Oportunidade e risco

Jornal Valor Econômico
20,21 e 22/12/2013
Por Robinson Borges | De São Paulo

 

Depois de ter obtido a maioria dos votos populares nas eleições para a Presidência dos Estados Unidos em 2000 – mas ter perdido, já que George W. Bush obteve mais delegados no colégio eleitoral -, Al Gore tem sido econômico nos comentários sobre o futuro de sua vida na política: “Estou em convalescença da política, sendo que as chances de recaída diminuíram bastante, a ponto de aumentar a minha confiança na minha capacidade de resistir a eventuais tentações”. Seu entusiasmo, no entanto, parece inversamente proporcional quando a questão é deslocada para o futuro da vida política. No lugar das 28 palavras usadas para comentar sobre suas chances de concorrer a novas eleições, ele se estende confortavelmente na conversa. “Tanto a democracia quanto o capitalismo foram hackeados”, alerta Gore em entrevista ao Valor, por telefone.

Como já se tornou hábito, seu tom é contundente e polêmico. Gore toma emprestado um termo tecnológico para argumentar que o sistema político no século XXI foi violado pelo dinheiro das grandes corporações, um fenômeno que não é particularidade do Partido Republicano que o derrotou há 13 anos. Para ele, o condomínio ideológico formado pela aliança do capitalismo com a democracia representativa foi dilacerado por uma concentração da riqueza, extrapolando a esfera do mercado para invadir a esfera da democracia. Esse ambiente seria um dos principais responsáveis pelo enfraquecimento do interesse público e pela disfuncionalidade da governança em muitos países.

“Os resultados são óbvios no sufocante controle das elites sobre as decisões políticas, nas crescentes desigualdades sociais e concentrações de riqueza, na paralisia de qualquer esforço por reformas.”

Desta vez, a verdade inconveniente que o ex-vice-presidente pretende dizer a seus ex-colegas da política americana é que hoje, embora eles ainda sejam chamados de “representantes”, a maioria “representa apenas as pessoas e empresas que fazem doações de campanha, e não os eleitores”. Em média, calcula Gore, os congressistas americanos gastam cinco horas por dia fazendo ligações e indo a festas para pedir doações para campanhas políticas a pessoas ricas – e com interesses específicos. A justificativa para tamanho empenho é que em torno de 80% dos recursos gastos, tanto pelo seu Partido Democrata quanto pelo Republicano, são para pagar 30 segundos de comerciais na TV, diz.

Outra verdade inconveniente: na década de 1970, apenas 3% dos congressistas que se aposentavam iniciavam uma nova carreira no mundo do lobby. Hoje, 50% dos senadores e 40% dos deputados que deixam seus mandatos nas casas legislativas dos EUA começam uma atividade como lobista, defendendo interesses de corporações ou de setores empresariais. Para salvar o futuro, advoga Gore, é necessário corrigir distorções como essas e apostar na união de um capitalismo sustentável com uma tomada democrática de decisões.

Presidente do Generation Investment Management e do Climate Reality Project, Albert Arnold Gore Junior, de 65 anos, tem dedicado boa parte de seu tempo a pensar o futuro. Durante dois anos, os móveis da sala de estar de sua casa em Nashville, no Tennessee, foram retirados e o espaço ficou ocupado com lousas brancas repletas de dados de toda sorte. Tentava alinhavar as hipermudanças que transformam assustadoramente a sociedade contemporânea. O resultado está no épico “O Futuro: Seis Desafios para Mudar o Mundo”, livro com quase 600 páginas recém-lançado no Brasil pela HSM Editora.

O universo de suas análises ultrapassa a fronteira do aquecimento global, tema caro a Gore e que lhe rendeu um Oscar por “Uma Verdade Inconveniente”, um Prêmio Nobel da Paz e muita controvérsia em círculos mais conservadores. Nunca antes na história do homem, garante o ex-vice-presidente, tantas revoluções ocorreram simultaneamente. “Já passamos por períodos revolucionários de transformações, mas nenhum tão poderoso e fértil de ‘fatores gêmeos’ (no caso, risco e oportunidade) como o momento que começamos a vivenciar.”

A rede digital planetária aliada a uma economia mundial integrada faz que essa geração testemunhe o nascimento da primeira civilização verdadeiramente global, escreve. “O futuro que começa a surgir será bem diferente de tudo o que vimos no passado.” A questão essencial é que a estrutura do cérebro do homem não está muito diferente da de seus ancestrais que viveram há 200 mil anos. A conformação atual do mundo, portanto, exigirá que sejam feitas adaptações no projeto de civilização com mais urgência do que parece razoável, defende o autor. Para isso, Gore estabelece os seis principais desafios para mudar o mundo e evitar que a humanidade cave sua destruição.

