É possível crescer dentro da empresa sem virar gestor

22 de dezembro de 2011 | 3h 09
FERNANDO SCHELLER – O Estado de S.Paulo

Empresas adotam ‘carreira em Y’, que evita o direcionamento de bons técnicos sem habilidade de gestão para cargos de liderança.

O principal desafio das empresas atualmente é manter os talentos motivados para não perdê-los para a concorrência. No entanto, outro problema costuma ser esquecido na definição de estratégias de RH: as promoções equivocadas. Na tentativa de valorizar um funcionário, não é raro que uma empresa transfira um bom técnico para funções administrativas inadequadas a seu perfil. Este é o pior dos mundos, pois desperdiça o talento dentro da organização.

A falta de criatividade na hora de definir programas de cargos e salários, segundo o consultor Timothy Altaffer, da Axialent, é um problema enfrentado na esmagadora maioria das companhias nacionais. “O uso da velha estrutura horizontal, em que a pessoa precisa ser promovida a um cargo gerencial para ser valorizada, já é vista como um problema na hora de reter talentos”, explica. “Somente as companhias mais jovens, ligadas à tecnologia, como o Facebook e o Google, parecem entender que é preciso montar uma estrutura de carreira mais inovadora.”

As empresas que dependem de inovação para sobreviver estão entre as mais pressionadas a equiparar técnicos de primeira linha a cargos gerenciais e de direção. Há nove anos, a francesa Air Liquide, que produz gases para indústrias, trilhou este caminho. A companhia criou seis cargos para especialistas técnicos – que desenvolvem e vendem produtos – e equiparou os salários e benefícios aos oferecidos por gerentes e diretores. Um técnico nível 3, por exemplo, tem rendimentos equiparados aos oferecidos a executivos regionais. À medida que vai subindo a “escada” de cargos, um técnico pode ganhar tanto quanto um diretor sênior da companhia.

Esta foi uma forma que a Air Liquide encontrou para flexibilizar o rumo que o funcionário pretende tomar ao estruturar sua carreira no longo prazo. A “carreira em Y” permite que os salários e benefícios sejam parecidos em qualquer um dos rumos possíveis: a carreira técnica ou em cargos de gestão. Na Air Liquide, isso foi necessário porque a empresa, com 980 funcionários no País, tem boa parte de seu quadro formado por engenheiros químicos.

À medida que os profissionais de nível técnico crescem dentro da empresa, as decisões sobre promoções são feitas internacionalmente. Segundo Luiz Peixoto, gerente de desenvolvimento de RH da Air Liquide, os especialistas mais experientes passam por um processo seletivo anual que define promoções – um comitê leva entre cinco e seis meses para avaliar as indicações. Peixoto diz que, caso o profissional seja aprovado, ele ganha direitos equivalentes aos ofertados a executivos de mesmo nível, como bônus, benefícios e até carro da empresa. Cada cargo técnico, explica Peixoto, permite promoções intermediárias, dentro de faixas salariais definidas pelo Hay Group (leia box).

Trajetória técnica. Um dos primeiros profissionais da Air Liquide a ganhar o status de “executivo técnico” foi Sérgio Munhoz, de 51 anos, atualmente gerente na área de pesquisas de gases especiais. Formado em química e engenharia química, o profissional trabalha no segmento desde os 18 anos e está na Air Liquide desde 1993. No setor de gases especiais, ele desenvolve soluções para fabricação e controle de qualidade nos setores de tecnologia, automação e médico, entre outros. “É um trabalho que tem uma característica forte de inovação, de encontrar soluções criativas para o cliente.”

Em 2002, ele foi um dos 12 primeiros profissionais a serem nomeados “especialista sênior” pelo comitê internacional. Desde então, Munhoz não tem apenas a função de coordenar o setor de gases especiais no País, mas também precisa compartilhar o conhecimento que angaria em viagens para as diferentes filiais da multinacional francesa – a empresa tem atualmente 50 mil funcionários no mundo e atua em 90 países.

Ao evitar o caminho da gestão, o engenheiro diz que teve a chance de trabalhar duas habilidades: o desenvolvimento de produtos e o marketing. “Não vendemos para o consumidor, e sim para empresas. Então a venda precisa ser técnica. Precisamos ter a capacidade de fechar parcerias com as indústrias.”

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