7 pecados financeiros a dois

Por Danylo Martins
Jornal Valor Econômico
29/04/2014

Harmonia tem passado longe dos casamentos brasileiros. Em 2012, segundo os dados mais recentes divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foram concedidos 341,6 mil divórcios.
Assim, a taxa geral de divórcios – calculada com base no número de processos para cada mil pessoas com 20 anos ou mais – foi de 2,5%, a segunda maior da série, iniciada em 2002. São vários os fatores que podem levar ao desgaste do casamento, mas uma boa parte dos problemas a dois está associada a brigas por dinheiro.
Segundo uma pesquisa feita no ano passado pela Universidade de Kansas, nos Estados Unidos, com 4,5 mil casais, desavença ocasionada pelas finanças é a principal causa dos divórcios. Os parceiros que discutem sobre assuntos financeiros, apontou o estudo, estão mais propensos a se separarem do que aqueles que entram em atrito por questões envolvendo a educação das crianças, sexo e sogros.
Ainda há dificuldade em compartilhar problemas financeiros com o parceiro, o que pode desencadear crises na união desde o início, afirma a psicóloga Cleide Bartholi Guimarães. “Não é incomum você encontrar casais que revelam crises que tinham raízes já no namoro”, afirma a psicóloga, autora do livro “Até que o dinheiro nos separe”, baseado em sua dissertação de mestrado, na qual estudou o comportamento de quatro casais em relação ao dinheiro. “Os casamentos, hoje, estão diferentes. Existe um misto de desconfiança e medo quando as pessoas se casam”, diz Maria Angela Nunes Assumpção, planejadora financeira com selo CFP e sócia da consultoria MoneyPlan.
O Valor consultou especialistas em finanças pessoais e psicologia para entender quais são os principais “pecados” financeiros cometidos pelos casais e como se livrar dessas armadilhas.

1. Pressão dos modelos familiares

Antes mesmo de dizer o famoso “sim” no altar da igreja ou no cartório, há questões que, se não discutidas, podem atormentar os casais. Segundo os especialistas, um grande erro é iniciar o casamento pensando que o padrão de vida financeiro não vai mudar. “As pessoas se casam com a expectativa de manter o ’status quo’”, diz a planejadora financeira Maria Angela.
Segundo Cleide, questões anteriores ao casamento, como padrões de família, que ela chama de “modelos familiares”, influenciam o significado do dinheiro.
“A primeira e mais arraigada das raízes é a família. Outras influências vêm da cultura, da religião e da comunidade onde a pessoa viveu boa parte da vida”, explica a psicóloga. Por isso, existe o desafio de encaixar dois modelos quando o casamento é firmado, já que é muito difícil “desconstruir valores”, diz.
Além de causar frustração, esse tipo de comportamento pode levar a dificuldades financeiras no início do matrimônio. “Não tem nada pior do que começar a vida a dois com dívidas. Muitas famílias vivem com débitos como algo estrutural”, exemplifica a psicóloga. Ou seja, trazem da vida de solteiro esse hábito, que aos poucos acaba sendo incorporado ao ambiente familiar.
“Nossa sociedade anda muito imediatista. As pessoas querem começar [essa fase da vida] com a casa montada”, critica a planejadora financeira Maria Angela. É preciso, diz, colocar os gastos na ponta do lápis, considerando despesas para montar o apartamento ou a casa, além de contas básicas, como água, luz e telefone. “O ideal é começar num padrão de vida um pouco mais baixo”, recomenda o consultor e fundador da Academia do Dinheiro, Mauro Calil.

2. Falta de comunicação

Grande parte dos problemas financeiros entre os casais está relacionada à ausência de diálogo. “Discutir amor e dinheiro ainda é um tabu”, diz Cleide. Segundo a psicóloga, esse comportamento é histórico. “Falar sobre dinheiro não era algo romântico”, explica, referindo-se ao período literário, artístico, filosófico e político que ficou conhecido, entre os séculos XVIII e XIX, como Romantismo.
Antes mesmo de o movimento surgir, o assunto não era abordado nas conversas entre os casais, como mostram exemplos da literatura. “Romeu e Julieta [título da tragédia escrita pelo autor inglês William Shakespeare no final do século 16] não discutiam sobre dinheiro, por exemplo. E isso você vê até hoje nas novelas”, diz a psicóloga.
Segundo Cleide, existem estudos que evidenciam que os casais não têm o hábito de conversar sobre a tomada de decisões financeiras. Em um dos estudos, conta, é mostrado o exemplo de duas pessoas recém-casadas que brigaram pelo tipo de arroz que iam comprar no supermercado.
“Quando chegaram em casa, descobriram que ambos não gostavam de arroz”, diz. Nesse caso, a comunicação seria uma forte aliada para evitar problema.
Mas somente incluir o diálogo não adianta, destaca a especialista. “Quanta mais clara for a comunicação, melhor. Não precisa concordar, mas é importante respeitar o outro”, afirma. Por isso, diz, a comunicação deve ter qualidade. Nessa linha, Maria Angela inclui o estabelecimento de planos conjuntos. “Eles são feitos com uma conversa franca entre o casal”, afirma.
A questão financeira nos relacionamentos geralmente é deixada em segundo plano, afirma o professor de finanças do Insper, Michael Viriato, em muitos casos, por conta da falta de comunicação. É preciso, diz o professor, começar esse diálogo, tanto nos momentos bons quanto nos ruins. Assim é possível estabelecer, por exemplo, se o casal terá conta conjunta no banco ou se a preferência será pela conta corrente individual.

