De presente de Natal, uma noite de sono

Jornal Valor Econômico
19/12/2013
Por Sue Zeidler | Reuters, de Los Angeles

 

Você está com aquela sensação de que tudo o que gostaria ganhar neste Natal é uma boa noite de sono? Se sua casa não é o melhor lugar para receber tal presente, hotéis nos Estados Unidos tentam lucrar nestes feriados de fim de ano com “pacotes para dormir”, aproveitando o déficit de horas de sono de um grupo cada vez maior de hóspedes “conectados” e cansados. “Nós nos tornamos uma nação de zumbis ambulantes. Não damos valor ao sono; o tratamos como um luxo”, disse o doutor James Maas, psicólogo e especialista em sono, que cunhou a frase “power nap”, algo como “soneca energizante”, em inglês.

Quase 70% dos americanos dizem não ter horas de sono suficientes durante a semana, com a maioria dizendo que precisa de 7,5 horas para se sentir em sua melhor forma, segundo a Fundação Nacional do Sono dos EUA, que vê o problema sendo exacerbado pelo uso de aparelhos eletrônicos com suas luzes intermitentes.

Hotéis, tanto em grandes cidades quanto em silenciosos desertos, perceberam a tendência e passaram a atenuar a luminosidade, retirar relógios digitais dos quartos, contratar “concierges do sono”, oferecer meditação, “menus” de travesseiros e massagens de relaxamento. Em um mercado de grande oferta de hotéis como Manhattan, o The Benjamin quer ser conhecido por garantir uma boa noite de sono. Recentemente, contratou a especialista em sono Rebecca Robbins, coautora com Maas do livro “Sleep for Success!” (algo como “durma para ter sucesso”, em inglês), para coordenar o programa de sono do hotel, treinar funcionários em como ajudar no sono e assessorar os hóspedes.

O hotel tirou os relógios digitais dos quartos e oferece diferentes tipos de travesseiros e ajuda hóspedes com problemas de mudança de fuso horário a tirar sonecas energizantes. Esse grau de dedicação faz com que Armando Zumaya, da Califórnia, sempre volte ao The Benjamin, mesmo com a localização, no centro, sendo um pouco barulhenta. “Quando vou a outros hotéis de Nova York, não durmo tão bem”, disse Zumaya.

No Montelucia Resort & Spa, em Scottsdale, no Arizona, o Joya Spa oferece aos hóspedes o “Ritual de Sono Recuperador”, com aromaterapia e massagens, e a meditação “Sono Sagrado/ Sonhos que Curam”. “Muitos de nossos hóspedes estão estressados e não conseguem dormir o suficiente. Nós os ajudamos a relaxar em um nível mais profundo”, disse Erin Stewart, diretor do Joya Spa.

O processo pode ir um passo além, com uma terapia intravenosa de vitaminas e antioxidantes, incluindo vitamina B, que o hotel sustenta ser particularmente benéfica para melhorar o sono. “As intravenosas são maravilhosas para o sono por um monte de razões”, disse Lauren Beardsley, especialista em naturopatia, que administra o tratamento. “Ao fornecer ao corpo nutrientes adequados para suportar as funções fisiológicas normais do corpo, podemos restaurar o equilíbrio e restaurar a qualidade do sono”, acrescentou.

Médicos profissionais mostram certa cautela sobre remédios alternativos para o sono oferecidos por hotéis e outros locais. “O sono se tornou uma questão comercial e isso nem sempre é para o benefício do consumidor”, disse Said Mostafavi, médico especializado em sono de Los Angeles. A medicina do sono como especialidade é algo bastante novo, tendo se expandido graças a avanços nas pesquisas desde a descoberta do Movimento Rápido dos Olhos (REM, na sigla em inglês), em 1953.

Stuart Menn, outro médico do sono que trabalha na Califórnia, acredita que alguns podem estar explorando o sono como negócio, mas disse que a maior consciência resultante disso é benéfica. “Fico contente que se comente por aí que o sono é importante. Mas vamos ter aqueles que abusam do sistema ou que acreditam intensamente no que fazem, mas que não conseguem testar seus métodos com rigor”, disse.

“Francamente, muito disso se trata do estado de espírito. Acho que se você foi a um spa e se convenceu de que a aromaterapia é eficiente, você pode dormir melhor naquela noite”, acrescentou.

Muitos hotéis melhoraram suas camas durante a chamada “guerra das camas” no fim dos anos 90, quando a marca Westin Hotels, da Starwood, lançou sua “Heavenly Bed”, as camas “celestiais”. Agora, os empreendimentos direcionam o foco para fatores como a iluminação e qualidade do ar, para criar um melhor ambiente para dormir. “Nosso objetivo é continuar a proporcionar serviços inovadores para assegurar uma boa noite de sono”, disse Rob Palleschi, chefe internacional do Hilton Hotels & Resorts, que é parte do Hilton Worldwide Holdings.

Em um mundo que não dá sinais de resistência às tentações digitais, pode haver muito espaço para crescer na oferta de “confortos” para a hora de dormir. “Há muito trabalho a ser feito para ajudar os hóspedes a sair da era superconectada’”, disse Maas.

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