- A comunicação digital globalizada, que reúne os pensamentos e as emoções de bilhões de pessoas e conecta equipamentos, robôs, sensores onipresentes e bases de dados;

- A crescente globalização econômica, que gerou uma entidade integrada e holística que se relaciona de forma totalmente nova com o capital, o mercado de trabalho, os mercados consumidores e os governos;

- A alteração do equilíbrio do poder político, econômico e militar do mundo – transferido dos Estados Unidos para um conjunto de centros do poder emergentes;

- Um sistema de avaliação econômica impreciso, que nos conduz ao crescimento insustentável do consumo;

- A revolução nos estudos dos genomas e nas ciências da vida, que está transferindo o controle da evolução para as mãos humanas;

-A ruptura radical nas relações entre os seres humanos e os ecossistemas da Terra.

Todas essas revoluções se interconectam, de alguma forma, umas com as outras nessa era digital. Além de ativista ambiental, Gore também se notabilizou por ser um defensor do potencial político da internet. Até 2015, projeta, haverá um aparelho móvel para cada habitante do planeta. E o número de pessoas que acessam a rede mundial de computadores a partir de aparelhos móveis deverá aumentar 56 vezes nos próximos cinco anos. Para ele, a internet e a revolução na forma como nos comunicamos podem oferecer os meios para reacender a democracia – que se encontraria em recessão – e purgar a grande influência das corporações.

Por motivos variados, Gore avalia que a democracia não floresceu no período em que a sociedade viveu na era da televisão, um veículo de “mão única”. O cenário pode mudar agora com a internet, quando se consolida o que qualifica de uma mente global. Tudo é uma questão de risco e oportunidade. A rede seria um campo fértil para reverter “esse enfraquecimento da democracia e restabelecer a base para uma governança saudável”. Gore vê grandes oportunidades, por exemplo, para que os indivíduos readquiram o poder para fazer parte de um mundo de trocas, o que melhoraria a capacidade das pessoas de analisar a lógica dos fatos e facilitaria a abertura de espaço para novos centros emergentes de influência e construção de “praças públicas” – na internet – para discutir as melhores estratégias de aproveitamento das oportunidades.

Algumas manifestações políticas recentes foram predominantemente viabilizadas pela internet. Do Brasil à Turquia, dos Estados Unidos à Espanha, da Rússia ao Egito, foram vários os países que tiveram as ruas ocupadas por protestos. A Primavera Árabe é o caso mais emblemático dessa força. Não se sabe, porém, qual é o fôlego desses manifestos. “Os movimentos reformistas e revolucionários que nasceram pela internet em geral exibiram o mesmo roteiro: entusiasmo e mobilização seguidos de decepção e resultados tímidos”, observa.

Algumas nuvens negras, porém, pairam sobre a fartura de possibilidades da era digital: a falta de segurança e a de privacidade são as mais evidentes. Na semana passada, uma campanha encabeçada por gigantes da tecnologia como a Apple, que tem Gore em seu conselho de administração, pediu o fim do vigilância na internet. A ideia das companhias é pressionar o governo americano a diminuir o poder dado a entidades como a Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês), que espionou a Petrobras e a presidente Dilma Rousseff, os dois casos brasileiros mais expressivos. “Isso mostra como o meu livro, concluído há quase um ano, está mais atual do que nunca”, diz Gore. A edição americana de ” O Futuro” foi lançada no início do ano e já chamava a atenção sobre problemas que dominariam as manchetes do mundo todo ao longo de 2013.

Para o ex-vice-presidente, é preciso abordar com urgência a falta de privacidade e de segurança de dados na internet. “A recente ‘economia do perseguidor’, baseada na compilação de grandes arquivos digitais sobre as pessoas que utilizam o e-commerce, é absurda e inaceitável”, escreve. O uso potencial que os governos podem fazer dos arquivos digitais sobre a vida dos cidadãos, incluindo a escuta de conversas, “representa uma grave ameaça à liberdade e deve ser contido”. Na segunda-feira, um passo foi dado nessa direção. O programa do governo americano de coleta de dados dos registros telefônicos, feito pela NSA e denunciado por Edward Snowden, foi considerado inconstitucional por um tribunal federal nos Estados Unidos.

