que no passado você via iniciativas de empresas colocando capacidade que seria alocada tanto no mercado interno quanto na exportação. Como essa segunda opção não existe mais por conta da perda de competitividade, você fica limitado na escala. Isso começa a provocar uma defasagem no parque tecnológico do país também, além de perda de produtividade. O processo se torna nocivo. Mas, a despeito disso, temos seguido com uma série de investimentos em algumas áreas.

RAP: Quais são essas áreas de investimentos?

Raul Calfat: A mais notória delas é a de cimento, que é o negócio principal da Votorantim. Ao longo dos últimos cinco anos, investimos R$ 11 bilhões. Colocando capacidade, novas plantas, e ampliando nossa capacidade de produção em quase 40% durante esse período. Nós nos preparamos para um período em que o Brasil deveria estar enfatizando a construção civil e obras de infraestrutura. Tudo isso vem sendo frustrado pela redução do ritmo de crescimento do país. Então, algumas dessas plantas começam a ter ociosidade. Por outro lado, nós fizemos uma internacionalização desde o ano 2001, que vem crescendo ao longo do tempo. Hoje, também na área de cimento, estamos em 23 países. Não apenas na América do Norte, onde nós iniciamos, e na América do Sul, mas há cerca de dois anos e meio compramos uma parcela expressiva de uma empresa multinacional chamada Cimpor, e integramos esses ativos dentro da Votorantim cimentos. São ativos que estão na Ásia, no norte da África, além de Europa. Somos já o oitavo do mundo em cimento, além de sermos os primeiros do Brasil.

RAP: Qual das áreas da organização sentiu mais a queda da economia?

Raul Calfat: A área de metais foi talvez a que mais sentiu essa perda de competitividade do Brasil. Nós enxergamos isso e, desde o ano de 2005, iniciamos uma nova plataforma no Peru, que hoje é bastante importante. Somos um dos maiores investidores privados do mundo no Peru. Temos uma companhia de mineração de capital aberto lá. E temos também uma refinaria de zinco, área em que somos o quinto do mundo. Mas temos uma série de projetos que foram desenvolvidos e que nesse momento aguardam uma conjuntura mais favorável.

RAP: Essa queixa em relação ao sistema tributário brasileiro é recorrente nas organizações. Você vê uma solução à curto prazo?

Raul Calfat: A legislação brasileira é muito complexa e o cenário brasileiro que define a questão tributária também é. Especialmente o ICMS, que depende do Confaz (Conselho Nacional de Política Fazendária), que por sua vez é um órgão que toma decisões por unanimidade. Então, como muitas vezes os interesses regionais são conflitantes, ela não é atingida. Tem uma série de tributos federais que o governo, ao longo do tempo, foi ajustando a legislação. Ainda há muito para ser feito. Mas em relação ao ICMS, você hoje tem alíquotas as mais diferentes possíveis, tem incentivos, tem créditos que não são ressarcidos. Vou dar um exemplo específico, que muitas vezes é pouco comentado, mas representa uma obrigação dos governos estaduais, que não é pequena e não aparece, é um novo esqueleto, que é o crédito de exportação (Lei Complementar 87/96, Lei Kandir, que desonerou as exportações e permitiu que os créditos de ICMS relativos às entradas, acumulados em função das saí- das ao exterior não tributadas, fossem transferidos a estabelecimento de mesma titularidade e, em havendo saldo remanescente, a terceiros). Quando você exporta um produto, não exporta imposto. Esse é o princípio básico de qualquer país do mundo. Só que no caso específico do ICMS, alguns estados não o ressarcem, e ficam com aquela pendência acumulada. O Grupo Votorantim, especificamente, tem um crédito de ICMS a ser ressarcido pelos estados superior a R$ 1 bilhão. Isso vai tirando competitividade das empresas, e é um direito adquirido que você tem. Então esse emaranhado precisa ser certado em um acordo político. E nada melhor que um novo governo que possa endereçar essas questões.

RAP: O que significou para você deixar a presidência da Votorantim Industrial e assumir a frente do Conselho de Administração da Votorantim Participações?

