Tapete vermelho para os IPOs

Por Cláudio GRADILONE e Fernando TEIXEIRA

Na sexta-feira 8 de fevereiro, véspera de Carnaval, um grupo de 200 engravatados, reunidos no pregão da BM&FBovespa, no centro de São Paulo, participava de um tipo diferente de folia. A empresa de software para o varejo Linx, fundada em 1985 e com um faturamento estimado em R$ 220 milhões para 2013, realizou a primeira abertura de capital do ano. Seu Initial Public Offering (IPO) captou R$ 528 milhões, maior estreia desde a emissão de R$ 3,6 bilhões do banco BTG Pactual, em abril de 2012. O IPO da Linx estimulou o mercado. Vendidas no teto da faixa de preços prevista para o lançamento, as ações subiram 18% no primeiro dia de negócios e mantinham uma valorização de 13,7%, 20 dias após o lançamento.

Investidores brasileiros compraram 37% das ações, mais que a média das últimas estreias. No embalo da Linx, pelo menos outras 11 empresas já confirmaram ou estão avaliando a possibilidade de abrir capital (observe o quadro “No forno”).Esse número pode aumentar muito, avalia Edemir Pinto, CEO da BM&FBovespa. “Se essa janela de oportunidade permanecer aberta, 2013 poderá superar o recorde de 2007, quando ocorreram 64 aberturas de capital”, disse ele. “Há muito capital no Brasil e no Exterior procurando boas alternativas de investimento.” O executivo é cauteloso ao prever um valor para as captações, mas os banqueiros de investimento estimam uma cifra entre R$ 15 bilhões e R$ 20 bilhões.

Mesmo distante dos R$ 55 bilhões de 2007, pode ser o melhor resultado em quatro anos. “Há muito apetite por boas histórias empresariais, por companhias lucrativas”, diz André Esteves, CEO do BTG Pactual. “Prova disso foi a nossa própria abertura de capital, pois conseguimos vender ações quando investidores no mundo todo fugiam dos bancos de investimento.” Há três razões para esse otimismo. A primeira, e mais importante, é que, apesar da queda de 6% do Índice Bovespa em janeiro e fevereiro, há mais empresários dispostos a enfrentar o trabalhoso processo de abrir capital. Presente ao lançamento, o economista Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), comemorou o resultado.

“Foi uma grata surpresa, houve propostas de compra para 13 vezes o valor ofertado”, disse ele. Segundo Coutinho, pelo menos outras cinco empresas que receberam dinheiro do BNDES devem abrir capital neste ano. São companhias de tecnologia, medicamentos e automação da exploração de petróleo e gás. Para o banco, o IPO da Linx foi um negócio excelente. O BNDES desembolsou R$ 85 milhões em 2008 para comprar 21,7% da empresa, e vendeu metade dessa participação no IPO, lucrando 240% em cinco anos. Tamanho potencial de valorização aguça o apetite dos empresários. Pelos registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) há seis processos oficialmente em andamento, em vários setores: Smiles (relacionamento), Sênior Solution (informática), Cedae (saneamento), Auto Brasil (revenda de veículos usados), Biosev (biocombustíveis) e BB Seguridade, empresa de seguros, previdência e capitalização do Banco do Brasil.

A Sênior Solution, presidida por Bernardo Gomes, planeja levantar R$ 70 milhões. A companhia também recebeu capital do BNDES. Já a estimativa para a Biosev, ligada ao grupo Louis Dreyfus, é de captar R$ 760 milhões. Além da BB Seguridade, o processo mais esperado é o da empresa de fidelidade Smiles, controlada pela companhia aérea Gol, que foi formalizado na quinta-feira 27. O prospecto ainda não foi divulgado e a empresa não concedeu entrevista, por isso é difícil estimar valores. No entanto, é possível estudar o desempenho da concorrência. A principal concorrente da Smiles é a Multiplus, empresa de fidelidade da TAM. A Multiplus estreou no mercado em fevereiro de 2010, captando R$ 692 milhões, e permanece como uma companhia aberta, apesar de a TAM ter fechado capital em março de 2012.

Nessa data, último registro disponível, a companhia aérea valia R$ 5,87 bilhões. Já a Multiplus valia R$ 6,1 bilhões, valorização de mais de nove vezes em dois anos. Concorrentes recém-lançadas querem o mesmo. A catarinense Maxximo Fidelidade se prepara para ir ao pregão até 2015. Ela foi criada em setembro de 2012 com um aporte de R$ 4 milhões de um investidor-anjo. Em dezembro, tinha um milhão de usuários cadastrados, valia R$ 50 milhões e busca capital junto a um fundo de private equity. “O sucesso do IPO da Linx permite que abramos capital”, diz Fabrício Luiz de Souza, CEO da empresa. O mesmo raciocínio pode ser aplicado à BB Seguridade. Cauteloso, Aldemir Bendine, presidente do Banco do Brasil, evitou falar de previdência ao anunciar o balanço do BB no dia 21 de fevereiro. Sabe-se que cerca de 14% dos R$ 12,2 bilhões em lucros vieram das atividades de seguros, previdência e capitalização.

