Sem medo de ser previsível e conservador

A história e procedimentos da Minerva Foods tem ensinamentos de gestão que mostram que o sucesso não vem ao acaso nem a galope.

Telmo Schoeler

 

Jornal Valor Econômico
04/11/2013
Por Alda do Amaral Rocha | De São Paulo

 

Ele define seu jeito e de sua equipe atuarem como “chatamente previsível”, é assumidamente conservador na estratégia escolhida para a empresa que dirige crescer e tem fama de ser bastante parcimonioso na hora de gastar. Hoje com 45 anos, Fernando Galletti de Queiroz, resistiu a ingressar na Minerva quando a empresa foi criada por seu pai e tios em 1992, mas hoje dedica 12 horas de seu dia à companhia, que reflete em muito seu comportamento – reservado, analítico e sem grandes arroubos. “A gente não acredita em pirotecnia”, afirmou o diretor-presidente da Minerva sobre seu perfil conservador, em entrevista ao Valor, realizada no último dia 23 de outubro.

E foi sem pirotecnia que Galletti deu a tacada mais importante para o Minerva nos últimos anos: a compra dos ativos de bovinos da BRF, empresa comandada por Abilio Diniz. Durante quatro meses, ele negociou a aquisição, antecipada na sexta-feira pelo Valor PRO, serviço de informação em tempo real do Valor (ver abaixo).

Assim como JBS e Marfrig, a Minerva, terceira no ranking do setor de bovinos no país, abriu o capital na bolsa em 2007, período em que jorravam recursos das torneiras do mercado. Mas diferentemente de seus concorrentes, que são maiores e têm participação da BNDESPar em seu capital, após o IPO a Minerva fez apenas aquisições consideradas modestas: o Friasa, no Paraguai, o Pul no Uruguai e o também paraguaio Frigomerc. Enquanto isso, JBS comprou a americana Pilgrim’s Pride e a Bertin e arrendou todos os ativos da Doux Frangosul no Brasil. Já a Marfrig adquiriu a Seara (hoje também nas mãos da JBS) e a americana Keystone.

Estar atrás de JBS e Marfrig no ranking de bovinos não é um incômodo, disse Galletti, na entrevista, ainda sem dar nenhuma pista sobre o negócio com a BRF. “Não só não nos sentimos esmagados, como não temos nenhum complexo de tamanho. Achamos que o crescimento da Minerva é constante, acreditamos que a estratégia é de maratona, não uma estratégia de corrida de 100 metros. Numa estratégia de maratona, você tem sua energia dosada para todo o percurso, não uma explosão para os 100 metros”, comparou ele, um praticante de esportes, que gosta de receber amigos em casa e viajar.

Tampouco incomoda ser considerado conservador pelo mercado. “Se a gente é pão-duro ou criticado por ser muito conservador, a gente acredita nos nossos passos e quem está conosco pode saber que os passos são conscientes e pensados. A gente é chatamente previsível [nos passos]“, reconheceu.

Visto como centralizador, competitivo e negociador duro, este pai de cinco filhos garante não ter arrependimentos em relação a transações que podiam ter ocorrido no passado e não se concretizaram. “Não temos arrependimentos. Em todas as operações que fizemos e nas que não fizemos, colocamos sempre a energia de análise e a energia de execução máxima que a gente pode. Se alguma coisa não saiu é porque houve algum fator que fugiu do que achávamos que era razoável ou que seria criador de valor para a Minerva”, observou.

Em 2011, a Minerva chegou a negociar uma união com a Marfrig, conversas que voltaram a ocorrer quando a crise de endividamento desta última se aprofundou este ano. Galletti não comentou os episódios.

Além de não se sentir intimidado pelo tamanho dos concorrentes, Galletti ainda alfinetou, sem citar nomes, a estratégia agressiva de diversificação regional e de produtos de JBS e Marfrig. A Minerva elegeu como foco o segmento de bovinos na América do Sul e, segundo o empresário, “não pretende entrar em aves e suínos”.

De acordo com ele, “existiram modas (…) e, o mercado, quando a diversificação estava na moda, questionou muito a nossa estratégia. (…) Hoje, olhando para a performance da Minerva, vejo sinais de que o mercado entende e respeita a nossa estratégia”, disse.

Na avaliação do empresário, a adoção de diferentes estratégias “é característica de um mercado que ainda não está maduro” e sinal de não que há um foco claro por parte das empresas. Considera que deve haver “a convergência para uma estratégia que tende a ser, no médio longo, prazo, a estratégia vencedora. Obviamente, acredito que é a nossa”, disse, sem modéstia.