Menos caloroso, mas também importante, o debate do controle da internet também está longe de um consenso. No livro, Gore lamenta o fato de o Brasil, a Índia e a África do Sul apoiarem a China, a Rússia e o Irã no processo de criação de um organismo de governança mundial para a rede, navegando na contramão do status quo. Hoje são os EUA que governam “sem perder de vista regras e valores que refletem nossa tradição de liberdade de expressão de livre-comércio”. O ex-vice-presidente, no entanto, comenta que ainda não conversou com a presidente Dilma sobre o assunto.

A perda de confiança na liderança dos EUA, para além da rede mundial de computadores, acelerou a mudança no equilíbrio do poder mundial, acredita. Esse processo pode ter sido mais intenso depois da crise de 2008, mas é fruto também de “castastróficos erros políticos, militares e econômicos” cometidos no início do século XXI. “Ainda não se conhece totalmente a gravidade do perigo representado por essa humilhação da democracia norte-americana”, escreve Gore.

Mas o ex-vice-presidente sugere que não há um declínio americano, pode ser apenas uma perda relativa do poder de seu país. O aumento da presença chinesa no PIB mundial e de outras nações emergentes seria mais um efeito colateral dos problemas da Europa do que propriamente dos Estados Unidos. Para ele, a histórica diminuição da influência e das perspectivas dos membros da zona do euro é decorrência da falha na tomada de decisão desses países. Em nome da moeda única, adiaram uma maior integração de suas políticas fiscais. “A incapacidade dos líderes europeus em promover a integração fiscal e em movimentar-se com mais velocidade rumo a uma Europa unificada gerou uma grave crise política e econômica, que ameaça desfazer um dos mais importantes êxitos geopolíticos obtidos pelos Estados Unidos no rescaldo da Segunda Guerra Mundial.”

Gore defende a tese de que o Estado-nação, apesar de ainda ser a forma política dominante, está perdendo autoridade e poder para as corporações multinacionais. O Estado-nação emergiu na onda da imprensa, mas a mente global altera as bases que fundamentaram o Estado-nação, avalia. “Nenhuma nação pode escapar dessas poderosas ondas de mudanças e impor seu ponto de vista de forma unilateral. As decisões de maior importância para o nosso futuro, agora, são aquelas que envolvem o mundo como um todo.”

Diferentemente de Bill Clinton, que em visita ao Brasil declarou seu apoio para que o país tenha participação fixa no Conselho de Segurança das Nações Unidas, Gore prefere não tomar uma posição sobre o tema. Ele admite que décadas depois da criação de instituições multilaterais, elas enfrentam a desconfiança tanto de países em desenvolvimento como de ambientalistas e dos defensores de justiça social. A alegação geral é déficit democrático. “Na ausência de uma liderança forte exercida pelos Estados Unidos, a comunidade das nações aparentemente não consegue entender quanto à coordenação dos interesses internacionais e ao estabelecimento de mecanismos de governança cooperativa necessários para a solução dos grandes problemas de nosso tempo.”

Muitos nos EUA veem no discurso de Gore uma voz socialista, especialmente por seu ataque aos “fundamentalistas do mercado”. No entanto, ele tem destacado que sua agenda é que tanto a democracia representativa quanto o capitalismo de mercado devam ser questões essenciais para moldar o futuro da humanidade. Só que com reformas. E vê os Estados Unidos ainda como a única nação capaz de “fornecer o tipo de liderança necessária ao planeta”.

Eleito para a Câmara dos Deputados americana em 1976, Gore foi senador pelo Estado do Tennessee (1985-1993) e vice-presidente de Bill Clinton por oito anos (1993-2001). Muitos analistas políticos avaliam que Barack Obama não tem um desempenho na Casa Branca como teve seu colega Clinton. Para Gore, um dos principais entraves para o atual presidente é justamente a relevante mudança na democracia americana. Mas nem sempre ele é condescendente. Antes de Obama iniciar seu segundo mandato, o ex-vice-presidente chegou a criticar o democrata, especialmente no âmbito de sua política ambiental.

“No início do governo do presidente Obama, eram grandes as esperanças de uma virada na política norte-americana em respeito ao aquecimento global – o que de fato aconteceu por um tempo”, escreve. O problema é que os impactos positivos das propostas sobre energia e clima foram anulados, na visão de Gore, quando Obama, em campanha pela reeleição, liberou mais áreas públicas para extração de carvão. Essa atitude contribuiu para uma maior dependência de combustíveis fósseis geradores de carbono. Ao Valor Gore diz que está mais confiante depois do discurso de posse de Obama, em janeiro, e da nomeação de Dan Utech, no mês passado, como principal conselheira para mudança climática e energia na Casa Branca, substituindo Heather Zichal.

