A IMPRESCINDÍVEL RECUPERAÇÃO E TURNAROUND DO ESTADO

Telmo Schoeler – 26/11/2016

Leading Partner – STRATEGOS Consultoria Empresarial

e ORCHESTRA Soluções Empresariais


Quando vejo a inércia e falta de solução dos governadores para os problemas financeiros do RS e do RJ, bem como o imobilismo de reversão no qual está a presidência da república, sinto-me forçado a voltar a um tema sobre o qual escrevi há cerca de um ano: o imprescindível e inexorável “turnaround” do Estado. Para quem, como eu, que há décadas lidera equipe que atuou em mais de duas centenas de reestruturações e recuperações empresariais, as razões da falta de ações e soluções na esfera pública são claras e óbvias. Simplesmente estão sendo cometidos os mesmos erros que fazem com que a maioria dos processos de recuperação – judicial ou extra-judicial – sejam ineficazes e não cumpram com seu objetivo de sanar e viabilizar a empresa recuperanda.  O que falta, em síntese, é o somatório de um plano, o imprescindível dinheiro para viabilizá-lo, uma liderança com adequado perfil e uma postura de ruptura com a realidade e os processos vigentes.

Conceitual e tecnicamente falando, um “plano de recuperação” precisa ser um conjunto harmônico de ações organizacionais, operacionais, mercadológicas, financeiras, humanas, etc. A montagem do mesmo só pode ser feita a partir de um prévio, isento e preciso diagnóstico que identifique as deficiências e problemas, os quantifique e, principalmente, mapeie as relações de causa-e-efeito, pois só assim estaremos identificando as causas que precisam ser atacadas e removidas. Detalhe de lógica cartesiana: este diagnóstico e plano devem ser feitos ANTES do pedido de recuperação e do início da ação de intervenção / reversão, pois, após esses eventos, o turbilhão dos acontecimentos, as pressões e as tarefas do dia a dia não permitirão a devida análise, reflexão e recomendações técnicas. Diante da complexidade e abrangência do plano, saberemos, quais as ações estruturais, operacionais, mercadológicas, financeiras, demissões, contratações, e acordos necessários, quais os efeitos e timing dessas ações, quanto dinheiro será necessário para implementá-lo, quanto poderá vir de desinvestimentos (leia-se privatizações, na esfera pública), em decorrência do que saberemos qual o alongamento e tratamento a ser requerido e dado à dívida atual.

Diante dessa tecnicidade do tema, como foi que Sartori, Pezão e Temer assumiram suas funções de governo?  Declarando que “estamos estagnados e não temos dinheiro”.  Óbvio!!! Este SINTOMA é notório até para o mais simples dos mortais. O que não foi respondido por nenhum deles, objetivamente, é “qual(is) a(s) causa(s) do mesmo e quais as ações concretas NECESSÁRIAS e que SERÃO implementadas para SANAR os problemas, ou seja, qual é o “PLANO”. Podem até existir “ideias e pretensões”, mas falta a todos eles um plano de ação lógico, macro, rígido, impessoal e isento, a ser implantado em benefício e com olho no único interessado no sucesso da reversão do quadro: o cidadão civil, que trabalha e que paga impostos.

Todo plano de recuperação e reversão sério incluirá mudanças radicais, simplesmente porque se permanecermos fazendo as mesmas coisas, da mesma maneira, chegaremos ao mesmo lugar, que hoje é um inferno astral. Como diz um sábio e antigo ditado, “nada mais esquizofrênico do que fazer as mesmas coisas e querer produzir resultados diferentes”. Significa que terão que ser seguidas outras estratégias, alterados processos, procedimentos, hábitos, estruturas, normas, regras, leis. Cláusulas contratuais, direitos adquiridos, tradições, terão, eventualmente, que deixar de ser consideradas, na medida que impeçam o único fato capaz de reverter a atual inviabilidade da empresa, do município, estado ou país, isto é, a geração de um fluxo de caixa positivo decorrente de uma sociedade que funciona, empreende, se expande, emprega, consome, investe e ganha.

O que se tem visto, ao contrário, similar à maioria das situações empresariais privadas, é prefeitos, governadores e presidentes pedirem “prazo e crédito”, chamando isso de “plano”, ou então, virem a público, muito tempo depois de assumirem, propondo um elenco de medidas. Deveriam tê-lo feito no instante zero, num anúncio didático, transparente, sem emoção, sem considerações políticas ou partidárias, com foco exclusivo no futuro e na viabilidade financeira, preparados para enfrentar o desconforto e discordância de uma minoria cujo status, privilégios e direitos provocam a deficiência de caixa que nos mata. Esta postura requer despreocupação eleitoral e significa ter, como único objetivo, entrar para a história como o líder de um processo de reversão aplaudido pela ampla maioria dos cidadãos, únicos e absolutos proprietários e sustentáculos deste país.

Salvar a IBM e a GM foi o resultado de mudanças radicais e profundas nessas organizações, passando o passado a limpo e construindo uma nova realidade. O desaparecimento da Olivetti e da centenária líder KODAK, uma decorrência da falta disso. Quem sabe pensamos em substituir os políticos por gerentes contratados para administrar prefeituras, estados e o país? Como qualquer profissional normal, teriam salário e obrigação de performar no interesse de todos os “stakeholders”, ou, simplesmente, seriam demitidos e substituídos. Claro que os mesmos critérios se aplicariam a autarquias, secretarias, ministérios, etc. Simples assim. Inspiremo-nos numa frase célebre de Chico Xavier: “Ninguém pode voltar atrás para fazer um novo começo, mas qualquer um pode começar hoje a fazer um novo fim”.

O único final feliz

Fernão Lara Mesquita

25 novembro 2016 | 02h57

Jornal O Estado de S. Paulo

Um monte de gente nas redes sociais e até na imprensa profissional, sempre a reboque dos acontecimentos, o que é parte constitutiva desta crise, comemora a prisão de dois ex-governadores do Rio de Janeiro em menos de 24 horas como um sinal de que “agora, sim, o País está mudando”. A mim pareceu o contrário. Por que agora? Por que só esses dois da longa fila dos acusados no STF que nunca andou? Por que de forma tão arbitrária e espetacular? Não seria, exatamente, porque os 4,2 milhões de brasileiros a quem a lei concede os privilégios que o resto do País inteiro, somado, não consegue mais pagar resistem furiosamente a entregar ao menos os anéis?

Culpas e culpados há de sobra por aí. O que não dá é pra desmisturar esse episódio da batalha da Assembleia Legislativa do Rio da qual o destino fez protagonista Luiz Fernando Pezão, a criatura de Sérgio Cabral, que inauguraria a fase “quente” da guerra entre o Brasil que mama e o Brasil que é mamado, nem da luta cada vez menos surda entre os Poderes Judiciário e Legislativo para, no meio desse tiroteio, manter seus privilégios e prerrogativas “especiais”.

Foi a luta contra a corrupção que trouxe o processo à tona, mas a crise do Estado brasileiro é muito maior que a parte dela que pode ser explicada pela roubalheira. Dotar a Nação de leis à altura do desafio de controlar esse foco de infecção é uma etapa obrigatória, mas o fato é que essa roubalheira toda, por gigantesca que tenha sido, como de fato foi, não quebra um país do tamanho do Brasil. O que nos está matando mesmo são os meios legal e constitucionalmente garantidos de que a casta que se apropriou do Estado se foi armando para colocar-se acima da lei e viver à custa do resto da Nação.

Da longa rodada de abusos patrocinados pelo PT o pior foi multiplicar na União e fazer multiplicar nos Estados e municípios o número de funcionários e o valor dos seus salários. Os funcionários, para efeito de custo, como se sabe, são eternos. Ao longo desses dez anos de tiroteio cerrado desde o “mensalão”, essa conta exponencial vem sendo paga por uma economia privada cada vez mais imobilizada pelo caos político. Resultado: mais de 13 milhões de desempregados; 70 milhões de inadimplentes. É um verdadeiro genocídio. E a cada minuto mais se acelera o giro no círculo infernal do desemprego – queda de consumo, de arrecadação e de investimento = mais desemprego. Não obstante, os salários públicos, mesmo depois que começaram a deixar de ser pagos, continuam tendo aumentos!

Abortada a tentativa de acertar a conta pelo único meio que ela pode ser acertada – o desbaste dos supersalários, das superaposentadorias e da superlotação das folhas de pagamento por gente que entrou pela porta dos fundos –, os governadores voltam-se para a única alternativa que resta, que é transferir sua massa falida para a União, que tem a prerrogativa de reabrir a impressão de dinheiro falso para pagar despesas correntes, como acontecia antes do Plano Real.

A tecnologia e a globalização, entretanto, arrancaram o sistema patrimonialista, que se confunde com a nossa História, do seu berço esplêndido. O Brasil Oficial não cabe mais no Brasil Real e os dois, somados, não cabem no mundo globalizado. E não existe a hipótese de sairmos dessa encalacrada sem atacar o problema onde ele de fato está. Não há mais de quem tirar nada senão de quem nada nunca foi tirado. Já está acontecendo, aliás, o que põe aliados novos e poderosos nessa luta: os verdadeiros servidores que já entenderam que só poderão voltar a receber o que merecem em paz se todos receberem apenas o que merecem.

A solução para essa parte do problema decorre automaticamente, aliás, da mera exposição dos números à opinião pública. Quanto maior a indecência do privilégio, mais rápido a indignação pública o extingue. Não cabe ao Legislativo, porém, expor os supersalários do Judiciário e do Ministério Público, nem vice-versa. Muito menos ao Poder Executivo de um governo interino num país que vem de 300 anos de vícios tolerados, onde exigir ou não o cumprimento da lei pode ser mais uma questão de “vendetta” que de justiça. Isso atira o País numa guerra institucional que pode acabar de matá-lo. Essa função é da imprensa. É exatamente para isso que ela serve e é definida como o “quarto poder” de qualquer República que aspire à sobrevivência. E o fato de isso não ter acontecido ainda, mesmo depois que o vaso foi destampado pelo Senado, é nada menos que escandaloso.

Já o tratamento do problema maior consiste em criminalizar o privilégio. É essa a receita universalmente consagrada que se materializa tecnicamente na imposição da igualdade perante a lei. Revisada por esse filtro, restaria da Constituição brasileira somente o que há nela de apropriado a uma Constituição, e dos salários públicos apenas o que é justo pagar por eles, descontados o mesmo Imposto de Renda e a mesma contribuição à Previdência que eles cobram de nós outros.

A corrupção, que todos dizem querer combater, tem a força que tem porque compra o poder de outorgar a exceção à lei; o poder divino de resgatar pobres almas do inferno da competição global para a estabilidade eterna no emprego e os aumentos de salário por decurso de prazo que os “concurseiros” buscam como o Santo Graal. Nem um exército inteiro de juízes e promotores imbuídos da mais santa das iras conseguirá pôr a corrupção sob controle se continuar existindo a possibilidade de comprar e exercer com ela esse poder divino. Haverá sempre mais juízes e promotores do que eles, que, em agradecimento pelas graças recebidas – que serão sempre as maiores de todas, posto que é deles o poder de deixar ou não rolar a farra –, cuidarão de dar vida longa ao dono de turno dessa cornucópia.

O único final feliz para a guerra entre o Judiciário e o Legislativo seria, portanto, que o último supersalário morresse sobre o cadáver do último foro especial, o que permitiria ao Brasil tratar seus servidores com a mesma intransigência com que eles o tratam hoje.

*Jornalista, escreve em www.vespeiro.com

Como o Brasil vai sair dessa?

ILAN GOLDFAJN

O ESTADO DE S. PAULO

02 Junho 2015 | 03h 00


Essa é a pergunta que mais me fazem atualmente. A preocupação é com a economia em recessão, com a fragmentação política, sem falar no impacto das investigações em curso. Não é pouca coisa. O receio é de que o estado atual se prolongue. A esperança é de que o pior já tenha passado e a recuperação da atividade esteja a caminho. A maioria dos economistas projeta alguma melhora no futuro (bem gradual, em até um ano). Mas, racionalmente, quais serão as forças da mudança?

A resposta não é trivial. Normalmente, a tendência é imaginar que as forças atuais vão perpetuar-­se. O mais difícil é pensar na mudança, até porque exige definir como realiza-­la. Tarefa árdua no Brasil de hoje.

Mas as recessões na economia não duram para sempre, um dia acabam. A maioria termina em dois, três trimestres. As que duram anos seguem crises financeiras, num processo longo de redução de endividamento (“desalavancagem”).

É um processo que requer tempo para se materializar e é a antítese do calote: as dívidas vão diminuindo lentamente até se equilibrarem. O livro This Time Is Dif erent: Eight Centuries of Financial Folly, de Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, mostra essa regularidade empírica. Sua importância foi prever corretamente a recessão prolongada que se seguiu à crise financeira internacional de 2008. Até hoje a recuperação plena da atividade global ainda é uma promessa.

Se recessões prolongadas são a exceção, longos períodos de crescimento baixo não o são. Há vários exemplos no mundo. Foi o caso do Japão nas últimas décadas. E isso não é “privilégio” de economias mais ricas. Um exemplo mais próximo é o do México, que cresceu cerca de 2% nas últimas décadas e apenas recentemente implementou várias reformas que possibilitarão maior crescimento daqui por diante.

Se recessões prolongadas são a exceção, longos períodos de crescimento baixo não o são. Há vários exemplos no mundo. Foi o caso do Japão nas últimas décadas. E isso não é “privilégio” de economias mais ricas. Um exemplo mais próximo é o do México, que cresceu cerca de 2% nas últimas décadas e apenas recentemente implementou várias reformas que possibilitarão maior crescimento daqui por diante.

Assim sendo, será mais fácil o Brasil sair da recessão do que conseguir crescer mais na sequência. Mas nenhum dos dois vai ser fácil.

Na sexta­-feira o IBGE divulgou o resultado do primeiro trimestre de 2015, com queda de 0,2% do produto interno bruto (PIB) em relação ao trimestre anterior (em termos anualizados, queda em torno de 1%). Não há dúvida de que a economia está em recessão. A perspectiva é de que o segundo trimestre será pior do que o primeiro: estimamos queda de 1% (o que seria uma queda de 4% anualizada). E será o fundo do poço?

Por enquanto, não há sinais de estabilização, a queda é livre. No atual ritmo, o crescimento do terceiro trimestre também será negativo. Mas a recessão prolongada torna a base de comparação mais baixa: basta parar de cair que a situação melhora.

Para avaliarmos a extensão da recessão é importante diagnosticá­-la. A queda atual é consequência do passado. Resulta do esgotamento das políticas adotadas nos últimos anos. A tentativa de prolongar artificialmente o desempenho econômico do ciclo anterior, num contexto global muito diferente, não só fracassou, mas também introduziu incertezas macroeconômicas, que minaram a confiança da sociedade, derrubando o investimento e o crescimento. No final, a insistência levou até à falta de disciplina macroeconômica, o que exige atualmente ajustes duros para evitar a crise (ou seja, perda de grau de investimento, saída de capitais, crise cambial, depressão).

Há cinco ajustes em curso: fiscal (meta primário), para fiscal (recursos públicos além do primário), realismo tarifário, balanço de pagamentos (câmbio flutuante) e meta de inflação (volta ao centro da meta). Esses ajustes, se implementados, devem evitar a crise, o que é essencial. A possibilidade de crise é um grande obstáculo para a retomada da confiança.

A retomada da confiança é um dos poucos caminhos para o fim da recessão. A reversão da queda do investimento é essencial. Os outros componentes da demanda estão limitados. O consumo sofre pela queda do poder de compra devida à elevação da inflação, por causa da correção dos preços administrados e da fraqueza do mercado de trabalho, que deve continuar perdendo força, mesmo depois da recessão atual. Por sua vez, o governo está empenhado no ajuste, precisando gastar menos, e não mais. Finalmente, as exportações estão melhorando, mas não são grandes o suficiente para arrastar o transatlântico que é a economia brasileira.

A confiança na economia depende também do contexto político. Não há ainda clareza sobre o caminho que o governo quer seguir. A fragmentação das forças políticas fundamenta essa incerteza. A atual baixa popularidade mantém acesa a dúvida se o governo vai mudar novamente a direção das políticas.

Em suma, o primeiro passo é sair da recessão. A reversão da queda da confiança é essencial para isso. Os ajustes removem o grande obstáculo, mas não são suficientes, per se, para a retomada da confiança. O ambiente no País ainda é de incerteza. A volta do crescimento sustentável é o passo seguinte. Requer coesão política para direcionar o Brasil no caminho certo e foco no aumento da produtividade e eficiência. Esse segundo passo parece bem mais difícil, visto de hoje.

*Ilan Goldfajn é economista ­chefe e sócio do Itaú Unibanco.

Supimpa, meu velho

O Estado de S. Paulo

13 Maio 2015 | 02h 04

The economist

Pequenas empresas podem recorrer ao financiamento coletivo caso não consigam acesso aos grandes bancos

Os banqueiros são um grupo conservador. É difícil imaginar algum deles se entusiasmando com a oportunidade oferecida por Ryan Grepper, um sujeito do Oregon que é “metade visionário, metade cientista louco e um grande fã da revolução ‘faça você mesmo’”, a ponto de emprestar US$ 50 mil para ele criar um cooler para piqueniques. Não um cooler qualquer, veja bem, mas o The Coolest ­ que, além de manter as bebidas geladas, também as mistura, toca música e recarrega dispositivos eletrônicos. Acontece que a ideia que os banqueiros certamente teriam menosprezado caiu no gosto do público: em agosto do ano passado, Grepper levantou US$ 13,3 milhões com a plataforma de crowdfunding Kickstarter, valor 250 vezes superior ao que pedira inicialmente. E ele não devolverá nenhum centavo do dinheiro que recebeu. Seu compromisso é entregar os primeiros 63.380 coolers que fabricar às pessoas que se dispuseram a financiá-­lo com contribuições individuais de aproximadamente de US$ 180. Com alguma sorte, isso acontecerá a tempo de que elas possam para fazer piqueniques no próximo verão. Alguns dos coolers serão entregues em mãos por Grepper, que se ofereceu para comprar as bebidas para o piquenique das pessoas que contribuíssem com US$ 2 mil para o seu empreendimento.

