Empresas no país estão entre as que mais trocam de CEOs

Por Rafael Sigollo
Jornal Valor Econômico
30/04/2014

A alta expectativa dos investidores em relação ao Brasil após a crise de 2008 e a consequente frustração, oriunda de resultados pífios, colocou o país pelo terceiro ano consecutivo no topo da lista dos que mais trocaram CEOs. A taxa de rotatividade no ano passado ficou em 22,9%, sendo que a média global foi de 14,4%. Do total das mudanças no topo ocorridas por aqui, 67% foram planejadas, 26% foram forçadas (o que, na prática, significa que foram demitidos) e 7% se deram em consequência de processos de fusão e aquisição.

Os dados são de um estudo exclusivo da Strategy&, antiga Booz & Company e que, recentemente, passou a fazer parte do rol de firmas pertencentes à consultoria PwC. Participaram do levantamento as 2500 maiores empresas de capital aberto do mundo, que registraram juntas 361 trocas de CEOs no ano passado – o setor de telecomunicações foi o líder.

O alto número de substituições dos principais executivos também se manifesta na Rússia e na Índia. Na opinião de Paolo Pigorini, líder para a América do Sul da Strategy&, os motivos são os mesmos do Brasil: a expansão aquém da esperada, menos empresas abrindo capital e desvalorização da moeda, além do aumento de avaliações negativas e dos riscos. “É um ambiente pouco interessante para países que deveriam estar em crescimento. O mercado já não está mais tão amigável com essas economias.”

De acordo com Pigorini, alguns desses CEOs até conseguiram bons resultados no contexto geral, mas mesmo assim não atingiram as metas audaciosas – e muitas vezes irreais – dos acionistas. “É mais fácil mudar o executivo, colocando nele a culpa, do que fazer uma autocrítica e admitir um erro de cálculo e uma expectativa exagerada”, afirma. A média de permanência dos CEOs no cargo foi de três anos no Brasil e de cinco anos globalmente.

O especialista afirma que também existe uma tendência de substituir pessoas que estão há muito tempo no comando, geralmente na faixa dos 70 anos de idade. Os novos CEOs das empresas brasileiras têm, em média, 52 anos – um a menos que a geral.

Pigorini ressalta que o estudo ajuda a desmistificar a imagem de que o CEO é um “bicho global”, que transita com naturalidade por culturas e indústrias diferentes. Os dados mostram que, na média global, 80% dos que assumiram o posto no ano passado são do mesmo país onde a matriz da organização está instalada, 65% não têm experiência profissional em outras regiões e 76% foram promovidos internamente.

Outro ponto que chama a atenção é que apenas 28% dos que foram nomeados CEOs em 2013 concluíram um curso de MBA, e 8% são PhDs. “É um percentual ainda baixo, mas que praticamente dobrou nos últimos dez anos e que continua subindo rapidamente”, ressalta.

Pela primeira vez, a pesquisa da Strategy& analisou a rotatividade dos dirigentes sob o ponto de vista da diversidade de gêneros. Os números revelam que, embora tímida, a ascensão feminina ao principal cargo na hierarquia corporativa tem acontecido de forma contínua. No ano passado, por exemplo, mais mulheres chegaram ao topo do que saíram – elas responderam por 3% dessas movimentações. “No ritmo de hoje, um terço das contratações de CEOs em 2040 será de mulheres”, calcula Pigorini.

O especialista tem um olhar positivo sobre o assunto. Segundo ele, a presença feminina está cada vez maior tanto nas instituições de ensino superior como no âmbito executivo – especialmente em setores como bens de consumo. “Elas estão se qualificando e vão, aos poucos, conquistando seu espaço. No futuro, teremos muito mais diversidade de gêneros na força de trabalho de maneira geral – inclusive no nível executivo e nos conselhos de administração.”

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