Entenda qual é a sua “causa” na vida e no trabalho

Jornal Valor Econômico
28/02/2013
Por Betania Tanure

Faço um convite a um rápido exercício: pense, ao levantar da cama todas as manhãs, se há algo que você deseja realizar genuinamente e de fazer sempre melhor. Falo daquilo que tem um real significado para você, que se tornará o seu legado. Achou?

A reflexão pode e deve ser feita em dois níveis. O primeiro se relaciona aos valores pessoais, ao que você consideraria sua missão e à própria vida pessoal nas diversas dimensões. O segundo diz respeito à sua carreira profissional e à empresa – na qual você talvez dedique a maior parte do seu tempo e energia. Obviamente esses dois níveis estão entrelaçados. Vamos focar, aqui, a empresa.

Nossas pesquisas, bem como nossas ações de consultoria e de participação em conselhos de administração, têm mostrado que, não raro, a correria desenfreada do dia a dia leva as pessoas a uma “fazeção”. Sem que elas percebam, muitas vezes o sentido maior do trabalho se perde.

Sobram a tarefa pela tarefa, o prazo pelo prazo, o ganhar pelo ganhar. Já nas empresas que apresentam resultados excepcionais e sustentáveis observa-se – ainda segundo nossas pesquisas, realizadas no Brasil, na Índia, na Europa e nos Estados Unidos – que há um propósito claro no fazer. O que diferencia ambas as situações, portanto, é a existência de uma causa. Ela traz significado para a vida das pessoas, e até mesmo para a correria cotidiana. O efeito disso no desempenho do indivíduo e da empresa é inegável.

Mas como chegar a um significado? A resposta é: ouça o seu coração, a sua alma e invista tempo na modelagem, na construção, no pensar. Precisamos exercer com a devida frequência essa atividade tão rara quanto necessária, a despeito do frenesi em que vivemos. Temos o dever, como indivíduos, de buscar a compreensão das nossas razões e motivações. Esse conhecimento guiará as nossas escolhas – e o nosso desempenho – na vida profissional.

Na organização não é diferente. Ela tem de buscar a sua causa, aquilo que move ou irá mover suas pessoas na direção de uma aspiração comum, potencializando a energia de realizar. Uma causa robusta reflete as esperanças e os desejos, muitas vezes intensos mesmo que não explícitos, das pessoas, levando-as a realizar algo especial. É assim que alguns dirigentes, aqueles que além de gestores são líderes inspiradores, fazem a alquimia de elementos distintos, presentes no sonho e na realidade, gerando uma combinação que entusiasma e mobiliza.

Em artigo publicado nesta coluna há alguns anos, abordei a necessidade premente de reflexão sobre o que chamei de “síndrome da urgência e da ausência de significado nas empresas”. Hoje, observamos que o frenesi do cotidiano empresarial só aumentou, a despeito de, em certos momentos, acreditarmos que chegou ao limite do insuportável. O esforço de refletir sobre isso e mudar não cresceu na mesma proporção.

O sucesso de um time, e de cada um de seus integrantes, depende grandemente da clareza de tarefas e propósitos. Além disso, só se pode falar de “trabalho em equipe” quando os componentes do grupo compartilham propósitos e os resultados tangíveis se relacionam a esses propósitos. Assim a causa se estabelece, o trabalho cotidiano ganha um significado real e o risco de não adesão é menor.

É muito poderoso para o desempenho individual e empresarial (observe que eles estão sempre juntos) que as pessoas estejam onde querem estar, vejam sentido e estímulo no que fazem, tenham brilho nos olhos. No mundo corporativo, subestima-se o poder do envolvimento das pessoas na construção de resultados diferenciados. Em contraponto, o que as move é o desafio de construir algo especial. Você tem uma causa? Está disposto a construí-la?

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