Aluguel de bens de consumo decola na Europa

Jornal Valor Econômico
04/12/2013
Por Ruth Bender | The Wall Street Journal

 

Com frequência, Anouk Gillis sai às ruas desfilando uma calça jeans de algodão orgânico que encomendou pela internet. Mas a peça de roupa, na verdade, não é dela.

Ao invés de comprar a calça, que custa cerca de 100 euros (US$ 135) no varejo, Gillis assinou um contrato de 12 meses com a fabricante, uma pequena grife de moda holandesa chamada Mud Jeans. Os termos: um depósito de 20 euros e parcelas de 5 euros por mês.

Depois de um ano, Gillis, que também é holandesa, pode optar por comprar o jeans, devolvê-lo ou trocá-lo por um novo.

“A ideia era fabricar calças jeans de alta qualidade acessível para todos”, diz Bert van Son, diretor-presidente da Mud Jeans, que promete reciclar os jeans usados na fabricação de novos ou vendê-los como usados no fim do contrato de aluguel.

O negócio mostra como as empresas estão tentando se reconectar com os consumidores empobrecidos da Europa, que dependem cada vez mais do aluguel, compartilhamento ou até do escambo de produtos e serviços que vão de roupas a cortadores de grama. A crise da zona do euro e a fraca recuperação europeia acrescentou um senso de urgência a esses esforços, já que a alta do desemprego força muitos consumidores a controlar cuidadosamente seus gastos.

Empresas como a varejista de roupas Hennes & Mauritz AB, controladora da rede H&M, estão entrando num mercado que, até recentemente, estava dominado por empresas novatas de internet e seus próprios consumidores. Um objetivo imediato: encontrar novas formas de atrair clientes para suas lojas. Mas elas também estão buscando um objetivo de longo prazo.

“As empresas de bens de consumo usam cada vez mais métodos de compartilhamento como uma forma de construir uma marca, mas isso poderia se transformar numa nova fonte de renda”, diz Sarah Boumphrey, chefe de pesquisas de consumo da Euromonitor.

Gillis, uma recepcionista de 40 anos que vive na pequena cidade holandesa de Tilburg, regularmente compra roupas e sapatos de segunda mão na internet e cultiva legumes em uma horta comunitária. Para sua próxima viagem a Roma, ela reservou um quarto pelo site Airbnb Inc., que coloca em contato viajantes e pessoas que têm um cômodo extra em casa ou um imóvel inteiro mobiliado para alugar.

“Há uma forte demanda [na Europa] por todas essas coisas”, diz Pascale Hébel, chefe de pesquisas sobre o consumidor do Instituto de Pesquisa para o Estudo e o Monitoramento de Padrões de Vida, apoiado pelo governo francês.

Compartilhar ou alugar bens de consumo e serviços não é um modelo de negócio novo, mas ganhou um grande impulso depois da crise financeira de 2008 e a disseminação da tecnologia digital que gerou uma série de empresas novatas com foco em compartilhamento. Na Europa, os consumidores estão comprando a ideia à medida que a incerteza gerada pelo alto nível de desemprego e as ações de austeridade do governo os levam a pensar em formas de economizar dinheiro no longo prazo.

“Tudo o que tem a ver com consumo colaborativo está em ascensão absoluta, e isso está relacionado com as pessoas tendo menos dinheiro para gastar”, diz Lucia Reisch, professora especializada em questões de consumo da Faculdade de Administração de Copenhagen.

De acordo com um estudo recente do Observatoire Cetelem, braço da firma de crédito ao consumidor BNP Paribas SA, 68% dos europeus pesquisados disseram que iriam comprar produtos de segunda mão nos próximos anos, comparado com 58% hoje, e 53% disseram que fariam trocas de bens ou serviços, contra 31% que afirmaram já fazê-lo.

A consultoria Frost & Sullivan estima que o número de europeus que compartilham carros subirá de 700.000, em 2011, para 15 milhões, em 2020.

Agora, as empresas de bens de consumo estão começando a se mexer. Em julho, numa tentativa de aumentar a receita, a varejista francesa Intermarché, parte da Groupement des Mousquetaires, começou a oferecer aluguel de eletrodomésticos e produtos eletrônicos de valor superior a 349 euros. Ela informou que pode expandir o programa para outros produtos como móveis de jardim e têxteis.

“Especialmente os jovens hoje querem usar os aparelhos eletrônicos mais modernos, mas não necessariamente querem comprá-los”, diz David Leclère, diretor dos hipermercados Intermarché.

Muitas das experiências europeias em locação ou compartilhamento estão em estágio inicial. A Mud Jeans ainda não está ganhando dinheiro, segundo seu diretor-presidente e proprietário. Desde julho, a Intermarché fechou cerca de 100 aluguéis, principalmente para smartphones e máquinas de lavar, nos 52 hipermercados que oferecem o programa na França.

Os consumidores, por sua vez, não estão prontos para abrir mão da propriedade exclusiva de tudo. Segundo a pesquisa do Cetelem, mais de 40% dos europeus preferem alugar do que comprar equipamentos de jardinagem, materiais de construção ou equipamentos esportivos. No entanto, apenas 10% disseram que estariam interessados em alugar roupas e sapatos por períodos curtos ou longos.

Isso não incomoda Gillis. Cinco meses depois de alugar sua calça jeans, ela não tem certeza se vai devolvê-las. “Eu gosto delas, então talvez eu fique com elas.”

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