Raul Calfat: Essa mudança representa primeiro uma mudança de rotina, já que sempre fui executivo, com uma série de atribuições diferentes das de um presidente do Conselho de Administração, cujas atribuições são mais voltadas para gestão de portfólio, questões estratégicas, de formação de gente, adequação de estrutura organizacional. Mas ao longo do tempo, a Votorantim evoluiu muito em seu modelo de governança e eu diria que hoje nosso modelo é um dos que eu reputaria como mais evoluídos nesse sentido. Embora a Votorantim não seja de capital aberto, ela definiu as suas estruturas de tal forma que atua como se fosse, em termos de transparência, de alçadas, de resolução. Ela tem comitês, que são normalmente requeridos por empresas de capital aberto. Eu acabo atuando não apenas na presidência do conselho, mas também nos diversos comitês. Hoje temos comitê, por exemplo, de finanças, relações institucionais, pessoas, auditoria, e ao mesmo tempo temos instituído em nossas empresas os respectivos conselhos de administração. Eu acabo fazendo essa interface entre o conselho de administração da holding e o das empresas que pertencem ao grupo. Além disso, temos uma empresa de capital aberto, que é a Fibria, da qual eu também participo do conselho. É interessante você observar os níveis de governança. A Fibria é também uma empresa modelo no mercado de capital, inclusive está no índice de sustentabilidade da Dow Jones. Todas as referências que estão estabelecidas lá, estão também na Votorantim. Então o fato de estar no conselho hoje e ser o primeiro que não é da família fundadora, me honra muito. Eu estou nesse grupo desde o final de 1992. Estou muito à vontade justamente por sua organização, transparência e governança.

RAP: Ao assumir o Conselho, sua estratégia foi de descentralizar funções. Acha que esse é o melhor modelo de gestão?

Raul Calfat: Os negócios cresceram muito ao longo do tempo e hoje temos empresas com bastante representatividade, não apenas no Brasil. Essa descentralização veio naturalmente, em função das escalas das empresas. Além disso, hoje há tamanha sofisticação e complexidade dos mercados, que é importante levar essa alçada de decisão para as empresas, com o objetivo de melhorar a qualidade decisória. E a holding propriamente dita acaba fazendo o acompanhamento dos negócios e a gestão do portfólio.

RAP: Existe algum momento que você considere que foi determinante para seu sucesso na carreira de administrador?

Raul Calfat: Isso aconteceu logo no início da minha carreira. Eu estudava administração na FGV e estava no primeiro semestre do terceiro ano quando surgiu a oportunidade de fazer um estágio, nas Indústrias Papel Simão S.A. Naquela ocasião, eu vinha discutindo com um grupo de colegas meus a possibilidade de fazer pós-graduação nos Estados Unidos. E como surgiu essa oportunidade, eu acabei fazendo o estágio e era justamente o momento em que o Brasil começava a se abrir para exportação, começo da década de 1970. Tinha muito pouca gente especializada nessa área. Isso acabou me atraindo e defini não fazer a pós naquele momento, enquanto todos os meus amigos fizeram. Eu tive que optar. Comecei a carreira profissional e isso foi determinante, porque acelerou bastante, consegui galgar passos rapidamente. Logo que me formei, virei gerente de exportação, consegui ser diretor com 30 anos e com 36 eu já era presidente da empresa. Esse foi o momento relevante de decisão na minha carreira.

RAP: Acha que essas oportunidades ainda existem para o jovem administrador no mercado atual?

Raul Calfat: Acho que a circunstância muda, mas oportunidades permanecem. Vejo os jovens, principalmente em áreas ligadas a tecnologia, galgarem posições muito rapidamente. Você vê jovens com destaque. Essa mobilidade continua viva, quaisquer que sejam as circunstâncias econômicas.

RAP: Como você vê o atual momento da profissão de administrador no Brasil e que projeções faz para o futuro?

Raul Calfat: A administração é uma atividade fundamental. Ela teve tanto sucesso na área privada, que acabou se estendendo à área pública. Hoje existem vários cursos de graduação e especialização na área pública. Ter o preparo das pessoas para gerir ativos, pessoas, fazer estratégia, investimentos, crescimento, definir estruturas das organizações – isso está cada vez mais complexo e sofisticado. Requer muita informação, muito estudo e dedicação. Porque os recursos são escassos e precisam ser geridos da melhor forma possível e ter a maior produtividade possível. E é justamente isso que precisa da atividade de administrador de empresa. É uma função que tem cada vez mais relevância na complexidade do mundo atual.

RAP: Depois de tantos anos dedicados à profissão, você se considera plenamente realizado?