O financiamento de pequenos negócios raramente é essa alegria toda. Com exceção de alguns empreendimentos, como o The Coolest, que estabelecem forte proximidade com o consumidor, os nanicos vêm enfrentando dificuldades para levantar dinheiro nos últimos anos. Os mercados de títulos, que têm permitido às grandes empresas contrair empréstimos a juros baixíssimos, não ligam para seus primos menores. Os bancos cortaram o crédito para as pequenas empresas, depois que as novas regras do setor tornaram esse tipo de empréstimo menos lucrativo. E, como a análise de crédito para a concessão de um empréstimo corporativo de US$ 20 mil demanda quase tanto tempo quanto a liberação de um empréstimo de US$ 2 milhões, a tendência dos bancos foi se concentrar nos peixes grandes. Uma série de startups que usam softwares para prestar serviços financeiros foram criadas com o intuito de ocupar esse espaço, são as chamadas “fintech”.

Algumas delas se assemelham às plataformas peer-­to-­peer que fizeram enorme sucesso na área de crédito ao consumidor. A britânica Funding Circle, que também atua nos Estados Unidos, diz ser “o mercado de títulos para as pequenas empresas”. Na Grã­-Bretanha, já concedeu empréstimos, que somam quase 600 milhões de libras. No entanto, empregar com pequenas empresas o modelo “suga­-suga” de dados desenvolvido pelas fintechs para a concessão de empréstimos pessoais não é tão simples. Há muito menos informações disponíveis para a avaliação da capacidade de crédito de uma companhia, diz Samir Desai, presidente da Funding Circle. E o que se consegue descobrir, recorrendo-­se a dados que vão do histórico tributário a registros compilados por agências reguladoras, é com frequência informação de baixa qualidade e muito desatualizada. Os métodos da startup britânica incluem um passo que seria considerado retrógrado pelos puristas do fintech: um analista de carne e osso conversa com todo novo tomador antes de a empresa conceder um empréstimo. O marketing do Funding Circle enfatiza tanto a conveniência ­ o procedimento é menos oneroso do que o de um banco e o dinheiro sai mais rápido ­ quanto a possibilidade do cliente de conseguir de taxas de juros mais atraentes.

A concessão de crédito peer­-to-­peer para pessoas jurídicas, diferentemente do que ocorre quando se trata de emprestar para pessoas físicas, não tem um ponto de entrada tão óbvio quanto, por exemplo, a dívida acumulada por uma pessoa no cartão de crédito, que pode ser refinanciada a taxas menores. Isso torna mais difícil a tarefa de conquistar novos clientes. Muitos tomadores só recorrem a plataformas peer-­to-­peer depois de terem sido rejeitados pelos bancos. Nos Estados Unidos, a plataforma OnDeck, que abriu o capital no Supimpa, meu velho 14/05/2015 Supimpa, meu velho ­ Economia ­ Estadão http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,supimpa­meu­velho­imp­,1686491 2/3 ano passado, teve de contestar insinuações de que seus negócios dependeriam dos corretores de crédito, que cobram caro para atrair empresas à procura de dinheiro rápido. E a própria contratação dos empréstimos muitas vezes é um procedimento trabalhoso, em especial quando as garantias são ativos pessoais do tomador. Por outro lado, as leis que estabelecem um teto máximo para os juros a pessoas físicas não se aplicam ao crédito corporativo, de modo que as taxas podem ser mais elevadas. Acredita­-se que a taxa média praticada na OnDeck esteja acima de 50%.

Em expansão. O Lending Club, líder do setor de crédito pessoal peer-­to-­peer está entrando no mercado de empréstimos corporativos. Em fevereiro, começou a oferecer até US$ 300 mil a empresas americanas que queiram financiar compras feitas no site chinês de comércio eletrônico Alibaba. As mercadorias não entram como garantia na transação, mas o fato de que uma empresa comprovadamente acaba de adquirir dispositivos eletrônicos de uma fábrica chinesa é uma indicação bastante confiável de que em breve estará ganhando algum dinheiro com a venda dos aparelhos.

O Kabbage, uma plataforma rival sediada em Atlanta, especializou-­se na concessão de empréstimos a empresas que realizam a maior parte de suas vendas por meio de sites de comércio eletrônico. Os executivos da companhia acreditam ser possível determinar o risco de crédito delas consultando seus históricos de vendas no eBay (e os comentários deixados pelos clientes) de uma maneira que não está ao alcance, ou não é do interesse, de uma instituição bancária.

Novos modelos estão surgindo. No ano passado, a Square, por meio da qual pequenas empresas e indivíduos podem processar as vendas que realizam por cartão de crédito, começou a oferecer adiantamentos em dinheiro a alguns clientes. Como tem acesso imediato aos valores recebidos ao longo dos anos por esses estabelecimentos comerciais, ela está em condições de fazer uma boa estimativa de seu fluxo de caixa futuro. Mais que isso, uma vez que vai processar os recebíveis com os quais seu adiantamento será reembolsado, ela pode sequestrar esses recursos “na fonte”.

Por um empréstimo de US$ 10 mil, por exemplo, a Square recebe 13% das vendas realizadas por cartão de crédito, até ser reembolsada em US$ 11,3 mil. O interessante é que, embora todos os clientes acabem pagando os mesmos juros de US$ 1,3 mil, a taxa depende do tempo que cada tomador leva para liquidar sua dívida. Quanto mais rápido o estabelecimento vender e mais rapidamente quitar o empréstimo, mais alto será o juro. Tomadores que querem maximizar vendas não parecem se importar com isso. O período médio de quitação é de aproximadamente dez meses. O gigante de pagamentos PayPal, que está sendo desmembrado do eBay, agora oferece um sistema similar aos estabelecimentos que operam com seu sistema. Faturas que valem seu peso em ouro. As pequenas empresas vão ficar felicíssimas em poder monetizar aquele que com frequência é um de seus maiores ativos: o dinheiro que os fregueses lhes devem. Para receber, em geral, é preciso esperar de 30 a 90 dias depois do envio da mercadoria. Um pequeno grupo de estabelecimentos financeiros de menor porte (às vezes não muito respeitáveis) se oferecem para comprar faturas em aberto com desconto ­ pagando, talvez, US$ 0,60 por dólar.

Leilão. Ao transferir as faturas para plataformas eletrônicas, as startups de tecnologia financeira esperam acabar com o atrito do processo. Se uma pequena fábrica de autopeças vende um lote de rolamentos para a Ford, por exemplo, e a montadora de automóveis dá anuência eletrônica de que pagará a fatura dentro de seis semanas, isso torna esse documento quase tão valioso quanto um título de dívida emitido pela Ford. É possível que venha a valer US$ 0,98 por dólar, e não US$ 0,60. Uma vez autenticada, a fatura pode ser leiloada numa plataforma, ou transformada no tipo de instrumento financeiro que arranca suspiros dos bancos de investimento. Ao transformar a fatura num bem, a fábrica de autopeças pega carona na nota de crédito da Ford. Na prática, o processo ainda é complexo. Além disso, trata-­se um filão do qual os bancos não vão abrir mão tão facilmente. Em geral, suas taxas para empréstimos lastreados em faturas são bem menos salgadas ­ porque esse tipo de crédito é tratado com mais leniência pelos órgãos reguladores.

Nenhuma dessas opções de financiamento é viável a empresas que acabam de abrir as portas. Na Grã-­Bretanha, quem tem uma boa história para contar (e, de preferência, um fundador fotogênico) pode recorrer a uma dezena de plataformas de crowdfunding de capital de risco para levantar dinheiro. Esse crowdfunding em geral implica ceder participações no negócio para os novos investidores. A fundação filantrópica Nesta afirma que os britânicos investiram 84 milhões de libras nesse tipo de negócio em 2014, uma alta de 400% em um ano ­ ainda que a Financial Conduct Authority tenha alertado investidores sobre o “grande risco” de prejuízo nessas operações (a oferta de isenções fiscais talvez alivie esse golpe).

Nos Estados Unidos, a estratégia de usar e abusar do cartão de crédito, adotada por empreendedores intrépidos, ainda é um rito de passagem. É possível que isso esteja para mudar. As normas que atualmente restringem o investimento em startups a indivíduos com patrimônio líquido de US$ 1 milhão ou renda anual acima de US$ 200 mil deixarão de valer no fim deste mês. A partir de então, qualquer um poderá tentar a sorte em plataformas de crowdfunding. É uma boa nova para os que têm vontade de investir na nova invenção excêntrica de Grepper e lucrar alguma coisa a mais do que um cooler de piquenique “chique no último”.

© 2015 THE ECONOMIST, TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O ARTIGO ORIGINAL, EM INGLÊS, PODE SER ENCONTRADO EM www.theeconomist.com.

O Vírus mortal da descapitalização

Telmo Schoeler (*)

A gestão financeira corporativa deve seguir a seguinte ordem de decisões e ações:

0 – Definição de risco aceitável pelos acionistas;

1 – Estabelecimento da estrutura de capital;

2 – Busca de recursos;

3 – Aplicação/uso dos recursos;

4 – Avaliação dos resultados;

5 – Revisão crítica da estrutura de capital.

Chamo esta sequência de “PDCA em finanças”, inspirado no processo de melhoria contínua da Qualidade. Apesar de lógico, óbvio, cartesiano, inquestionável e com absoluta sustentação teórica, esse ordenamento estratégico e tático financeiro é pouco praticado.

Para início de conversa, poucos são os acionistas que dedicam tempo para analisar e definir considerações de risco, o que é uma bomba de nêutrons num mundo dinâmico e volátil como o atual. O pior é que grande parte não tem capacidade técnica para fazê-lo, geralmente, por não terem visão panorâmica. Isso ocorre mesmo entre os que são profundos conhecedores da operação do seu negócio.

Em paralelo, por desconheceram a dinâmica do fluxo de dinheiro dentro de uma empresa, não dão importância à adequação da estrutura de capital. Agem iludidos pela simplória noção acadêmica de que o custo do capital próprio excede o de terceiros. Por isso, acham melhor pedir emprestado do que aportar recursos, quer disponíveis, quer representados por ativos desimobilizáveis. Agem assim por esquecerem duas coisas: primeiro que o excesso de endividamento levará o custo do capital de terceiros a patamares superiores aos do próprio; segundo que, embora o capital social e os empréstimos sejam contas passivas, estes últimos são representados por uma nota promissória com data de pagamento em dinheiro de principal mais juros. Já o capital social é representado por uma cautela de ações resgatáveis apenas na eventual liquidação da companhia, caso dela sobre algo. Dessa forma, é passível de dividendos apenas se houver resultado. É uma diferença estratosférica, que é esquecida pela maioria, inclusive entre acadêmicos.

A descapitalização também advém de uma insensibilidade com relação aos efeitos operacionais do moderno mundo dos negócios. Custos financeiros eram pouco relevantes na época em que custos e despesas eram embutidos no preço de venda e, portanto, bancados pelos consumidores. A concorrência derreteu tudo isso. Focar e buscar eficiência tornou-se mandatório para sobrevivência e, no que se refere a dinheiro, trouxe de volta a milenar máxima de que “o retorno deve ser maior do que o custo”. Por isso, não cabe mais a antiga prática de “recursos próprios são para imobilizar e capital de giro quem dá é o banco”. O mercado está cheio de patrimonialistas que passam por recuperação judicial ou que estão falidos.

A vida dos endividados é ainda mais difícil na medida em que sua solução passa por dois caminhos alternativos que os empresários de olho no espelho retrovisor têm enorme dificuldade de trilhar. Por um lado, deveriam enxergar e eliminar o excesso de ativos (recebíveis, estoques, permanente etc) e de custos, mas não o fazem por incapacidade ou falta de vontade de rever seus processos e atos. Fazer isso é mexer num abelheiro real ou mental. Existe a alternativa de atrair capital de novos sócios, mas aí esbarram em barreiras culturais e comportamentais ligadas ao ego, à diluição de controle, ao partilhamento de poder e à divisão de lucros, mesmo que eles sejam maiores. Tudo ilógico e letal, diante da imprescindibilidade de um mundo que muda e que mata os infectados pelo vírus da descapitalização.

*Telmo Schoeler é fundador e presidente da Strategos – Consultoria Empresarial e da Orchestra – Soluções Empresariais. Possui 50 anos de prática profissional, metade em funções executivas de diretoria e presidência de empresas nacionais e estrangeiras.

Consultoria implanta método que dobra lucro de empresas

29/08/2014
Por: Giulia Romano

A metodologia ICG, desenvolvida pela Qualitin, tem eficácia comprovada. A consultoria implantou o sistema e treinou executivos de uma das maiores redes varejistas brasileiras no final do ano de 2013. Os resultados surpreenderam: o lucro reportado dobrou na comparação com o mesmo período do ano passado.
“A metodologia do ICG promove o alinhamento da organização com suas estratégias, a fim de assegurar resultados sustentáveis”, afirma o diretor comercial da Qualitin, Américo Predebon. Ele acrescenta que a metodologia auxilia os gestores a priorizarem as ações da empresa como forma de corrigir o rumo da organização.
O ICG funciona a partir de uma metodologia que traça planos e metas, mede resultados e corrige falhas em processos corporativos. A ferramenta, que pode ser acessada pela web, automatiza todos estes passos. O software facilita a gestão de KPIs (do inglês Key Performance Indicators), possibilita o uso de gráficos para análise de tendências, compara resultados atuais com anteriores, avalia faixas de normalidade, analisa e encontra a raiz de causas com o uso da técnica “cinco porquês”, entre outros recursos. O software pode ser acessado via Iphone, android, tablete. “O ICG não olha simplesmente o passado. Ele vê o presente, faz projeções futuras e corrige possíveis desvios”, diz Predebon.
Outra empresa que utiliza a metodologia, a Serasa Experian, também obteve ganhos significativos a partir da adoção da metodologia, em 2008. Daquele ano até 2012, a empresa cresceu quase 300% em vendas e mais de 400% em resultado e diminuiu os indicadores monitorados pelo ICG de 4 mil para 1.500.
Com atuação em 18 países, a intenção da Qualitin é aumentar a produtividade de empresas e pessoas. Seu foco é melhorar resultados e promover o crescimento dos clientes. Além de transmitir os conceitos da Gestão em Qualidade Total, a consultoria treina profissionais para colocá-lo em prática e acompanha de perto o desenvolvimento da metodologia. A QINN, como é conhecida, é especializada em fazer com que planos se transformem em ações, e, consequentemente, em objetivos alcançados.

O maior culpado pelas taxinhas do PIB

Roberto Macedo
Jornal O Estado de S. Paulo
05/06/2014

Várias explicações vieram depois que o IBGE anunciou que o produto interno bruto (PIB) cresceu apenas 0,2% no primeiro trimestre de 2014 relativamente ao quarto de 2013. Mas a maioria delas, principalmente as que vieram do governo federal, ou ficou na superfície ou atendeu às conveniências de quem as forneceu.

Irei além, começando pelo que disse o ministro da Fazenda sobre essa nova taxinha do PIB. Afirmou Guido Mantega que restrições ao crédito e uma inflação mais elevada prejudicaram o consumo das famílias, que então mostrou queda de 0,1%. Mas vale lembrar que a política anti-inflacionária cabe ao governo. Assim, a ineficácia dessa política deve ser debitada a ele mesmo.

O crédito contido também é culpa dele, pois por vários anos houve exageros na sua concessão, o que prejudicou a capacidade de o consumidor obter mais crédito, agravando-se a inadimplência de muitos e levando a uma maior cautela dos bancos em concedê-lo. Mantega também falou de juros mais altos, mas estes vieram da incapacidade governamental de sustentar, com moderação dos gastos governamentais, a política monetária que o Banco Central executou de setembro de 2011 a abril de 2013, voltada para reduzir a taxa básica de juros, a Selic.

Não está nos manuais de economia estimular a economia tanto por meio de mais gastos públicos e de redução de impostos quanto com juros mais baixos, quando o uso de sua capacidade produtiva está alcançando o seu limite, o que ocorre no Brasil.

É sabido que por vários anos o governo apostou no consumo – inclusive no próprio, pois cresce acima do PIB – e no crédito para impulsionar a economia. Ou seja, na expansão da demanda, descuidando-se dos investimentos, que a médio e longo prazos constituem a força mais importante. Eles não apenas geram demanda por fatores de produção – o que, entre outros desdobramentos, aumenta a renda dos trabalhadores – como também ampliam a capacidade produtiva da economia, isto é, a oferta de bens e serviços.

Desde agosto 2012 o governo acordou para essa obviedade. Percebeu, então, que não tinha dinheiro para investir e, a contragosto de sua ideologia, teve de engolir um sapo ao recorrer à privatização de serviços públicos mediante sua concessão a entes privados. Porém continua sonolento nas suas ações para estimular investimentos. No caso das ferrovias, por exemplo, o programa que anunciou naquela ocasião ainda não saiu da primeira estação da sua linha de implementação.

A obsessão do governo com o consumo é tanta que seus arautos se esquecem até de um aspecto que lhe é favorável: o fato de que o financiamento imobiliário vem crescendo a taxas bem mais altas do que o crédito aos consumidores, e o pagamento das prestações dos imóveis deve estar apertando orçamentos familiares e contendo o consumo. Isso é ótimo, pois significa que as famílias estão poupando mais e investindo em imóveis. Mas esse processo precisaria alcançar uma dimensão muitíssimo maior para que tivesse peso bem mais forte no total de investimentos da economia.

Quanto a estes, não ouvi o ministro falando deles, talvez porque não fosse de sua conveniência. Além de já muito baixos relativamente ao PIB, seu desempenho se mostrou negativo nos três últimos trimestres quando analisados da mesma forma, isto é, em comparação com cada trimestre imediatamente anterior. Essas quedas foram importantes na determinação das taxinhas do PIB.

Mas por que não crescem os investimentos, ou, na linguagem do IBGE, a formação bruta de capital fixo, como, por exemplo, via novos empreendimentos produtivos ou expansão dos existentes, como em fazendas, estradas, portos, usinas hidrelétricas, fábricas, hospitais, escolas e shopping centers? Aí a responsabilidade do governo é inequívoca, pois na parte que lhe toca ele arrecada muito e investe pouquíssimo.

