Ações para viabilizar agenda da economia verde são urgentes

Jornal Valor Econômico
13/06/2013
Por Diego Viana | Para o Valor, de São Paulo

Um cenário que exige mudanças drásticas e novas ferramentas de mensuração, para aproveitar as oportunidades de negócios sustentáveis em vez de sucumbir aos riscos ambientais, é a visão traçada por Marina Grossi, presidente executiva do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). Ela cita como exemplo o caso da Puma, fabricante de vestuário esportivo. “A Puma lançou um relatório de sustentabilidade em que descobriu que, se tivesse computado o impacto de suas atividades, desde o algodão que colhe na Índia, teria um resultado diferente. O algodão precisa de muita água, o processo de desertificação avança e a empresa não consegue algodão de qualidade. Esse é o ativo dela. ” Como consequência, disse Marina, a empresa descobriu um custo ambiental de €145 milhões em 2010, de um lucro no exercício de € 220 milhões.

Para ajudar as empresas e o poder público a se adaptar à agenda da sustentabilidade, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável dedica-se a colocar em prática as ideias contidas no documento “Visão 2050″, começando pelas ferramentas de mensuração que permitirão desenvolver a economia verde. Criado em 1997 e composto de 74 grandes empresas que atuam no Brasil, o conselho realiza encontros e workshops.

Segundo a executiva, as medidas que preparam a transição para a economia sustentável têm de ser tomadas com urgência até 2020 para viabilizar o projeto até 2050. Para isso, será preciso conjugar os esforços da iniciativa privada, dos governos, da academia e da sociedade civil. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Valor: Qual é o cenário para 2050 no campo da sustentabilidade?

Marina Grossi: Tem muita oportunidade de negócios, mas com vários riscos. São necessárias mudanças drásticas para termos um mundo de 9 bilhões de pessoas vivendo bem e dentro dos limites do planeta, com alimentação, saúde, educação. Fizemos o exercício e vimos a necessidade de precificar o carbono até 2020, lidar com os aterros sanitários e assim por diante. O preço justo, incorporando externalidades ambientais e sociais, é urgente. Em algumas medidas, o primeiro passo tem de ser dado pelas empresas. Em outros, pelo governo. Em outros, é a sociedade civil. No documento, são empresários falando, mas não fazemos a agenda sozinhos. Ela exige mudanças de políticas, de comportamento, de incentivos.

Valor: O limiar para as mudanças é 2020, mas só faltam 20 anos. Como está o avanço?

Marina: Algumas coisas estão atrasadas. É o caso do preço do carbono, embora haja sinalizações. O protocolo de Kyoto anda devagar, mas na Conferência do Clima de 2015, em Paris, devem ser tomadas decisões. Nada vai mudar sem a participação da China e dos Estados Unidos, que respondem a 50% das emissões. Mas muita coisa aconteceu. A China tenta reduzir suas emissões e se tornar mais renovável. Com o crescimento do mercado consumidor, o país sabe que não pode incorporar as pessoas com o mesmo modo de produção. Há uma mudança geoeconômica em curso, com aspectos sustentáveis como balizadores. Mas o ritmo não é adequado.

Valor: Como o Brasil figura na agenda da sustentabilidade?

Marina: Temos de perceber mais claramente o que o Brasil tem de vantagem na agenda de sustentabilidade, quando os ativos ambientais forem precificados. Temos uma matriz energética limpa e ativos cada vez mais valorizados, como a água, em abundância. Há várias fontes de energia que o Brasil tem de explorar mais. Avançamos nas eólicas, mas foi pouco. Temos de avançar mais na energia solar, no bagaço de cana. E tem de avançar na diversidade. O mundo sustentável é o mundo da diversidade, em que não se apostam todas as fichas numa única opção.

Valor: Como fazemos para que os preços dos produtos de fato incorporem as externalidades?

Marina: O primeiro passo é mensurá-las. Esse é nosso foco. Temos instrumentos para medir o que exatamente está sendo impactado. As três dimensões da sustentabilidade têm de andar juntas: ao estabelecer um negócio, olhar para o aspecto ambiental sem deixar de lado o social. Ao examinar a pegada energética dos processos, tem de entrar tudo, do preço do combustível até o do produto. O produto local pode ter preço mais atrativo, já que a pegada de transporte é menor. A discussão sobre as variáveis a computar é complexa e as empresas não conseguem fazer isso sozinhas. Já o governo não pode legislar descolado da realidade das empresas, senão as leis ficam inócuas.

Valor: Que tipo de ferramenta de medição já existe?

Marina: Por exemplo, desenvolvemos o GHG Protocol. É uma planilha em que se vê o que é emitido em cada operação e na empresa como um todo, mostrando as oportunidades e fragilidades. Sem mensurar, o preço é zero. Agora estamos mensurando a biodiversidade. É fundamental medir, por exemplo, a importância da água no seu negócio, o impacto de usar uma fonte de água. Se dependo de água num negócio, tenho de saber como retornar a água limpa para a natureza. Sem olhar o longo prazo, uma empresa não vai durar. Essas questões já são cobradas. Pela lei, por exemplo, a empresa é responsável pelo produto do berço ao túmulo, o ciclo inteiro. Mas como se faz isso? Como mobilizar a empresa? Como fechar a logística reversa?

