Maior complexidade determina o fim da era do grande líder

Betania Tanure
22/07/2011
Jornal Valor Econômico

O mundo está mais complexo hoje, e no mundo empresarial não é diferente. As estruturas e os modelos de negócio passam por mudanças disruptivas em muitas indústrias. Num futuro próximo, as empresas que obterão sucesso nesse novo ambiente serão aquelas com “estrutura de liderança” forte e robusta. A expressão “estrutura de liderança” deve ser entendida no sentido oposto ao característico do “grande líder”, ou “one man show”, típico de hoje. Este não conseguirá mais sustentar o sucesso da organização.
O que realmente faz e fará diferença é a competência em formar times, orquestrar líderes, administrar a diversidade, gerenciar networks e modelar uma causa que dê significado à desafiadora jornada de trabalho. Uma causa que faça os olhos das pessoas brilharem.
Sair do modelo do grande líder – considerado o único responsável pelo sucesso, ou fracasso, de uma empresa – é um desafio à estrutura típica da cultura brasileira, que ainda apresenta alto índice de concentração de poder.
Nossa cultura valoriza fortemente esse tipo de líder, que se coloca, e muitas vezes são colocados, como “salvador da pátria”.
Em países em que a concentração de poder é baixa, os líderes “únicos” não têm vez. É o caso dos países escandinavos. Lá se acredita, aliás, que árvores muito grandes e frondosas impedem o crescimento de outras que estão em seu entorno. Enquanto no Chile, por exemplo, onde a concentração de poder é semelhante à observada no Brasil, diz-se que grandes árvores produzem deliciosas sombras que nos protegem. Nada difícil fazer uma analogia com a questão da liderança.
Nossa cultura ainda impulsiona as pessoas a desejar a proteção de “árvores frondosas”. Mas a “sombra” que as protege é a mesma que impedem muitas delas de crescer, de se tornar novos líderes e, por que não, bons sucessores.
Não por acaso, boa parte das empresas brasileiras vive hoje uma crise causada pela ausência de líderes competentes para seus inúmeros projetos de crescimento, pela carência de sucessores talentosos. Seus líderes não se mostram realmente capazes de enfrentar a complexidade atual, ou seja, não se formou uma “estrutura de liderança” forte e robusta.
O desafio está em abandonar o padrão tradicional de comando e controle e passar a liderar em equipe, a partilhar, sem perder o senso de responsabilidade e de autoridade e multiplicando as possibilidades de gerar valor.
Importante ter em mente que o exercício de liderança começa em casa, na família. A arraigada influência cultural se inicia aí, determinando em grande parte o modelo que escolhemos, seja da liderança em rede, seja do líder único, todo-poderoso.
Sugiro que você comece a se questionar. Qual o modelo instalado no seio de sua família? As relações de interdependência são um valor? O binômio amor-limite, que é tão importante no desenvolvimento da personalidade da criança, está presente na educação dos seus filhos ou netos?
Nossas pesquisas indicam que pais e mães bem-sucedidos estão cada vez menos dispostos a impor limites a suas crianças. Consideram que a limitação gera muito estresse no relacionamento e que, afinal, o tempo de convivência com a família é tão curto… Se quisermos um mundo melhor, no entanto, precisamos mudar essa visão.
Observem quais são os desafios vividos pelos seus filhos ou netos e o quanto essas crianças são incentivadas a assumi-los. Pense em quanto elas são protegidas contra riscos. Observe ainda em que nível é estimulado os resultados individuais ou em equipe entre irmãos, primos ou amigos. E tente atuar nisso.
Enfim, também no dia a dia da empresa deve-se dedicar tempo ao citado binômio para que o liderado perceba e compreenda verdadeiramente que seu líder merece a sua confiança (uma versão corporativa do amor) e saiba lidar com os limites e desafios próprios da jornada de trabalho. A era do grande líder acabou. Que tomem o palco às empresas que têm uma estrutura de liderança forte e robusta.
Betania Tanure é doutora, professora da PUC Minas e consultora da BTA

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