Quanto aos investimentos privados, o governo interveio em vários mercados, como nos de eletricidade, derivados de petróleo e etanol, e recorre à tal “contabilidade criativa” para forçar “bons” resultados nas suas contas. Com isso criou um clima de insegurança quanto à ação do governo, o que acabou por prejudicar a expansão dos investimentos privados.

Mantega também culpou o fraco desempenho da economia mundial, que prejudica as exportações brasileiras, mas despreza o fato de que vários países igualmente afetados por esse mau desempenho não mostram crescimento tão baixo como o do Brasil. Ainda no tocante ao setor externo, no cálculo do PIB entram as exportações e são descontadas as importações. No primeiro trimestre deste ano as exportações caíram 3,4% e as importações subiram 1,4%, no conjunto prejudicando o PIB, um problema que se repete e o governo também não consegue reverter.

Ontem surgiu mais uma explicação para as taxinhas do PIB, vinda após uma reunião do ex(?)-presidente Lula com quem toca o expediente. O diagnóstico apontou que o “péssimo humor” dos empresários foi a razão mais importante dessa nova taxinha do PIB. Já apontei motivos pelos quais os empresários estão inibidos ao investir. Ora, essa nova “explicação” do governo equivale a alguém culpar seu interlocutor por ficar mal-humorado depois que esse alguém se comportou de modo inconveniente.

E o cenário é de mais taxinhas. Ontem, por exemplo, vieram dados da indústria de transformação mostrando que sua produção caiu 0,3% entre março e abril, segundo o IBGE. Relativamente abril de 2013, ela recuou 5,8% (!). Em abril a queda concentrou-se nos bens duráveis de consumo e bens de capital, incluídos insumos típicos da construção civil, o que aponta para nova queda dos investimentos neste segundo trimestre. Já há analistas prevendo até uma variação negativa do PIB no mesmo período.

O governo deveria mesmo é reconhecer os seus erros, pedir perdão e guiar corretamente a economia.

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

Líder bom dá recado igual nos EUA ou na Mongólia

Jacilio Saraiva
Jornal Valor Econômico
06/05/2014

Nos anos 1990, o executivo americano David Novak recebeu uma missão. Ele trabalhava para a PepsiCo como presidente das redes de restaurante KFC e Pizza Hut e era conhecido por ser um “agregador” de equipes. O conselho da companhia pediu que montasse um programa de liderança para engordar resultados e envolver mais gestores do grupo. Um retrato dessa iniciativa está no livro “Levando As Pessoas Com Você “, agora lançado no Brasil. “Queria que mais líderes, em todo o mundo, tivessem acesso ao que fizemos dentro da empresa”, disse Novak, 60 anos, ao Valor.

Hoje, como CEO e presidente do conselho da Yum! Brands, que controla as marcas KFC, Pizza Hut e Taco Bell, pertencentes à PepsiCo até 1997, ainda dedica parte de seu tempo, todos os anos, para ensinar pessoalmente habilidades de liderança e gestão a funcionários e franqueados daquelas redes. O “jeito Novak” de liderar é considerado uma das chaves do sucesso da Yum! Brands, que tem sede em Louisville, no Kentucky. Com faturamento de US$ 13 bilhões e mais de 40 mil restaurantes em 125 países, o foco mais recente da companhia, que emprega 1,4 milhão de pessoas, é abrir lojas em mercados emergentes. Depois de fincar mais de 4 mil unidades na China, inaugurou, no ano passado, seus primeiros pontos na Tanzânia, Ucrânia, Argentina e Mongólia. A previsão é instalar mil novos restaurantes, em 2014, fora dos Estados Unidos.

Novak, listado como um dos cem melhores CEOs do mundo pela “Harvard Business Review”, fala da importância do “mentoring” no desempenho dos executivos de primeira linha e de como obter a cooperação de subordinados em projetos corporativos.

Valor: Seu livro é inspirado em 16 anos como líder empresarial. Quais os erros mais comuns que podem ser cometidos nessa posição?

David Novak: Muitas vezes, o líder vive em um casulo e se vê de uma forma que pode não ser a mais verdadeira. É crucial para todos os gestores saber quem são e de onde vieram. Os melhores chefes são aqueles que entendem que são como nenhum outro, donos de um conjunto único de pontos fortes e fracos, interesses e conhecimentos, e que estão sempre envolvidos em um trabalho em andamento. As pessoas à sua volta sentem isso. Seguem alguém que acreditam viver em seus próprios termos, que é fiel às suas crenças e, na maior parte das vezes, não recua.

Valor: Mesmo aposentado, Andy Pearson, ex-presidente da PepsiCo, foi seu mentor. Qual a importância do “mentoring” para um líder?

Novak: Um bom mentor é um “líder-professor” e Andy foi um grande exemplo. Um dos privilégios do líder é ser capaz de compartilhar com os outros o que aprendeu. É por isso que, nos últimos 16 anos, ensino num programa de liderança, que tem o mesmo nome do livro, que atingiu mais de 4 mil gerentes e franqueados das nossas marcas, em todo o mundo. Escrevi o livro para redimensionar o programa e alcançar ainda mais gente. Está ali tudo que aprendi sobre como construir e alinhar equipes para obter resultados, além de conselhos dos melhores “coaches”, CEOs e mentores que tive ao longo dos anos.

Valor: Para alcançar bons resultados em qualquer empresa, é necessário obter a cooperação dos funcionários. Que qualidades o líder deve ter para conseguir isso?

Novak: Bons gestores motivam e envolvem as pessoas. Devem saber cultivar o quadro em todos os níveis e criar uma cultura orientada para o desempenho, que celebra o sucesso para alcançar grandes resultados. Os chefes devem pensar em como “levar” as pessoas com eles para alcançar esses objetivos. Se você não conseguir envolvimento, não haverá compromisso. Se tentar fazer as coisas sem ajuda, sem engajar colaboradores, provavelmente não será bem-sucedido.

Valor: O senhor diz que a pior coisa que um líder pode fazer é querer resolver tudo sozinho…

Novak: Ganhar o alinhamento das pessoas é fundamental. Você pode ter a melhor ideia do mundo, mas não significará nada se não puder embarcar as equipes em seu projeto. É importante explicar o porquê por trás de seu plano e pedir opiniões para envolver mais gente. Sem isso, ninguém estará verdadeiramente comprometido com a meta proposta.

Valor: Segundo o livro, uma pesquisa com 300 líderes de ponta de sua empresa indicou que eles mostravam facilidade para desistir de projetos. Havia empolgação no início, com ideias, mas logo surgia desinteresse nas fases de execução.

Novak: Para obter resultados, é preciso persegui-los diariamente. É essencial, para qualquer líder, ter a consciência do que precisa ser feito e qual a energia necessária para que isso possa acontecer. Ao mesmo tempo, devemos contar com os colaboradores certos, responsáveis por sua parte. O orgulho no rosto das pessoas quando realizam algo que não tinham certeza que podiam executar é recompensa pouco valorizada.

Valor: O senhor diz que, quando um gestor anuncia, para todos, o que pretende fazer, ganha mais motivação para atingir resultados porque estará comprometido publicamente com a iniciativa. O que fazer depois, se tudo der errado?

Novak: Quando você está correndo riscos ao perseguir grandes objetivos e o resultado não é o esperado, o melhor a fazer é reconhecer o erro e explicar o que houve. Mas você tem de mostrar o que pretende fazer em seguida. Falhar faz parte do negócio, mas não tente varrer nada para debaixo do tapete. Fale sobre o que aconteceu com a equipe e analise os problemas enfrentados. É possível salvar sua credibilidade, indo a público novamente, mas com um outro plano, e explicar por que a última ideia não deu certo, e como, a partir de então, tudo será diferente.

Dilma e as uvas

Fernando Gabeira
Jornal O Estado de S. Paulo
06/06/2014

Num de seus recentes discursos, Dilma Rousseff afirmou que as obras para a Copa terão padrão brasileiro, não padrão Fifa. Com essa frase queria dizer também que nossos padrões são mais democráticos, naturalmente referindo-se aos altos preços dos ingressos. Dilma fez tal declaração no fim de um período em que a Copa do Mundo foi perdida fora do campo e todos esperamos, ela com ansiedade singular, que seja ganha dentro do campo.

Essa frase de Dilma marca uma inflexão do governo nas suas relações com a Fifa, cujos dirigentes afirmam que o Brasil propunha a Copa em 17, e não 12 cidades. Foi preciso conter a megalomania de Lula e a própria Fifa foi otimista quando considerou 12 um bom número, levando em conta o tamanho do Pais, não suas reais possibilidades.

O Estádio Mané Garrincha, beirando o R$ 1,5 milhão, custou mais caro que um estádio do Qatar – país com a maior renda per capita do mundo – para 2022. Se os cálculos forem comprovados, o padrão brasileiro foi mais caro, no Mané Garrincha, do que o padrão Fifa sonharia. O estádio de Brasília é um monumento. Não sabemos ainda se é um monumento à incompetência ou à roubalheira, embora no padrão brasileiro os dois joguem no mesmo time, bem perto do gol.

Três estádios foram plantados em cidades cujo futebol não atrai multidões. O velho estádio de Natal só conseguiu lotação plena quando o papa visitou a cidade. Para o novo estádio teremos de combinar com o papa Francisco algumas visitas regulares, algo difícil porque um papa não faz visitas apenas para cumprir tabela.

Em Cuiabá presenciamos um fato inédito na história: no dia da visita de inspeção da Fifa, o governador e o presidente da Assembleia estavam presos. É a Copa das Copas, ou o mico dos micos, como quiserem.

Em Manaus, na imensidão um estádio vazio, uma arena amazônica que me deixa perplexo, sobretudo quando vejo o que vi na Vila de Boim, a seis horas de barco de Santarém: o esforço das comunidades para jogarem a sua própria Copa, numa região da floresta para a qual não existe política de esporte.

Lula quis dar salto maior que as pernas e agora que o fracasso se revela resta apenas ironizar o padrão Fifa que se comprometeu a adotar.

A esquerda não tem o monopólio da duplicidade e da dissimulação. Mas num partido como o PT e, sobretudo, num governo ditatorial como o cubano, são os dois elementos vitais para sobreviver e crescer. Em O Homem que Amava os Cachorros, Leonardo Padura fala de uma família cubana, possivelmente a do próprio escritor, que ensinou aos filhos exatamente o oposto dessa regra da sobrevivência: falar a verdade, ser fiel a si próprio.

O discurso do governo brasileiro em relação à Copa é de um zigue-zague acrobático, uma tentativa desesperada de abordar os fatos de frente e cair na realidade. Não foi uma ideia feliz trazer a Copa para o Brasil e assumir os compromissos que assumiu com a Fifa.

Isso não significa que a Copa não deva ocorrer, muito menos que deixamos de torcer pela vitória dentro do campo. Significa apenas que a linguagem cínica do governo é uma fonte permanente de degradação da vida política. Reflete uma lei interna segundo a qual não é preciso dizer o que pensa, regra válida para todos os que aderem. Basta que façam o jogo, dancem de acordo com a música.

Até que ponto o cinismo triunfará amplamente numa sociedade democrática é o enigma que envolve o futuro próximo do Brasil. Controlar o aparato estatal, o Parlamento e até o Supremo Tribunal ainda é um cobertor curto. Restam a sociedade, a imprensa, a internet.

Os militares compreenderam que não tinham resposta para o futuro e organizaram a retirada para não baterem em fuga desordenada, arriscando a instituição. O PT não acumulou forças para encarar a verdade, arriscar o poder e preservar-se para o futuro.

O discurso de Dilma não é voltado para a frente. Apenas adverte que a vitória da oposição significará um ajuste que vai reduzir salários, aumentar o desemprego e cortar verbas sociais. Embora não reconheça, ela deve saber que é necessário um ajuste, que pode ser moderado, no sentido que lhe dá Amartya Sen. Quer dizer, não precisa reduzir salários nem cortar verbas sociais. Um ajuste desse tipo seria voltado para os gastos irracionais do governo. Mas bateria de frente com o mundo político e burocrático, toda essa gente agarrada a cargos, verbas, negociatas. Às vezes, quando falamos em defender o salário do povo, estamos defendendo os nossos próprios salários. E reaparecem aí a duplicidade e a dissimulação.

Dotar o Brasil de um governo inteligente, aberto e conectado, transformar um sistema político que se tornou uma gigantesca sanguessuga não figuram no seu horizonte. O único caminho é usar os interesses populares como escudo para os seus próprios interesses e agarrar-se ao poder.

Na classificação de presidentes de toda a República no quesito crescimento, Dilma está em penúltimo e Fernando Collor em antepenúltimo lugar, atrás de Floriano Peixoto, portanto, entre os quatro de baixo que vão para a Segundona. Ao afirmar que as dificuldades econômicas foram conjunturais, ela pede uma segunda chance. Mas pede como se estivesse no grupo de cima, preparando-se para a Libertadores.

Como dizia Cazuza, suas palavras não correspondem aos fatos, sua piscina está cheia de ratos. Aceitar que suas palavras não correspondem aos fatos e limpar a piscina política e administrativa dos seus ratos é uma tarefa gigantesca. O caminho mais fácil é controlar o Estado, o Parlamento o Supremo, mobilizar uma artilharia eletrônica.

Que venham todos, porque, independentemente de resultados eleitorais, há um imenso número de brasileiros sabendo o que há por trás dessa duplicidade e dissimulação. Gente que gostaria de falar sério sobre nossos problemas, e não perder a energia desmontando as bravatas de Lula, como essa da Copa. Perdemos tempo, dinheiro, operários, moradias, irresponsabilidade que nem a vitória no campo conseguirá apagar.

Como as famílias ricas dilapidam seus patrimônios

Por Beth Pinsker/Da Reuters
Jornal Valor Econômico
12/05/2014

A base do gerenciamento financeiro moderno está na promessa de que você pode transferir o que sobrou de seu patrimônio para as gerações futuras. Mesmo assim, a probabilidade de seu dinheiro durar é pequena e estudos estimam que o ciclo familiar “da pobreza à riqueza e de volta à pobreza” acontece em 90% dos casos após três gerações.

Um novo estudo da Merrill Lynch sobre o patrimônio de famílias que têm mais de US$ 5 milhões disponíveis para investimentos tenta encontrar os obstáculos futuros à riqueza sustentável. O desejo não é a questão – cerca de 70% dos 171 participantes da pesquisa, realizada em dezembro de 2013, afirmaram querer que seu dinheiro sobreviva a eles, com apenas 17% efetivamente manifestando a vontade de ele durar para sempre.

Mas quase todos nesses 70% têm uma expectativa desmedida sobre o quanto eles poderão usar para que sobre dinheiro – quase um quarto dos participantes estariam falidos enquanto ainda estivessem vivos, se gastassem no ritmo desejado por eles. Outros 20% não têm ideia do nível de distribuição que os manteria confortáveis para sempre. Apenas 16% identificaram corretamente uma taxa de distribuição na faixa de 1% a 3% ao ano para manter o patrimônio.
A “Reuters” conversou com o coautor do estudo Michael Liersch, especialista da Merrill Lynch em finanças comportamentais, para descobrir o que as pessoas estão fazendo para desperdiçar seus patrimônios.

Onde as coisas começam a dar errado para as famílias ricas?
Michael Liersch: As pessoas tendem a ser generosas demais, de modo que acabam dando muito dinheiro para membros da família ou sem fazer uma contabilidade. Isso serve apenas para colocar em risco seu futuro financeiro. Na quarta ou quinta geração você pode passar de quatro pessoas para mais de cem, e isso vai influir na quantidade de dinheiro a ser distribuída a cada indivíduo. Você precisa ser bem explícito em relação ao uso futuro do dinheiro.

O que elas deveriam fazer para estabelecer alguns parâmetros para si mesmas?
Liersch: O ponto de partida natural é: ‘Vou ficar bem?’ Depois você precisa se perguntar: Qual é o resultado que estou buscando? A parte importante é colocar isso no papel e comunicar para cada um da família de uma maneira objetiva. Cerca de 40% dos indivíduos que pesquisamos disseram que nunca é cedo demais para começar as discussões sobe finanças com a família, mas bem poucos fazem isso.

Falar de dinheiro deixa muitos desconfortáveis. Como estruturar a discussão para evitar ressentimentos?
Liersch: O maior erro que as pessoas cometem é confundir discussões sobre patrimônio com o volume de dinheiro que você vai ou não receber. Para as pessoas da segunda geração, há um fardo extremo atrelado ao dinheiro. A frase que mais ouvimos é: ‘Não quero ser aquele que vai estragar tudo’. Para fazer esse patrimônio durar para sempre, você provavelmente vai precisar do trabalho das gerações futuras para que os recursos sejam rentabilizado.

O que ajuda as famílias a conversar sobre dinheiro de uma maneira mais eficiente?
Liersch: Você pode tomar boas decisões nas discussões sem mencionar quantia de dinheiro. Muita gente usa a estrutura ‘poupar, gastar, dividir, investir’. Pense nas doações anuais que se pode fazer sem incorrer na cobrança de impostos. Você pode ter pais que doam US$ 28 mil a cada filho e pedem para eles alocarem esse dinheiro de acordo com essas quatro categorias. Isso pode dar início a uma consciência de diálogo, especialmente no sentido de uma reunião familiar. Então, você pode iniciar um processo de treinamento.

Muito rancor familiar ainda é provocado pela partilha dos bens. Como evitar isso?
Liersch: Você pode pensar nisso em termos de igualdade, mas não pode confundir isso com justiça. Se você tem US$ 10 milhões para dividir entre dois filhos, o que você faz? A chave aqui é que cada família é diferente. Você pode dar a cada filho uma pequena quantia para que eles trabalhem o dinheiro e assim tentar entender seus comportamentos. Talvez você dê US$ 5 milhões a um filho, mas imponha mais parâmetros e restrições. Ou talvez você doe mais dinheiro para um do que para o outro. Eu não chamaria isso de teste – e, sim, apenas de coleta de informações. No momento em que você faz um teste, a coisa se torna intimidadora. Trata-se aqui apenas de observar o comportamento para que você possa se pronunciar sobre ele. Comece o diálogo, porque a colaboração é o segredo. (Tradução de Mario Zamarian)

Produzir bens manufaturados no Brasil custa 23% mais que nos EUA, revela estudo

Por Sergio Lamucci / De Washington
Jornal Valor Econômico
29/04/2014

A indústria brasileira sofreu uma perda substancial de competitividade na fabricação de manufaturados nos últimos dez anos. A alta dos salários e dos preços da energia e a valorização do câmbio aumentaram fortemente os custos de produzir no Brasil, tendência não compensada por ganhos expressivos de produtividade. Em 2014, fabricar manufaturados no país era 23% mais caro do que nos EUA, um salto drástico em relação a 2004, quando o custo da indústria brasileira era 3% menor.

