Novo líder da Apple tem grandes desafios à frente

07/10/2011
Jornal Valor Econômico
Por Geoffrey A. Fowler | The Wall Street Journal

A morte de Steve Jobs deixa a Apple Inc. sem seu fundador e visionário de produtos num período de concorrência acirrada, e o centro das atenções passa para um sucessor que foi preparado durante anos: Tim Cook.

Desde que assumiu as rédeas oficialmente como diretor-presidente da Apple há seis semanas, Cook já recebeu elogios de muitos funcionários da empresa por sua liderança – e enfrentou sua primeira prova de fogo esta semana, no lançamento de um produto que alguns analistas e clientes julgaram sem brilho.

“Até agora, a passagem de Tim Cook para a presidência executiva foi impecável, o que não surpreende, dado que Jobs o preparou durante cinco anos para assumir o papel”, disse Gene Munster, analista da Piper Jaffray & Co.

Mas a grande questão permanece: Jobs, muitas vezes parecia ser o mago da Apple, trazendo uma aura de estilo e elegância para a empresa e seus produtos. Cook deve agora mostrar que a Apple é capaz de encantar sem a presença do seu mago.

Sob o comando de Cook, a Apple tem à frente dois caminhos possíveis. Ela pode seguir os passos de Jobs, inventando produtos que agitam os mercados e cativam os clientes. Ou, depois de esgotar uma reserva de produtos já existentes que ainda pode durar muitos anos, a Apple, sem a liderança carismática de Jobs, pode perder sua vantagem na inovação e começar a esmorecer, tal como ocorreu em outras empresas que perderam fundadores fortes.

Cook, de 50 anos, teve vários anos para se preparar para o cargo. Formado em engenharia industrial, entrou na Apple em 1998 para ajudar a estabilizar a empresa, quase falida, tornando sua produção mais eficiente. Cook acabou assumindo outras responsabilidades em vendas e operações.

Em 2004 ele administrou temporariamente a Apple quando Jobs saiu de licença por dois meses para se recuperar de uma cirurgia para remover um tumor canceroso no pâncreas. Depois de ser nomeado diretor de operações em 2005, Cook novamente substituiu Jobs em 2009, quando o diretor-presidente tirou outra licença médica.

Durante esses períodos, Cook evitou ficar sob a luz dos holofotes, até mesmo cedendo a outros executivos a missão de apresentar produtos importantes, como o iPhone 3G em 2009, mas seu comportamento normalmente reservado se tornou mais aberto nos últimos meses, enquanto a saúde de Jobs fraquejava.

Acionistas já disseram que estão bem impressionados com a forma como Cook assumiu um papel mais público, e expressaram confiança na sua liderança. Funcionários da Apple também dizem que ele manteve a empresa funcionando, com o foco nos detalhes e no acabamento que caracteriza os produtos da marca, e que o entusiasmo entre o pessoal permanece forte. Alguns funcionários dizem que Cook é tão exigente quanto Jobs.

A Apple preferiu não disponibilizar Cook para uma entrevista. Em um e-mail enviado aos funcionários na quarta-feira, Cook escreveu: “Steve deixa para trás uma empresa que só ele poderia ter construído, e seu espírito será para sempre o alicerce da Apple.”

Alguns analistas que acompanham a Apple dizem que a empresa tem um grande banco de talentos que pode dar continuidade a uma cultura aberta e orientada à construção de produtos de alta qualidade a qualquer custo. Jobs “montou uma equipe incrível de pessoas que compreendem que dizer ‘não’ a alguém não é um ataque pessoal”, e podem se concentrar no desenvolvimento de produtos de alta qualidade, disse Richard Doherty, analista do Envisioneering Group.
Cook ficou conhecido por ajudar a Apple a tomar decisões operacionais e de produção inteligentes, tais como diversificar seus fornecedores de chips de memória, mas não tem a mesma fama de “guru” do design e de produtos que Jobs sempre teve.

“Tim Cook não precisa ser Steve Jobs – ele precisa ser o melhor Tim Cook que puder ser”, disse Jeffrey Pfeffer, professor da Escola de Pós-Graduação em Administração da Universidade Stanford. “Cook compreende em quais áreas ele é bom e em quais ele não é bom.”

De fato, é difícil imaginar que ele possa atingir o status de celebridade empresarial tão grande que Jobs teve, incluindo uma legião de fãs. As dimensões disso ficaram claras ontem, quando lojas da Apple ao redor do mundo foram visitadas por consumidores em luto pela morte do executivo. Os fãs depositavam flores, escreviam mensagens e exibiam fotos de Jobs em seus iPads, muitos em lágrimas.

Contudo, nas bolsas as ações da Apple ficaram praticamente estáveis, num sinal de que investidores talvez não estejam associando tanto o futuro da empresa com o destino de Jobs. Elas fecharam em queda de 0,2%, a US$ 377,37 cada. “Acreditamos que a inovação e a força dos produtos da Apple vão continuar” disse o analista Ben Reitzes, da Barclays.
O próximo teste de Cook virá quando a empresa divulgar resultados, em 18 de outubro, e der aos investidores uma prévia das expectativas para o trimestre que inclui a temporada de Natal, o mais importante do ano.

Durante o lançamento do iPhone 4S na terça-feira, Cook repetiu várias declarações típicas de Jobs, como arrematar a demonstração de um produto com: “Incrível, não é?”

“Eu amo a Apple”, disse ele. “Estou muito animado com este novo papel.”

(Don Clark, Stu Woo, Dana Mattioli, George Stahl e Matt Jarzemsky colaboraram neste artigo.)

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