É hora de capturar de vez o lado sol da flexibilidade

Jornal Valor Econômico
28/11/2013
Por Betania Tanure

 

Este é o momento de retomar a análise de um dos traços da cultura brasileira que influencia a gestão. Já discuti nesta coluna os três principais traços: a forma de lidarmos com o poder, infelizmente ainda autocrática; nosso forte caráter relacional, que nos faz engendrar uma combinação do lado profissional com o lado pessoal; e a flexibilidade, foco deste artigo.

Cada uma dessas características tem, naturalmente, o seu “lado sol” e o seu “lado sombra”, cabendo aos dirigentes das organizações criar uma cultura empresarial que fortaleça um lado e expurgue o outro. Vivemos esse grande desafio no Brasil neste momento.

A nossa flexibilidade se manifesta como uma tremenda adaptabilidade, uma capacidade de criar novas soluções, reagir à adversidade. Fortemente desenvolvida e aplicada nas inúmeras crises que o país viveu em décadas passadas, essa competência é muito requerida no mundo atual. Nela está uma das potenciais vantagens competitivas do executivo brasileiro.

Seus aspectos sombrios são a indisciplina com as regras, o deixar compromissos para a última hora, o não cumprimento dos processos e, em última instância, a porta aberta para a impunidade.

Hoje, estamos diante da possibilidade de capturar o lado sol desse traço cultural e ir expurgando o lado sombra. Esse é o desejo inequívoco da população brasileira que foi às ruas de forma pacífica há poucos meses (à exceção, ao que tudo indica, dos black blocs). E na semana em que escrevi este artigo o Judiciário mostrava ao país que a impunidade não é um valor, e sim um contravalor social que deve ser eliminado.

Temos uma oportunidade histórica de ressignificar adequadamente a flexibilidade que gera a impunidade e ensinar aos milhares de brasileiros que já estão à beira de perder a esperança – e quem sabe aos que já a perderam – que vale a pena ser honesto.

No ambiente empresarial, essa ressignificação abrange outro desafio inadiável: capturar a face transformadora, realizadora e empreendedora dos nossos jovens. Temos uma juventude plugada na rede e veloz (em tudo, inclusive na demanda de sua própria carreira), mas que em cargos executivos mostra-se silenciosamente perplexa.

Ela não viveu profissionalmente o impacto das crises inflacionárias, dos períodos de baixo crescimento, não sentiu na pele a incerteza do câmbio e usufruiu de uma imagem muito positiva do Brasil em nível internacional. Esses jovens enfrentam hoje condições para as quais não foram treinados.

A geração que já ocupava postos importantes quando a inflação batia nos 80% ao mês e a incerteza macroeconômica e política fazia parte do seu dia a dia, que expandiu suas empresas mesmo em períodos de baixo crescimento do país, que lidou com a extrema valorização do dólar em relação ao real, que por muito tempo precisou dizer mundo afora que a capital do Brasil não era Buenos Aires…, essa geração pode estar hoje, em sua maior parte, nos conselhos de administração, mas é minoria na área executiva.

O que está sendo feito para buscar, de forma estruturada, mecanismos efetivos para mesclar o vigor dos jovens com a experiência dos seniores? A juventude deve continuar indignada com o lado sombrio da flexibilidade (a impunidade), mas desenvolver o lado sol (a adaptabilidade).

Os seniores, por sua vez, devem se orgulhar da boa flexibilidade, mas se indignar, cada vez mais, com seu lado sombrio. Essa mescla, separada apenas didaticamente nesses dois grupos, é a força que nos fará nos orgulhar das nossas empresas, do nosso país e da nossa atuação como cidadãos.

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