Chamem os ‘nerds’: o setor financeiro não é lugar para pessoas extrovertidas

Jornal Valor Econômico
30/04/2013
Por Sarah Gordon | Do Financial Times

No começo deste mês, em dois dias diferentes, o preço do ouro teve sua maior queda dos últimos 30 anos. Nenhum dos dois recuos tinha sólidos motivos para acontecer. Os comentaristas vieram com uma série de explicações complexas para o motivo pelo qual o metal teria registrado tamanha venda em massa, todas elas um tanto frágeis. O ouro é tradicionalmente um refúgio quando as coisas estão indo mal em outras áreas. Mas o preço do ouro tinha caído ao mesmo tempo que o índice S&P 500, o principal indicador de ações nos EUA, e que os rendimentos dos bônus de 10 anos do Tesouro dos Estados Unidos.

É difícil fugir à conclusão de que alguns investidores venderam em massa porque outros estavam vendendo – em outras palavras, de que pesou o instinto de manada. Enquanto os economistas e autoridades reguladoras não conseguirem incorporar em seus modelos e regras o fato de que seres humanos se comportam dessa maneira, nossa compreensão da crise financeira – e nossa capacidade de evitar mais uma delas – continuará limitada.

Felizmente, muitas autoridades, levadas a enrijecer regimes de supervisão impróprios na esteira da crise, estão tentando incluir mais economia comportamental em sua fiscalização. No Reino Unido, o recém-criado Departamento de Conduta Financeira (único objetivo: defender e ampliar a confiança no sistema financeiro do país) fez questão de analisar como as pessoas se comportam a fim de intervir nos mercados “com mais eficácia e de uma forma nova”. O titular do departamento, Martin Wheatley, acha que a economia comportamental o ajudará a avaliar melhor potenciais problemas e escolher soluções mais adequadas.

Os problemas nos quais o departamento optou por se concentrar não são – pelo menos até agora – da ordem dos que derrubaram o Lehman Brothers ou o Long Term Capital Management. O órgão escolheu começar por examinar alguns problemas comuns dos serviços financeiros de uma maneira diferente.

Por que os consumidores se comportam de maneiras que não são obviamente racionais – por exemplo, preferindo cartões de crédito com baixas taxas, como isca, por um período inicial, seguidas de taxas e encargos muito altos depois disso? O órgão regulador já recorreu à pesquisa comportamental em busca de orientação lógica sobre como as empresas poderiam escrever cartas que seus clientes efetivamente lessem (pondo bolas pretas no alto da carta e cortando o blá-blá-blá).

Mas essa mudança sugere um enfoque radicalmente diferente do órgão regulador pós-crise para entender o comportamento do consumidor e das empresas; um enfoque que tente incorporar nas suas avaliações o fato de que os seres humanos não fazem escolhas de maneira calculada.

No entanto, abarcar essa compreensão mais profunda será tarefa cheia de dificuldades. Como reconhece o próprio Departamento de Conduta Financeira, criar e implementar “soluções comportamentalmente fundamentadas” não é apenas algo novo como exigirá testes e pesquisas abrangentes.

Existe ainda um obstáculo maior. Parece intuitivamente certo que devemos analisar a maneira pela qual as pessoas se comportam, a fim de nos ajudar a entender por que os mercados financeiros fazem o que fazem. Mas isso pode ter menos a ver com escolhas comportamentais e mais com as personalidades que optam por operar neles.

Há um conjunto incontornável de provas que sugere que as pessoas que mais tendem a ingressar nas áreas de maior risco dos serviços financeiros são exatamente as menos apropriadas para julgar o risco. O livro “Quiet”, de Susan Cain, recentemente publicado, cita uma série de estudos que sugerem que os extrovertidos tendem a se sentir atraídos pelos ambientes de altas remunerações de banco de investimentos, negócios e transações. E, de forma perturbadora, essas pessoas expansivas também tendem a ser menos eficientes em ponderar oportunidade e risco do que alguns de seus colegas mais introvertidos.

Susan conta a história de Vincent Kaminski para mostrar o que pode acontecer com uma empresa quando pessoas agressivamente dispostas a correr riscos gozam de status alto demais em relação às introvertidas, mais cautelosas. Kaminski atuou como diretor-executivo de pesquisa na Enron, a empresa de energia que pediu recuperação judicial em 2001. Nessa condição, ele tentou reiteradamente acionar o alarme sobre o ingresso da empresa em contratos de negócios que, segundo pensava, ameaçavam sua sobrevivência. Quando seus superiores não queriam ouvir, ele se recusava a aprovar essas transações. Consequência: ele foi despido de seu poder de analisar negócios no âmbito de toda a empresa.

Quando a crise financeira começou a despontar, em 2007, Kaminski foi entrevistado pelo jornal “The Washington Post”. Advertiu que os “demônios da Enron” não tinham sido exorcizados. Queixou-se, em especial, de que muitos que entendiam os riscos que os bancos americanos assumiam eram ignorados devido a seu tipo de personalidade. “O problema é que, de um lado, você tem um executivo milagreiro que está ganhando rios de dinheiro para a empresa e é tratado como um superstar; do outro, você tem um nerd introvertido. Quem você acha que ganha?”, acrescentou.

Pesquisas recentes, segundo Susan, sugerem que pode até existir um “gene extrovertido” – o que regula a produção do hormônio dopamina -, associado a uma versão de extroversão especialmente ávida por fortes emoções e forte indicadora da propensão a assumir riscos financeiros.

Na assembleia anual de acionistas de seu veículo de investimentos Berkshire Hathaway, 15 anos atrás, Warren Buffett disse que o sucesso nos negócios não depende de QI. “Uma vez que a pessoa tem uma inteligência dentro da média, o que ela precisa é do temperamento para controlar os impulsos que geram problemas para outras pessoas na hora de investir.”

Sugeriu-se muitas vezes, desde a crise, que o que os mercados financeiros precisam é de menos testosterona. Na verdade, talvez seja menos dopamina.
(Tradução de Rachel Warszawski)

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