Às vezes, fica difícil resistir a US$ 52 bilhões

Ensinamentos e fatos de uma ex-empresa familiar.

Telmo Schoeler

 

Jornal Valor Econômico
22/10/2013
Por Marinete Veloso, para o Valor, de São Paulo

 

Um faroeste dos novos tempos, no qual os duelos com armas de fogo deram lugar às ferozes lutas do mundo empresarial, foi travado em St-Louis, Estado do Missouri, no coração dos Estados Unidos, no verão de 2008. No confronto final, a Anheuser-Busch, que produzia há mais de 150 anos a mítica cerveja Budweiser, rende-se a seu oponente, o grupo belgo-brasileiro InBev. Poucos americanos acreditaram, na ocasião, que um grupo estrangeiro assumira o controle da empresa por US$ 52 bilhões, pagos em dinheiro, conforme conta a jornalista Julie MacIntosh no seu livro “Destronando o Rei”, que narra a história da família proprietária e os bastidores dessa aquisição.

Em maio daquele ano, quando os boatos sobre o interesse da InBev em adquirir a Anheuser-Busch (AB) tornaram-se públicos, os executivos da AB reagiram com incredulidade. Eles simplesmente consideravam impossível que alguém tivesse dinheiro suficiente para comprá-la. Como a Budweiser, uma cerveja ícone da cultura americana, poderia ser fabricada por uma gigante belga, cujos gestores falavam português no escritório?

Para os incrédulos executivos, havia outro impeditivo a essa transação: a imponente figura do patriarca, August Busch III, conhecido como Terceiro. Por dedicar sua vida à empresa, todos acreditavam que ele afastaria com veemência potenciais compradores. O problema é que a percepção do mercado de que a família Busch ainda controlava a empresa era equivocada; eles possuíam apenas 4%, superados de longe por megainvestidores como Warren Buffett, segundo maior acionista.

Como lembra no livro um ex-diretor da empresa, August III era impressionantemente “inteligente” e “assustador”. Um homem “cujos olhos azuis transformavam até mesmo os banqueiros mais sofisticados de Wall Street em gelatina”. Seu estilo de empreendedor ambicioso, sedento de poder, revelou-se em 1974, aos 37 anos de idade, quando, após 11 anos trabalhando na empresa, destituiu o pai através de um golpe meticulosamente engendrado por ele junto aos conselheiros, resultando em sua imediata ascensão à presidência do conselho diretor. Daí a tornar-se CEO foi um passo. Reinou com mão de ferro até aposentar-se, aos 68 anos de idade, e passar o comando a seu filho August Busch IV, conhecido como Quarto, em dezembro de 2006. Mas não se afastou da empresa; tinha lá uma sala, de onde controlava tudo diariamente.

O livro põe a nu as complexas relações entre pai e filho, “dignas de uma tragédia shakespeariana”, sobretudo nos dramáticos dias entre os boatos da compra até a efetivação do negócio. Nesse período, seu filho August IV e alguns executivos da AB resistentes à aquisição trabalhavam desesperadamente em duas frentes. Em uma, criaram um plano de redução de custos da ordem de US$ 1 bilhão para convencer os acionistas de que poderiam manter a empresa em suas mãos. Na outra frente, negociavam a compra da cervejaria mexicana Modelo, de forma a fortalecer a AB e erguer uma barreira contra a investida da InBev.

MacIntosh conta com riqueza de detalhes as peripécias dessa negociação e expõe o controvertido papel de Terceiro nesse processo. Com a InBev cada vez mais na cola da AB, ele dera aval a seu filho para encaminhar a negociação com o grupo Modelo. Quando as partes finalmente entraram em acordo e os documentos do contrato de compra ficaram prontos, Terceiro repentinamente muda de tática, suspende a negociação e incita conselheiros e executivos dos bancos que trabalhavam com eles, Goldman Sachs e Citicorp, a renegociarem os valores da oferta com a InBev. Na proposta inicial, assinada por seu CEO, Carlos Brito, a empresa oferecera US$ 65 por ação, totalizando US$ 46,3 bilhões. Terceiro exigia agora US$ 70 dólares por ação, num total de US$ 52 bilhões. A InBev topou pagar e bateu o martelo.

