O bem-estar animal na pauta dos acionistas

21/05/2012 às 00h00
Jornal Valor Econômico
Por Bettina Barros | De São Paulo

Galinhas poedeiras que passam a vida espremidas em gaiolas com o espaço de uma folha de sulfite e suínos em gestação presos em cubículos similares entraram para a pauta mais improvável de discussão: a das assembleias de acionistas dos gigantes do agronegócio.

Ativistas da The Humane Society of the United States (HSUS) e da People for the Ethical Treatment of Animals (PETA), as maiores organizações de proteção animal dos EUA, estão intensificando a compra de ações de representantes da indústria de alimentos no país para tentar coibir práticas na criação de animais que consideram cruéis. O retorno positivo já está levando à expansão da estratégia para além do território americano – e o Brasil pode ser o novo alvo a ser perseguido pelos acionistas ativistas.

Espécie de “Exército da Salvação” dos animais, com 11 milhões de doadores e escritórios espalhados em praticamente todo o país, a The Humane Society adotou a estratégica do “juntar-se a eles” para vencer. Em seis anos, investiu US$ 100 mil em papéis de 50 companhias para pôr fim ao engaiolamento de aves e suínos destinados ao consumo humano. É hoje parte minoritária da Tyson Foods, Smithfield Foods, Cargill, Wal-Mart e McDonald’s, entre outros tantos.

“Entrar nas assembleias é uma das estratégias que praticamos de sensibilização da indústria. É um jeito de fazer lobby dentro da empresa, de trazer o assunto para discussão”, diz a ativista da HSUS, Elissa Lane, em entrevista ao Valor. “Ali, nós temos todos voz igual”.

A PETA está em 29 companhias do setor de alimentos, onde defende a criação digna, e também dos setores farmacêutico e de cosméticos, em que preconiza o fim dos testes com animais. Além dos seus próprios papéis, comprados por meio de corretoras e com dinheiro do orçamento, a ONG conta com o apoio de um número variável de voluntários e membros da associação que adquirem ações como pessoa física e engrossam a agenda do bem-estar animal nas assembleias.

“Apresentamos aos demais acionistas do McDonald’s como os frangos que servem às suas lanchonetes são mortos – com a garganta cortada ainda conscientes e, portanto, sujeitos à dor”, diz David Byer, diretor de Assuntos Institucionais da PETA, em Washington, citando uma das campanhas de mais destaque do grupo. “Também abrimos nossos planos a outros investidores socialmente responsáveis para ganhar apoio. Essa é uma das abordagens mais eficientes”.

Não é de hoje que organizações não governamentais nos EUA mobilizam-se para defender suas causas através da compra de ações nas empresas que querem influenciar. O movimento conhecido como “shareholder activism” – o ativismo societário ou de minoritários – tornou-se o canal formal de comunicação entre empresa e ativistas, que usam o poder de uma ação para aumentar o grau de conscientização entre os demais acionistas, exercer pressão, apresentar propostas e criar o clima para uma mudança de política empresarial.

Mas a articulação para as “pequenas causas” como a criação de galinhas e suínos, defendidas pelos denominados “grupos de interesses especiais”, tem ganhado força. A As You Sow, entidade que representa propostas ambientais de acionistas, observou que a PETA tem sido a ONG que mais submeteu propostas para a pauta de discussão das assembleias anuais. “Neste ano fiscal iremos apresentar oito propostas e pretendemos comparecer a pelo menos seis reuniões de assembleia a mais para fazer algumas perguntas ou engajar representantes das companhias em vários assuntos”, diz Byer.

Até fevereiro, prazo permitido para que as propostas fossem apresentadas para entrar na pauta das assembleias realizadas no primeiro semestre, os defensores do bem-estar animal responderam por 10% do total de 349 de propostas de cunho social e ambiental apresentadas nos EUA. A HSUS entrou com 12, a PETA com nove.

A lei federal americana, regulada pela Securities and Exchange Comission (SEC), equivalente à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) brasileira, determina que qualquer acionista, seja ele pessoa física ou jurídica, que detenha por ao menos um ano US$ 2 mil (ou 1%) em papéis da empresa, pode participar das assembleias anuais, apresentar propostas e votar. Por isso, a pulverização do mercado de capitais americano é muito maior que o brasileiro – e explica o engajamento de grupos sociais e ambientais nas assembleias nos EUA.

As conquistas não são rápidas, nem atraem a mídia como os piquetes ambientalistas. Na maioria dos casos, passam-se anos até que os efeitos apareçam. Mas ele vêm.

Nos EUA, o ativismo societário da The Humane Society e da PETA desencadearam uma série de compromissos de produtores e do varejo. Maior produtor mundial de suínos, a Smithfield Foods declarou que abolirá até 2017 todas as baias onde porcas em gestação e amamentação são mantidas. A Cargill já converteu quase metade de seus suínos para sistemas de moradia coletiva. Há três semanas, a Burger King – segunda maior rede de sanduíches do país, com 7.200 lanchonetes – anunciou o fim gradual de 100% das compras de ovos e carne suína provenientes de gaiolas até 2017. A líder Mc Donald’s já tinha se comprometido à mesma ideia, embora não tenha anunciado um prazo de transição.

Muitas vezes, as empresas preferem negociar para retirar a proposta da pauta, comprometendo-se a estudar o tema e propor soluções, ainda que sejam parciais.

Esses resultados, somados a legislações estaduais proibindo a prática de engaiolamento, levaram os ativistas a olhar para outros horizontes. A PETA afirma que tem planos de fazer lobby em outros países através da compra de ações ou ADRs. A The Humane Society International, o braço global da ONG, comprou este ano ações na América Latina. “Escolhemos a Arcos Dorados [maior franqueadora das lojas do Mc Donalds na região, com sede em Buenos Aires]. Nos EUA, o Mc Donald’s se comprometeu a eliminar as baias de porcos. Esperamos a mesma postura no Brasil e na Argentina”, diz Elissa.

Diante da pressão interna – nas assembleias – e externa – não, os ativistas não abandonaram as manifestações de rua -, a indústria rebate que criar galinhas livres terá um preço. A United Egg Producers, que representa os granjeiros americanos, afirma que os ovos de aves soltas representam só 5% do mercado, têm impactos ambientais maiores que os de animais engaiolados – o uso maior de água pelas aves, por exemplo – e leva a mais problemas de saúde nos animais. Também alega que os ovos de animais livres custam mais que o triplo que os ovos industriais, o que pode ser economicamente inviável até para o consumidor americano.

No Brasil, o Instituto Ovos Brasil segue o mesmo raciocínio. “Essa pressão com certeza vai chegar aqui. Mas o que vai ocorrer é que o ovo, em vez de custar R$ 3, vai sair por R$ 5″, diz Roberto Botura, diretor-executivo do instituto. Segundo ele, 95% dos ovos do país vêm de galinhas presas. “Soltas, elas têm distração e a produtividade cai”.

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