O ‘jeitinho feminino’ e a estratégia de Warren Buffett

23/08/2011
Por Paulo Henrique Corrêa
Valor Econômico

Recentemente lançado, o título do livro “Warren Buffett Investe Como Uma Garota – E Por Que Você Também Deveria Fazer Isso” parece curiosíssimo. Um dos maiores investidores do universo comparado a uma mulher?

Ao contrário do que o nome sugere, a publicação não questiona a masculinidade de Buffett. LouAnn Lofton, editora do site americano de finanças “The Motley Fool” e autora do livro, defende que o estilo dele de investir na bolsa se aproxima muito do modo acautelado feminino de aplicar seu capital.

O megainvestidor não gosta de se arriscar muito na compra de ações e prefere mantê-las por muito tempo em sua carteira, ao contrário do que muitos fazem, livrando-se com brevidade dos papéis que adquirem, não raramente levados pelo temor de perder dinheiro.

Parece que a escritora americana tem razão. Pelo menos a julgar por pesquisas realizadas em diversas partes do mundo. É o que a natureza feminina tem demonstrado ao longo da história: as mulheres são mais avessas ao risco. As investidoras passam mais tempo que os homens estudando uma empresa antes de comprar uma ação, não tendem a concentrar demais o portfólio e tomam todas as precauções para não cair em nenhuma armadilha, movidas pelo impulso.

Há evidências de que mulheres lucram mais em investimentos em ações porque os homens tendem a confiar mais em seus tacos (“overconfidence”) e, com isso, movimentam mais intensamente suas operações, obtendo piores resultados.

As mulheres e Buffett teriam então algo em comum: são melhores investidores que os homens médios. Tanto isso seria verdade que o mundo dos investimentos possuiria hoje um perfil bem menos masculino que no passado.

Buffett corrobora essa dedução. Lou Ann o indagou, durante um evento, sobre o título provocativo. A resposta? “Eu diria que provavelmente sou culpado”, brincou.

Outro motivo para o perfil feminino pode ser a ponderação que a grande maioria delas faz sobre as dificuldades de repor as perdas e o medo de acabar a vida sem recursos, uma síndrome conhecida especialmente nos Estados Unidos como “O pesadelo da Bag Lady”. Como dizem os psicólogos, o medo pode nos afastar – e proteger – dos perigos.

Talvez seja justamente o temor das mulheres de fazer escolhas erradas na hora de investir seu dinheiro o que as têm levado a aplicar em ações – desde que a iniciativa seja muito bem estudada. No mercado americano, onde há 95 milhões de investidores individuais, metade é de mulheres.

No Brasil, embora a parcela de investidoras na Bovespa seja menor do que a dos homens, os dados confirmam o “boom” feminino no mercado acionário. Segundo dados da BM&FBovespa, de 2002 para maio de 2011, a adesão feminina aumentou de 15 mil para 150.792.

Dos R$ 109,61 bilhões aplicados por pessoas físicas, R$ 22,54 bilhões vêm das aplicações das mulheres, representando 24,83%, contra 75,17% da participação masculina. Em 2002, a participação feminina era de 17,63% e a dos homens, de 82,37%. Embora a parcela de mulheres seja modesta, no mesmo período o aumento delas investindo em bolsa foi de 903%, contra 550% no caso dos homens.

Porém, é entre as mulheres mais maduras que o ingresso na bolsa mais cresce. Na faixa etária entre 56 e 65 anos de idade, 23.287 mulheres investem em ações, já significando uma parcela de 23,45% dos volumes investidos. As mulheres com mais de 66 anos representaram 12,68% do total de contas femininas, mas são as responsáveis pelo maior volume aplicado – R$ 8,76 bilhões, ou 38,86% do total proveniente das mulheres em geral.

Já as mulheres com idade entre 26 e 35 anos são as mais numerosas na bolsa de valores, somando 35.648 contas, mas do total de recursos negociados, somente representam 5,92% do total de mulheres. Na sequência, aparecem aquelas com idade entre 36 e 45 anos, chegando a 32.191, que movimentam 13,7% do total do volume feminino; e aquelas entre 46 e 55 anos – 31.700 -, que representam 18,85% dos negócios operados por mulheres.

Como o perfil do Warren Buffett – comparado ao das mulheres – deu certíssimo, tornando-o milionário, provavelmente veremos nas próximas décadas um fenômeno no mercado financeiro: o do crescimento das mulheres de todas as idades entre os investidores, com seu jeito cuidadoso, sua preferência pelo planejamento e o rigor mais severo na hora de correr riscos.

Paulo Henrique Corrêa é economista e sócio-diretor da Valor Investimentos, do Espírito Santo
E-mail paulo@valorinvestimentos. com.br

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.

Leave a comment

0 Comments.

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.