Na AB e na Modelo, as consequências dessa decisão foram devastadoras. “Fizemos esforços hercúleos em meio a um tufão, para depois ficarmos frustrados e amargurados”, conta um dos executivos submetidos ao extremo estresse daqueles dias de trabalho ininterrupto, sem descanso nos finais de semana e muitas noites sem dormir. “Terceiro puxou o tapete do próprio filho”, disse ele, enfatizando a pergunta que ainda paira no ar: será que August III e os executivos ligados a ele cogitaram genuinamente aprovar a compra da Modelo ou o tempo inteiro foi um blefe, nada mais do que um trunfo a ser usado contra a InBev? No grupo Modelo, diz a autora, as pessoas se sentiram usadas e ludibriadas. Eles não perceberam que o negócio nunca se concretizaria, “deram o tiro no próprio pé”.

Para MacIntosh, o destino da Anheuser-Busch não foi selado durante o ano e meio de gestão de Quarto, mas durante as décadas em que a empresa foi administrada por seu pai. Ao narrar os numerosos embates dessa aquisição bilionária e os conflitos familiares e corporativos de todos os envolvidos, MacIntosh leva o leitor a viajar nessa trama como se fosse uma obra do gênero suspense, em que a todo momento novos elementos são adicionados, criando reviravoltas espetaculares.

Para entender por que a AB capitulou de forma rápida e chocante às investidas da InBev, a autora, premiada jornalista do “Financial Times”, realizou um exaustivo trabalho de pesquisa com dezenas de fontes. Pelo lado da AB, Goldman Sachs e Citicorp; pelo lado da InBev, os bancos Lazard e J.P.Morgan. Também ouviu executivos das empresas envolvidas, muitos deles sob proteção do anonimato.

A constatação de todos, segundo ela, é a de que a AB se isolou em uma “bolha de gastança” durante décadas. Nos anos áureos, a empresa tinha fama de não se preocupar com custos. Com toda naturalidade, gastava meio bilhão de dólares em publicidade todos os anos para lustrar a imagem da Budweiser e mantê-la como uma emblemática instituição americana.

August Busch III foi o cervejeiro mais poderoso do mundo e seus executivos desfrutavam dos confortos de hotéis suntuosos, aviões particulares (repletos de Budweiser gratuita, claro) e festas animadas por estrelas de cinema. Os convidados à sua sede em St-Louis ficavam hospedados gratuitamente no famoso Ritz-Carlton. A AB era conhecida por pagar salários acima da média do mercado; os funcionários se orgulhavam de trabalhar em uma empresa assim. Tudo isso, para produzir cervejas de alta qualidade. A popularidade do vinho e a disseminação das cervejas artesanais e importadas foram ignoradas por todos na companhia.

MacIntosh diz que muitos dos executivos da AB com quem conversou culpavam-se a si mesmos e se perguntavam por que não haviam pensado em uma reorganização da empresa antes. Ao esperar que a InBev os forçasse a reagir, como aconteceu, eles perderam a capacidade de controlar o próprio destino. Para a autora, o caso serve de comparação apropriada a uma leitura mais ampla dos Estados Unidos: “Representou tudo o que aconteceu de errado com as empresas americanas nas últimas duas ou três décadas. Eles eram tão dominantes, que não se deram conta das mudanças do mundo”.

Quanto à InBev, embora a autora cite em algumas ocasiões os três representantes brasileiros no conselho de administração do grupo – Marcel Hermann Telles, Jorge Paulo Lehmann e Carlos Alberto da Veiga Sicupira – é na figura de seu CEO, Carlos Brito, que as ações estão centradas e se desenvolvem. O grupo foi criado em 2004, através da fusão da brasileira AmBev, controladora da Brahma e da Antarctica, com a cervejaria belga Interbrew, detentora das marcas Stella Artois, Beck’s e Leffe, entre outras. Com a aquisição da AB, o grupo, hoje líder mundial no setor, passou a chamar-se AB InBev, com base na Bélgica.

Em nenhum momento do livro são mencionadas as famílias belgas fundadoras da Interbrew, principalmente Alexandre Van Damme, reconhecido pela imprensa europeia como um financista de alto nível e excelente estrategista, responsável pela decisiva aproximação do grupo Interbrew com Jorge Paulo Lehmann.

Nos Estados Unidos, as demonstrações de protecionismo surgidas na época da aquisição, como as do site “SaveBudweiser.com” ou a declaração de Barack Obama, então candidato à Presidência, de que seria “uma pena” a AB ser adquirida por um grupo estrangeiro, não causaram impacto. Segundo a autora, não foram suficientes para desencadear uma onda de protestos pelo país, porque as pessoas estavam mais preocupadas com os efeitos da crise econômica que assolava os Estados Unidos e o mundo naquele ano.

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