Por que as inovações são argumentos

Setembro/2012
Revista Administrador Profissional
Por Randall S. Wright

Muitos executivos confundem o que é uma inovação com o que uma inovação FARIA por eles. A solução? Pensar na inovação como um argumento, composto por três elementos: uma proposição e uma conclusão ligadas por uma inferência.

Ao participar de qualquer conferência sobre inovação, geralmente você poderá ouvir alguém da plateia perguntar: “Sim, mas como você está definindo ‘inovação’?” Por que não há significado claro e compartilhado de “Inovação”? Eu acredito que a resposta está no fato de que a maioria dos executivos confunde o que realmente é uma Inovação com o que uma Inovação faria por eles, se a tivessem.

Por exemplo, a maioria das empresas pensa em uma “Inovação” como algo que ganha uma venda com uma solução melhor, algo que aumenta a receita ou toma cotas de mercado de um concorrente. Mas essas não são definições de Inovação, são resultados que os executivos gostariam de obter a partir da inovação.

O problema é sério, principalmente porque as empresas podem enviar engenheiros, “empreendedores de tecnologia” e “olheiros tecnológicos” em busca de inovações, sem que haja um entendimento comum sobre o que eles estão procurando entre as pessoas e funções da organização ou entre “olheiros” e gestores. Mais significativamente, “inovar” significa “regenerar” e a maioria das empresas recusa-se ou simplesmente não consegue se regenerar.

Proponho, então, que todas as verdadeiras Inovações são argumentos. Com Isso quero dizer que todas as inovações são compostas de três elementos: uma proposição e uma conclusão ligadas por uma inferência. Eu ainda defendo que esta não é apenas uma definição conveniente ou funcional que abrange a maioria dos casos de inovação. Longe disso: afirmar que as inovações são argumentos não significa apenas criar uma definição – é uma Identidade, uma Igualdade. Inovação = argumento.

Deixe-me explicar. Quando Steve Jobs foi ao Centro de Pesquisa da Xerox, em Palo Alto [cidade do estado norte-americano da Califórnia onde estão instaladas várias empresas de alta tecnologia], em dezembro de 1979, com o objetivo de “dar uma olhada” no laboratório para ver o que estava acontecendo, ele fez um argumento uma inovação. Ele tropeçou em uma proposição – a interface gráfica do usuário – e inferiu que essa interface seria a forma que todo mundo iria vivenciar a computação. Steve Jobs mais tarde disse à [revista] Rolling Stone: “Dentro de 10 minutos, era óbvio que cada computador funcionaria dessa forma, algum dia. Você sentia em todos os ossos do seu corpo”. Steve Jobs foi um inovador, porque ele poderia fazer inferências entre proposições de tecnologia e conclusões sobre a experiência humana.

Os argumentos podem ser sempre expressos como declarações “se- então”: se concordarmos com uma proposição sendo verdade, correta ou válida, então podemos inferir uma conclusão. Para a inovação, essas conclusões são sempre sobre a experiência humana, e são geralmente sobre transferência de poder para o usuário. Em seu livro, Minha Vida e Minha Obra, Henry Ford expressou seu famoso argumento sua inovação – para o modelo T com estas palavras:

“Vou construir um carro a motor para o grande público. Vai ser grande o suficiente para a família, mas pequeno o suficiente para o indivíduo dirigi-lo e mantê-lo. Vai ser construído com os melhores materiais, pelos melhores homens que possam ser contratados, após os desenhos mais simples que a engenharia moderna pode conceber. Mas vai ser tão baixo no preço que nenhum homem com um bom salário não será capaz de possuir um e desfrutar com sua família a benção de horas de prazer nos grandes espaços abertos de Deus”.

O pensamento de Ford pode ser facilmente expresso como uma declaração “se-então”. SE eu “construir um carro a motor para o grande público”, etc., ENTÃO, “nenhum homem com um bom salário não será capaz de possuir um e desfrutar com sua família a benção de horas de prazer nos grandes espaços abertos de Deus”.

Se as inovações são argumentos e podem ser expressas como declarações “se- então’, o que são os “se” e “então”? “Se” são sempre proposições. Mas é importante ressaltar, eles são muitas vezes invenções. Tanto o GUI (interface gráfica do usuário) da Xerox como o Modelo T da Ford eram ambos invenções. Mas eles não atingiriam a estatura de inovações, mantendo -se apenas como gadgets – a menos que levassem ao empoderamento dos seres humanos.

O “então” são esses empoderamentos. Eles são o que estimulam a demanda. Mas essa é a parte difícil da inovação. O “então” é difícil, em momentos extremante difíceis, de colocar em palavras. Eles são o “compreende” na famosa afirmação de Steve Jobs à revista Fortune em 1998: “A inovação não tem nada a ver com quantos dólares em P&D você tem … É sobre as pessoas que você tem, como você lidera e o quanto você compreende” .

Como uma empresa pode “compreender”? A única maneira é sair, conviver com as pessoas obcecadas. Pessoas com alguma conclusão sobre como melhor habilitar a experiência humana. Para entender o início de capacitação que a computação pessoal representava, a pessoa teria que relacionar-se com os membros do Homebrew Computer Club, que gerou a Apple Inc., juntamente com cerca de outras 26 empresas. Da mesma forma, para entender o que o empoderamento do automóvel significaria, a pessoa teria que conviver com aqueles que compunham círculo íntimo no início da indústria do automóvel de Detroit [cidade do estado norte-americano de Michigan que abriga as sedes das montadoras General Motors, Ford e Chrysler]. “Compreender” significa ter tanto firmeza e humildade para participar do diálogo e contribuir com alguma coisa – espero que, um argumento original – para o debate, e, se uma empresa não pode contribuir, mesmo que ainda com um argumento falho, ou em construção, mas original para o debate, então ela nunca pode “compreender”.

A empresa tem de fazer mais do que olhar para aplicações de sua tecnologia, aquisição de tecnologia ou simplesmente fazer imitações. Ela tem de possuir um paradigma – uma conclusão a um argumento de inovação. Cada empresa deve entender como o que está fazendo capacita os seres humanos. Isso, além de excelência operacional, pode tornar uma empresa quase imbatível.

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