Geração Y demanda olhar diferenciado e mais veloz

31/01/2012 às 00h00
Por Chris Martinez | Para o Valor, de São Paulo
Jornal Valor Econômico

A Philips extinguiu o domínio de seus funcionários sobre as suas estações de trabalho: ninguém tem mesa exclusiva – nem o presidente. A Ambev passou a oferecer vagas de trainees por meio de redes sociais – inclusive com uma “twittada”, em resumidos 120 caracteres. Abilio Diniz lançou, em parceria com a FGV, um curso sobre liderança baseado em sua própria vivência e voltado para jovens aprendizes. Em comum, a multinacional holandesa, a maior cervejaria da América Latina e o dono da maior cadeia de supermercados do Brasil querem – cada um a seu modo – seduzir a chamada geração Y.

Não é de hoje, como se sabe, que os jovens com idade entre 18 e 29 anos, formam uma nova turma no mercado de trabalho. Diferentemente de seus pais – que passavam a vida num mesmo emprego, com medo de se arriscar em novos voos – eles construíram identidades próprias. São cheios de vontade, altamente conectados, dominam o inglês, têm ambição, mas querem um equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Há anseio de crescer, mas o dinheiro precisa estar associado ao prazer, ao desafio, ao novo. Se caírem no tédio, procuram, rapidamente, outro porto seguro.

O perfil deles resultou num movimento de transformação nas empresas que, preocupadas em perder esses talentos, passaram a tomar iniciativas sob medida para eles. “A geração Y é inquieta, multitarefas, e não se adapta a esse ambiente denso, homogêneo e uniformemente distribuído”, diz a arquiteta Claudia Andrade, sócia do escritório paulistano Andrade Azevedo Arquitetura, especializado em espaços corporativos. Foi da sua prancheta que brotou o moderno projeto da nova sede da Philips, em Barueri (SP), em que as estações de trabalho não têm donos. O ambiente, visualmente contemporâneo, divide-se em múltiplos espaços, e com algumas salas individuais, reservadas a quem precisa se concentrar para executar um trabalho mais complexo.

“O projeto faz parte de uma estratégia global da companhia de investir em ambientes mais atraentes, colaborativos e que privilegiam a saúde e o bem estar de seus funcionários”, afirma a autora do livro “A História do Ambiente de Trabalho em Edifícios de Escritório – Um Século de Transformações” e coautora no livro “Assessing Building Performance”, publicado na Inglaterra. Esses novos escritórios também ajudam a diminuir custos. Afinal, comportam menos estações de trabalho por número de colaboradores – nem todos os empregados estão no escritório ao mesmo tempo, ou porque estão trabalhando remotamente ou porque estão de férias. Na nova sede, são 800 estações de trabalho para 1,1 mil funcionários. É o primeiro exemplo no Brasil dos novos conceitos de layout, concebido para suportar profissionais de alta mobilidade e a geração Y.

Além de oferecer ambientes mais interessantes aos olhos desses jovens, algumas companhias vêm buscando entender quais os seus anseios e, portanto, quais as estratégias para retê-los. Numa empresa com perfil altamente industrial, como o frigorífico Minerva – com fábricas em dez cidades, sendo duas no exterior – a melhor sacada é investir no relacionamento com os funcionários. As duas mais importantes são incentivá-los a sugerir ideias para o negócio e encorajá-los a manter uma linha direta de comunicação com o comando da empresa. “Percebemos que as melhores sugestões vêm dos colaboradores que estão tocando a operação, eles é que estão de frente com o dia a dia das fábricas”, diz Edison Ticle, diretor financeiro do grupo – terceiro maior frigoríficos de bovinos do Brasil, com faturamento de R$ 3,9 bilhões, considerando os últimos 12 meses (encerrado em setembro).

Aos 33 anos, com passagem pelo Pactual, Black River, Safra e há três anos no Minerva, Ticle é o próprio exemplo de geração Y. Ele acredita no potencial de seus pares, mas faz uma ressalva em relação ao estigma de que os jovens de hoje trocam de emprego como trocam de roupa. “Não se pode pensar o Brasil apenas no eixo da Faria Lima”, diz, referindo-se a uma região paulistana que hospeda importantes bancos e empresas do país. “Quando se olha para outros Estados, a situação é diferente, os jovens estão comprometidos e querem seguir carreira na empresa, que talvez possa ser a mais importante do Estado.”

Ticle acaba de voltar de uma viagem executiva, na qual visitou uma boa parte dos Estados onde o Minerva tem plantas -localizadas morro acima do mapa nacional. E citou como exemplo um funcionário de 27 anos, que entrou no grupo no programa de trainees e hoje é o gerente geral da unidade de Araguaina, em Tocantins, onde trabalham 800 funcionários e se abatem cerca de mil bois por dia. “Foi a primeira vez que um trainee assume um cargo mais alto”, diz, ao lembrar que o programa tem apenas quatro anos e não chega a ser voltado especificamente para geração Y. É divulgado em faculdades onde a companhia tem base e, no ano passado, 8,5 mil pessoas disputaram apenas dez vagas.

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