A conexão como saída para a crise

Jornal Valor Econômico
30/04/02013

Por Vanessa Jurgenfeld | De São Paulo.
Empresário francês faz reflexão sobre a governança ideal para o século XXI.

O que você “pregaria” ao mundo se fosse um bilionário, solteiro, de 51 anos, e decidisse escrever o seu primeiro livro? Se você fosse Nicolas Berggruen, escolheria o tema governança – “decisões que tornam nossas vidas melhores ou piores”, como ele define o termo.

Em um momento de crise mundial, o argumento de Berggruen é o de que as nações estariam também (ou essencialmente) numa crise de governança, necessitando alterar determinados padrões de conduta, de forma a torná-los mais eficientes para o século XXI.

As sugestões deste bem-nascido empresário francês, cuja fortuna é estimada em US$ 2 bilhões, sendo o 736º homem mais rico do mundo pela lista da “Forbes”, foram reunidas em “Governança Inteligente para o século XXI”, livro recém-lançado no Brasil e escrito em parceria com Nathan Gardels, editor do Global Viewpoint, serviço do Los Angeles Times Syndicate.

De alguma forma, o livro representa boa parte das ideias discutidas no Nicolas Berggruen Institute, organização sem fins lucrativos criada em 2010 e sediada na Califórnia, onde intelectuais como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente da Espanha Felipe González e o ex-presidente da França Nicolas Sarkozy se envolvem em debates sobre governança global.

Em entrevista ao Valor, Berggruen destacou as principais transformações no jogo de poder mundial – basicamente, a perda de força dos EUA e de vários países da Europa e o aumento de poder de países emergentes, em especial, a China – que funcionam como pano de fundo para as mudanças que sugere.

Segundo ele, ainda estaríamos sentados a “uma mesa com poucas cadeiras, e uma das cadeiras ainda pertence aos Estados Unidos, mas não estamos mais falando de um mundo unipolar”. Outras nações, observa, têm economias, ideologias, culturas e outras formas de governança que agora também competem com a dos americanos.

“Os Estados Unidos perderam poder econômico, poder moral e também, eu acho, honestamente, que perderam o desejo de ser dominantes. Acho que estão muito ocupados em casa e menos engajados no resto do mundo, em um momento do mundo em que talvez seja necessário se dedicar mais.”

Um modelo “mais equilibrado” para guiar as nações estaria em uma mistura entre pontos fortes da governança do Ocidente – naquilo que melhor tem funcionado nas democracias liberais – com a do Oriente.

“A China não tem eleições, o que é ruim, porque não dá voz às pessoas. Mas isso também é uma vantagem, porque o governo não precisa promover felicidade agora, mas pode promovê-la para a geração futura. Por isso, pode investir em infraestrutura intelectual e física [que leva tempo], melhorando a educação, as rodovias, os portos etc.”, afirma.

Nos EUA, embora as eleições tenham o lado positivo de um sistema democrático, há o período de curto prazo do mandato para realização de projetos de longa duração e o risco de o governante preferir medidas mais fáceis, de alta popularidade (e de curto prazo), em vez das de longo prazo, a fim de manter seu prestígio ao término do mandato.

Na via de mão dupla, os chineses teriam a aprender com o Ocidente questões de transparência, democracia e liberdade de imprensa, por exemplo.

Esses são alguns dos argumentos do empresário, que há alguns anos ganhou o rótulo de “homeless billionaire” (bilionário sem-teto). Berggruen não gosta da expressão, que qualifica de “tola” e que foi, segundo ele, cunhada por jornalistas.

Mas o fato é que a sua excentricidade chama atenção. Há 15 anos, não tem uma “residência fixa”. Decidiu viver viajando pelo mundo a bordo de um avião próprio – um Gulfstream IV – e, quando em terra firme, passa os dias em hotéis. O assunto parece delicado, Berggruen é reticente ao falar de sua vida pessoal.

“Isso ocorreu, naturalmente, no meu caso. Não foi um grande projeto. Se você não tem família, não precisa de coisas. Isso dá liberdade e energia para tocar outros projetos. Você foca naquilo de que gosta. É muito prático”, diz ele, cujo currículo envolve ser o principal acionista do grupo Priza (dono do jornal “El País”), proprietário da Berggruen Holding (que investe no mercado imobiliário, hotéis, em locação de veículos etc.) e ser filho de Heinz Berggruen (1914-2007), famoso colecionador de arte alemão, amigo de Picasso.

Apesar de abraçar com afinco o tema da governança (o livro já foi lançado em vários países, como Portugal, Estados Unidos e, em breve, terá também uma edição francesa), Berggruen, assim como seu pai fazia, também dedica parte do seu tempo ao mundo das artes.

Não compra e vende a fim de ser um negociante do ramo, apenas adquire obras para colocá-las diretamente em museus. E embora seja importante colecionador de clássicos como Pablo Picasso, Henri Matisse, Paul Klee e Alberto Giacometti (obras que estão no Museum Berggruen, em Berlim), também se envolve com arte contemporânea – “medianamente contemporânea”, corrige.

“Nada muito fresco/recente, porque são obras que vão para um museu em Los Angeles [Los Angeles County Museum of Art], onde se requer que sejam obras já estabelecidas, ainda que de artistas contemporâneos”. Cita, por exemplo, Gerhard Richter, Joseph Beuys e Ed Ruscha.

De andar rápido e objetivo na fala, Berggruen graduou-se na New York University – em administração de empresas e em relações internacionais. Mas diz que aprendeu sobre o mundo mais pelo simples fato de viver em Nova York no início da vida adulta (a partir dos 17 anos) do que necessariamente nas cadeiras da universidade, onde, garante, era um “aluno terrível”.

Outros projetos inusitados? Berggruen também tem chamado a atenção da mídia internacional por prometer doar sua fortuna. “E eu estou falando sério. Tudo tem que partir”, ressaltou.

Em 2010, Berggruen associou-se ao Givingpledge.org, projeto de Warren Buffet e Bill Gates, em que os membros doam ao menos 50% de seu dinheiro para a filantropia quando morrem. “A questão real é: se você tem mais do que precisa para viver, se você trabalhou duro para conseguir dinheiro, talvez seja bom trabalhar duro para dar o seu dinheiro. Isso é muito interessante”, afirma.

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