China busca substituir imitação por inovação

09 de janeiro de 2011 | 0h 00
Steve Lohr – O Estado de S.Paulo

País adota a estratégia oficial de deixar de ser a oficina de baixo custo para o mundo

Como estratégia nacional, a China tenta construir uma economia que se baseie mais na inovação do que na imitação. Seus líderes claramente reconhecem que ser a oficina de baixo custo do mundo para montar os produtos inovadores projetados em outros locais – pense em iPads e numa série de artigos de alta tecnologia – tem seus limites.

Será que a China conseguirá se tornar uma inventora prodigiosa? A resposta, na verdade, se desenrolará durante décadas – e percorrerá um longo caminho para determinar não só o futuro da China, mas também o da economia global.

Pistas da abordagem da China emergem de um recente documento do governo contendo metas para aumentar drasticamente o registro de patentes. Ele oferece uma pista reveladora de como a China pretende construir uma sociedade mais inovadora.

O documento, publicado em novembro pelo Escritório Estatal de Propriedade Intelectual da China, com o título “Estratégia de Nacional de Desenvolvimento de Patentes (2011- 2020)”. Ele discute objetivos econômicos amplos bem como metas específicas a serem atingidas até 2015.

Em entrevista recente, David J. Kappos, diretor do Escritório de Marcas e Patentes dos Estados Unidos, apontou para as metas chinesas para 2015 e as chamou de “números atordoantes”.

Expansão. De acordo com uma tradução do documento fornecida pelo escritório de patentes, a meta da China para pedidos anuais de patentes até 2015 é de 2 milhões. Esse número inclui “patentes de modelo-utilidade”, que tipicamente cobrem itens como características de engenharia em um produto e são menos ambiciosas que as “patentes de invenção”.
No sistema americano, não há patentes de utilidade.

Em 2009, cerca de 300 mil pedidos de patentes de utilidade foram depositados na China, aproximadamente a mesma quantidade de patentes de invenções, que vêm crescendo um pouco mais depressa do que os pedidos de utilidade nos últimos anos. Mas mesmo que apenas a metade dos pedidos totais da China seja para patentes de invenção, o plano nacional preconiza um salto enorme, para 1 milhão, em 2015. Por contraste, os pedidos de patente nos Estados Unidos totalizaram pouco mais de 480 mil nos 12 meses até setembro.

O aumento do número de patentes da China ficou evidente há anos. Em outubro, a Thomson Reuters produziu um relatório de pesquisa prevendo que a China ultrapassaria os Estados Unidos em pedidos de patentes em 2011. “Está ocorrendo ainda mais depressa do que nós esperávamos”, disse Bob Stembridge, um analista de propriedade intelectual da agência.

Esforço. Mas se a tendência não é surpreendente, a ambição do plano chinês é chocante. O documento indica, por exemplo, que a China pretende aproximadamente dobrar seu número de examinadores de patentes, para 9 mil, até 2015.
(Os Estados Unidos possuem 6,3 mil examinadores).

A China também quer dobrar o número de patentes registradas em outros países. Os pedidos chineses nos EUA, diz Kappos, são principalmente em campos que a China declarou prioridades para a estratégia industrial, incluindo energia solar e eólica, tecnologia da informação e telecomunicações.

Para aumentar seu volume de patentes, a China introduziu um conjunto de incentivos. Estes incluem bonificações em dinheiro e habitacionais para os inventores e benefícios fiscais para empresas que sejam produtoras prolíficas de patentes. “Os líderes da China sabem que a inovação é o seu futuro, além de chave para padrões de vida mais altos e crescimento econômico no longo prazo”, diz Kappos.

A estratégia da China é guiada e patrocinada pelo Estado. Isso deveria ser motivo de preocupação para os Estados Unidos, e talvez, uma questão comercial? Ou o plano provavelmente vai se juntar a esforços passados de outros governos para dar uma vantagem a suas companhias na competição global? Nos anos 1980, o governo japonês era amplamente visto como o praticante mestre da política industrial, e o Japão S/A parecia fadado a superar um setor americano após outro, incluindo o de computadores.

Como se sabe, as coisas não saíram assim, em parte pelos passos dados pelo governo e a indústria americanos. Tentou-se um acordo no comércio de semicondutores para abrir o mercado japonês, e a IBM investiu numa fornecedora crucial mas em dificuldades na época, a Intel.

O mais importante, porém, é que o Japão nunca se tornou uma força numa parte particularmente imaginativa, incontrolável, da computação: a escrita de software. Generalizações são arriscadas, mas parece que o Japão, como sociedade, não produziu o suficiente daquele tipo de habilidade inovadora, apesar de ser um formidável gerador de patentes. Nessa área, o Japão está um pouco à frente dos Estados Unidos por algumas medidas, embora o ritmo de pedidos de patentes japonesas esteja diminuindo.

Chamar a política industrial do Japão de completo fracasso seria simplista. Em alguns setores – carros, máquinas-ferramentas e eletrônicos de consumo, por exemplo – ela foi muito bem. “Eles ainda estão no jogo nesses setores e fazendo muito sucesso – e nós não”, disse Clyde V. Prestowitz Jr., presidente do Instituto de Estratégia Econômica e um ex-negociador comercial dos Estados Unidos. Não está claro, porém, até que ponto a política do governo pesou nesses sucessos.

Metas. O documento chinês sobre a estratégia de patentes está cheio de medidas. O estudo fala de uma mentalidade de avaliação por números, como a um estudante que mede conhecimento por notas em testes padronizados. “É uma abordagem de força bruta nesse estágio, enfatizando mais a quantidade de ativos de inovação que a qualidade”, diz John Kao, um consultor sobre inovação de governos e corporações.

“Mas seria um erro supor que a China necessariamente seguirá um caminho parecido com o do Japão”, continua Kao. “A China não é apenas muito maior que o Japão, mas também tem uma sociedade empresarial mais individualista, apesar de seu governo comunista.” Algum dia, ele prevê, a China terá seus equivalentes empresariais de Steven P. Jobs e Mark Zuckerberg.

Apesar da ascensão inevitável da China, diz Kao, os Estados Unidos têm uma vantagem comparativa porque são o país mais aberto à inovação. “A cultura americana, mais do que qualquer outra, perdoa a falha, tolera o risco e abraça a incerteza”, afirma ele.

Para Kao, muitos produtos e tecnologias inovadores serão feitos alhures. “Mas o futuro dos Estados Unidos reside em serem o orquestrador – o integrador de sistemas – do processo de inovação”, ele acrescentou. “Vejam o Vale do Silício. É um lugar onde pessoas inteligentes de todos os países, todas as línguas e todos os grupos étnicos se unem. Ele é a capital da montagem da inovação.” / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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