Baixa produtividade é o maior obstáculo ao crescimento brasileiro, afirma analista

Jornal Valor Econômico
21/06/2013
Por Flavia Lima | De São Paulo

 

Em uma perspectiva de longo prazo, o principal entrave ao crescimento econômico brasileiro não está na perda de força do comércio exterior, ou no cada vez mais apertado mercado de trabalho local, mas na baixa produtividade da economia, avalia Robert Atkinson, presidente da Fundação para Inovação e Tecnologia da Informação (ITIF, na sigla em inglês), um ‘think tank’ focado em políticas globais de inovação sediado em Washington.

Em entrevista exclusiva ao Valor, o especialista diz que é a baixa capacidade de gerar mais produto com a mesma quantidade de capital e trabalho que impede que a economia brasileira cresça a um ritmo que surpreenderia muitos economistas locais. “O Brasil poderia crescer algo entre 6% e 8% ao ano, acredito totalmente nisso”, diz Atkinson, que desde que chegou em São Paulo, na terça-feira, é bombardeado por e-mails da mulher, que ficou nos EUA, mas está preocupada com as notícias sobre as manifestações que ocorrem na cidade.

Para alcançar tal crescimento, no entanto, ainda há muito a ser feito por aqui. Estudo comparativo conduzido por Atkinson mostra que, entre 2005 e 2011, a produtividade da economia respondeu por 74% da expansão do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA. Entre as nações de média e baixa renda, a produtividade respondeu por nada menos do que 84% da alta do PIB, enquanto, no Brasil, apenas 28% do crescimento veio do aumento da produtividade no período.

Para Atkinson, um dos grandes erros dos países em busca de maior produtividade é querer alcançá-la atraindo, por exemplo, um fabricante de computadores ou uma indústria farmacêutica. A realidade, diz ele, é que esse tipo de iniciativa pode até ajudar, na medida em que desloca a força de trabalho de indústrias de baixa para alta produtividade, mas está longe de ser suficiente. A questão, diz, é que políticas efetivas de inovação não dependem apenas do desenvolvimento de produtos de alta tecnologia, mas do aumento de produtividade global da economia.

“A renda per capita americana é quatro vezes a brasileira, e a razão disso não é porque temos a [empresa de tecnologia] Intel. O fato é que a produtividade da economia americana é extremamente alta”, diz Atkinson.

Um bom exemplo disso, afirma o especialista, é que, no período de 15 anos antes da crise econômica global, é possível ver que a economia dos EUA cresceu mais do que a europeia, levada principalmente por um setor negligenciado quando o assunto é produtividade: o de serviços, que cresceu 60% acima da produtividade do setor de serviços europeu, basicamente em razão de avanços na tecnologia da informação.

Em outro segmento, o de construção civil, a boa performance americana também é destaque, ainda que a escolaridade dos trabalhadores não seja muito alta. Citando um estudo comparativo entre EUA e Brasil, feito há alguns anos por William Lewis, ex-diretor do McKinsey Global Institute, Atkinson afirma que os operários da construção civil de ambos os países sustentam taxas muito próximas de escolaridade, porque os imigrantes mexicanos representam boa parte desses trabalhadores nos EUA. No entanto, os índices de produtividade dos americanos é significativamente melhor. Os altos níveis de informalidade no Brasil e o uso de tecnologia menos avançada, mesmo entre as empresas formais, explicam a diferença.

“Não compro essa teoria da armadilha da renda média”, afirma o especialista. “A saída para isso é a produtividade”. Segundo ele, é fato que o país tem uma taxa de desemprego abaixo de 6%, mas isso pode escamotear um número grande de trabalhadores informais. “Quando se migra para o setor formal, automaticamente a produtividade aumenta”.

Atkinson, contudo, chancela uma política bastante controversa por aqui, ao defender ser impossível se tornar um líder em inovação sem ter companhias globalmente competitivas. Como empresas inovadoras geralmente têm altos custos fixos e baixos custos marginais, diz, quanto maior o mercado, melhor será para a empresa.

Na apresentação que faz hoje pela manhã no seminário ‘Políticas de Inovação e o Desafio da Competitividade’, organizado pelo Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) e pela consultoria Prospectiva, Atkinson mostrará ainda outros números desfavoráveis ao Brasil. Em um ranking de políticas globais de inovação criado pelo próprio ITIF, 55 países são analisados em sete grandes áreas, do nível de abertura dos mercados internos à proteção da propriedade intelectual.

O único item em que o Brasil vai bem é pesquisa e desenvolvimento (P&D), o que não é suficiente para deixar o país em uma situação confortável. No geral, o país fica no grupo que sustenta uma média-baixa capacidade em políticas de inovação, ao lado da China, Itália, Turquia e Malásia.

Um outro erro importante do país, diz o especialista, é perseguir um modelo que busca aumentar os níveis de inovação nas empresas por meio de regras e restrições, enquanto os países no topo da lista, como Austrália, Canadá, Finlândia, Estados Unidos, Alemanha e Japão, privilegiam sistemas de apoio aos mais diversos setores, de modo a torná-los mais competitivos, inovadores e produtivos. “Mais do que reguladores, os países líderes em inovação são facilitadores.”

Entre os exemplos a ser seguidos, Atkinson cita os esforços de parceria entre a iniciativa privada e as universidades, como o chamado ‘Innovation Voucher’, programa adotado por alguns países europeus, cujo objetivo é oferecer uma quantia em dinheiro para que companhias de pequeno e médio porte busquem inovação com o apoio de laboratórios e universidades. Ou o ‘Fraunhofer’, instituto alemão de pesquisa voltado para a indústria e alimentado por recursos públicos e privados.

Entre medidas para esquecer, Atkinson cita a Argentina, um dos únicos países em que a produtividade do setor de supermercados diminuiu nos últimos dez anos, devido à decisão do governo de repelir a entrada de grandes redes internacionais por meio de tarifas e entraves à aquisição de terras para a construção de lojas. “Por outro lado, a Rússia teve o maior aumento de produtividade nesse setor e, hoje, os russos pagam menos por comida do que os argentinos.”

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