REFLEXÕES SOBRE FINANCISTAS EM RECUPERAÇÕES

Ao ler o artigo do New York Times “Como Wall Street quebrou grandes jornais americanos” que reproduzimos em anexo, retratando livro de James O’Shea, não posso me furtar de fazer comentário pertinente a inoperância de grande parte dos processos de recuperação, judicial ou não, que temos visto no Brasil e fora dele.

Quem trata do assunto com a profundidade, seriedade e tecnicidade que o tema requer, sabe que 1) caixa / dinheiro é o sangue e a razão da vida das empresas e 2) sua disponibilidade é CONSEQÜÊNCIA de OPERAÇÕES adequadamente GERIDAS. Para colocar isso de outra forma, a falta de recursos paralisa qualquer organização, não importa seu ramo, idade, nome, tradição (…Varig, Matarazzo, Encol, GM, Arthur Andersen, etc que o digam). Por outro lado, a geração de caixa e resultados é conseqüência de um processo REAL e de uma cadeia produtiva. Assim, um litro de leite ou um quilo de carne são o produto de uma indústria de transformação de proteína vegetal. Analogamente, um jornal é produto de repórteres, notícias, redatores, parque gráfico, distribuição, clientes e, “last but not least”, pessoas que executam e gerenciam tudo isso de forma adequada.

Pode parecer óbvio, mas não é o que entende a maioria dos financiadores ao imaginar que o dinheiro existe e se cria por combustão espontânea, ao lado de muitos analistas financeiros para os quais as planilhas e modelagens de simulação são a realidade em si e não sua mera representação virtual. Pena, pois como já se sabe há muitos séculos, “dinheiro não agüenta desaforo”! A viabilidade de recuperação de uma empresa passa por algo bem maior do que o simples suporte de bancos às idéias e pretensões “geniais”, mas arriscadas de algum magnata jogador despreparado para o ramo ou do que um conjunto de instrumentos jurídicos sofisticados e bem elaborados, condição que se sabe necessária, mas não suficiente.

Levantar US$ 12 bilhões é fácil. Operar a máquina e pagar as contas é outra conversa. Leia a história na íntegra.

Telmo Schoeler

Como Wall Street quebrou grandes jornais americanos

Livro mostra como investidores e banqueiros levaram as donas do ‘Los Angeles Times’ e do ‘Chicago Tribune’ à bancarrota

24 de junho de 2011 | 0h 00
David Carr, do The New York Times
Jornal O Estado de S.Paulo

Um olhar por trás das cortinas de Wall Street não costuma ser bonito. Mas existe o que não é bonito e existe o medonho. James O” Shea, antigo editor-chefe do Los Angeles Times, produziu um clássico do gênero no seu livro The Deal From Hell: How Moguls and Wall Street Plundered Great American Newspapers (O acordo infernal: como magnatas e Wall Street saquearam grandes jornais americanos), um mergulho profundo em dois acordos de compra que derrubaram as donas, entre muitos outros periódicos, do Los Angeles Times e do Chicago Tribune.

Eis uma versão resumida: em 2000, The Tribune Company, proprietária do Chicago Tribune e outros jornais, adquiriu a Times-Mirror Company, dona do Los Angeles Times, por uma soma recorde na época, de US$ 8,3 bilhões. A fusão nunca resultou em sinergia e a empresa depois da fusão foi colocada à venda em 2007, num período em que compradores eram poucos.

Entra então em cena Sam Zell, magnata do setor imobiliário com uma forte inclinação por empresas em situação difícil, que assumiu o controle dos negócios com a ajuda de um plano de aquisição por empregados, que deixou o Tribune com uma dívida de US$ 13 bilhões. Hoje a companhia está atolada numa recuperação judicial de dois anos.

É tudo o que se sabe. O” Shea concentrou-se em como os banqueiros – que, diz ele, deviam saber que o acordo de compra tornaria a companhia insolvente – na época estavam muito ocupados com suas comissões para se preocupar. Eis uma nota que ele encontrou enterrada nos arquivos do tribunal, assinada por Jieun Choi, analista no JPMorgan Chase, demonstrando um cinismo de tirar o fôlego: “Existe muita especulação de que (o Tribune) pode ter uma dívida tão grande que todos os seus ativos não serão suficientes para cobrir a dívida no caso de (toc-toc) você sabe o quê”, ela escreveu a um colega, numa referência a uma bancarrota.

“Bem, é o que estamos dizendo também. Mas estavam fazendo com que, neste caso, haja o suficiente para cobrir a dívida com o nosso banco. Assim, a lição aprendida com este negócio: nossa estratégia (quero dizer, do JPM) para o caso do TrB, mas provavelmente não limitada ao TrB, é a do “atropele e fuja”.

Ela então passa a explicar até onde um banco deverá ir para “esvaziar os bolsos do cliente (moribundo ou morto?)” em termos explícitos demais para serem repetidos aqui ou em outra parte.

