O que a IBM pode ensinar aos Estados Unidos

Se um colosso americano como a IBM pode se transformar, será que os próprios EUA poderão fazê-lo?

13 de janeiro de 2012 | 3h 05
Jornal O Estado de S. Paulo
ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK , ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK – O Estado de S.Paulo.

O CEO americano mais bem-sucedido, talvez, da última década, estará deixando o cargo neste mês. Samuel Palmisano, da IBM, presidiu uma admirável transformação da gigante de tecnologia, extraindo-a do negócio de PCs e direcionando-a para serviços e software para potencializar um “Planeta mais Inteligente”.

Numa entrevista fascinante para meu colega Steve Lohr, Palmisano disse que a primeira das quatro perguntas em sua estrutura de orientação da empresa foi “Por que alguém gastaria seu dinheiro com vocês – o que vocês têm de único?” Na essência, o negócio ainda é tirar dinheiro do seu bolso para o meu. Ao não ser sentimental para tornar a IBM única, Palmisano conseguiu um fluxo de dinheiro significativo para a companhia.

Os lucros vieram atrás. A cotação das ações subiu. Warren Buffett, que sabe para onde o vento sopra, adquiriu recentemente uma participação de mais de 5%. A IBM foi repensada, não menos na maneira como mudou de uma multinacional americana para uma corporação global vitalizada pela rápida expansão em mercados em crescimento como Índia e China.

Uma questão se coloca: se um colosso americano como a IBM pode se transformar, será que os próprios Estados Unidos poderão fazê-lo? Estarão os “declinistas” (que pregam a existência de um declínio econômico, político ou social) americanos concentrados em poder duro e na queda da participação americana na produção global, perdendo alguma coisa? Antes de chegar a isso, convém examinar mais atentamente a mudança de foco da IBM e suas implicações.

Como reportou Lohr, a IBM já não subdivide sua folha de pagamento global por região. Mas a última vez que o fez, em 2008, ela reportou que o número de seus empregados em todo o mundo cresceu 21%, para 386.558, enquanto o número da matriz americana caiu 11%, para 120.589.

Parece improvável que essa tendência tenha se interrompido. Por algumas estimativas, o enorme crescimento da empresa na Índia elevou o número de empregados da IBM naquele país a mais de 100 mil, equivalente talvez ao número atual nos Estados Unidos.

A IBM não está sozinha. Corporações globais baseadas nos EUA acrescentaram 683 mil trabalhadores na China na década de 1999-2009, um aumento de 172%. Ao todo, elas acrescentaram 1,5 milhão de trabalhadores a folhas de pagamento na região da Ásia e Pacífico, enquanto cortaram 864.600 empregos em casa, segundo números do Departamento de Comércio.

Isolacionismo americano virou um paradoxo. Como essas cifras mostram, é uma não opção.

Em um nível, essa mudança coloca problemas para os EUA: empresas com muito dinheiro estão criando empregos alhures em vez de criá-los em casa. Em outro, porém, a corporação americana global expande o poder americano de maneiras difíceis de quantificar, mas significativas. Elas tendem a propagar culturas de abertura, capacidade de conexão e transparência.

“Uma General Electric, ou um Goldman, ou um Twitter, tenta trabalhar em cada país de maneiras culturalmente apropriadas, mas, em sua essência, essas companhias propagam um conjunto de valores americano. E é isso que significa influência”, disse-me Xenia Dormandy, bolsista sênior na Chatham House. “O poder visto apenas em termos de Estado é uma falsa premissa hoje em dia.” O visível fracasso do poder duro americano – no Iraque e no Afeganistão – tendeu a obscurecer a maneira como o poder brando americano prosperou na última década. Por algum tempo, o poder brando foi reduzido porque a reputação americana estava manchada, mas o despertar árabe demonstrou o quão poderosa a mídia social de raízes americanas está sendo, na abertura de sociedades fechadas. Facebook e Twitter têm sido onipresentes. Mas quando a IBM investe maciçamente na África – que ela identificou como o próximo grande mercado de crescimento emergente – ela também está investindo numa abertura que promove interesses americanos.

Talentos. Quando estive em Harvard, recentemente, Joseph Nye, o professor e ex-reitor da Escola de Governo Kennedy, defendeu um ponto de vista interessante. Ele observou que uma China em ascensão tem 1,3 bilhão de cidadãos. Mas os EUA em sua melhor condição têm 7 bilhões no sentido de que atraem os talentos mundiais, como demonstram suas corporações e universidades. Nye em geral é cético sobre os “declinistas”.

Eu concordo. Isso não porque está começando um novo século americano – não está; nem porque a guinada do poder para a Ásia seja ilusória; nem porque os problemas americanos de governo paralisado, déficits altos e escolas inadequadas sejam negligenciáveis. Não, é porque a derrota do poder duro americano foi exagerada e o magnetismo do poder brando americano subestimado. E estamos caminhando para um mundo em que, como Nye escreveu, “Guerras continuam possíveis, mas elas são bem menos aceitável agora do que há um século ou mesmo há meio século.”

Os Estados Unidos são adaptáveis. Os erros da década passada estão sendo corrigidos com um contraterrorismo mais eficiente, a retirada de guerras significativas, e um orçamento militar enxugado. Algum evento, ou dificuldade política, poderá tirar essas medidas dos trilhos, mas eu não creio que seja uma coincidência o fato de que a confiança do consumidor vai melhorando à medida que os EUA superam sua grande desorientação após o 11 de Setembro.

A terceira pergunta orientadora de Palmisano foi “Por que a sociedade deveria lhe permitir operar em sua geografia definida – seu país?” Isso parece uma maneira de dizer que nenhum país vai receber de braços abertos uns EUA impositivos. E ele incitou os EUA a se educarem para o século 21, um curso duro de seguir quando trilhões estão indo para guerras longínquas.

Um poder americano mais inteligente ainda poderia frustrar os “declinistas”. /

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