Os dados são de estudo do Boston Consulting Group (BCG). Segundo o relatório, os salários no Brasil mais do que dobraram na última década, período em que o câmbio teve valorização de 20% em relação ao dólar. A produtividade do trabalho, contudo, cresceu apenas 3%. O custo industrial de eletricidade subiu 90% e o do gás natural, cerca de 60%.

“O Brasil perdeu terreno em todas as dimensões”, resume o estudo, que analisa o desempenho dos 25 maiores exportadores, responsáveis pelas vendas de cerca de 90% de manufaturados no mundo. O custo de produzir esses bens no Brasil se iguala ao da Bélgica e da Itália, e é apenas um pouco mais baixo que na França e na Suíça. Na Austrália, o custo é 30% superior ao dos EUA.

No relatório do BCG, o Brasil aparece como um dos países “sob pressão”, ao lado de China, Rússia, Polônia e República Tcheca. O grupo é formado por economias “tradicionalmente de baixo custo”, cuja deterioração da competitividade na última década se deve a um amplo conjunto de fatores, segundo o BCG. Os EUA e o México, por sua vez, são classificados como as “estrelas ascendentes”. O crescimento moderado de salários, ganhos sustentados de produtividade, câmbio estável e vantagens no setor de energia explicam a crescente capacidade desses dois países em competir com os demais.

Ainda é mais barato produzir manufaturados na China do que nos EUA, mas a diferença encolheu nos últimos dez anos, segundo o BCG. Em 2004, o custo de fabricação na China era 14% menor do que nos EUA. Hoje, a diferença é de apenas 4%. Os salários e o preço da energia subiram com força no país asiático nesse período. Ajustados pela produtividade, os custos trabalhistas aumentaram 187%, enquanto os preços do gás natural tiveram alta de 138%. A energia elétrica ficou 66% mais cara.

Os EUA e o México são os países que mostram evolução mais favorável no estudo do BCG. Os salários americanos, por exemplo, subiram 27% de 2004 a 2014, bem abaixo dos 71% registrados pela média dos 25 países analisados. Os preços do gás natural, por sua vez, caíram 25% para os produtores americanos, ao passo que subiram em média 98% para os 25 maiores exportadores. A eletricidade teve alta de 30% nos EUA, variação bem inferior aos 75% da média dos países.

Esses fatores explicam por que muitos analistas falam num renascimento da indústria americana. A chamada revolução do xisto, que tem contribuído para aumentar a produção de gás e petróleo, derrubou os preços do custo de energia, ao passo que os salários estão contidos. No México, a situação também é favorável. Produzir manufaturados no país é 9% mais barato do que nos EUA.

TELMO SCHOELER – IBGC SP

Telmo Schoeler ministra curso no IBGC em SP.
MÓDULO: Finanças Corporativas.
LOCAL: BI Internacional, localizado na Avenida das Nações Unidas, 12.551 – 6º andar – São Paulo/ SP.
DATA: 07/11/2013 das 08h às 17:30h.

Dinheiro para uma revolução

Jornal Valor Econômico
12/07/2013
Por Alexandre Rodrigues | Para o Valor, de São Paulo

 

Em 1999, o americano Shawn Fanning, então um universitário de 18 anos, criou o Napster, serviço que permitia que pessoas trocassem arquivos de músicas entre si, pela internet, em vez de comprar CDs. Acuado por processos judiciais, o Napster durou apenas dois anos, mas seu legado, a tecnologia P2P (“peer to peer”, em inglês, equivalente, basicamente, a cooperação entre pessoas com os mesmos interesses), sobreviveu em outros serviços de “torrent”, como Kazaa, eMule e BitTorrent, que acabaram fazendo da troca de arquivos (músicas, filmes, livros, qualquer coisa) um hábito comum na internet.

Satoshi Nakamoto é candidato ao posto de Fanning. Com o mesmo princípio de troca de arquivos do Napster, sua criação, o bitcoin, é hoje a moeda digital de maior aceitação. Pizzarias nos Estados Unidos, bares na Alemanha e pequenos serviços no Brasil, além de uma infinidade de opções na internet, já recebem o dinheiro eletrônico como forma de pagamento. Um bitcoin chegou a valer US$ 256 (R$ 581) em abril, no auge de uma bolha especulativa.

Há resistências, especialmente por parte de órgãos reguladores americanos, à expansão das transações com moedas virtuais. Mas também há iniciativas com que se pretende validar essa espécie de dinheiro alternativo, como a dos irmãos Cameron e Tyler Winkle – conhecidos por terem processado Mark Zuckerberg, a quem acusam de lhes ter roubado a ideia do Facebook -, que na semana passada deram entrada a pedido de autorização, junto a órgãos reguladores americanos, para criarem um fundo de investimentos lastreado em bitcoins. Calcula-se que eles possuam US$ 11 milhões em bitcoins. E a maior corretora de bitcoins do mundo, a japonesa Mt.Gox, apresentou ao Departamento do Tesouro dos EUA pedido de registro como empresa de serviços financeiros, para submeter-se, assim, à legislação sobre lavagem de dinheiro.

“O bitcoin libera o dinheiro mais do que o Napster liberou a música”, diz o inglês Amir Taaki, de 25 anos, um dos programadores que trabalhou na melhoria do código do bitcoin a convite de Nakamoto. “É uma ferramenta de revolução. As pessoas fazem negócios diretamente umas com as outras, sem impostos ou taxas de bancos.”

Dinheiro digital não é uma novidade. Há dez anos, dólares linden circulam no mundo virtual Second Life. Na China, milhões de pessoas compram no comércio com os QQ coins, do gigante de internet Tencent. No entanto, assim como os créditos do Facebook e alguns programas de pontos, como o dotz, sempre há alguma empresa no controle. A diferença para o bitcon, que Nakamoto criou em 2009, é sua essência anárquica. Não há banco central ou governos envolvidos. O mercado é livre.

Trata-se de códigos, transmitidos diretamente de usuário para usuário. Uma forma de obter bitcoins é participar da sua “mineração”, baixando um software e cedendo processamento do computador para ajudar a decifrar um bloco de códigos. Quem decifra primeiro o enigma recebe um lote de 25 bitcoins (equivalentes a R$ 5 mil, pela cotação média dos últimos 30 dias). Também é possível comprar de outra pessoa ou em corretoras que negociam a moeda virtual.

O dinheiro fica guardado em uma carteira virtual, seja numa corretora ou no próprio computador do usuário. Como as notas em papel, cada bitcoin tem um código que o identifica como verdadeiro. Quando alguém quer vender, negocia direto com o comprador e o bitcoin sai da carteira de um para a do outro assim que o pagamento é confirmado. Cada operação é registrada em um livro-caixa virtual, que é aberto, para evitar fraudes, mas compradores e vendedores permanecem anônimos.

Criar algo assim era o que os “cyberpunks” (algo como punks fãs da criptografia) buscavam nos primeiros anos da internet: um dinheiro virtual confiável, impossível de rastrear, livre para circular em um mundo conectado e sem controle de governos ou taxas bancárias. Nos anos 1990, surgiu o ecash, que até hoje é usado. Houve ainda o bit gold, o b-money e o RPOW. Todas as iniciativas fracassavam, no entanto, em resolver o problema do “duplo gasto”. Se o dinheiro virtual é só um arquivo, como impedir que seja copiado e usado infinitas vezes sem alguém no controle?

Nakamoto surgiu com a solução: uma rede de computadores produzindo bitcoins sem interferência de ninguém e um livro-caixa que elimina a necessidade de uma autoridade: todos podem consultá-lo e saber a situação de cada arquivo negociado. Ninguém havia ouvido falar dele até que, em 2008, publicou numa lista de e-mails sobre criptografia um artigo com os fundamentos do bitcoin. O sobrenome é tão comum no Japão quanto Silva no Brasil. Por isso, ninguém acredita que seja verdadeiro. Nem mesmo seria só uma pessoa e sim a equipe que criou a moeda digital. Ou uma empresa – o Google é sempre citado – interessada numa forma de dinheiro que circule facilmente no mundo todo.

Jornalistas e fãs tentam resolver o mistério. Fóruns sobre o bitcoin interpretam o inglês dos e-mails de Nakamoto em busca de sua nacionalidade.

No caso de ser uma só pessoa, oculta sob pseudônimo, o principal suspeito é Jed McCaleb, criador do serviço de compartilhamento de arquivos eDonkey e ex-dono da corretora japonesa Mt. Gox, que concentra 60% das transações de bitcoins no mundo. McCaleb também é criador do ripple, moeda virtual que muitos consideram uma provável substituta do bitcoin. Outro suspeito, pelas expressões britânicas nos e-mails de Nakamoto, é o irlandês Michael Clear, estudante de ciência da computação do Trinity College, em Dublin. Dois anos atrás, a revista americana “New Yorker” apostou nele.

Um terceiro suspeito, segundo Ted Nelson, criador do termo “hyperlink”, é o professor Shinichi Mochizuki, do Instituto de Pesquisa em Ciências Matemáticas da Universidade de Kyoto, no Japão. Em 2009, Mochizuki, um acadêmico excêntrico que escreve apenas no próprio blog, publicou um artigo, “Curvas elípticas aritméticas na posição geral”, com os pressupostos teóricos que o bitcoin veio provar. Os dois primeiros negam ser Nakamoto. Mochizuki não respondeu aos pedidos de entrevista.

O primeiro lote de bitcoins foi produzido em 11 de janeiro de 2009. Eram necessários 10 mil bitcoins, que hoje valem R$ 2 milhões, para comprar uma pizza pela internet. Desde então, a moeda passou por duas bolhas especulativas, em 2011 e no primeiro trimestre deste ano. Na última, suspeita-se que tudo começou com o boato de que o governo do Chipre iria congelar contas bancárias para conseguir pagar a dívida do país. Houve uma corrida ao bitcoin por europeus, preocupados com a possibilidade de seus governos fazerem o mesmo. Um bitcoin, que valia US$ 10 em janeiro, chegou a US$ 256 em 4 de abril, quando houve o estouro da bolha. Nos últimos três meses, a cotação de um bitcoin se manteve na faixa entre US$ 100 e US$ 120.

A cada dez minutos, um novo lote de bitcoins é distribuído. São 150 (R$ 30 mil) por hora ou 3,6 mil (R$ 720 mil) por dia. No início, qualquer pessoa com um computador comum podia resolver o enigma e ganhar seu lote da moeda. Hoje, o grosso dos novos bitcoins vai para garimpeiros profissionais e sua grandes máquinas – torres de processadores vendidas por até R$ 50 mil – criadas só para a “mineração”. E ainda há a concorrência dos botnets, vírus que fazem computadores trabalharem em rede para ganhar bitcoins.

O planejado é que em 2140 haverá 21 milhões de bitcoins e então a produção cessará. Esse é um aspecto do projeto que empolga economistas. O bitcoin foi criado para ser escasso e imune à inflação. “Não é uma moeda no sentido convencional. É mais como um ativo, como se fosse ouro, uma TV ou qualquer mercadoria”, diz Rodrigo Batista, sócio da Mercado Bitcoin, uma das poucas corretoras no Brasil a negociar o dinheiro digital. “Não há uma garantia no mundo real, como no caso do ouro ou qualquer outro metal. Mas o lastro de todo o dinheiro, não só o virtual, é cada vez mais etéreo”.

“O mais incrível é que funciona”, explica Taaki. “O bitcoin é mais do que dinheiro. É um sistema de contratos.” A ideia é mais ou menos o que sustenta qualquer moeda desde que os Estados Unidos renunciaram ao padrão-ouro, que atrelava o dólar às reservas do metal, em 1971. Dinheiro é um contrato em que todos concordam que vale alguma coisa, sem nenhum lastro senão a garantia – e uma série de regras que combatem a volatilidade e a fraude – dos governos e da sociedade de que o portador de determinada quantia tem direito ao equivalente em mercadorias e serviços. O bitcoin retira os governos da equação. A confiança é entre indivíduos, sem intermediários.

Para Taaki, isso significa “revolução”. Fora atacar o Estado, ele vê na moeda a chance de democratizar o acesso ao dinheiro a países em guerras e conflitos. “O PayPal bloqueia o acesso ao seu sistema em mais de 80 países, porque estão em guerra ou são ditaduras. Nossa meta é incluir as pessoas, não bloqueá-las”, diz Taaki, enfant terrible da causa bitcoin que vem se tornando conhecido pelas declarações incendiárias. Já sugeriu que o bitcoin deixa a lavagem de dinheiro ao alcance dos cidadãos comuns, não só os mais importantes.

Em Kreuzberg, bairro de Berlim, essa utopia chegou ao mundo real. Fãs de tecnologia e ativistas podem pagar a conta com bitcoins em bares como Room 77. Os pagamentos costumam ser feitos via aplicativos de smartphones. Com 0,2 bitcoin, é possível, por exemplo, comprar um hambúrguer chamado Fidel Castro. “Quase todo dia alguém vem ao bar e paga com bitcoins”, diz Joerg Platzer, dono da casa noturna.

Bitcoins também são o que o canadense Taylor More pede em troca de sua casa com vista para as montanhas na província de Alberta. “Minha casa está à venda por bitcoins”, comunicou em um anúncio na internet. Ele pede 5.362 bitcoins (algo como R$ 10,6 milhões, pela cotação média do bitcoin nos últimos 30 dias). “Espero que seja o primeiro imóvel vendido com bitcoins. Isso talvez ajude a moeda a ser mais aceita”, diz More.

Em abril, um americano, morador do Texas, vendeu seu Porsche por 300 bitcoins (R$ 60 mil). No início do mês, foi a vez de um casal de americanos pagar com a moeda a clínica que congelou seus embriões.

Além de Satoshi Nakamoto, que, especula-se, possui US$ 300 milhões em bitcoins, outros nomes têm-se se destacado no mercado da moeda virtual, nos últimos tempos, com apostas de vulto em suas perspectivas. É o caso dos irmãos Cameron e Tyler Winklevoss, com seus presumidos US$ 11 milhões em bitcoins, adquiridos quando cada unidade valia US$ 7. Pretendem agora criar um fundo de investimentos lastreado em bitcoins, para venda de cotas de participação. Peter Thiel, co-fundador do PayPal, lidera um grupo de investidores que pôs dinheiro no BitPay, serviço de pagamentos em bitcoins.

Essa investida de grandes interesses no mercado de bitcoins, que já vale US$ 1,3 bilhão, segundo estimativas, desafia sua essência anarquista. “Se poucas pessoas controlarem a maior parte dos bitcoins, isso tiraria da moeda [provavelmente supervalorizada e submetida a circulação restrita] a liberdade de oscilar”, diz Batista, da Mercado Bitcoin. Seria o contrário do que se espera do dinheiro.”

Se a maioria das pessoas pode ver tudo isso como um experimento econômico interessante ou ficção científica, para os governos é perturbador. Quando os Estados Unidos tentaram fechar o site Wikileaks, após o vazamento de informações sobre a guerra no Iraque, em 2010, e os bancos e empresas de cartões de crédito aceitaram não repassar dinheiro para Julian Assange, doações em bitcoins permitiram a sobrevivência do site. Grupos de hackers como o LulzSec, que vaza informações de governos, bancos e corporações, também se financiam com bitcoins.

Numa situação-limite, o bitcoin põe em xeque a capacidade de Estados se financiarem. Sem o controle do dinheiro, não há como cobrar impostos. Ou fazer guerras. E também não há como oferecer serviços. A reação, nos Estados Unidos, é ver o bitcoin como uma ameaça. O FBI cita o risco de a moeda ser usada na lavagem de dinheiro. No Silk Road, um mercado on-line situado na “deep web” – endereços na internet que não aparecem nas buscas de serviços como o Google -, drogas são negociadas livremente. Os preços estão em bitcoin e as transações são anônimas. Bitcoins também são a forma de pagamento mais aceita nos sites que oferecem todo tipo de crimes: de senhas roubadas do PayPal a assassinatos por encomenda.

“As redes internacionais estão infestadas de hackers e crackers e, assim como no mercado futuro de derivativos ou na área de saúde hospitalar, há ‘lixo tóxico’ no sistema”, explica o professor Gilson Schwartz, da Escola de Comunicação e Artes da USP. Em sua opinião, governos deveriam combater os crimes sem combater o bitcoin, cujo caráter libertário elogia.

É o sinal dado pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC), dos EUA, que estuda aplicar regras ao bitcoin. Mesmo que um integrante da comissão tenha chamado a moeda de “dinheiro das sombras”, a regulação seria uma forma de reconhecimento da importância do dinheiro digital e afastaria parte dos criminosos.

Ainda não se falou nos ladrões. Ataques a serviços de armazenamento de carteiras virtuais aumentam no ritmo da valorização dos bitcoins. Vírus, se instalados no computador, roubam as carteiras virtuais, transferindo-as para outras pessoas, que permanecem anônimas. É possível acompanhar essas transações, mas a identidade dos ladrões permanece desconhecida.

“Quando você tem uma moeda altamente valiosa, completamente virtual e impossível de rastrear, naturalmente haverá roubos”, admite Mikko Hypponen, pesquisador-chefe da empresa F-Secure e especialista em segurança na internet. “Se eu roubo uma carteira de bitcoins, não há maneira de o dono recuperar seu dinheiro. É como roubar dinheiro vivo.” As falhas de segurança, ele acredita, acabarão resolvidas. O importante é que o código bitcoin em si até hoje não foi quebrado. “Minha aposta é de que as criptomoedas serão um sucesso”.

No fim de março, o Mercado Bitcoin, principal serviço brasileiro de armazenamento de bitcoins, registrou o primeiro roubo no país. A empresa, que conta com cerca de 2 mil clientes, só voltou a operar em 7 de junho. Garantiu a devolução dos bitcoins a seus donos e anunciou a entrada de novos sócios no negócio. Em geral, as corretoras devolvem apenas uma parte do dinheiro roubado.