O auditor indicado pelo tribunal no processo de recuperação judicial, Kenneth Klee, mostrou-se cético quando à capacidade de tal julgamento pela analista, dizendo que “o e-mail da senhora Choi reflete uma má interpretação de um analista subalterno que não compreendeu a natureza e o objetivo da análise que lhe foi solicitada”. Kenneth Klee tentou uma entrevista com Jieun Choi, mas ela se recusou e mais tarde retornou ao seu país natal, a Coreia. Segundo James O” Shea, o e-mail enviado por Jieun refletia a maneira de pensar que predominava entre os bancos.

Empréstimos. JPMorgan havia supervisionado o acordo, mas outros bancos, incluindo o Citybank e o Bank of America, também participaram. Houve duas rodadas separadas de arrecadação de fundos para levantar os cerca de US$ 12 bilhões que Zell tomou emprestado para assumir a Tribune Company. Os bancos receberam US$ 161 milhões de comissão só pela primeira – soma suficiente para operar a redação do Los Angeles Times por um ano, sublinha O”Shea – e um total de US$ 283 milhões de comissões pagas pelas duas rodadas.

O” Shea também relata que Jamie Dimon, chefe do JPMorgan, tinha manifestado algumas dúvidas sobre os fundamentos da compra com base na análise feita pela sua empresa, mas no final o banco decidiu manter o acordo com Zell. O JPMorgan foi também um financiador fundamental no acordo, tendo emprestado centenas de milhões de dólares e vai dividir o ônus da recuperação judicial.

Numa conversa por telefone, James O”Shea afirmou ter ficado “assombrado com a maneira como este pequeno grupo de banqueiros poderosos, e ao que parece todos se conheciam, se uniram para ficar com a empresa de Sam Zell. Como Zell, eles também não entendiam muito de mídia noticiosa, mas basicamente fizeram empréstimos de bilhões de dólares sem vacilar”.

O”Shea disse que Jimmy Lee, vice-presidente e encarregado dos acordos na JPMorgan, esboçou um plano após uma conversa com Sam Zell, incluindo quem estaria no conselho diretor, que se encarregaria das divisões e de quem deveria sair: “Os banqueiros estavam assumindo o controle de tudo”.

No livro, James O”Shea explica que a família Chandler, durante muito tempo dona do Los Angeles Times, estava bastante inquieta com as perspectivas sombrias, e como outras famílias que dominavam o setor jornalístico – a Cowle e a Ridder, e depois a Bancroft – começou a procurar uma saída.

A inquietação se devia especialmente ao fato de Mark H. Willes, então principal executivo do Times Mirror, ter se nomeado o publisher do Los Angeles Times. A família Chandler, diz O”Shea, “não gostou da maneira como ele circulava por aí, como se fosse o dono do Los Angeles Times”.

E, o que é uma surpresa no livro, ocorre que o chamado escândalo do Staples Center foi o fato que convenceu a família de que estava na hora de vender a empresa. Como parte da parceria feita com um centro de convenções e esportes, de US$ 400 milhões, o Los Angeles Times aceitou publicar uma grande revista aos domingos sobre o centro, em outubro de 1999.

Mas foi um escândalo quando foi divulgado que o jornal concordara em dividir os US$ 2 milhões de receitas de publicidade com o Staples Center. A divisão das receitas era e é um tabu, e o jornal acabou ficando malvisto entre os leitores. A família, que já estava farta, depois de rejeitar as primeiras propostas de John Madigan, retomou as discussões e no final vendeu o jornal para a Tribune Company.

James O”Shea reconhece que, no início, ficou animado com Sam Zell e a possibilidade de nova liderança. “Como muitas pessoas na época, queria tentar alguma coisa além do que estávamos fazendo, que era apenas cortar custos à medida que o produto oferecido atraía cada vez menos nossos leitores”, disse ele. “Na época, achei que Zell podia ser a resposta.”

Pelo contrário, Zell contratou para uma empresa já cravada de dívidas executivos de rádio do passado que tinham pouco conhecimento da atividade jornalística. Muitos daqueles mesmos banqueiros hoje estão às voltas com um processo de recuperação judicial em Delaware, discutindo sobre quem vai arcar com sua parte pelo negócio malogrado.

No início do livro, James O”Shea sugere que, se os jornais tivessem conseguido colaborar entre si, vendendo publicidade a nível nacional e cobrando o consumidor, não importa como acessava o conteúdo, e o mito do conteúdo “grátis” que é produzido dispendiosamente não vingaria. O Google não teria ganho tração, e as alianças firmadas com banqueiros, as fusões e bancarrotas talvez não tivessem ocorrido.

“Nada disso teria sucedido”, disse ele, sublinhando que os jornais envolvidos contam hoje com pouco mais da metade de jornalistas que tinham antes daqueles negócios frustrados. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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