Galletti também citou o que chama de “a moda dos produtos de marca, de maior valor agregado”. Esta também não foi encampada pela Minerva que tem um conceito diferente para esse segmento em questão. “Produto de valor agregado, de marca e industrializado não são sinônimos. Investimos em produto de maior valor agregado, mas o nosso negócio não é a marca no varejo. Nosso foco é em produtos de valor agregado, com característica B2B, para o food service principalmente”, explicou.

Ainda que o mercado doméstico seja importante para a companhia, é no mercado externo que a Minerva obtém sua maior receita – 67% do total em 2012, quando a empresa teve receita bruta de R$ 4,657 bilhões. Foi esse segmento que, em certa medida, aplacou a resistência de Galletti e o levou ao Minerva, há 21 anos. No ano de 1991, recém-formado em administração de empresas na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, Fernando trabalhava na americana Cargill quando seu pai, Edivar Vilela de Queiroz, e tios compraram o Minerva num leilão judicial, em Barretos, cidade onde o empresário nasceu.

À época, a família tinha duas empresas transportadoras, sediadas em Barretos, que levavam gado bovino das regiões produtoras para frigoríficos. Os Queiroz estavam no negócio desde 1957, mas a oportunidade de entrar no abate de bovinos só surgiu no início do anos 1990.

O agora presidente da Minerva trabalhava como trader de café no escritório da Cargill em Santos e disse não ao pai e aos tios quando estes o chamaram para atuar na Minerva. Além de gostar de trabalhar na multinacional americana, ir para uma empresa familiar não era uma ideia que lhe atraia. “Estava numa estrutura profissional como a Cargill, e a Minerva era um projeto novo e familiar”, comentou.

Mas Galletti concordou em fazer um “business plan” para a nova empresa, com foco na exportação, o que segundo ele, era uma novidade para a época, já que então o mercado era muito mais voltado para o segmento doméstico. A família gostou do “business plan” apresentado e mais uma vez o convidaram. Era o ano de 1992. Disse novamente não, mas repensou e aceitou sob a condição de que tivesse a opção de comprar um percentual da empresa.

Apesar de o Brasil ser na época um importador de carne bovina, Galletti disse ter apostado no projeto de exportação por considerar que o país tinha vantagens competitivas “imbatíveis”. “O Brasil sempre ia estar à frente, com disponibilidade de água, de terra, uma tecnologia crescente”, acrescentou ele, que é visto como um conhecedor do mercado internacional e de questões tributárias.

Galletti considera que o foco no mercado externo foi um diferencial para a Minerva, que escolheu para o segmento doméstico uma estratégia de pulverização. “Desde o início, fizemos um trabalho forte com pequeno e médio varejista e no food service, que vimos como um segmento de grande potencial”.

Seguindo esse caminho, a Minerva teve um crescimento médio de mais de 30% nos últimos dez anos, considerando receitas e volumes, segundo o CEO. E à medida que a empresa crescia aumentava também a complexidade do mercado, o que demandou o desenvolvimento de instrumentos de gestão de risco. O período de mais de três anos que Galletti passou na Cargill foi essencial nesse momento. “Toda a experiência que tive na parte de gestão de risco vinda Cargill, começamos a implementar na Minerva “, afirmou.

Outro momento importante na vida da companhia, o IPO, começou a ser preparado em 2006. “A empresa foi crescendo, tinha uma característica forte familiar, e houve um momento de rebalancear sua estrutura de capital”, disse o empresário. Após o IPO, em 2007, Galletti foi escolhido para presidir a empresa e a diretoria foi toda profissionalizada. A partir daí, a área de gestão de risco foi reforçada. “Se eu voltasse atrás, teria estruturado a gestão de risco mais cedo do que fizemos”, admitiu. Entre os instrumentos, ele cita o beef desk, onde arbitragens e desarbitragens do mercado são analisadas.

Para o empresário, o grande acerto da Minerva “é ser consistente com sua estratégia, é estar sempre reanalisando os pontos fortes e fracos, quais são as oportunidades”. Mas ele é breve quando questionado sobre os erros da empresa e não considera que o conservadorismo impeça o avanço da Minerva.

Sua parcimônia nos negócios, entretanto, chama a atenção. Um especialista do setor, que pede anonimato, vê a atitude como reflexo da origem da empresa. “O frigorífico veio por tabela, não por vocação”, diz essa fonte, em referência à atividade de transporte de gado exercida pelos Queiroz antes de entrar no abate de bovinos. Além disso, a experiência de Galletti na Cargill deu a ele uma cultura mais analítica e menos uma cultura de negócio, acredita o especialista. Isso limitou a expansão da Minerva, diz, já que muitas oportunidades são passageiras. Desta vez, Galletti não deixou a oportunidade passar.

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