Marte e Vênus, a divisão de gêneros nos investimentos

Jornal Valor Econômico
14/03/2013
Por Norma Cohen e Jonathan Eley | Do Financial Times

Desde a quebra do Lehman Brothers em setembro de 2008, houve diversos comentários – mais notadamente da vice-líder do Partido Trabalhista [britânico], Harriet Harman – de que o colapso catastrófico poderia ter sido evitado se o banco tivesse o nome de Lehman Sisters (irmãs, em vez de irmãos, Lehman, em inglês). Os acadêmicos há muito tentam avaliar se as mulheres são melhores gestoras e investidoras, na esteira dos pedidos por maior diversidade nos conselhos de administração das empresas. O veredicto ainda não saiu.

De qualquer forma, no que se refere a investir, ainda é interessante observar se os investidores fazem escolhas diferentes das investidoras; em particular, se as mulheres carecem de confiança em sua própria capacidade e, portanto, se são mais inclinadas a ter aversão a aplicações arriscadas do que os homens em circunstâncias financeiras similares.

Certamente, há pesquisas sugerindo que os homens são mais confiantes e inclinados a assumir riscos maiores. Por exemplo, a pesquisa “Comportamentos e Experiência Financeira entre as Mulheres”, da americana Prudencial, feita em 2012 e 2013, segundo a qual mesmo entre as mulheres que sustentam a casa, apenas 20% se descreveram como “muito bem preparadas” para tomar decisões financeiras, sendo que no caso dos homens a fatia foi de 38%.

Também constatou que, embora 40% dos homens tenham dito que “gostam de praticar o esporte dos investimentos”, apenas 22% das mulheres pensam do mesmo modo. E 70% das mulheres se descreveram como “poupadoras”, em vez de “investidoras”, em comparação a 60% dos homens.

Há evidências, mesmo fora do mundo dos investimentos, de que os homens assumem riscos evitados pelas mulheres.

No que diz respeito ao comportamento de investimentos indiscutivelmente mais arriscados – as apostas em spreads – os homens superam em muito as mulheres, segundo o IG Index, a maior firma do setor no Reino Unido. Dos aproximadamente 92.000 clientes ativos registrados na companhia, menos de 10% são mulheres, segundo David Jones do IG Index. Ele disse que, ao se olhar para aqueles clientes que também negociam com outros instrumentos de risco elevado – aqueles que envolvem derivativos ou opções, por exemplo – vê-se que quase todos são homens. “Nesses investimentos, a proporção de homens sobre as mulheres é sempre de 9 por 1.”

Até fora do mundo dos investimentos há sinais claros de que os homens assumem riscos evitados pelas mulheres. Uma evidência é a taxa de mortalidade de jovens no fim a adolescência e início da faixa dos 20 anos, em que os riscos assumidos pelos homens deram origem ao termo conhecido entre os estatísticos como “mortes de teor hormonal”. Isto é, a testosterona encoraja os homens a se arriscarem mais. Em 2011, por exemplo, foram registradas na Inglaterra e no País de Gales 192 mortes de homens com 20 anos de idade, em comparação a 67 de mulheres.

“Há três coisas associadas à testosterona”, diz Emily Haisley da equipe de finanças comportamentais da Barclays Wealth. “A massa muscular, a perda de cabelo e a confiança.” Destas, a confiança é a que responde pela vontade de se assumir mais riscos.

Lesley Mackintosh, que administra uma firma de consultoria financeira em Edimburgo, a Independent Women, e que é consultora financeira há 20 anos, diz que baseado em indícios esporádicos as mulheres são investidoras mais cautelosas. “Sem dúvida, os homens arriscam mais.”

No entanto, quanto perguntada o por que, ela diz: “Mais da metade de nossos clientes é formada por mulheres separadas ou divorciadas. Eles chegam até nós e perguntam ‘como faço para proteger minha família, meus ativos?’”. A soma total que elas têm para investir é sempre resultado de um acordo de separação.

Tais circunstâncias podem ser a razão da aversão ao risco por parte de muitas mulheres investidoras. Jones, da IG Index, concorda. A melhor idade para diversificar as apostas, diz ele, é entre os 35 e os 45 anos, um período em que os salários tendem a atingir o pico para os que trabalham no setor privado. É também o ponto em que muitas mulheres estão fora do mercado de trabalho, cuidando dos filhos em casa. Dados oficiais mostram que cerca de um quinto de todas as mulheres com idades entre 35 e 49 anos são economicamente inativas, em comparação a apenas 7,5% dos homens. E as mulheres geralmente trabalham mais em meio período.

