Quer expandir a companhia? Fale com a TI

03/03/2011 às 00h00
Por Moacir Drska, Talita Moreira, Cibelle Bouças e Gustavo Brigatto | De São Paulo
Jornal Valor Econômico

Foi-se o tempo em que os departamentos de tecnologia da informação (TI) trabalhavam de forma isolada e eram vistos apenas como “o pessoal do suporte” ou “help desk”. A TI passou a exercer um papel tão preponderante no ambiente empresarial que a maioria das companhias passou a depender do sinal verde dos departamentos especializados para iniciar um projeto, seja construir uma fábrica ou adotar uma nova estratégia comercial. Hoje, é a disponibilidade de recursos tecnológicos que dita, em grande parte, a velocidade com que a iniciativa é posta em prática.

Essa relação de dependência é comum a companhias dos mais variados setores, de bancos e seguradoras a organizações da área de saúde. É por isso que garantir o funcionamento dos sistemas tornou-se uma prioridade. No Hospital Albert Einstein, uma eventual pane generalizada tiraria a instituição de funcionamento em dois ou três dias, diz Henrique Neves, diretor-geral do hospital. “Uma das prioridades do departamento de TI é assegurar condições robustas sem comprometer a operação”, afirma o executivo.

No Einstein, quase tudo passa pela TI. Os exames diagnósticos são captados e ficam disponíveis na internet, mesmo canal pelo qual os médicos têm acesso aos prontuários eletrônicos. Com 55 funcionários, o departamento de TI é responsável pelo planejamento e pela gestão da infraestrutura – que conta com 3,6 mil estações de trabalho e 260 servidores, além dos equipamentos de captura de informações dos pacientes nos exames.

Segundo Neves, a área de TI vem crescendo em linha com a importância da tecnologia. No ano passado, a quantidade de dados armazenada no hospital mais que triplicou em comparação com 2007. O orçamento deste ano prevê a destinação de 7% das receitas para a área de TI: estão programados R$ 24 milhões em investimentos e R$ 20 milhões em despesas.
Se em um hospital um problema de TI pode comprometer a saúde dos pacientes, no setor financeiro o esforço é para não perder milhões de reais com uma simples falha. Essa relação se traduz em grandes investimentos e estruturas complexas, que asseguram o funcionamento de ambiente com alto volume de transações em múltiplos canais.

Casos como a recente integração dos bancos Santander e Real demonstram na prática a dependência tecnológica do setor.

Dependência é comum a empresas dos mais variados setores, de instituições financeiras a clínicas e hospitais
Embora não revele o valor dos investimentos, Cláudio de Almeida Prado, diretor de TI do Santander, destaca as dificuldades do processo, marcado por uma série de incidentes, especialmente na integração dos sistemas para o varejo, realizada em fevereiro. A expectativa é de que projeto, que demandou mais de dois anos de trabalho, seja concluído neste mês.

“O desafio foi reunir o melhor de cada produto e serviço dos dois bancos em apenas um sistema, sem causar grandes impactos aos clientes e usuários internos”, diz Prado, que comanda uma equipe de cerca de 3 mil colaboradores. O processo de integração, afirma o executivo, exigiu uma parceria estreita com as áreas de negócios do grupo.

Essa aproximação é comum a outras empresas. Na Braskem, profissionais de tecnologia estão sendo colocados dentro das unidades de negócio da companhia petroquímica para acompanhar o dia a dia das operações. No Hospital Albert Einstein um processo semelhante está em curso. O Einstein escala representantes de todas as suas áreas de atuação, incluindo médicos e enfermeiros, para trabalhar em conjunto com o departamento de tecnologia. “Isso facilita muito o diálogo”, diz Neves.

A aproximação da tecnologia com as áreas estratégicas já chegou ao conselho de administração de algumas companhias.
É o caso da SulAmérica, cujo vice-presidente de TI, Luis Furtado, tem cadeira cativa no comitê executivo, que assessora o conselho de administração nas decisões estratégicas. “A TI hoje é considerada nas decisões de negócios, parcerias e aquisições. Qualquer investimento passa por uma avaliação do impacto na área de TI”, afirma o executivo.

Furtado diz que a área de TI ganhou mais relevância com a decisão da companhia de elevar as vendas oferecendo mais serviços à mesma base de clientes. “Cada área operava com um banco de dados próprio. Só com ferramentas de TI foi possível integrá-los e avaliar quais clientes estão mais propensos a adquirir outro produto do portfólio”, explica o executivo.

A estratégia exigiu um reforço significativo da área tecnológica, o que levou a SulAmérica a contratar a IBM para administrar seu centro de dados. O contrato foi orçado em R$ 400 milhões, o equivalente ao lucro líquido obtido pela seguradora no ano passado, de R$ 426,6 milhões. “Para atender à demanda nova, seria necessário mudar de prédio para acomodar o centro de dados expandido e esse gasto não era justificável”, diz Furtado.

Responsável por uma equipe de 150 pessoas, Edson Badan, diretor de TI da Ford para a América do Sul, também incorporou à sua rotina as reuniões do conselho de administração da montadora. “Costumo dizer que se há uma discussão estratégica na empresa e não tem ninguém de TI na mesa, algo está errado”, diz o executivo.

Badan explica que a importância estratégica da TI na Ford foi sendo demonstrada à medida que a tecnologia tornou-se um fator decisivo para assegurar e acompanhar o crescimento da empresa, como na construção da fábrica de Camaçari, na Bahia.

Hoje, o departamento responde pelo controle de todo o processo produtivo das seis fábricas da montadora na América do Sul. São cerca de 140 sistemas, que gerenciam desde a concepção de novos modelos de automóveis e caminhões até o relacionamento com os fornecedores.

Um dos fatores críticos sob a alçada da TI, segundo Badan, é o controle diário e automatizado do inventário de peças em cada unidade. “Se esse processo falhar e faltar algum componente, as linhas param, o que traz prejuízos significativos para a empresa”, diz.

No desenho de novos produtos, a Ford usa sistemas de simulação virtual, que permitem avaliar questões como durabilidade das peças. Com a aplicação, a Ford reduziu o tempo médio de modelagem de 48 para 18 meses.

Badan acrescenta que o reconhecimento das estratégias desenvolvidas pelo departamento de TI se traduziu na ampliação do orçamento destinado à área em 2011, que registrou, pela primeira vez, um crescimento em torno de 20%.

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