A harmoniosa relação dos Andrade com os Gutierrez

UMA HISTÓRIA PARA INSPIRAÇÃO E MEDITAÇÃO SOBRE GESTÃO, RELAÇÃO SOCIETÁRIA, SUCESSO E ADPTAÇÃO ÀS MUDANÇAS DO MUNDO ATUAL.

TELMO SCHOELER
08/09/2011.

Por Heloisa Magalhães | Do Rio
29/08/2011 – Valor Econômico

“Um amigo costuma falar que não sou ‘low profile’, fico entre os ‘no profile”, diz com um sorriso Sergio Lins Andrade, sócio e presidente do conselho de administração do grupo Andrade Gutierrez (AGSA).
É verdade. Quando o nome de Sergio Andrade é citado na mídia, raras vezes há declarações dele. O principal mentor dos negócios do conglomerado com faturamento de R$ 18,2 bilhões, em 2010, é gentil, atento ouvinte e rápido nas respostas, mas sempre repassa os pedidos de entrevistas aos executivos do grupo.
Falar da vida pessoal, nem pensar. Foi em um almoço na sede da Andrade Gutierrez, no bairro de Botafogo, que ele sugeriu uma reportagem, não sobre ele, mas sobre a reestruturação administrativa do grupo.
Naquela manhã do almoço, foi praticamente fechado o novo organograma do grupo. Otávio Marques de Azevedo continua como presidente-executivo, função que assumiu em 2007. A holding AGSA passou a ter oito vice-presidências: participações (ocupada por Ricardo Sena), novos negócios (Giovanni Foragi) e engenharia (Leandro Aguiar). As áreas de gestão corporativa também serão comandadas por VPs: jurídica, (Luiz Otávio Mourão), financeira (Ricardo Campolina), institucional (Flávio Machado Filho) e controle (Claudio Miserani), além de Gente e Gestão (Claudio Gonçalves).
Os executivos das principais áreas de negócios e presidentes das empresas dos segmentos de engenharia e construção, concessões, telecomunicações, energia e administração de clínicas e hospitais, a caçula Logimed, irão reportar-se a esses vice-presidentes da “holding”.
“Sócio aqui não é executivo”, afirma Sergio Andrade. Trata-se de um princípio que ele segue à risca desde que Azevedo assumiu o comando geral. Ele transferiu a presidência executiva em 2007 e ali foi a partida para o processo de transição para a terceira geração dos Andrade e dos Gutierrez.
Tudo começou com a Construtora Andrade Gutierrez, em novembro de 1948, em Belo Horizonte, por três mineiros: Flavio Gutierrez e dois amigos, os irmãos Gabriel e Roberto Andrade, este pai de Sergio. Hoje são 178 mil empregados, considerando as empresas e projetos que o grupo participa no país e no exterior. As atuações fora do Brasil já chegaram a 30 países.
Além do conselho de administração representado por nove sócios, entre filhos e netos dos fundadores, foi criado um comitê executivo com a terceira geração formado pelo seu filho, João Pedro Andrade, o sobrinho Álvaro Andrade, neto de Gabriel e Rodrigo Gutierrez, filho de Roberto Gutierrez.
Também será formado um conselho consultivo para onde foi deslocado Rogério Nora de Sá, que deixou o comando da construtora semana passada. Haverá ainda convidados de fora para ajudar a avaliar estratégias e tendências.
Os oito vice-presidentes da “holding” terão escritórios, irão morar no Rio ou passarão a frequentar a sede na capital fluminense vários dias na semana. O próprio Azevedo mantém o família em São Paulo, mas já montou casa na zona sul carioca.
Azevedo, presente ao almoço, ressalva que a AG não está saindo de São Paulo. Estará concentrada lá toda a atividade voltada para o próprio Estado, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
“A parte de engenharia vinculada à energia em geral, incluindo a industrial, a atividade crescente da Petrobras e o setor de energia, além das atividades voltadas à infraestrutura estão crescendo no Rio com a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. O Rio é polo de decisão de infraestrutura no Brasil”, afirma Azevedo lembrando que na cidade estão também Eletrobras e BNDES.
Sergio Andrade, desde menino, mora no Rio de Janeiro. O pai, Roberto Andrade (já falecido) transferiu-se de Belo Horizonte com a mulher e os dois filhos para a cidade ainda nos tempos de capital Federal. Afinal, era o centro de decisões da União, das grandes obras para a construtora.
Nos tempos de gestão dos fundadores, Gabriel Andrade, tio de Sergio, único fundador vivo, com 85 anos, ocupava-se da área de planejamento e financeira. Flávio Gutierrez atuava na construtora. “Gostava mesmo é das obras, tinha alma de engenheiro”, disse recentemente ao Valor sua filha Angela.
Formado em engenharia na Universidade Federal do Rio, Sergio cresceu influenciado pela cidade banhada pelo mar e aquecida pelo sol. Começou a vida profissional com negócios próprios em uma das atividades que mais gostava, o mergulho submarino. Foi adepto ao esporte e criou uma empresa prestadora de serviços.
Ele também montou uma fábrica de aviões do tipo ultra-leve com o amigo Fernando Pinto, ex-presidente da Varig e atual CEO da portuguesa TAP. O negócio não existe mais e Sergio Andrade passou a gostar de planadores, como lazer. Hoje, são uma paixão, assim como os veleiros. É um dos organizadores de um rally anual para adeptos de planadores. Mas sua paixão recente são os netos.
Sergio tem gosto especial por história e arte. Lê muito e adora documentários que tratam de história. A influência foi da mãe, Sônia, artista plástica. É sobrinho de Lygia Clark, que marcou o concretismo brasileiro. Ele é casado com Adriana Barreto, pintora e escultora.