Valor: Que tipo de medidas as empresas estão criando para se adaptar?

Marina: A Puma lançou um relatório de sustentabilidade em que descobriu que, se tivesse computado o impacto de suas atividades, desde o algodão que colhe na Índia, teria um resultado diferente. O algodão precisa de muita água, o processo de desertificação avança e a empresa não consegue algodão de qualidade. Esse é o ativo dela. As externalidades da Puma somaram €145 milhões em 2010, de um lucro que tinha sido de € 220 milhões.

Valor: E o lado social? No caso da tragédia de Bangladesh, o que impede os fabricantes de se mudar para um prédio ao lado nas mesmas condições?

Marina: O impacto social é o mais difícil de medir. A biodiversidade é mais difícil que os gases de efeito estufa e o impacto social é mais difícil ainda. Mas estamos avançando. A fronteira do que é a responsabilidade de uma empresa, de um país, do Estado, já não é tão clara. Uma empresa não pode decidir que não vai se importar em nada com o saneamento, por exemplo. Entrar numa região pobre, causar um impacto social e ambiental, sem querer saber de nada, porque é problema do Estado. Ela não pode ter êxito se o tecido social em volta estiver corroído.

Valor: Como impedir que grandes empresas contratem fornecedores que usam trabalho escravo?

Marina: A lei proíbe o trabalho escravo nas empresas, mas isso não basta e é onde reside a importância da regulamentação. A empresa não pode mais lavar as mãos, dizendo que suas instalações respeitam o trabalhador e o que é encomendado de fábricas chinesas não é problema dela. É, sim. A cobrança, quando não é da lei, é do consumidor, que diz: “Como assim, compro esse produto e alimento o trabalho escravo?” O que eu disse sobre o produto, do berço ao túmulo, vale para o trabalho.

Valor: A transição dos processos produtivos deve ser custosa. Como financiá-la?

Marina: Alguns financiamentos dependem só das empresas. Outros dependem de uma conjuntura mais ampla. Eficiência energética depende só das empresas, então podemos avançar muito. Hoje, muitos subsídios vão para a economia que não é a verde e têm de ser redirecionados. O relatório Stern, em 2006, dizia que a economia verde exigiria 1% do PIB mundial em investimento para se tornar realidade. Hoje, ele revisou para 2%, porque não avançou. É uma quantia pequena se comparar com o que é gasto em crises financeiras.

Valor: É possível ler na contabilidade das empresas se elas são sustentáveis?

Marina: Cada vez mais. Vamos fazer este mês na Bovespa um workshop sobre relatórios integrados, treinando contadores para quantificar outros indicadores. Hoje, o relatório de sustentabilidade sai numa época descasada com o momento em que os investidores olham os relatórios financeiros. Algumas empresas já publicam os relatórios financeiros casados com os de sustentabilidade, mas nem sempre. Alguns investidores buscam esses indicadores, mas eles não são claros. Precisam se tornar tão inteligíveis quanto uma planilha financeira. Às vezes, uma empresa dá lucro alto e os acionistas estranham, perguntando: tem um indicador ruim negligenciado? Ou num relatório financeiro de empresa de energia, eles querem saber: cadê o impacto ambiental, se houver, por exemplo, um vazamento de petróleo em alto mar? Ele pode abalar o resultado.

Valor: E a contabilidade nacional? As alternativas para o PIB como medida de bem-estar até hoje não se mostraram muito aplicáveis.

Marina: Essa é “a” grande discussão. O PIB serviu para uma época em que o consumo era fundamental para o bem-estar, quando a economia passou da grande pobreza para a riqueza. Mas quando já existe grande desperdício, falhas de mercado graves, como não computar externalidades? A saúde traz bem-estar? É quantificada? O ar limpo é fator de bem-estar? É quantificado? A poluição é fator de mal-estar, é quantificada? O lazer traz bem-estar; é quantificado? Estamos buscando ferramentas. Países ricos podem pensar em prosperidade sem crescimento. A sustentabilidade é questão de mudar o padrão de consumo e produção para todo mundo. Tem gente que ainda não consome. O chinês ou brasileiro que começa a consumir agora tem de consumir de forma sustentável, como quem já consome tem de tornar seu consumo sustentável.

Valor: Para o consumidor final, se um produto computar mais custos, os preços não sobem?

Marina: Pode-se pensar de outra forma. Se houver regulamentação que estimule as empresas sustentáveis, a empresa insustentável vai ser mais cara. Se isso virar norma, é uma mudança do “business as usual”. Se falamos de sustentabilidade, não é uma questão de cumprimento da lei, mas acima disso. Quando a sustentabilidade for incorporada, o insustentável vai ser penalizado.

Leave a comment

0 Comments.

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.