A meta do BB é que esse percentual nos resultados chegue aos 32% da seguradora do Bradesco. Por isso a abertura de capital é estratégica para o BB. O cálculo é simples: ao vender parte do capital da BB Seguridade, o BB obtém recursos para investir no negócio e pode antecipar esse crescimento. Pelas contas do banco, a empresa de seguros pode dobrar de tamanho em cinco anos. BB e Gol não são os únicos a se animar com a hipótese de tocar o sino do pregão. Apesar de não haver confirmação oficial, há outros negócios no forno. Os mais citados são o da companhia aérea Azul, o da rede varejista Atacadão, controlada pelo francês Carrefour, e o da empresa de logística da Vale. Por meio de sua assessoria de imprensa, a Azul informa que “não descarta a possibilidade de abrir capital no futuro”.

Pelas contas do mercado, empresas como a locadora de veículos Unidas, que receberam aportes de recursos de fundos, estão maduras para chegar ao mercado, desde que haja apetite dos investidores. Procuradas, Vale, Carrefour e Unidas não concederam entrevista. Quem já está no pregão também se animou. A empresa carioca de shopping centers Multiplan, listada em bolsa desde 2007, anunciou no dia 21 de fevereiro sua intenção de captar R$ 480 milhões emitindo nove milhões de novas ações. Marcelo Millen, chefe da área de ofertas públicas do banco Credit Suisse e responsável pela operação, diz que os recursos vão para a expansão das atividades. O momento não é uma coincidência. “O bom resultado da Linx influenciou no lançamento da operação”, diz.

“Há apetite no mercado por boas histórias empresariais, por companhias lucrativas.”
André Esteves, CEO do BTG Pactual

DIVERSIDADE Os grandes IPOs fazem brilhar os olhos dos banqueiros de investimento, mas há uma larga avenida aberta para empresas menores. Aí reside o segundo motivo para otimismo. A nova onda de lançamentos deverá corrigir uma distorção do mercado. Até agora, as aberturas de capital foram realizadas por empresas enormes e movimentaram cifras expressivas até para os padrões internacionais. Considerando-se os 141 lançamentos realizados desde que a Natura levantou R$ 768 milhões, em maio de 2004, a captação média nos IPOs foi de R$ 954 milhões, sem correção da inflação. Quando se avaliam as ofertas de empresas já listadas, conhecidas pelo termo em inglês “follow-on”, o número de operações sobe para 244, e o valor médio captado aumenta para R$ 1,57 bilhão.

Para comparar: o valor médio dos 20 primeiros lançamentos nos Estados Unidos neste ano foi de US$ 165 milhões, ou R$ 330 milhões, metade da cifra brasileira. Esses números afugentam companhias médias. No entanto, isso deve mudar, devido ao interesse dos investidores e da mobilização da Bovespa para atrair esses empresários. As vantagens são um pregão mais diversificado e menos volátil. “A nova onda de aberturas de capital deverá ser de empresas menores, o que dará mais diversidade ao mercado”, diz Edemir Pinto. Pelos cálculos da bolsa, há cerca de 15 mil companhias no Brasil que faturam entre R$ 20 milhões e R$ 400 milhões. Pelas contas do mercado, 50 delas podem abrir capital nos próximos três anos.

A busca por diversificação não se limita ao Brasil. Segundo uma pesquisa recente da consultoria Ernst & Young, 81,9% dos investidores nos Estados Unidos e na Europa haviam participado de uma abertura de capital nos 12 meses anteriores, ou pretendem fazê-lo nos 12 meses seguintes. Vale a pena participar? Clodoir Vieira, da corretora Souza Barros, diz que o investidor deve ser seletivo. Segundo Vieira, quem participou da maioria dos IPOs em 2007 ganhou dinheiro, mas quem fez o mesmo em 2009 e 2010 em geral perdeu. “Não é possível dizer que o desempenho dos IPOs será bom ou ruim”, afirma ele. “O investidor deve observar o desempenho individual das empresas antes de tomar sua decisão.”