3. Traição financeira

Esconder do companheiro ou da companheira quanto ganha e quanto gasta é mais um “pecado” que pode arruinar casamentos.
Esse comportamento é apontado pelos especialistas como uma espécie de traição ou infidelidade financeira. “É preciso ser transparente com o cônjuge”, diz Calil.
A incerteza da manutenção do casamento é um dos fatores que levam as pessoas a agirem dessa maneira, afirma Maria Angela. O tradicional “até que a morte os separe” foi deixado para trás para dar lugar a um pensamento mais individual. E isso se traduz para as contas, diz a psicóloga.
Segundo Viriato, professor do Insper, o orçamento familiar funciona como a gestão de uma companhia. “Numa empresa, cada departamento tem o seu orçamento. Em família, cada um monta o próprio orçamento e ambos estabelecem despesas comuns”, exemplifica.

4. Desconfiança

Relacionada com à traição financeira, a falta de confiança é outro sintoma que pode atrapalhar a saúde dos casamentos. “A confiança mútua é muito importante para evitar esconder informações um do outro”, afirma o professor do Insper.
Embora a confiança deva ser colocada em primeiro plano, a psicóloga Cleide Bartholi faz questão de ressaltar a importância de se preservar e não colocar todas as responsabilidades nas mãos da outra pessoa. “É preciso ter em mente que o outro não é para sempre”, diz.

5. Comodismo

“Ninguém se acha preguiçoso”, enfatiza Calil. Mas o comportamento de inércia, também conhecido nos estudos de psicologia econômica como “viés de status quo”, é recorrente nos casamentos, segundo o consultor. “É comum um dos cônjuges largar tudo nas mãos do outro, dizendo: ‘Ele ou ela cuida de tudo e confio seriamente que meu parceiro ou parceira vá tocar tudo muito bem’”, exemplifica.
Calil reforça dizendo que, quando uma aliança é firmada, a parceria precisa entrar em jogo. “Não é necessário gerar renda, mas participar da montagem do orçamento é fundamental”, diz.
O comodismo pode levar ao comportamento que o consultor intitula de “efeito de minimanada”. Na prática, é quando um segue o que o outro faz, sem pensar ou criticar determinada ação. “É comum um dos cônjuges estimular o outro, inconscientemente, sem perceber”, explica.

6. Consumo excessivo

A ausência de diálogo pode trazer outro comportamento penoso às relações: o consumo excessivo. A chegada de um filho é um momento de acertar os ponteiros nas finanças. “As divergências em relação à percepção sobre dinheiro ficam mais acentuadas. Um quer o controle, outro é mais liberal”, diz Maria Angela.
Segundo a psicóloga Cleide, algumas pessoas apresentam o quadro de consumo compulsivo, doença denominada “oniomania”. Ainda pouco conhecido no Brasil, o problema recebe atenção de um grupo de atendimento no Hospital das Clínicas, em São Paulo, do qual Cleide é colaboradora. Os doentes compram itens, como roupas, repetidos ou que não usarão e mantêm as aquisições em segredo.

7. Jogo de poder

“Muitos utilizam o dinheiro para manipular o outro, como uma forma de ‘fazer guerra’”, explica Cleide, que chama esse comportamento de “abuso financeiro”. Na prática, gastar muito, por exemplo, pode ser uma forma de manipulação. Não necessariamente determinada atitude é proposital, mas aos poucos reforça certo ar de superioridade em relação ao companheiro ou à companheira, afirma a terapeuta.
Por isso, recomendam os especialistas, é necessário cuidado redobrado para não pecar na hora de colocar as finanças na mesa. “O amor não tem nada a ver com questões matemáticas.
No dia a dia, as contas são cruéis”, destaca Mauro Calil. Com um pouco mais de conversa e transparência, dá para manter a sintonia. Mas é preciso agir rápido. Afinal, como diz o ditado, quando a fome entra pela porta, o amor sai pela janela.

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