As decisões de investimento das mulheres também podem ser afetadas pelo tipo de orientação que recebem. Um estudo publicado em 2012, pelo Birô Nacional de Pesquisas Econômicas dos EUA, descobriu que muitos dos consultores pesquisados oferecem assessoria adequada à sua própria renda e não à da clientela. Também descobriu que as mulheres têm menor probabilidade de serem incentivadas a investir em contas de gestão ativa e 40% maior probabilidade do que os homens de serem informadas de que os consultores não fariam nenhuma recomendação sobre estratégias de investimento até que a carteira do cliente fosse colocada sob sua gestão. “É concebível que esse comportamento pode ser baseado na percepção de que as mulheres são mais dóceis ou crédulas”, observou o relatório.

Pode não ser surpreendente que as pesquisas envolvendo mulheres ricas repetidamente as detectem como insatisfeitas com sua assessoria financeira, segundo o Haisley Barclays. “O único setor com maior nível de insatisfação é o automobilístico.”

Haisley acrescentou que “os próprios estudos envolvendo as contas de seus clientes no Barclays detectam diferenças entre as maneiras como homens e mulheres investem. Mas quando esses estudos segmentam os perfis analisados levando em conta variáveis como idade, dimensão da carteira e estado civil, as diferenças são muito menos pronunciadas.

E elas nem sempre resultam em desvantagem para as mulheres. Por exemplo, homens solteiros renovam anualmente o conteúdo de suas carteiras de investimentos a uma taxa 50% maior do que as mulheres solteiras. Isso, diz Haisley, resulta em retornos em média 1,5 ponto percentual inferiores.

O Barclays tem um sistema que lhe permite atribuir uma “personalidade financeira” a seus investidores, e quando examinou o tipo de atividade profissional dos clientes encontrou diferenças ainda menores entre homens e mulheres. “Quanto maior a experiência financeira de uma pessoa, mais riscos está disposta a assumir. Quando examinamos [comportamentos] em nível [de conhecimento] elevado, a diferença [entre os sexos] diminui”, disse Haisley.

Para profissionais financeiros, diz ela, o diferencial de investimentos entre homens e mulheres diminui drasticamente e se dissipa até um nível “pequeno, mas ainda estatisticamente significativo”. E quando se trata de pessoas que atuam em “trading” financeiro, a mais arriscada de todas as atividades financeiras, a diferença é muitíssimo pequena.

Cautela – Sarah Brummitt certamente concorda que as mulheres são menos impulsivas em relação aos investimentos do que os homens. “Somos, sem dúvida, cautelosas, e eu acho que isso é uma coisa boa”, diz a treinadora de executivos que dirige a Blue Chip Stockings, um clube de investimento só para mulheres, que se reúne cerca de seis vezes por ano em Londres. “Temos diferentes demandas na vida que precisamos administrar fazendo verdadeiros malabarismos. Nós não queríamos que isso se tornasse mais uma demanda.”

O clube foi fundado em 2003 – ano em que o mercado de ações bateu no fundo do poço – e tem 11 membros com idades entre vinte e poucos anos e sessenta. “Nós nunca tivemos nenhum membro do sexo masculino”, acrescenta Brummitt. “Acho que o valor de um grupo só de mulheres está em que queremos um ambiente sociável e amistoso para nos encontrarmos, aprendermos e nos divertirmos. Não é (um ambiente) competitivo.” O grupo inclui um número de contadoras e empreendedoras, as reuniões acontecem segundo uma agenda e a contabilidade é mantida atualizada. O clube não está no vermelho. A seleção de ações é uma atividade colaborativa; todas as ideias são consideradas, mesmo que não sejam postas em prática.

No portfólio corrente está o grupo Burberry, do setor de artigos de luxo, a varejista online Asos – um grande sucesso -; a Dialight, empresa de iluminação com tecnologia de LEDs; e a Experian, empresa de serviços de apoio.

Brummitt passou a interessar-se em investir quando tinha perto de trinta anos. “Eu me dei conta de que tinha uma pensão e uma poupança, mas não estava maximizando totalmente a oportunidade de ganhar dinheiro.” (Tradução de Sergio Blum, Sabino Ahumada e Mario Zamarian)

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