O caso do banco PanAmericano e a má gestão premiada

O caso do banco PanAmericano e a má gestão premiada

Fernando Meibak

17/11/2010

Jornal Valor Econômico

Sou ferrenho crítico de ajuda a bancos em dificuldades sob o argumento de se evitar “risco sistêmico” – que é sempre a justificativa utilizada pelas autoridades para encobrir outros interesses, na realidade.

Uma pergunta simples revela esses outros interesses: quem seriam os grandes perdedores com a quebra do banco? Certamente seriam instituições grandes (os dados dos maiores depositantes têm sido divulgados, e são grandes bancos, assets, fundos de pensão etc), que são investidores ou instituições com forte capacidade de avaliação de risco de crédito.

Em 2002, 2003, um amigo de mercado foi trabalhar no PanAmericano , na área de tesouraria. Ficou pouco tempo e saiu com má impressão da qualidade das pessoas. Ao final de 2004, quando eu trabalhava numa instituição financeira, na área de gestão, abrimos um processo de abertura de limite de credito para compra de CDB do banco. Definimos uma linha e tínhamos uma regra combinada de liquidez diária que eles não cumpriram na primeira oportunidade que solicitamos.

Fui à diretoria do banco pessoalmente comentar que tínhamos cortado o limite de crédito pela má conduta. Enquanto estive nessa instituição os limites não voltaram, pois a diretoria é a mesma desde aquela época. Fiquei com a forte impressão que o banco tinha um “management” ruim.

Há cerca de 18 meses, dois anos, ouvi de muitos participantes do mercado que o banco estava com problemas na carteira de FIDC (inadimplência, talvez manipulação de performance) e que não estava pagando os pedidos de resgates nos fundos abertos rapidamente (ouvi que o “atraso” do pagamento de resgates chegava a meses).

Foi nesse período que apareceu a Caixa Econômica Federal para ajudar o banco via a compra de participação. Logo no início do processo de captação de recursos do novo instrumento DPGE, em abril/maio de 2009, o banco foi um forte tomador, a taxas muito elevadas.

Acho que a CEF dever ser alvo de fortes críticas pela não adequada avaliação da qualidade da instituição. Nesse rol também devem ser incluídas as agências de rating, as empresas de auditoria e os bancos que compraram carteiras e títulos. E o Banco Central? Como não conseguiu detectar esses problemas com mais antecedência? Os institutos de previdência, outras pessoas jurídicas e pessoas físicas têm menor capacidade de avaliação de risco de crédito.

O empréstimo do FGC é um desvirtuamento da função precípua do fundo: garantir depositantes. O tamanho do subsídio é impressionante. Empréstimo sem juros? Três anos de carência? Vamos calcular em 6% ao ano o subsídio implícito: significa um “presente” de R$ 150 milhões ao ano.

As garantias oferecidas são realmente discutíveis e devem estar infladas: a BF Utilidades é um negócio em decadência há muito tempo; o “business” da Liderança também; a TV SBT tem baixa lucratividade e vem perdendo espaço nos últimos anos. O banco não dever ter valor algum etc. Até agora não vi notícias de que o acionista colocou dinheiro da pessoa física no banco. É capitalizar o banco com dinheiro de terceiros…e subsidiado.

Um Banco Central forte, independente e zeloso do melhor para a sociedade faz diferença. Cá entre nós, com todo o respeito, o banco PanAmericano não fará qualquer falta ao mercado. Sou forte defensor das soluções de mercado. Se o banco for bom…terá interessados.

O “socorro” ao banco é, portanto, em minha visão muito discutível. O socorro, na realidade, é aos grandes investidores (bancos, assets, fundos de pensão) e bancos que adquiriram carteiras.

À semelhança do gigantesco apoio do Banco Central quando da crise cambial de 99, que vitimou o banco Marka (que também não fez falta alguma ao mercado), quem seriam os grandes perdedores com a quebra do banco Marka (e agora do PanAmericano)? Seriam grandes instituições financeiras, com alta capacidade de avaliação de risco e de absorção de prejuízos dessa natureza.

Estamos vendo mais do mesmo, muito típico de Brasil: a má gestão é premiada com uma forte articulação para encobrir e proteger os recursos de gente muito grande…

Fernando Meibak foi executivo dos bancos UBS, Citibank, ABN Amro Real e HSBC e é hoje sócio-diretor da Sunrise Investments

E-mail meibak@suninv.com.br

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

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