Mesmo o anonimato das transações não é totalmente garantido. Em 2011, investigando um roubo de 25 mil bitcoins, Fergal Reid e Martin Harrigan, pesquisadores da Universidade College Dublin, cruzaram dados e descobriram o ladrão. Reid e Harrigan mapearam redes de usuários e de transações e, usando outras informações, como doações feitas em bitcoins a um grupo anarquista e ao site Wikileaks, descobriram que tanto o ladrão como a vítima faziam parte do mesmo fórum. “O bitcoin não é inerentemente anônimo. É possível fazer transações de modo a esconder identidades, mas em muitos casos usuários e suas transações podem ser identificados”, garante Reid.

Recentemente, o investidor Warren Buffet disse que não poria um centavo de sua fortuna na moeda. Paul Krugman, ganhador do Nobel de Economia, assegura que o furor em torno do bitcoin serviu de lição sobre como as pessoas têm concepções equivocadas em relação ao dinheiro. “Em especial, sobre como se deixam enganar devido a seu desejo de divorciar o valor do dinheiro da sociedade à qual o dinheiro serve”, escreveu em sua coluna no “New York Times”.

Mesmo que venha a durar, o bitcoin pode simplesmente ser substituído por uma versão mais avançada. Ideias não faltam. Moedas como a litecoin e o ripple, criadas a partir do código bitcoin, resolvem alguns problemas, como a quantidade limitada da moeda. Mas até os críticos reconhecem: o bitcoin valer algo já é um sucesso.

A LUA DE MEL ACABOU

Por Telmo Schoeler
10/07/2013

 

Diante do cenário brasileiro, que tem trazido enormes dificuldades às organizações e pessoas produtivas, é preciso falar sobre as causas desse quadro e a Governança desta empresa chamada Brasil. Não vou me referir à política, mas apenas à gestão, ou seja, ao único fator capaz de dar sustentabilidade a qualquer organização, não importe se focada em lucro, controlada pelo Estado ou mesmo enquadrar-se na ilusória categoria de “entidade sem fins lucrativos”. Digo ilusória, pois nada existe sem dinheiro, dinheiro sempre é oneroso – não importando quem o pague – e, portanto, seu uso requer imperiosa eficiência, o que significa gerar um resultado maior do que seu custo. O que pode variar é a destinação que se dá a esse resultado: numa empresa privada será reinvestido ou distribuído aos acionistas e colaboradores; numa escola, hospital, creche, etc será investido na ampliação, melhoria operacional, capacitação funcional, etc; em nível de Governo, o resultado deveria servir para investimentos necessários aos cidadãos (não aos partidos e políticos), melhoria de qualidade daqueles serviços que necessariamente precisam ser públicos ou, na inexistência dessa necessidade, para redução de carga tributária e desoneração dos cidadãos consumidores.

Assim como uma regra de organização diz que todo espaço disponível cria sua própria utilização (… experimente colocar um armário vazio na sua garagem…), uma regra financeira estabelece que toda disponibilidade de dinheiro cria sua própria destinação, por mais ridícula e desnecessária que seja. Para ser claro, salvo se houver um planejamento estratégico de investimentos realmente relevantes e lógicos, de interesse do cidadão, não dá para deixar dinheiro na mão do Governo: com certeza irá para o lugar errado… e o Governo sempre quererá mais!

Fazendo uma comparação com as regras de Governança da vida empresarial, nosso cenário é trágico. Na vida real, um Conselho e uma Diretoria, só se mantém se 1) trouxerem resultado e valor aos acionistas e 2) agirem dentro dos princípios internacionais de Governança, quais sejam, transparência, equidade, prestação de contas e responsabilidade corporativa. Nessa linha, concretamente, a era PT não tem produzido resultados. O crescimento do País nos dois períodos de Lula decorreram do somatório de fatores alheios à sua vontade e deliberação e que jamais se repetirão, ou seja, seriam os mesmos sob a batuta de Jânio Quadros, Margareth Tatcher, Juscelino ou Ernesto Geisel: um crescimento estratosférico da demanda e preços de commodities; um foco de investidores internacionais sobre países emergentes por inexistência (momentânea) de boas oportunidades em países desenvolvidos, especialmente os USA; a existência de capacidade ociosa no Brasil, permitindo atendimento de demanda com baixo reflexo nos preços, ou seja, com baixa pressão inflacionária.

Diante disso, o que vem fazendo o (des)Governo? Interferência para aumentar salários sempre em termos reais, inobstante qualquer cenário real; aumento da carga tributária; uso da expansão de receita para expandir os quadros de funcionalismo público de que não precisamos; criação de novas e desnecessárias empresas e estruturas estatais e distribuição de benesses e favores sob a forma de “bolsas” de toda a sorte. Bom para o PT e para poucos e ruim para todos, como seria, por exemplo, reformar o ginásio de esportes de uma empresa em recuperação que não está pagando seus credores e acionistas. Investir em infraestrutura e capacidade, nem pensar! Claro, muitos discursos, planos e intenções, mas disto sabemos que o inferno está cheio.

Tudo tem sido marketing puro e, pior, baseado em inverdades: mentira que… “nunca antes na história deste país”…; mentira que a crise mundial de 2008 era uma “marolinha”; ilusório anunciar a dizimação da dívida externa sem mostrar que ela foi substituída por dívida interna (mais ou menos como anunciar que quitamos o carnê do carro na financeira sem dizer que o substituímos por um “papagaio” no banco…); absoluta parcialidade alardear um crescimento do País quando, há uma década, a indústria – verdadeira base de desenvolvimento de qualquer nação (vide USA, Alemanha, Suécia, Japão, etc) – vem sendo sucateada, uma deterioração escamoteada por uma balança comercial e de pagamentos positiva, mas sem uma sólida e realista sustentação; mentira falar de um “PAC” para o qual não existe o dinheiro ou um “pré-sal” cuja tecnologia e viabilidade são sabidamente questionáveis para quem analisa o tema sem segundos interesses; pura pirotecnia falar de novos programas que nada mais são do que re-embalagens de outros que já eram ilusórios e não conseguiram ser entregues. Ilusão mentirosa de que somos o melhor País do mundo, a melhor opção de investimento, o “ó do borogodó”.

Transparência? Inexistente. Equidade? Onde? Se apenas a máquina pública, o governo, o partido e os amigos tem sido beneficiados. Prestação de contas? Como? Se quando a foto dos números é ruim, o Governo recorre a casuísmos e expedientes de “fotoshop” para maquiar a realidade. Responsabilidade Corporativa? Se houvesse, teríamos foco no futuro e nas verdadeiras necessidades dos cidadãos deste País e não nos meros interesses partidários e de poder.

Como professor e estrategista em finanças sempre digo que tudo o que fazemos representa uma fatura que se emite contra o futuro. Se nossas ações forem corretas, teremos produzido resultados capazes de pagá-la quando for apresentada. Caso contrário, só poderão ser colocadas “no prego” (como os precatórios), quitadas com nova promissória e uma dívida aumentada no tempo ou, então, simplesmente transformada em calote, no estilo adorado por republiquetas latino-americanas.

Todas essas irresponsabilidades se fossem na esfera privada já teriam há muito determinado a exoneração do Conselho, do Presidente e da Diretoria. Na esfera pública isto não ocorreu especialmente pelo modelo político-partidário e de governo que temos: uma ditadura executiva à qual todos os poderes se submetem e cujos órgãos de auditoria e controle são irrelevantes. Bem nos moldes do antigo modelo empresarial da ditadura do CEO que comandava o próprio Conselho e escolhia e contratava a empresa de auditoria externa. E totalmente à revelia de todos os princípios de Governança hoje pregados e praticados no mundo civilizado.

Acho que é isto que os sócios – ops, os cidadãos pagadores das contas – estão nas ruas para pedir. E o fazem porque temos agora um mundo econômico REAL onde o preço das commodities está caindo para seu patamar normal; onde alguns países que seriam grandes mercados como a China, certos europeus, etc., estão com o pé no freio ou até andando para trás, impedindo que empresas possam aproveitar adequadamente um câmbio que a lei de mercado finalmente tornou mais realista e favorável para exportar; mas onde, concomitantemente, o real desvalorizado encarece importações imprescindíveis, aumenta custos e pressiona a inflação; onde a renda já comprometida e o endividamento da população impedem a continuação do crescimento do consumo; onde, por consequência, o PIB não crescerá nem 2% ao ano (quando seria necessário mais do que o dobro disso) e a atividade industrial está em queda; onde até os teoricamente favorecidos por custos em real e receitas em dólar não o são por estarem endividados nessa moeda gerando extrapolação de despesas financeiras; onde a locomotiva USA – que as esquerdas adorariam e quereriam morta – está crescendo, atraindo dinheiro e investimentos, acarretando subida de taxas, esvaziamento de outras opções e queda de Bolsas por esse mundo afora. Por tudo isso, o risco Brasil está crescendo e a rolagem de dívidas será internacionalmente mais difícil e cara. Alguns investidores ainda olham para cá, porque ainda respiramos e não vamos morrer, mas, definitivamente, deixamos de ser a economia queridinha do mercado.

O pano do palco caiu e a lua de mel acabou. Como sempre deveria ter sido, será preciso governar, gerir, administrar com capacidade e realismo, coisa que este partido no poder jamais soube e nem consegue fazer. Está mais do que demonstrado que na vida resultados dependem e só se sustentam com ações corretas, não apenas com discurso, marketing, futebol, samba e orgia. Não surpreende que Lula afirme que não é candidato em 2014, pois ele sabe que não tem como segurar um rojão desses e nem sabe como fazê-lo…(que falta faz o estudo numa hora dessas, hein?) A camada de teflon que o cobria e pela qual nada grudava saiu. Também se deu conta de que desapareceu a alternativa do mote de campanha ser de culpar o “governo anterior”. Se não posso culpar o anterior, culpo a quem? Como diz o ditado popular, uma sinuca de bico! Por isso, a lua de mel acabou, ou caberia o trocadilho de que a “Lula de mel acabou”? Só torço para que os eleitores acionistas deste Brasil S.A. se deem conta de que na vida não há prêmios nem castigos, apenas consequências.

A jornada do valor

A maioria dos empresários, conselheiros e mesmo executivos tem uma ideia distorcida ou pelo menos parcial do conceito de criação de valor. Para todos é fácil entender a importância e vantagem de uma companhia valorizada: tem maior poder de barganha negocial em todos os níveis e para qualquer efeito, maior acesso a crédito em condições mais vantajosas, maior capacidade de atrair investidores e colaboradores, e assim por diante.

por TELMO SCHOELER
Revista RI – Nº 174 Jun |Jul 3013.

Poucos, entretanto, percebem a verdadeira extensão do tema e as suas bases de sustentação. Nas empresas de capital aberto o valor está retratado pelo preço das ações no mercado. Nas de capital fechado, isto só é realmente quantificável no momento de vender a companhia ou parte dela. Vantagem levam as de capital aberto, pois a qualquer instante sabem o que o mercado está pensando. A questão é muito mais intrigante e desafiante nas empresas fechadas quando a descoberta do seu valor (ou a falta dele) poderá ocorrer muito tarde, quando ninguém se interessar em ser seu investidor e ao atual proprietário só restar uma história e uma saudade.

Valor é uma variável mercadológica e, como tal, função de percepção. Decorre de aspectos etéreos como imagem, atração, prestígio, simpatia, satisfação, etc, ou seja, muito mais mentais e emocionais do que econômicos. Claro que existe um ingrediente financeiro e que fatores econômicos concretos e facilmente mesuráveis como lucro, EBITDA, produtividade, market share e outros contribuem e influenciam a percepção, mas eles não são “o” valor.

Na realidade, o verdadeiro valor é e deve ser o resultado de um foco tripartite: acionistas + consumidores + pessoas. Acionistas insatisfeitos deixarão a empresa à deriva, por ausência ou desleixo decisório e falta de suporte de capital. Consumidores desinteressados esquecerão o produto ou estarão dispostos a pagar por ele menos do que o preço que sustenta a viabilidade do negócio. A dimensão “pessoas” é a mais complexa, por ter dois componentes, um interno e outro externo. No interno estão colaboradores percebidos pela retenção, carreira, satisfação, motivação, dedicação, força de equipe. No externo está, em lato sensu, toda a sociedade e, por extensão, todo o meio ambiente.

Este conceito holístico de valor, que extrapola em muito a estreita visão econômico-financeira dos apaixonados pelo EBITDA, requer que a empresa seja gerida com olho nos seus ativos, atividades e processos, sob inspiração de macro estratégia balizadora cuja operacionalização deveria seguir a sequência:

1) Crie a imperatividade de “valor”.
2) Identifique os fatores-chave para sua criação.
3) Desenvolva estratégias que criem valor.
4) Integre medidas de performance que retratem isso.
5) Alinhe sistemas de incentivo ao conceito de valor.

As verdadeiras empresas de sucesso, objeto de desejo de toda a cadeia econômica (acionistas – fornecedores – colaboradores – clientes – sociedade) seguem esta jornada de valor. Por isso, não por mágica ou sorte, são empresas de valor.

“Nosso freio de mão está puxado”

Manicômio tributário
Por Paulo Rabello de Castro
Publicado no Jornal O Globo em 13/06/2013

A tributação brasileira se tornou explosiva. A carga tributária dá saltos, ano após ano: de 26% do PIB por volta de 1994 a quase 38% hoje. Impostos sobre impostos criam improdutividade e burocracia, freios terríveis ao crescimento. Poucos segmentos, como a agricultura – menos onerada diretamente – se safam. A indústria murchou. O Brasil não vai melhorar enquanto não pusermos o dedo na causa da estagnação produtiva. Nosso freio de mão está puxado.

O ministro da Fazenda promete uma reação em breve. Não virá. Nem pode vir, senão por uma completa simplificação do atual manicômio tributário. O mercado erra mais do que o ministro quando o culpa por frustrar o crescimento esperado. Não há qualquer chance de se crescer mais rápido. A produtividade geral está zerada pela carga tributária descomunal. Foi só muita sorte que tivemos nos anos de Lula, pelos altos preços de commodities. Vários países, Austrália, Canadá, Chile e Peru, por exemplo, todos exportadores de produtos primários, se deram bem também. Entre eles, o Brasil foi dos que tiveram crescimento mais fraco. Aqui, só o consumo avançou com força. Junto com o endividamento geral da massa consumidora.

A capa da revista “Economist” colocou o Cristo Redentor decolando do Corcovado. Imagem equivocada. Nada havia mudado no modelo de alto desperdício e baixo investimento brasileiro que justificasse melhor expectativa sobre a economia no Brasil. Nossa capacidade de colocar investimentos para rodar está e esteve prejudicada. O Estado, obeso e perdulário, gasta na frente e sai cobrando o que pode em impostos. As empresas não investem e as famílias não poupam porque já são tosadas na recepção da sua renda por impostos malucos. Se você é da classe média, provavelmente deixa mais de 50% da sua renda familiar para o governo, entre o que é tributado no recebimento do salário e os impostos escondidos nos preços das mercadorias. O governo fica com o dinheiro, mas não o investe; vira gasto de consumo. Portanto, é impossível a taxa de investimento andar além dos 20% do PIB.

Na raiz de tudo, está a maldita carga tributária, agravada pelos impostos em cascata, que oneram até o ato de estar em dia com o Fisco. Viramos um país sonhador e lamentável. Sonhamos com um desempenho na economia descolado inteiramente da nossa estupidez tributária e do desperdício estatal que a acompanha. E somos lamentáveis por não distinguirmos entre entraves seculares, como educação, saúde, e mesmo infraestrutura, que sempre foram problemas, e a grande razão operacional e direta da estagnação brasileira: a tributação burra e o gasto público descontrolado.

Felizmente, isso tudo tem conserto. Como teve a inflação. Quando paramos de insistir no diagnóstico equivocado, fizemos um gol, o Plano Real. Agora podemos fazer outro, maior ainda, o Plano Real dos impostos. O ministro da Fazenda tem o esboço desse plano em suas mãos. Mas precisa de apoio da opinião pública. E de mais suporte de quem ainda pensa.

Marte e Vênus, a divisão de gêneros nos investimentos

Jornal Valor Econômico
14/03/2013
Por Norma Cohen e Jonathan Eley | Do Financial Times

Desde a quebra do Lehman Brothers em setembro de 2008, houve diversos comentários – mais notadamente da vice-líder do Partido Trabalhista [britânico], Harriet Harman – de que o colapso catastrófico poderia ter sido evitado se o banco tivesse o nome de Lehman Sisters (irmãs, em vez de irmãos, Lehman, em inglês). Os acadêmicos há muito tentam avaliar se as mulheres são melhores gestoras e investidoras, na esteira dos pedidos por maior diversidade nos conselhos de administração das empresas. O veredicto ainda não saiu.

De qualquer forma, no que se refere a investir, ainda é interessante observar se os investidores fazem escolhas diferentes das investidoras; em particular, se as mulheres carecem de confiança em sua própria capacidade e, portanto, se são mais inclinadas a ter aversão a aplicações arriscadas do que os homens em circunstâncias financeiras similares.

Certamente, há pesquisas sugerindo que os homens são mais confiantes e inclinados a assumir riscos maiores. Por exemplo, a pesquisa “Comportamentos e Experiência Financeira entre as Mulheres”, da americana Prudencial, feita em 2012 e 2013, segundo a qual mesmo entre as mulheres que sustentam a casa, apenas 20% se descreveram como “muito bem preparadas” para tomar decisões financeiras, sendo que no caso dos homens a fatia foi de 38%.

Também constatou que, embora 40% dos homens tenham dito que “gostam de praticar o esporte dos investimentos”, apenas 22% das mulheres pensam do mesmo modo. E 70% das mulheres se descreveram como “poupadoras”, em vez de “investidoras”, em comparação a 60% dos homens.

Há evidências, mesmo fora do mundo dos investimentos, de que os homens assumem riscos evitados pelas mulheres.