Antes de assumir qualquer função executiva na AG, ocupando apenas o lugar no conselho de administração, no início da década de 1990, Sergio Andrade começou a defender o movimento de diversificação do grupo, que até então atuava apenas na construção pesada. Recebeu logo o apoio do pai. Flávio Gutierrez já tinha falecido e Sergio mantinha ótimas relações com o filho dele, Roberto Gutierrez.
O tio Gabriel Andrade também deu seu aval e Sergio assumiu a presidência-executiva do grupo, tendo como vice Flavio Gutierrez, que morava em Belo Horizonte e tocava os negócios da capital mineira.
A diversificação foi deflagrada após anos da construção pesada em baixa, com a redução de obras federais. A formalização dos novos tempos foi em 2000, com a criação da AGSA. Foi repetido o modelo nas funções executivas: Sergio assumiu a presidência do conselho de administração enquanto Roberto era o vice.
A morte de Roberto Gutierrez, aos 53 anos, em 2006, acelerou o processo de revisão do modelo de gestão. Os sócios decidiram que não ocupariam mais cargos executivos. Ficariam apenas no conselho, que passou a ser formado por três representantes de cada um dos três fundadores. Cada família tem uma empresa ligada à holding. São Miguel e São Estevão são dos Andrade; as irmãs Gutierrez, Angela e Cristina, além dos herdeiros do irmão Flávio, que moram em Belo Horizonte têm Sant’Ana, santa da qual Angela é devota.
“Nossas relações (entre sócios) são de harmonia”, diz Sergio Andrade. Conta que o conselho de administração reúne-se uma vez por mês, mas são usuais as decisões acertadas por telefone para depois serem formalizadas na reunião mensal, no Rio.
No início do processo de diversificação, um dos primeiros passos foi a criação da AG Telecom. O grupo comprou a Proceda, que atuava na área de sistemas, criou a Pegasus, empresa de infraestrutura de fibras ópticas para telefonia. Estavam em pauta as privatizações das estatais de telecomunicações.
No final de 1992, Sergio Andrade convidou Otávio Azevedo para pilotar a área de telecom. Foi, então, iniciado um namoro com potenciais parceiros para novos investimentos. O foco era na telefonia celular. Houve contatos com a Portugal Telecom (PT) mas, na época, a relação não terminou em casamento. O valor do investimento assustou a AG.
No ano passado, por destino ou ironia, a PT desentendeu-se com os parceiros espanhóis da Telefônica, saiu da Vivo e buscou abrigo na Oi, tornando-se também sócia controladora da empresa que tem a AG Telecom como uma das pioneiras no bloco de controle pós-desestatização.
Sérgio Andrade montou com Otávio Azevedo o polêmico consórcio que comprou a concessão da então Telemar, em 1998. O plano era vencer o lance pela Telesp, mas quem saiu vitoriosa pelo braço paulista da antiga Telebrás foi a Telefónica.
O negócio telecomunicações (Contax e Oi) deu trabalho, mas prosperou. A compra da Brasil Telecom comprometeu resultados, mas desatou um nó, encerrando uma longa briga entre sócios, numa operação que recebeu polêmico apoio do governo Lula.
Segundo o balanço de 2010, telecomunicações respondem por 47,43% da receita operacional líquida do grupo. Engenharia, 43,39% e Concessões públicas, 8,53%.Neste segmento, estão gestão em consórcios de estradas, serviços de saneamento, portos, aeroportos e energia. Os demais setores onde entra a novata empresa voltada para gestão de clínicas e hospitais ficam com os restantes 0,65% da receita líquida.
A AG fechou 2010 com faturamento de R$ 18,186 bilhões, inferior aos R$ 19,546 bilhões de 2009. Mas o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, Ebita, em inglês, ficou em R$ 3,419 bilhões superior aos R$ 3,293 bilhões de 2010 e lucro líquido de R$ 775 milhões.
Quando indagado sobre por onde crescer, Sergio Andrade responde de pronto: “Infraestrutura”. Cita a área aeroportuária. A AG administra aeroportos em Quito (Equador), onde passam 10 milhões de passageiros por ano, e na Costa Rica. A grupo quer atuar na gestão de aeroportos brasileiros.
Ele lembra que a AG defende, junto com a Camargo Corrêa, o projeto, que está pronto, para construção de um novo aeroporto em São Paulo. A proposta é fazer o terminal em Caieiras, a 35 km da capital, com capacidade para receber 22 milhões de passageiros por ano. Mas ainda falta o aval do governo federal.
A construção da hidrelétrica de Belo Monte, com valor superior a R$ 20 bilhões, é hoje o maior projeto em que a AG está envolvida e o maior do setor no mundo. O grupo também tem foco na construção de plataformas e de infraestrutura para atender as demandas da Petrobras. Saneamento é outro nicho que os Andrade e os Gutierrez apostam, assim como o trem de alta velocidade unindo Rio e São Paulo é outro grande negócio em potencial.
Um dos negócios do qual o grupo se orgulha é a compra da Cemig, resgatando a situação da AES na estatal de energia em complexa operação permitiu ao BNDES receber a dívida não paga que estava em US$ 1,4 bilhão. O grupo tem 14,41% da empresa mineira
Gestão e logística na saúde ainda está no inicio, mas Sergio Andrade deixa claro que é uma aposta. “Os hospitais e clínicas precisam de se concentrar na medicina e terceirizar a gestão”, acrescenta Azevedo.
E a amizade com Lula? Este é uma assunto que na AG não se comenta. Mas é pública e sabida a proximidade do presidente do conselho de administração com o ex-presidente.
Mas Sergio Andrade fala de Dilma Rousseff. Diz que a presidente está se mostrando uma administradora de coragem e capacidade para realizar todas as mudanças que julgar necessárias no governo federal.

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