Pela pesquisa da Ernst & Young , o maior interesse é por empresas menores, cujo caminho para a bolsa passa pelos mercados de acesso como o Bovespa Mais, criado em 2005. Atualmente, há três nomes, mas outros dez devem chegar ainda neste ano. Representativa dessa nova leva é a empresa de fertilizantes Nutriplant, que inaugurou o Bovespa Mais em 2008 captando R$ 20 milhões com a venda de 44% de suas ações. “Depois de abrir capital fizemos diversas aquisições e pagamos parte dessas compras com ações”, diz Ricardo Pansa, CEO da empresa. Pansa garante que o trabalho de abrir a Nutriplant e mantê-la aberta vale a pena, mesmo que uma boa linha de crédito do BNDES seja mais barata.

“O endividamento tem limite, pois o mercado pode achar que a empresa está alavancada demais, o que piora a classificação de risco e reduz o crédito”, diz Pansa. “Ações são um capital novo.” Pansa não comenta um follow-on da Nutriplant dado como certo para este ano, mas não descarta a hipótese. “A bolsa é a melhor alternativa se precisarmos de capital para expansão.” Quem nem sequer pensava em vir à bolsa agora a coloca no topo da agenda, caso da incorporadora potiguar Ecocil. Seus executivos participaram de seminários para pequenos empresários realizados pela BM&FBovespa. “Já não pensamos mais que a bolsa é só para empresa grande”, diz Silvio Bezerra, presidente da Ecocil.

Ele vê vantagens no Bovespa Mais. “É uma vitrine e permite que a empresa seja conhecida quando resolver vender ações.” O resultado da Linx o influenciou na decisão? “Sem dúvida, e deve animar mais empresas pequenas e médias”, afirma. Um desses exemplos é o da catarinense Audaces, fundada em 1992 por dois engenheiros, que desenvolve sistemas e equipamentos para indústrias têxteis. Com 300 funcionários e um faturamento estimado em R$ 100 milhões, ela estaria longe do radar dos banqueiros de investimento, mas seus sócios consideram estratégico o mercado de capitais.

“Estamos nos preparando para lançar ações, temos um conselho consultivo, auditoria e governança corporativa”, diz Cláudio Grando, um dos fundadores da Audaces. “Queremos estar prontos quando chegar a hora.” Segundo o consultor gaúcho Telmo Schoeler, da empresa de consultoria Strategos, que vem assessorando a Audaces na preparação para a abertura, o Bovespa Mais vai atrair centenas de empresas nos próximos anos. “No passado recente, os empresários cresciam reinvestindo lucros e tomando empréstimos, mas a queda das margens tornou essas alternativas inviáveis”, diz Schoeler. De agora em diante o crescimento terá de passar pelo mercado de capitais. “Há muitas oportunidades nos setores de logística, supermercados e medicamentos.”

INVESTIDORES O terceiro motivo para otimismo é o ânimo renovado dos investidores. A pesquisa da Ernst & Young mostra que há um apetite para empresas que estejam cotadas por valor certo, que mostrem perspectivas de crescimento e tenham um bom time de gestão. Outra notícia boa é que o Brasil aparece em terceiro lugar, com 32% da preferência dos entrevistados, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. Segundo Millen, do Credit Suisse, o interesse com relação ao Brasil se divide entre dois alvos.

“A Linx foi uma grata surpresa e outras cinco empresas podem fazer IPO em 2013.”
Luciano Coutinho, presidente do BNDES

O primeiro é o de negócios voltados para a infraestrutura – rodovias, portos, aeroportos e as atividades que os circundam. O segundo grupo é o de empresas que ganham com a expansão do mercado consumidor: companhias de varejo, de bens de consumo e de serviços como saúde e educação. A comprovação dessa tese foi uma venda de ações da rede de ensino Kroton, realizada em dezembro de 2012. As ações pertenciam ao fundo de private equity Advent, que havia aplicado na empresa e queria sair desse investimento. “No primeiro bloco, nós oferecemos três milhões de ações e vendemos sete milhões; menos de um mês depois, oferecemos mais três milhões e vendemos 10,5 milhões”, diz Millen.

A maior parte da demanda vem dos investidores institucionais, brasileiros e estrangeiros, que optaram por arriscar menos e ganhar menos em 2011 e 2012. Em 2013, a nova ordem é apostar em boas histórias. “Passado o susto, os grandes investidores estão transferindo uma parcela maior de seus recursos para os mercados acionários e para os países emergentes”, diz Cristiano Boccia, gestor do fundo de private equity Graycliff. “Se as condições de mercado se mantiverem por alguns meses, teremos um ano memorável”, diz Edemir Pinto.

Com reportagem de Patricia Alves

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