No que diz respeito ao comportamento de investimentos indiscutivelmente mais arriscados – as apostas em spreads – os homens superam em muito as mulheres, segundo o IG Index, a maior firma do setor no Reino Unido. Dos aproximadamente 92.000 clientes ativos registrados na companhia, menos de 10% são mulheres, segundo David Jones do IG Index. Ele disse que, ao se olhar para aqueles clientes que também negociam com outros instrumentos de risco elevado – aqueles que envolvem derivativos ou opções, por exemplo – vê-se que quase todos são homens. “Nesses investimentos, a proporção de homens sobre as mulheres é sempre de 9 por 1.”

Até fora do mundo dos investimentos há sinais claros de que os homens assumem riscos evitados pelas mulheres. Uma evidência é a taxa de mortalidade de jovens no fim a adolescência e início da faixa dos 20 anos, em que os riscos assumidos pelos homens deram origem ao termo conhecido entre os estatísticos como “mortes de teor hormonal”. Isto é, a testosterona encoraja os homens a se arriscarem mais. Em 2011, por exemplo, foram registradas na Inglaterra e no País de Gales 192 mortes de homens com 20 anos de idade, em comparação a 67 de mulheres.

“Há três coisas associadas à testosterona”, diz Emily Haisley da equipe de finanças comportamentais da Barclays Wealth. “A massa muscular, a perda de cabelo e a confiança.” Destas, a confiança é a que responde pela vontade de se assumir mais riscos.

Lesley Mackintosh, que administra uma firma de consultoria financeira em Edimburgo, a Independent Women, e que é consultora financeira há 20 anos, diz que baseado em indícios esporádicos as mulheres são investidoras mais cautelosas. “Sem dúvida, os homens arriscam mais.”

No entanto, quanto perguntada o por que, ela diz: “Mais da metade de nossos clientes é formada por mulheres separadas ou divorciadas. Eles chegam até nós e perguntam ‘como faço para proteger minha família, meus ativos?’”. A soma total que elas têm para investir é sempre resultado de um acordo de separação.

Tais circunstâncias podem ser a razão da aversão ao risco por parte de muitas mulheres investidoras. Jones, da IG Index, concorda. A melhor idade para diversificar as apostas, diz ele, é entre os 35 e os 45 anos, um período em que os salários tendem a atingir o pico para os que trabalham no setor privado. É também o ponto em que muitas mulheres estão fora do mercado de trabalho, cuidando dos filhos em casa. Dados oficiais mostram que cerca de um quinto de todas as mulheres com idades entre 35 e 49 anos são economicamente inativas, em comparação a apenas 7,5% dos homens. E as mulheres geralmente trabalham mais em meio período.

As decisões de investimento das mulheres também podem ser afetadas pelo tipo de orientação que recebem. Um estudo publicado em 2012, pelo Birô Nacional de Pesquisas Econômicas dos EUA, descobriu que muitos dos consultores pesquisados oferecem assessoria adequada à sua própria renda e não à da clientela. Também descobriu que as mulheres têm menor probabilidade de serem incentivadas a investir em contas de gestão ativa e 40% maior probabilidade do que os homens de serem informadas de que os consultores não fariam nenhuma recomendação sobre estratégias de investimento até que a carteira do cliente fosse colocada sob sua gestão. “É concebível que esse comportamento pode ser baseado na percepção de que as mulheres são mais dóceis ou crédulas”, observou o relatório.

Pode não ser surpreendente que as pesquisas envolvendo mulheres ricas repetidamente as detectem como insatisfeitas com sua assessoria financeira, segundo o Haisley Barclays. “O único setor com maior nível de insatisfação é o automobilístico.”

Haisley acrescentou que “os próprios estudos envolvendo as contas de seus clientes no Barclays detectam diferenças entre as maneiras como homens e mulheres investem. Mas quando esses estudos segmentam os perfis analisados levando em conta variáveis como idade, dimensão da carteira e estado civil, as diferenças são muito menos pronunciadas.

E elas nem sempre resultam em desvantagem para as mulheres. Por exemplo, homens solteiros renovam anualmente o conteúdo de suas carteiras de investimentos a uma taxa 50% maior do que as mulheres solteiras. Isso, diz Haisley, resulta em retornos em média 1,5 ponto percentual inferiores.

O Barclays tem um sistema que lhe permite atribuir uma “personalidade financeira” a seus investidores, e quando examinou o tipo de atividade profissional dos clientes encontrou diferenças ainda menores entre homens e mulheres. “Quanto maior a experiência financeira de uma pessoa, mais riscos está disposta a assumir. Quando examinamos [comportamentos] em nível [de conhecimento] elevado, a diferença [entre os sexos] diminui”, disse Haisley.

Para profissionais financeiros, diz ela, o diferencial de investimentos entre homens e mulheres diminui drasticamente e se dissipa até um nível “pequeno, mas ainda estatisticamente significativo”. E quando se trata de pessoas que atuam em “trading” financeiro, a mais arriscada de todas as atividades financeiras, a diferença é muitíssimo pequena.

Cautela – Sarah Brummitt certamente concorda que as mulheres são menos impulsivas em relação aos investimentos do que os homens. “Somos, sem dúvida, cautelosas, e eu acho que isso é uma coisa boa”, diz a treinadora de executivos que dirige a Blue Chip Stockings, um clube de investimento só para mulheres, que se reúne cerca de seis vezes por ano em Londres. “Temos diferentes demandas na vida que precisamos administrar fazendo verdadeiros malabarismos. Nós não queríamos que isso se tornasse mais uma demanda.”

O clube foi fundado em 2003 – ano em que o mercado de ações bateu no fundo do poço – e tem 11 membros com idades entre vinte e poucos anos e sessenta. “Nós nunca tivemos nenhum membro do sexo masculino”, acrescenta Brummitt. “Acho que o valor de um grupo só de mulheres está em que queremos um ambiente sociável e amistoso para nos encontrarmos, aprendermos e nos divertirmos. Não é (um ambiente) competitivo.” O grupo inclui um número de contadoras e empreendedoras, as reuniões acontecem segundo uma agenda e a contabilidade é mantida atualizada. O clube não está no vermelho. A seleção de ações é uma atividade colaborativa; todas as ideias são consideradas, mesmo que não sejam postas em prática.

No portfólio corrente está o grupo Burberry, do setor de artigos de luxo, a varejista online Asos – um grande sucesso -; a Dialight, empresa de iluminação com tecnologia de LEDs; e a Experian, empresa de serviços de apoio.

Brummitt passou a interessar-se em investir quando tinha perto de trinta anos. “Eu me dei conta de que tinha uma pensão e uma poupança, mas não estava maximizando totalmente a oportunidade de ganhar dinheiro.” (Tradução de Sergio Blum, Sabino Ahumada e Mario Zamarian)

A economia mais criativa do mundo

Jornal Valor Econômico
18/01/2013
Por Martin C. Wittig

Há pouco tempo, em Detroit, uma caminhonete caiu num pequeno declive da estrada e foi engolida por um grande buraco cheio de água. O piso da estrada cedeu depois do colapso de uma antiga tubulação de água e esgoto, e os passageiros do carro, uma mulher, sua filha e sua neta, foram salvos por transeuntes. O carro, coberto de lama, era um símbolo do estado vulnerável da nação.

Quem nasceu nos Estados Unidos no período pós-guerra passou a infância rodeado por produtos e em uma cultura que o mundo inteiro desejava. Mais tarde, viu os computadores de grande porte serem feitos por uma empresa chamada IBM, que começava a dominar o mercado mundial. A pessoa que nasceu em 1955 cresceu convencida de que era o século da América – e aquele século terminou com o triunfo do capitalismo sobre o comunismo soviético. Por outro lado, aqueles que nasceram depois da Guerra Fria, por volta de 1995, tinham seis anos quando as torres gêmeas desabaram. Além disso, viram milhares de soldados no Iraque e no Afeganistão, leram sobre o colapso do setor imobiliário e, depois, do sistema bancário.

A General Motors, que já foi a maior montadora de automóveis do mundo, entrou em colapso e foi nacionalizada. O orçamento, que já apresentava um grande déficit, explodiu, e o desemprego aumentou a níveis europeus. Na América, os computadores, individuais, onde as famílias fazem a lição de casa, foram feitos na China, e o smartphone foi projetado na Califórnia, mas montado na China, embora pelo menos o sistema operacional tenha sido feito pelo Google ou pela Apple. No entanto, ainda não é possível usar o celular no carro, porque as chamadas caem o tempo todo: mais uma evidência da decadência da infraestrutura naquele país.

Claramente, a América não é um bom lugar no momento, mas vai se recuperar, como fez tantas vezes no passado, por três razões. Em primeiro lugar, há a prevalência intelectual e digital. Os Estados Unidos ainda são a nação mais inteligente e inovadora da terra. Ganham mais prêmios Nobel e registram mais patentes do que qualquer outro país. Os rankings internacionais de universidades são dominados por instituições americanas de elite, que lideram o mundo em pesquisas e ensino, e atraem focos tecnológicos em escala inigualável com qualquer outro lugar do planeta. A megatendência mais importante dos próximos anos será a digitalização, e a internet é dominada pela América e por empresas americanas, como Google, Facebook, Amazon, eBay e Zynga. Os próximos marcos digitais serão o data matching, business analytics e cloud computing (cruzamento e correlação de dados, analíticas de negócios e computação em nuvem), todos dominados por empresas americanas que vão gerar muito valor agregado.

Outro ponto é que os Estados Unidos voltarão a fazer as coisas. Obviamente, a China continuará a se aproveitar de suas forças como bancada de trabalho da economia globalizada, mas a virada da produção para a Ásia está perto de atingir seu pico. A indústria automobilística americana está se recuperando, e as fábricas de empresas estrangeiras nos EUA apresentam taxas de crescimento impressionantes. Além disso, a indústria aeronáutica está cheia de pedidos, e as tecnologias do futuro – com aplicações em diversos setores como turbinas eólicas, centrais elétricas de energia solar e baterias para veículos elétricos – podem muito bem evitar a rota de terceirização para o exterior. Fica cada vez mais claro que, agora, o mundo é uniforme, e isto significa que as diferenças salariais estão desaparecendo. As tradicionais vantagens geográficas, tais como a proximidade das instalações de desenvolvimento, produção e marketing, passam a ter uma nova importância.

Por último, destacam-se as forças demográficas. A população da Europa está envelhecendo, e a bomba-relógio demográfica da política de filho único da China vai explodir nas duas próximas décadas. Até 2050, de acordo com estimativas da ONU, os Estados Unidos terão uma população superior a 400 milhões, dos quais 25% terão mais de 60 anos. Na China, mais de 30% da população terá idade acima desta faixa. Os americanos têm mais filhos do que o restante do mundo industrializado, e o país ainda atrai pessoas jovens e ambiciosas, vindas de todas as partes do mundo. A América tem o espaço e a mente aberta para oferecer um futuro a essas pessoas.

Nos dois lados do Atlântico, a crise está afetando três áreas principais: a dívida, as classes médias e as lideranças. As crises unem as pessoas, criam caráter e forçam indivíduos e grupos para uma autoanálise radical. A Europa não vai falir, mas os Estados Unidos estão em posição melhor para conseguir uma recuperação política e econômica. Nas últimas quatro décadas, o país contribuiu consistentemente com cerca de 27% da produção global, enquanto a parcela da Europa caiu 9%.
No futuro não muito distante, provavelmente em 2015, a China vai se tornar a maior economia do mundo. Mas, e daí? A economia global é um modelo de crescimento, não um jogo de soma zero. Uma China próspera é boa para a economia mundial e, cedo ou tarde, a China terá que resolver a contradição entre uma economia aberta e um sistema político fechado.

Depois da batalha da eleição presidencial americana há sinais de que o congresso finalmente poderá chegar a um consenso apartidário sobre assuntos fundamentais, como o investimento pesado na restauração da infraestrutura nos próximos anos, para que nenhuma outra caminhonete caia em buracos de estradas e o “hardware” do país volte a ser tão bom quanto seu “software”. E não estou falando de programas de computadores: falo de pessoas de todas as partes do planeta, que fizeram da América a economia mais criativa do mundo. Criatividade é a capacidade de fazer coisas novas. Os americanos estão prontos para se reinventar, como fizeram muitas vezes no passado, e vão emergir fortalecidos pela crise atual.

O valor do comportamento

09/07/2012 às 00h00
Jornal Valor Econômico
Por Alessandra Bellotto | De São Paulo

Depois de uma longa viagem, você finalmente chega ao destino que tanto sonhou conhecer. Mas antes de sair desfrutando as maravilhas do local, sai em busca de um lugar para comer e se depara com dois restaurantes na praça central da cidade, um cheio e outro vazio. Sem falar a língua do país, opta pelo restaurante que tem mais gente, pois supõe que as pessoas que estão lá têm informações sobre a qualidade da comida ou limpeza do lugar, certo?

Com alguma adaptação, o exemplo é usado pelo gestor de recursos Marcelo Sá Earp, sócio da First Value Capital, para ilustrar como tendemos a usar análises simples na hora de tomar decisões. Afinal, é mais seguro e confortável seguir o grupo. No mundo dos investimentos, no entanto, essa é uma das regras de bolso que devem ser evitadas, diz ele – e explica: o fato de todos recomendarem uma ação pode ser um sinal de que o ativo está superavaliado.

Para os estudiosos das finanças comportamentais (que incorporam conceitos da psicologia e sociologia para explicar as decisões econômicas dos indivíduos), se muitos investidores migram para ações da empresa “perfeita”, ainda que o retorno esperado pareça alto, o fato de haver maior probabilidade de os bons fundamentos estarem incorporados nos preços faz com que o risco de queda dos papéis tenda a ser maior que o ganho potencial. “Empresas boas não necessariamente são bons investimentos, tudo depende do preço”, alerta Earp.

Earp integra um grupo de gestoras brasileiras que começam a adotar algo já comum nos Estados Unidos: o uso de conceitos e modelos de finanças comportamentais na hora de escolher ativos. Além da First Value, outra que faz parte desse time é a gestora carioca Behavior Capital Management (veja mais abaixo).

Fugir de padrões de comportamento, como os “movimentos de manada”, contudo, não é nada trivial, como diria o precursor da estratégia conhecida como “value investing” ou “investimento em valor”, Benjamin Graham. Segundo ele, “até o investidor inteligente provavelmente precisa de uma força de vontade considerável para não seguir a multidão”.

Mas são essas ineficiências que fazem o investimento em valor funcionar, acredita Earp. Como a estratégia vai na contramão e caracteriza-se pela compra de empresas com bons fundamentos que estejam fora de moda, esquecidas e, portanto, baratas, a chance de sucesso ao longo do tempo é maior. “Há uma relação direta entre finanças comportamentais e investimento em valor”, diz. Se o investidor conseguir identificar padrões de comportamento humano que permeiam a tomada de decisões, como o excesso de emoção, poderá usá-los a seu favor.

É o que busca fazer a First Value, fundada em 2011 por Earp e outros dois sócios, Marcelo Gerbassi e Philipe Biolchini. Earp conta que um dos filtros mais usados pelos gestores que incorporam as finanças comportamentais nas suas análises é o do “value”. A asset vive buscando empresas sólidas que estejam em liquidação. É como comprar um carro quando ele está saindo de linha. “A utilidade é a mesma, mas o preço é menor”, diz.

No processo de investimento da First Value, o primeiro passo é identificar ações que caíram muito e, depois, entender os motivos que levaram à depreciação. Se as razões não estão ligadas a mudanças nos fundamentos, a empresa passa no filtro inicial. Earp reitera que a gestora só investe em companhias consolidadas, lucrativas, que pagam bons dividendos, mas que, por fatores emocionais, estejam enfrentando o mau humor do mercado. “O grande desafio é não cair nas armadilhas do ‘value’. Às vezes, a empresa está consolidada, tem lucro, mas pode trabalhar com um produto que está ficando obsoleto”, pondera.

A etapa seguinte inclui uma análise qualitativa das companhias selecionadas. E aqui, para estimar o valor da empresa, nada de planilha, a fim de evitar outro viés: o do excesso de autoconfiança. “Não fazemos projeções”, diz. Isso porque, para isso, seria preciso projetar de 30 a 40 variáveis por dez anos. A First Value opta por usar como referência dados atuais. Pode até conversar com executivos das empresas analisadas, mas sempre com um pé atrás, já que as companhias tendem a desenhar um futuro sempre promissor. Earp diz que gosta de falar com o contador das companhias, com concorrentes, a fim de comparar as opiniões.

Dessa fase, saem as cerca de 20 ações que farão parte do portfólio. Mas qual deve ser o peso de cada papel na carteira? Para fugir de outro viés de comportamento – concentrar as apostas em certas empresas ou setores que os gestores julgam melhores -, a First Value conta com um modelo de diversificação. “Concentrar pode ser resultado de excesso de autoconfiança”, afirma.

Respeitar o prazo de investimento é outro elemento importante da filosofia da First Value. Segundo Earp, não faz sentido comprar uma ação acreditando que o preço descolou dos fundamentos e sair da aplicação antes de a tese se materializar. “A percepção do mercado muitas vezes demora a mudar”, argumenta. Hoje, por exemplo, os fundos de ações da First Value têm exposição em setores que estão passando por momentos desafiadores, como o financeiro, elétrico, de construção e siderurgia. Em todos eles, argumenta, há companhias que sofreram exageradamente com um fluxo de informações negativo.

Estudo questiona relação tradicional entre alto risco e retorno mais elevado

31/05/2012 às 00h00
Por Ruth Sullivan | Financial Times
Valor Econômico

São pouquíssimos os desafios ao pensamento estabelecido no mundo das finanças para os investidores, acadêmicos e profissionais. Um desses casos é um estudo recente mostrando que as ações de baixo risco e baixa volatilidade têm desempenho melhor que o dos papéis de alto risco, desafiando a teoria convencional de que risco elevado deveria significar recompensa elevada.

O estudo “Low Risk Stocks Outperform within all Observable Markets of the World”, de Robert Haugen, presidente da Haugen Custom Financial Systems, um centro de estudos da Califórnia (EUA); e Nardin Baker, principal estrategista do fundo Global Alpha, da Guggenheim Partners Asset Management, revela que as ações de baixa volatilidade apresentaram, de maneira consistente, retornos acima da média do mercado em todos os 21 países desenvolvidos estudados entre 1990 e 2011. As mesmas constatações foram feitas em 12 países emergentes em um período mais curto desde 2001.

