A síndrome do trabalhador medíocre e relativamente feliz

Jornal Valor Econômico
22/04/02013
Por Lucy Kellaway

Quando eu estava no “Financial Times” havia um ano, uma jovem que acabara de entrar para o jornal me convidou para um drinque. Mal dei o primeiro gole em um vinho branco ácido e ela disse que estava extremamente entediada por ter de escrever reportagens sobre coisas triviais do mundo corporativo e perguntou se eu também me sentia assim. “Não”, respondi. Eu achava muito interessante.

“Eu realmente invejo você”, disse ela. Preparei-me então para ouvi-la dizer o quanto eu era brilhante como jornalista. Mas, em vez disso, ela disse: “Você parece feliz escrevendo qualquer coisa. Eu gostaria de ser assim, mas não consigo. Sempre quero mais”.

Aos 25 anos, insegura e muito ambiciosa, não fiquei muito feliz em ser colocada na categoria dos que não se esforçam. Nem me deixei enganar pela falsa inveja. Mesmo assim, hoje vejo que ela estava ciente de uma verdade quase nunca reconhecida: os trabalhadores medíocres e mais acomodados são mais felizes e podem ser objeto de inveja.

Na semana passada, li uma pesquisa mostrando que os funcionários de pior desempenho sempre são os mais engajados. Isso é uma mudança radical em relação à percepção geral de que desempenho e engajamento andam de mãos dadas: os que se destacam mais deveriam ser motivados e entusiasmados, enquanto o resto deveria pertencer ao time dos descontentes e zangados.

Em vez disso, segundo a consultoria Leadership IQ, em quase metade das companhias pesquisadas os trabalhadores acomodados se saíram muito melhor que os mais talentosos em três níveis de engajamento. Eles se mostraram mais propensos a “dar 100% de si”, têm uma tendência maior a recomendar sua companhia para terceiros, e se mostram mais inclinados a pensar que seus chefes tratam as pessoas de maneira justa.

A consultoria conclui que isso é uma consequência do mau engajamento. Nessas companhias, os inúteis não são informado disso, mas deixados a acreditar que são bons. O resultado é que os mais capazes se ressentem e se tornam cínicos, desmotivados e críticos da companhia. Assim, abandonam o barco na primeira chance.

Quando penso naquela antiga colega, percebo que há motivos para o contentamento dos acomodados e a insatisfação dos funcionários de maior destaque. Para começar, os medíocres podem se sentir sortudos por terem um emprego, enquanto que os grandes talentos acham que todo emprego é uma decepção. Com expectativas menores, os menos talentosos não criticam a companhia e não supõem que são mais brilhantes que seus chefes. Também não ficam enfurecidos por não estarem recebendo novos desafios constantemente.

Os despreocupados são personalidades Tipo B. Um estudo recente mostra que as personalidades ambiciosas do Tipo A são mais bem-sucedidas, mas as do Tipo B são, no mínimo, mais felizes e vivem mais. Outro levantamento mostra que os que fazem o mínimo para conseguir os resultados desejados, estão mais contentes com seu trabalho do que os que se esforçam para fazer as coisas do melhor jeito possível e inevitavelmente ficam desapontados.

Sejam quais forem as razões da felicidade relativa dos pouco eficientes, sua existência em números tão expressivos nas empresas subverte dois dogmas da administração moderna. Em primeiro lugar, ela mostra que toda essa coisa de engajamento dos funcionários é besteira.

O engajamento de um funcionário de destaque tem muito valor se ele ficar por perto (e, frequentemente, não fica). Já o dos outros vale menos que nada, uma vez que você quer que eles sejam desmotivados a ponto de irem embora. Se os trabalhadores de desempenho fraco se sentem felizes, isso é bom para eles, mas não é um dos objetivos da empresa se isso não levá-los a trabalhar com mais afinco.

Se esses funcionários estão satisfeitos assim e os gestores nada fazem a respeito, então todos deveriam ser deixados à própria sorte. Os ambiciosos e os medíocres poderiam continuar sendo como são, um grande esforço administrativo seria poupado e todo mundo seria um pouco mais feliz.

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