O aquecimento global, é claro, merece atenção especial de Gore, que considera a tributação de CO2 como o melhor ponto de partida para mitigar o problema: “A poluição causadora do aquecimento global, em particular, deve ter um preço”, diz. Propõe como contrapartida a redução do imposto sobre o trabalho, como os que incidem sobre a folha do pagamento. “É urgente reformar os mercados e tornar o capitalismo sustentável, alinhando incentivos com nossos interesses em longo prazo.”

Autor de “A Terra em Balanço”, “Uma Verdade Inconveniente” e “O Ataque à Razão”, Gore tem dois carros elétricos e uma casa com numerosas placas de energia solar, que, na verdade, podem esconder um telhado de vidro aos olhos da mídia americana. O ex-vice-presidente deixou uma mancha em sua biografia, ao vender por estimados US$ 500 milhões sua participação na Current TV para a rede Al Jazeera, que pertence ao Estado do Qatar. No início do ano, foi bombardeado por questionamentos sobre a hipocrisia de seu discurso, já que a principal fonte de recursos do país são justamente as reservas de petróleo.

No programa “Andrew Marr Show”, da rede BBC, alegou que, diferentemente da maior parte das redes de notícias dos Estados Unidos, a Al Jazeera não exibia longos comerciais de companhias de petróleo. Jornalista antes de entrar na carreira política, Gore comentou também que a cobertura sobre a questão do clima da rede do Qatar é de alta qualidade, sugerindo que a emissora deveria estar em mais pacotes de televisão a cabo.

Mas Gore chega a fazer seu mea-culpa em outros tópicos ambientais. Diz, por exemplo, que, embora tenha apoiado no passado o sequestro de carbono, considera hoje uma falsa solução. Para ele, o custo financeiro e energético dessas tecnologias de sequestro de carbono são muito elevados, o que compromete o interesse das pessoas por tais soluções. Também avalia que, depois da tripla tragédia em Fukushima, no Japão, as chances para a energia nuclear se tornam menos animadoras. O terremoto, o tsunami e o acidente nuclear de março de 2011 causaram na província japonesa mais de 1,6 mil mortes indiretas até o mês passado, segundo o governo japonês.

Como todo ativista ambiental, a Amazônia está no topo de suas preocupações. Acompanha de perto tudo o que ocorre na maior floresta tropical do mundo, que sofre ataques de madeireiros e agricultores de subsistência há décadas. “Apesar das medidas tomadas pelo governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para diminuir a destruição, sua sucessora promoveu mudanças políticas que reverteram alguns avanços”, escreve. Mas, no ano passado, salienta Gore, a taxa de desmatamento diminuiu. Como empreendedor, o ex-vice-presidente diz que não tem previsão de investir na Amazônia.

No horizonte de Gore, o crescimento populacional também é um problema e a educação das meninas um fator para impactar o crescimento demográfico. “Estatísticas sobre população mostram claramente que alfabetização feminina e o acesso de boas escolas são essenciais.” O poder feminino na sociedade também deve ser maior, para que elas possam, de fato, decidir quantos filhos querem.

Ao investigar as possibilidades do futuro, Gore identificou que a convergência da era digital não altera apenas como nos comunicamos e o que sabemos. Muda também o que fazemos, como fazemos e transforma quem somos. Além da possibilidade de curas hoje improváveis de doenças, as ferramentas digitais podem ser aproveitadas para a chamada medicina de precisão ou personalizada, com base nos padrões digitais e moleculares dos genes, proteínas, comunidades de micróbios e uma série de outras fontes de informações clínicas importantes. Outro ponto bem-vindo para muitos estudiosos é o automonitoramento, que permite atualizar as funções vitais das pessoas, permitindo aumentar os cuidados preventivos, melhorando a eficiência e reduzindo custos. É possível comemorar.

Mas, ao ser questionado se é otimista, Al Gore afirma que sim, mas lembra que todos nós vivemos num cenário de risco e oportunidade que depende das ações dos homens e mulheres do século XXI. O ex-vice-presidente diz acreditar em um velho provérbio africano que aconselha: “Quando rezar, mova seus pés. Oração sem ação, assim como otimismo sem compromisso, é uma agressão passiva ao futuro”.

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