Raul Calfat: Ninguém se considera plenamente realizado. No meu caso específico, eu ainda gostaria de fazer muita coisa. Ainda vejo muito desafio. Estou muito feliz com essa nova etapa da minha carreira, na área de conselho de administração, e tenho uma dedicação grande. Participar desse processo me toma muito tempo, mas são novos desafios. Tenho procurado, na medida do possível, até me diversificar um pouco mais. Tive a possibilidade de participar mais recentemente de um novo conselho de administração, sou conselheiro independente da Duratex também. Essa nova oportunidade me traz novos conhecimentos em setores diferentes, que preciso aprender para poder contribuir com toda a experiência. Ainda sinto muitos desafios e novidades na profissão. E tenho o mesmo nível de dedicação que tinha no passado. Tenho procurado não mudar minha rotina. A intensidade de horas de trabalho não é muito diferente do que foi antes. Mas, logicamente, as abordagens são bastante diferentes.

RAP: Que conselho você daria ao jovem administrador ou a quem quer seguir essa carreira?

Raul Calfat: O grande problema hoje é a qualidade do ensino. Infelizmente, são poucas as universidades de elite no país, aquelas que formam pessoas para o mundo profissional com qualidade. O Brasil forma em níveis técnicos e superiores um terço a menos que os países desenvolvidos. Ou seja, das pessoas que começam a estudar, apenas 13% deles concluem cursos superiores, para 39% nos países desenvolvidos. E para níveis técnicos, são 14%, e na Alemanha é mais de 50%. Isso traz uma dificuldade de inclusão social que é muito preocupante. Porque na medida em que você tem essa dificuldade de aprendizado e produtividade, a capacidade do país crescer está limitada.

RAP: Quais os caminhos para o estudante, então?

Raul Calfat: Um jovem que entra na carreira de administração de empresas – estou à vontade para dizer isso porque tenho uma filha de 18 anos que entrou neste ano na FGV para estudar administração de empresas – , o que eu teria a recomendar é que se dedique. Tem tempo para tudo, mas se dedique. Leia muito, estude, estude em grupo. Hoje tem acesso na internet a qualquer tipo de informação, mas é essencial que se aprofunde nessa informação. Não fique só sabendo onde você obtém a informação. Precisa aprender a desenvolver um raciocínio que permita tomar a decisão muitas vezes com a rapidez que ela é necessária. Só saber onde está a informação não permite esse encadeamento do processo decisório com a qualidade necessária. Se aprofunde nos temas, nos assuntos, aprenda a trabalhar em equipe. Respeite os outros, se integre nas equipes, ouça muito. Sempre procurando ter o máximo possível de informação. A internet permite que se faça os trabalhos requeridos pela escola com resumos que se consegue na rede. É preciso tomar muito cuidado com isso. Porque você consegue se formar só capturando essas sínteses. Só que no final você não estará preparado. Tem que tomar cuidado para não cair na tentação do mínimo esforço. Essa é a receita para não se dar bem na vida e na nossa profissão.

RAP: Como é seu tempo livre, fora do trabalho?

Raul Calfat: Eu procuro distribuir meu tempo fora do trabalho em coisas que gosto de fazer. Uma delas é praticar esportes. Eu tenho uma rotina em que pratico no mínimo uma hora por dia. Pela manhã, das 5h30 às 6h30. Eu faço um programa que abrange musculação, corrida e abdominal e me sinto muito bem. Isso tem muito a ver com a disposição para o trabalho. Em fins de semana eu mantenho isso em outros horários. Quando eu viajo, eu também procuro manter essa rotina. Outra coisa é leitura, eu leio muito. Normalmente assuntos ou ligados a interesses do trabalho ou economia. Gosto muito de textos de economia. E gosto muito de ver filmes, além de viajar para a praia. É o que faço fora da rotina da empresa.

RAP: Fale um pouco sobre sua relação com o Antônio Ermírio de Moraes, que faleceu recentemente.

Raul Calfat: O Dr. Antônio Ermírio teve um prestígio que excedeu o prestígio da empresa. Sempre digo que ele foi maior do que a empresa. Além de todos os valores que ele implantou dentro da Votorantim, que são muito praticados, principalmente a ética e o comprometimento com o trabalho, que são muito arraigados dentro do grupo, ele sempre teve a coragem de exprimir opiniões, em qualquer conjuntura econômica, sempre pensando no país. E isso o diferenciou. Eu escuto de membros do governo hoje que tiveram contato com ele no passado, alguns com pontos de vista divergentes do dele, que são unânimes em dizer o seguinte: Dr. Antônio sempre defendeu pontos relativos a interesses do país, diferentemente do que normalmente acontece. Então acho que esse legado é muito forte e deveria servir de exemplo para todos aqueles que atuam nessa atividade e são pessoas que têm realce na sociedade. Eles deveriam poder exprimir mais seus pontos de vista e contribuir para a resolução dos problemas do país.

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