“O fato de as ações de baixo risco apresentarem retornos esperados maiores é uma anomalia notável. O estudo é contínuo e amplo, contradizendo a essência das finanças”, afirma Haugen.

Entre 1990 e 2011, a décima parte menos volátil das ações de nações desenvolvidas gerou um retorno total anualizado de 8,7%, enquanto as mais voláteis perderam 8,8% ao ano. Ao estreitarmos o foco para as ações americanas, a pesquisa mostra que a décima parte menos volátil apresentou um retorno médio de 12% no mesmo período e as mais voláteis perderam 7%. “Em todos os países do mundo o risco e o retorno estão de cabeça para baixo”, afirma Haugen, um defensor da teoria de que os mercados de ações são ineficientes.

Mas nem todos foram convencidos pelas constatações. Antti Ilmanen, diretor administrativo da AQR Capital Management e autor do livro “Expected Returns”, sugere que um período de testes de 21 anos é relativamente pequeno, apontando para uma série de estudos existentes sobre o assunto que se estendem por períodos de tempo maiores, ponto de vista que é compartilhado por Elroy Dimson, professor de finanças da London Business School.

Dimson observa que “os 21 anos foram um período de desapontamento nos mercados mundiais de ações”, com estas apresentando um desempenho inferior ao dos bônus em 2,4 pontos porcentuais ao ano. Ele cita um estudo mais amplo – “Betting Against Beta” – de Andrea Frazzini e Lasse Hele Pedersen, feito em 2011, que olhou para os mercados de ações, bônus corporativos e soberanos e futuros.

Há também um debate saudável sobre o desempenho das ações de baixo risco. “Acho que não dá para dizer que as ações de baixo risco sempre têm um desempenho superior ao das ações de alto risco. Trata-se de um ponto de vista muito limitado”, diz Fiona Frick, presidente-executiva da Unigestion.

Entretanto, ela diz que “isso acontece em alguns tipos de cenários, como o de mercados voláteis, em que correções ocorrem, mas em fases de alta do mercado as ações de alto risco tendem a ter um desempenho superior [ao das ações de baixo risco]“.

Ela acredita ser importante acrescentar outros fatores à estratégia do baixo risco e baixa volatilidade, como “informações fundamentais sobre a companhia”. Ao construir seus portfólios de ações de variação mínima, a Unigestion prefere olhar para uma mistura maior de companhias diversificadas do que apenas para as ações de baixo risco e baixa volatilidade. “É como escolher tipos diferentes de jogadores em um time de futebol”, afirma Frick.

Ilmanen tem um ponto de vista um pouco diferente sobre o estudo. Ele acredita que as ações de baixo risco têm um desempenho melhor que as ações de alto risco em uma base ajustada ao risco. “Mas se você olhar para os retornos absolutos verá que eles estão nivelados”, afirma. Mesmo assim, ele reconhece o apelo dessa estratégia. “Se você consegue pelo menos os mesmos retornos que os investimentos em ações mas arriscadas, então elas são interessantes.”

“As pessoas são bem recompensadas por assumirem riscos pequenos, como comprar ações defensivas ou prazos de vencimento ampliados no mercado financeiro, mas assumir mais riscos resulta em recompensas menores no longo prazo.”

Então, por que as pessoas se expõem às ações de alto risco e alta volatilidade diante de tal evidência?

Segundo Haugen, “os investidores profissionais foram convencidos a transferir trilhões de dólares em investimentos em ações para índices de ações ponderados pela capitalização de mercado, como o Standard & Poor’s 500″, em grande parte porque foram influenciados por conceitos anteriores de eficiência do mercado, como a hipótese do mercado eficiente.

Ilmanen, da AQR Capital Management, diz que muitos gestores de fundos que tradicionalmente operam apenas com posições compradas, preocupam-se mais com o monitoramento de erros versus o referencial, do que com a volatilidade do portfólio total. “Os investimentos defensivos reduzem a volatilidade do portfólio, mas aumentam o risco do erro de acompanhamento, de modo que muitos gestores dizem ‘não, obrigado’”, afirma.

Isso pode ajudar a explicar por que os investidores não estão acumulando ações de baixo risco embora haja sinais de uma mudança. “Pela primeira vez em minha carreira, estou vendo um interesse significativo nas ações de baixo risco e baixa volatilidade, incluindo dos fundos de pensão”, diz Baker.

Consultores também começam a participar na condução de uma mudança para estratégias de baixo risco, especialmente no Reino Unido, Europa e Ásia, segundo Haugen. Os investidores ainda não estão entrando com tudo, mas o momento é bom para se beneficiar antes que os preços sejam puxados para cima, afirma Baker.

“Para os retornos caírem, terá de haver um ajuste muito grande nos preços, e aí as ações de baixo risco ficarão no mesmo nível das ações de alto risco, mas isso vai levar 10,20 anos”, diz ele.

Ilmanen também identifica uma mudança de estratégia, mas apenas entre uma minoria de investidores. “Alguns investidores estão mudando para a estratégia da baixa volatilidade, mas a maioria ainda gosta de investimentos mais ativos, arriscados e especulativos”, afirma.

Ele acredita que as mesmas ações voltarão a se sair bem, uma vez que os investidores provavelmente “vão se comportar da mesma maneira no futuro. Isso funcionou nos últimos 20 anos e acredito que vai funcionar nas próximas duas décadas.”

Entretanto ela rapidamente aponta que as ações de baixo risco não se saíram bem no rali “junk” de 2009. “Nada funciona o tempo inteiro”, acrescenta.

O fim da era Lula na economia

03/05/2012 às 00h00
Por Tony Volpon
Jornal Valor Econômico

Acabou a mais recente “época de ouro” da economia brasileira? Depois de dez anos de desempenho surpreendente, há hoje muitas dúvidas sobre as perspectivas para os próximos anos. O governo certamente não concordaria com qualquer avaliação mais pessimista, mas o recente frenesi de medidas mostra que os ocupantes de Brasília estão preocupados.

A preocupação com o crescimento não é novidade. Desde agosto do ano passado o Banco Central (BC) tem proporcionado estímulo monetário; e a, na época, muita criticada decisão de iniciar um ciclo de cortes de juros agora parece acertada.

A estratégia adotada naquele momento foi bastante ortodoxa, enfatizando o afrouxamento monetário com política fiscal austera. Mas, recentemente, temos assistido a uma quase avalanche de medidas pontuais, direcionadas aos dois setores que mais preocupam: indústria e o mercado de crédito. O governo parece finalmente entender que o Brasil enfrenta fatores estruturais e domésticos que impedem um crescimento mais vigoroso. Que esses se manifestarão e foram potencializadas durante uma severa crise internacional não deveria ser nenhuma surpresa: deficiências estruturais sempre ficam mais evidentes em momentos de piora conjuntural.

Os problemas da indústria têm sido explicados basicamente pela valorização contínua do real nesses últimos anos, mas essa é uma explicação parcial. Comparando os períodos pré e pós-crise, vemos que antes da crise, e apesar da forte valorização cambial, a indústria estava em franca expansão e investindo pesadamente. Depois da crise a história é outra, com fraco desempenho, baixos investimentos e queda de produtividade. A razão para esse desempenho distinto se encontra não nos movimentos do dólar, mas sim em dois fatores do período pós-crise.

Primeiro, enfrentando um mundo com baixo crescimento, as grandes potências industriais hoje varrem o globo procurando onde vender e acharam um mercado convidativo no Brasil. Isso na verdade não tem nada a ver com o mercado cambial, sendo um ajuste esperado nos competitivos mercados de bens internacionalmente transacionáveis.

O segundo fator que tem debilitado a nossa indústria tem sido o aumento contínuo no custo da mão de obra. De fato percebemos que o aumento do custo unitário de trabalho acelerou no período pós-crise. Forçado a contratar em um mercado de trabalho apertado pela demanda do setor de serviços e políticas salariais expansionistas, a indústria perdeu a corrida entre aumento de custos e produtividade. Mais do que uma “guerra cambial”, o Brasil enfrenta e perde uma “guerra laboral”.

Encarando a fortíssima concorrência de um lado e o aumento da folha de pagamento do outro, a indústria vê suas perspectivas piorarem e, por instinto de sobrevivência, corta custos, incluindo investimentos. Isso coloca a indústria em um círculo vicioso e autodestrutivo dado o impacto que isso tem sobre sua produtividade.

Igualmente preocupante é a dinâmica no mercado de crédito. Aqui o problema é claro: o ainda altíssimo custo na ponta do tomador. Depois de cair por muito tempo, o custo do crédito ao consumidor tem ficado relativamente estável desde 2009. É verdade que o sistema enfrenta o aumento da inadimplência nesse momento. Apesar das condições favoráveis do mercado de trabalho, o consumidor chegou ao limite prudente de endividamento. Empurrar mais crédito goela abaixo da pessoa física não vai resolver nada.

A questão da indústria e do mercado de crédito mostra que o que podemos chamar de “modelo Lula” de crescimento chegou a sua exaustão. Esse modelo procurou acelerar e multiplicar os ganhos de riqueza que começaram dez anos atrás com a forte alta de preço das nossas exportações devido ao crescimento espetacular da China. Os mecanismos foram privilegiar ganhos salariais e o aumento do crédito, assim expandindo a renda e o consumo. Por muitos anos o modelo teve sucesso exemplar, mas fica evidente que nos próximos anos os resultados não serão os mesmos.

Das medidas anunciadas até agora pelo governo algumas, como desoneração da folha, vão na direção certa, e outras, de cunho protecionista, na direção errada. Mas o seu conjunto, e nisso incluímos a queda na taxa de juros e a alta do dólar pela atuação do BC, nos parece insuficiente para mudar a dinâmica estrutural negativa que enfrentamos. Elas podem somente se justificar como uma ponte para mudanças mais profundas, porque o que precisamos é efetivamente um novo modelo.

O que poderia ser um novo modelo? Acreditamos que qualquer novo paradigma de crescimento tem que mudar de forma significativa a relação investimento-consumo-poupança. Basicamente continuamos a investir e poupar pouco e consumir muito, e há sim uma escolha a ser feita nessa relação: nem todo o consumo “puxa” investimento e poupança.

Para tal nossa política econômica tem que caminhar em duas direções novas. Primeiro temos que parar de querer sempre redobrar a aposta que mais consumo resolve tudo. Também temos que parar de confundir crédito com poupança. A falência do modelo atual reside essencialmente na triste verdade que uma ênfase exagerada em aumentar a demanda pode destruir a oferta. Menos consumo e mais produtividade deve ser o novo mantra.

Segundo, temos que identificar novas fontes de poupança doméstica. Está mais do que claro que a estrutura do nosso Estado de bem-estar social milita contra a formação de poupança doméstica. Devemos, politicamente, debater até que ponto vale a pena a troca entre crescimento e segurança social. Mas devemos também perceber que ainda existe dentro da economia um agente que poderia contribuir com mais poupança: o próprio Estado. Diminuído seu consumo e assim liberando recursos para investimentos públicos e privados, o Estado poderia dar forte contribuição para levar a economia a um novo equilíbrio. Tal mudança pode, a nosso ver, ser feita sem comprometer os avanços sociais desses últimos anos. Basta nossos governantes terem vontade e visão política para tal.

Tony Volpon é diretor do Nomura Securities International, Inc.

As ideias estão acima dos interesses

30/04/2012 às 00h00
Por Dani Rodrik
Jornal Valor Econômico

A teoria política mais disseminada é também a mais simples: os mais poderosos conseguem o que querem. A regulamentação financeira é guiada pelos interesses dos bancos; a política de saúde, pelos interesses das seguradoras de saúde; e a política tributária, pelos interesses dos ricos. Os que podem influenciar mais o governo – graças a seu controle sobre os recursos, informações e meios ou à simples ameaça de violência – acabam conseguindo o que querem.

O mesmo vale internacionalmente. A política externa é determinada, comenta-se, em primeiro lugar pelos interesses nacionais – não por afinidades com outros países ou preocupações com a comunidade mundial. Acordos internacionais são impossíveis de obter, a não ser que estejam alinhados com os interesses dos Estados Unidos e, cada vez mais, com o de outras grandes potências ascendentes. Em regimes autoritários, as políticas são a expressão direta dos interesses do governante e de seu círculo de amigos.

É um discurso convincente, com o qual podemos explicar como a política gera resultados perversos tão frequentemente. Seja em democracias, ditaduras ou na arena internacional, esses resultados refletem a capacidade de interesses especiais restritos obterem resultados prejudiciais à maioria.

A explicação, no entanto, está longe de ser completa e muitas vezes induz ao erro. Os interesses não são fixos ou predeterminados. São moldados por ideias – crenças sobre quem somos, o que tentamos alcançar e como o mundo funciona. Nossas percepções de autointeresse são sempre filtradas pela lente das ideias.

Pense em uma firma em dificuldades que tenta melhorar sua posição competitiva. Uma estratégia é demitir funcionários e terceirizar a produção em países mais baratos na Ásia. Uma alternativa é a empresa investir em treinamento e desenvolver uma força de trabalho mais produtiva, com maior lealdade e, portanto, menos custos de rotatividade. Pode concorrer com preço ou com qualidade.

O simples fato de que os donos da firma agem em interesse próprio nos diz pouco sobre qual dessas estratégias será adotada. O que, no fim das contas, determina a escolha da empresa é toda uma série de avaliações subjetivas sobre a probabilidade de diferentes cenários, em conjunto com cálculos sobre seus custos e benefícios.

Da mesma forma, imagine que você é um governante despótico em algum país pobre. Qual a melhor forma de manter seu poder e evitar ameaças domésticas e externas? Desenvolver uma economia forte e orientada às exportações? Ou voltar-se para dentro e recompensar seus amigos militares e outras amizades, à custa de quase todos os demais? Governantes autoritários no leste da Ásia adotaram a primeira estratégia; seus pares no Oriente Médio optaram pela segunda. Eles tinham concepções diferentes sobre quais eram seus interesses.

Ou imagine o papel da China na economia mundial. À medida que o país se torne uma potência mais importante, seus líderes terão de decidir que tipo de sistema internacional desejam. Talvez, optem por desenvolver e fortalecer o atual regime multilateral, que os satisfez adequadamente no passado. Mas, talvez, prefiram relações bilaterais, ad hoc, que lhes permitam extrair mais vantagens em suas transações com cada país, isoladamente. Não podemos prever o formato que a economia mundial assumirá apenas a partir da observação de que a China e seus interesses ficarão maiores.

Poderíamos multiplicar esses exemplos de maneira interminável. Será que a sorte da política doméstica da primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, estará mais bem atendida se forçar a Grécia a engolir as medidas de austeridade, ao custo de outra reestruturação das dívidas mais à frente, ou se der à Grécia a chance de crescer a partir de seu endividamento? Será que os interesses dos Estados Unidos no Banco Mundial estarão mais bem atendidos se o país nomear diretamente um americano ou se cooperar com outros países para selecionar um candidato mais apropriado, seja americano ou não?

O fato de debatermos tais questões emotivamente indica que todos temos concepções variadas sobre quais são os autointeresses. Nossos interesses são de fato reféns de nossas ideias.

De onde, então, vêm as ideias? Políticos, assim como todos nós, são escravos da moda. Suas perspectivas sobre o que é viável e desejável são moldadas pelo “zeitgeist”, pelo espírito da época, as “ideias no ar”. Isso significa que economistas e outros formadores de opinião podem exercer muita influência – para bem ou para mal.

Certa, vez, John Maynard Keynes disse de forma célebre que “mesmo o mais prático dos homens de negócios normalmente é escravo das ideias de algum economista há muito morto”. Provavelmente, ele não foi suficientemente enfático. As ideias que produziram, por exemplo, a liberalização desenfreada e os excessos financeiros das últimas décadas emanaram de economistas que estão (em sua maior parte) muitíssimo vivos.

Depois da crise financeira, ficou na moda entre os economistas condenar o poder dos grandes bancos. Sustentam que o cenário de regulamentação permitiu que esses interesses recolhessem grandes recompensas com enorme custo social, porque os políticos sucumbiram ao bolso dos interesses financeiros. Esse argumento, no entanto, convenientemente negligencia o papel legitimador desempenhado pelos próprios economistas. Foram os economistas e suas ideias que possibilitaram que fosse considerado respeitável, para economistas e autoridades reguladoras, acreditar que o que era bom para Wall Street era bom para a Main Street (a economia da população em geral).

Economistas adoram teorias que colocam interesses especiais organizados como origem de todos os males políticos. No mundo real, eles não podem esquivar-se tão facilmente da responsabilidade pelas más ideias que tão frequentemente disseminaram. A influência traz responsabilidade. (Tradução de Sabino Ahumada).

O ‘jeitinho feminino’ e a estratégia de Warren Buffett

23/08/2011
Por Paulo Henrique Corrêa
Valor Econômico

Recentemente lançado, o título do livro “Warren Buffett Investe Como Uma Garota – E Por Que Você Também Deveria Fazer Isso” parece curiosíssimo. Um dos maiores investidores do universo comparado a uma mulher?

Ao contrário do que o nome sugere, a publicação não questiona a masculinidade de Buffett. LouAnn Lofton, editora do site americano de finanças “The Motley Fool” e autora do livro, defende que o estilo dele de investir na bolsa se aproxima muito do modo acautelado feminino de aplicar seu capital.

O megainvestidor não gosta de se arriscar muito na compra de ações e prefere mantê-las por muito tempo em sua carteira, ao contrário do que muitos fazem, livrando-se com brevidade dos papéis que adquirem, não raramente levados pelo temor de perder dinheiro.

Parece que a escritora americana tem razão. Pelo menos a julgar por pesquisas realizadas em diversas partes do mundo. É o que a natureza feminina tem demonstrado ao longo da história: as mulheres são mais avessas ao risco. As investidoras passam mais tempo que os homens estudando uma empresa antes de comprar uma ação, não tendem a concentrar demais o portfólio e tomam todas as precauções para não cair em nenhuma armadilha, movidas pelo impulso.

Há evidências de que mulheres lucram mais em investimentos em ações porque os homens tendem a confiar mais em seus tacos (“overconfidence”) e, com isso, movimentam mais intensamente suas operações, obtendo piores resultados.

As mulheres e Buffett teriam então algo em comum: são melhores investidores que os homens médios. Tanto isso seria verdade que o mundo dos investimentos possuiria hoje um perfil bem menos masculino que no passado.

Buffett corrobora essa dedução. Lou Ann o indagou, durante um evento, sobre o título provocativo. A resposta? “Eu diria que provavelmente sou culpado”, brincou.

Outro motivo para o perfil feminino pode ser a ponderação que a grande maioria delas faz sobre as dificuldades de repor as perdas e o medo de acabar a vida sem recursos, uma síndrome conhecida especialmente nos Estados Unidos como “O pesadelo da Bag Lady”. Como dizem os psicólogos, o medo pode nos afastar – e proteger – dos perigos.

Talvez seja justamente o temor das mulheres de fazer escolhas erradas na hora de investir seu dinheiro o que as têm levado a aplicar em ações – desde que a iniciativa seja muito bem estudada. No mercado americano, onde há 95 milhões de investidores individuais, metade é de mulheres.

No Brasil, embora a parcela de investidoras na Bovespa seja menor do que a dos homens, os dados confirmam o “boom” feminino no mercado acionário. Segundo dados da BM&FBovespa, de 2002 para maio de 2011, a adesão feminina aumentou de 15 mil para 150.792.

Dos R$ 109,61 bilhões aplicados por pessoas físicas, R$ 22,54 bilhões vêm das aplicações das mulheres, representando 24,83%, contra 75,17% da participação masculina. Em 2002, a participação feminina era de 17,63% e a dos homens, de 82,37%. Embora a parcela de mulheres seja modesta, no mesmo período o aumento delas investindo em bolsa foi de 903%, contra 550% no caso dos homens.

Porém, é entre as mulheres mais maduras que o ingresso na bolsa mais cresce. Na faixa etária entre 56 e 65 anos de idade, 23.287 mulheres investem em ações, já significando uma parcela de 23,45% dos volumes investidos. As mulheres com mais de 66 anos representaram 12,68% do total de contas femininas, mas são as responsáveis pelo maior volume aplicado – R$ 8,76 bilhões, ou 38,86% do total proveniente das mulheres em geral.

Já as mulheres com idade entre 26 e 35 anos são as mais numerosas na bolsa de valores, somando 35.648 contas, mas do total de recursos negociados, somente representam 5,92% do total de mulheres. Na sequência, aparecem aquelas com idade entre 36 e 45 anos, chegando a 32.191, que movimentam 13,7% do total do volume feminino; e aquelas entre 46 e 55 anos – 31.700 -, que representam 18,85% dos negócios operados por mulheres.

Como o perfil do Warren Buffett – comparado ao das mulheres – deu certíssimo, tornando-o milionário, provavelmente veremos nas próximas décadas um fenômeno no mercado financeiro: o do crescimento das mulheres de todas as idades entre os investidores, com seu jeito cuidadoso, sua preferência pelo planejamento e o rigor mais severo na hora de correr riscos.

Paulo Henrique Corrêa é economista e sócio-diretor da Valor Investimentos, do Espírito Santo
E-mail paulo@valorinvestimentos. com.br

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Por que a taxa de juros é tão alta?

Yoshiaki Nakano
14/06/2011 – Jornal valor Econômico

Segundo matéria do jornal “O Estado de S. Paulo” de sexta-feira passada, entre os 40 países mais importantes do mundo, somente dez praticam hoje taxas reais de juros positiva, entre elas o Brasil, o recordista em juros altos. A taxa real de juros no Brasil de 6,8%, seguida do Chile com 1,5%, Austrália com 1,4%, África do Sul e Hungria com 1,2%, México com 1,1%, China e Colômbia com 1% e assim por adiante. Esses países também elevaram a taxa de juros para enfrentar pressões inflacionárias da mesma forma que o Brasil. Por que praticamos, cronicamente, um diferencial tão elevado de taxa de juros?

Os tradicionais culpados são o déficit público e a elevada dívida pública. Mas, neste particular, fizemos importantes avanços: o nosso déficit público, de cerca de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB), é baixo comparativamente à maioria dos países na lista acima e, mesmo em relação à dívida pública bruta, também melhoramos: o prazo médio é ainda hoje de 3,5 anos, mas melhor do que no passado; o risco de financiamento é elevado, mas diminuiu significativamente, sendo de cerca de um quarto a parcela vencendo em 12 meses; o risco de taxa de juros também caiu, a parcela da dívida pública indexada à taxa de juros e à taxa de câmbio, de cerca de 90% da dívida total, em 2002, caiu para 36,7%, em 2010.

Estes e outros avanços, em termos de estabilidade macroeconômica, permitiram uma queda significativa na taxa real de juros nos últimos anos. Entretanto é preciso lembrar que avanços na área fiscal e na estabilidade macroeconômica explicam a queda na curva de juros na sua ponta mais longa, que é comparativamente muito curta no Brasil. Com certeza, novos avanços na área fiscal e o aperfeiçoamento das suas instituições são fundamentais para derrubar a curva de juros na sua ponta mais longa.

Entretanto, a configuração da curva de taxa de juros no Brasil ainda nos coloca duas questões. Primeira, por que com os avanços fiscais e melhoria no perfil da dívida pública não houve avanço correspondente com o desenvolvimento do mercado de títulos de longo prazo no Brasil? O prazo médio do estoque da dívida pública é ainda de apenas 3,5 anos. Se a causa de juros elevado tem origem no setor público, por que o mercado privado de títulos de longo prazo não se desenvolve no Brasil? Segunda, por que o Banco Central, que atua na outra extremidade mais curta da curva de juros, pratica taxas de juros tão elevadas? Afinal, o Banco Central tem o monopólio da emissão de moeda de curso forçado, portanto, é única entidade absolutamente líquida, consequentemente, sem risco. Por que tal entidade tem que pagar taxas de juros tão elevadas no Brasil?

Essas questões nos remetem às regras operacionais do Banco Central, que foram implantadas no período de alta inflação e permanecem intactas, mesmo depois de mais de 15 anos de estabilização da inflação. No período de inflação alta, o risco da variação da taxa de juros é muito elevada, pois a inflação acelerava muito rapidamente, colocando em risco todo o sistema financeiro. Para reduzir esse risco, os ativos financeiros foram indexados à taxa diária de juros, de modo que sua variação mantinha os seus preços constantes.

Além disso, com alta inflação, toda a dívida pública (LFTs) era refinanciada diariamente no overnight, pagando a taxa de juros Selic. Com isso, o Banco Central passou a fixar diariamente a Selic, que permitia ao Tesouro Nacional refinanciar a sua dívida pública. Inacreditavelmente, o Banco Central mantém esse sistema monetário, que era funcional no periodo de hiperinflação, até hoje.

Mas a consequência prática desse sistema é que o Banco Central, pagando ainda hoje a taxa de juros Selic, que corrige os títulos públicos de longo prazo e incorpora prêmios de liquidez e de riscos, nas operações de overnight e compromissadas, aprisionou toda poupança nacional no mercado de moeda de curtíssimo prazo. As consequências dessas regras operacionais são devastadoras.

O sistema bancário, para competir com o Banco Central, tem que pagar aos seus depositantes, taxas de juros mais elevadas que a Selic e, ainda garantir também liquidez, portanto quase tudo está indexado ao CDI. Da mesma forma, no mercado de capitais, as operações tem, obrigatoriamente, um piso de retorno elevado estabelecido pela Selic, o que dificulta o seu desenvolvimento.

O Tesouro Nacional, por sua vez tem um concorrente que paga a mesma taxa de juros Selic nas operações overnight, que ele paga por seus títulos, mas que ainda garante liquidez imediata aos bancos. Diante desse concorrente não conseguirá alongar o prazo da sua dívida pública, mesmo que venha a ter superávits sistematicamente.

Diante desse quadro monetário, o Banco Central aprisiona, na ponta curta da curva de taxa juros, praticamente toda a poupança financeira do país e, portanto, inviabiliza a criação de um mercado de poupança. Nesse mercado é que deveriam ser negociados os títulos de dívida pública de longo prazo. O mercado de títulos privados de longo prazo também não tem como prosperar. Portanto, para reduzir a taxa de juros no Brasil é preciso desmontar esse sistema anacrônico, um verdadeiro entulho herdado do período de hiperinflação, que trava o desenvolvimento do país.

Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas – FGV/EESP, escreve mensalmente às terças-feiras.

O câmbio valorizado veio para ficar

O câmbio valorizado veio para ficar

Pedro C. Ferreira e Renato F. Cardoso

29/03/2011 – Jornal Valor Econômico

As dificuldades enfrentadas pela indústria brasileira diante da valorização do real observada nos últimos anos têm suscitado um acalorado debate sobre as alternativas de política econômica disponíveis para se deter – ou, pelo menos, retardar – a suposta desindustrialização do país. Identificar as causas da valorização da moeda brasileira, bem como avaliar se elas tendem a se dissipar no futuro, constituem o primeiro passo para uma discussão objetiva do problema.

A valorização do real, ao longo dos últimos anos, decorre de três fatores principais. O primeiro consiste no aumento da confiança dos investidores em relação ao país, iniciada em 1994 com o Plano Real e as privatizações, aprofundada em 2000 com a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas consolidada somente após a constatação, em 2003/4, de que a esquerda, uma vez no poder, havia se convertido – ou resignado – ao pragmatismo do século XXI. A menor percepção de risco atraiu capitais até então temerosos diante das incertezas que grassavam na antiga economia brasileira, apreciando o real.

O segundo fator foi a valorização das commodities exportadas pelo país, sobretudo a partir de 2005/6, decorrente das gigantescas importações asiáticas, sobretudo da China.

O terceiro consiste na política monetária expansionista dos países desenvolvidos, implantada a partir da crise de 2008, que aumentou o diferencial entre a taxa de juros brasileira e a internacional, atraindo capitais que valorizam o real. Note-se que a historicamente baixa poupança doméstica brasileira, fator que leva o país ter uma elevada taxa real de juros e consequente moeda valorizada, não pode ser incluída entre as causas da valorização recente, pois a poupança já era baixa antes da valorização observada nos últimos anos.

A maior confiança dos investidores no Brasil veio para ficar. Não sem razão: o eleitor brasileiro já deu todas as demonstrações de que rejeita aventuras. Por exemplo, ignorou a promessa populista de elevação do salário mínimo para R$ 600 do candidato derrotado à presidência. Também o fator China se mostra uma realidade de longo prazo. O espantoso crescimento da China resulta de um aumento acelerado da produtividade média do trabalhador chinês decorrente de dois fenômenos. O primeiro é a contínua migração de trabalhadores da agricultura tradicional de baixa produtividade para a indústria de alta produtividade. A agricultura chinesa ainda ocupa 55% de sua população, número semelhante ao observado no Brasil e Coreia em 1950. No mundo desenvolvido, a agricultura ocupa apenas 5% da população (no Brasil 10%), o que sugere haver ainda muito espaço para esse movimento continuar.

O segundo fenômeno que eleva a produtividade média do trabalhador chinês, tanto na indústria como no setor de serviços, são os ganhos de eficiência decorrente da gradual substituição de empresas estatais pelo setor privado. No Brasil, esses dois fenômenos já ocorreram no passado, mas na China podem ainda ter sobrevida por pelo menos duas décadas.

A alta produtividade da indústria chinesa não apresenta indícios de reversão. Sinal disso é o fato de o retorno do capital permanecer elevado, diante da incorporação de mais mão de obra oriunda da agricultura, bem como da melhoria da mão de obra já incorporada à indústria e aos serviços em decorrência do aumento da escolaridade. Mantidas as regras do jogo em vigor, a China continuará a crescer aceleradamente, sua renda per capita aproximando-se da de países como a Coreia e Taiwan. Seu apetite por commodities aumentará ainda mais, de modo que as exportações brasileiras de bens primários continuarão crescendo, contribuindo para a valorização do real.

Dos três fatores elencados acima, somente o terceiro tende a se dissipar com o passar do tempo, pois as economias centrais – que estão começando a sair da recessão – serão forçadas, futuramente, a retomar o controle monetário a fim de conter pressões inflacionárias. Isso significa que, de agora em diante, o Brasil precisará conviver com uma taxa de câmbio mais valorizada do que no passado, por absoluta falta de alternativa.

Nesse novo ambiente de câmbio valorizado, a proteção à indústria brasileira terá que vir de reformas microeconômicas que abrandem a pesada tributação, simplifiquem a complexidade fiscal, reduzam a burocracia, estimulem a poupança doméstica e a inovação, e dinamizem o mercado de trabalho. O que se precisa são de reformas que aumentem a produtividade do setor sem prejudicar o restante da economia, o que ocorreria com aumento das barreiras comerciais ou (mais) subsídios à indústria.

Buscar corrigir uma situação de longo prazo, permanente, com medidas recomendadas para choques temporários – acumulação de reservas e controle de capitais, por exemplo – é ineficaz e caro. Já tentamos isto no passado e pagamos um preço altíssimo: a tentativa de crescer a qualquer preço após os choques de petróleo dos anos setenta, ignorando uma mudança estrutural, nos levou a vinte anos de estagnação.

Pedro C. Ferreira e Renato F. Cardoso são professores do pós graduação da Escola de Economia (EPGE-FGV)

Escolhas duras ou nenhuma escolha?

Escolhas duras ou nenhuma escolha?

 

Renato Fragelli  

03/12/2010

Jornal Valor Econômico

Todo mundo quer ir ao paraíso, mas ninguém quer morrer. Os brasileiros mais que todos. Após se acostumarem a viver sem inflação, gostariam de financiar o consumo a uma taxa de juros baixa e de proteger a indústria nacional da concorrência internacional por meio de uma taxa de câmbio desvalorizada. Mas não aceitam as reformas estruturais requeridas para se aumentar a poupança doméstica, condição para que a menor taxa de juros e o câmbio desvalorizado não tragam a inflação de volta.

O caminho para se reverter a combinação de juros altos e câmbio valorizado é enfrentar a raiz do problema, o que significa elevar a poupança doméstica. Nesse sentido, algumas medidas impopulares teriam que ser adotadas, a principal delas uma racionalização dos gastos previdenciários. Dada a pirâmide etária do país, a comparação com outros países sugere que cerca de 4% a 5% do Produto Interno Bruto (PIB) poderiam ser transformados em mais poupança doméstica, após a maturação de uma corajosa reforma previdenciária e de pensões. Tecnicamente é possível implantá-las sem afetar a população mais desfavorecida, pois os grandes beneficiários das distorções atuais são trabalhadores de classe média que se aposentam por tempo de contribuição. Já os pobres, por trabalharem longos períodos na economia informal, se aposentam por idade.

Adicionalmente, um criterioso controle de gastos de custeio que fixasse seu aumento abaixo do crescimento do PIB, aliado a correções do salário mínimo restritas à elevação da produtividade média do trabalho, e a racionalização dos subsídios concedidos pelo BNDES, complementariam o conjunto de medidas destinadas a elevar a poupança doméstica. Essas reformas poderiam ser negociadas politicamente, em contrapartida de uma redução programada da carga tributária – sobretudo a incidente sobre a folha salarial. Em conjunto, essas medidas viabilizariam a gradual redução da taxa de juros e a desvalorização cambial, sem pressões inflacionárias.

A relutância brasileira em adotar medidas destinadas a aumentar a poupança doméstica, entretanto, parece indicar a preferência da sociedade por um segundo caminho, menos doloroso a curto prazo: para se assegurar crescimento com juros baixos e sem inflação, o Brasil assumiria a opção pela poupança externa. O país partiria, portanto, para o “modelo australiano”, país que convive há muitos anos com altos déficits em conta corrente.

Mas a opção pelo caminho mais fácil exigiria que não se repetissem erros do passado. Em primeiro lugar, o governo não poderia se endividar em moeda estrangeira, nem dar seguro cambial ao setor privado, diminuindo a vulnerabilidade da economia a choques externos e evitando situações onde empresas assumem riscos cambiais excessivos na suposição de que serão resgatadas pelo contribuinte. A resistência da economia brasileira à crise financeira de 2008, decorrente de elevadas reservas internacionais, indica que o país está em bom caminho em relação ao primeiro ponto. Em contraste, o socorro a empresas que sofreram perdas com a desvalorização daquele ano sugere problemas em relação ao segundo.

A implantação do “modelo australiano” sem criação de fragilidades exigiria a calibração do superávit primário a fim de se manter a (verdadeira) razão dívida líquida/PIB em um nível confortável – por exemplo, 30% do PIB. Neste quesito os sinais recentes são equívocos, pois a obtenção do superávit primário tem dependido crescentemente de manobras contábeis. Nos últimos dois anos, a razão dívida líquida/PIB – em torno de 41% – vem perdendo relevância como indicador de solvência, enquanto a relação dívida bruta/PIB tem crescido devido aos empréstimos do Tesouro ao BNDES.

A opção pelo modelo australiano exigiria, adicionalmente, o desaparelhamento das agências reguladoras. Um país que não poupa, e não aceita a volta da inflação, só poderá financiar seu crescimento se conseguir atrair o capital externo. Para isso, é preciso que o investidor estrangeiro confie na manutenção de regras do jogo estáveis sob supervisão de agências reguladoras, instituições de Estado autônomas em relação ao governo.

Mas o modelo australiano não pode ser apresentado assim, como uma panacéia. Em particular, a absorção de poupança externa requer câmbio valorizado, de modo que esse modelo não soluciona o problema da perda de competitividade da indústria brasileira, apesar de preservar o crescimento agregado. Longos anos de câmbio valorizado tenderiam a provocar gradual desindustrialização nos setores em que a vantagem comparativa do país é baixa, com especialização relativa naqueles onde há grandes vantagens comparativas, como a agroindústria e manufaturados leves.

Resta saber se os brasileiros estão conscientes das consequências da opção por não fazer as reformas necessárias (e duras) para atingir as causas fundamentais dos juros altos e câmbio valorizado. A opção intermediária que atualmente se persegue – nenhuma reforma juros baixos e câmbio desvalorizado – é o paraíso na terra, que infelizmente jamais será alcançado.

Pedro C. Ferreira e Renato Fragelli são professores da escola de pós-graduação em Economia da FGV.